Ascendente
1 Teste de Aptidão
Notas iniciais
Postarei os capítulos todas as Segundas e Sextas aceito críticas e sugestões e espero que gostem da fanfic.
Xoxo Vic Winslet
Acordo com os primeiros raios de sol iluminando o quarto e ofuscando meu rosto. Viro-me para o lado contrário em uma falha tentativa de fugir da claridade.
— Chloe. – Chama uma voz doce. Gemo em resposta. – Chloe, querida. Está na hora.
— Ah não, Marta. – Murmuro. – Minha mãe nem está em casa, não vai saber se eu perder o primeiro período. – Ouvi uma risada contida vindo do outro lado do cômodo. Provavelmente da porta.
— Quando não estou em casa é assim que você tenta negociar?
— Mãe? – Levantei de sobressalto. Quase caindo devido aos cobertores enrolados em meus pés. A encarei. – Esqueceu alguma coisa? – Indaguei observando suas vestes sociais azuis típicas da Erudição.
— Não, mas acho que o fato de ser líder me permite chegar atrasada para te levar para a escola no dia do teste de aptidão. — Explicou sorrindo. – Te espero lá em baixo. – Completou. Pus minhas vestes: Uma saia azul escuro com uma blusa clara e blazer da mesma cor da saia. Além do sapato colegial preto, obrigatório independete da facção. Vivíamos em Chicago, que dividia sua população em cinco facções que representam as qualidades humanas: Os altruístas compunham a Abnegação, os generosos formavam a Amizade, os corajosos pertenciam a Audácia, inteligentes encontravam-se na Erudição e os Honestos se situavam na Franqueza.
Em poucos minutos estava apresentável. Arrumei meus longos cabelos loiros e lisos e deixei-os soltos, peguei meu material escolar (livros e bolsa) e desci a enorme escadaria que levava ao primeiro andar. Assim que me aproximei da mesa, minha mãe levantou. Arrumou a gola de minha camiseta polo e fechou dois botões, deixando apenas um aberto.
— Onde está sua gravata. – Perguntou séria.
— Mãe. Por favor. Praticamente ninguém vai de terninho para o colégio, muito menos de gravata.
— Você não é ninguém. É minha filha e futura líder da Erudição, tem que se vestir de acordo.
— Não estou pedindo para sair para beber e voltar às três da madrugada, só quero usar uma calça e uma camiseta normal. Como qualquer outra pessoa. – Expliquei, ela me lançou um olhar de compreensão, contudo, falou:
— Eu vou pegar a gravata. – Bufei em resposta.
— Marta – Gemi frustrada. Ela era baixinha, ruiva com lindos olhos verdes. Tinha um coração enorme, e após a morte de meu pai, havia ajudado minha mãe durante toda minha vida. Era da Amizade, mas encontrara sua vida junto a Erudição.
— Coloquei a calça social na sua mochila. – Disse, eu sorri dizendo:
— Marta, você é minha heroína.
Instantes depois minha mãe desceu. Sorriu vitoriosa enquanto dava o nó na pequena peça de roupa azul e prateada, combinando com as bordas do blazer. Já sentadas a mesa, ela começou sua habitual sessão de reclamações.
— Que horas foi dormir ontem a noite? – Indagou. Antes que eu pudesse proferir alguma palavra ela completou. – Vi a luz por baixo de sua porta. Devo lembra-la novamente da importância das oito horas de sono diárias?
— Não. – Exclamei entediada.
De fato, havia ficado conversando com Caleb Prior, um colega da turma de matemática que pertencia a Abnegação. Minha mãe jamais aceitaria minha amizade com ele, visto que nossas facções eram inimigas. A Erudição, assim como a Franqueza, acreditava que os líderes da abnegação desviavam comida para consumo próprio ao invés de entrega-la para os sem-facção como era justificado. Eu, particularmente, não acreditava nisso, não conseguia imagina-los como pessoas hipócritas.
— Marta, está dispensada hoje a noite. Eu e Chloe iremos cozinhar. – Disse minha mãe. Estranhei. – Teremos hambúrguer, afinal, amanhã depois da cerimônia de escolha você vai direto para o complexo da Erudição, e ficará meio ano longe de casa. – Completou. Eu sorri. Normalmente não poderia comer algo tão gorduroso, seguia uma rígida dieta saudável.
Saímos, e já no carro, devo ter deixado transparecer meu nervosismo, já que minha mãe começou a falar.
— Relaxe, o teste de aptidão é fácil. Você tem naturalidade erudita, além disso, a cerimônia de amanhã é uma escolha. Vai se sair bem. Eu confio em você.
— Eu sei. – Sussurrei, mesmo que incerta. O carro parou e antes que eu pudesse sair, ela disse.
— Venho te buscar ás 15 horas, depois podemos sair para algum lugar. – Dei adeus ao plano de vestir uma calça. – Boa sorte.
— Obrigada. – Sussurrei saindo do carro. Ao adentrar o colégio, percebi todos os olhares dirigidos mim. Detestava isso.
— Chloe! – Chamou-me Helen com uma animação acima do normal. Ela pertencia a mesma facção que eu e era filha de um dos membros do conselho, usava essa informação para conseguir o que quisesse. Ela jamais olhara para mim até descobrir que eu era filha de Jeanine Matthews
— Bom Dia Helen, como vai? – Perguntei.
— Bem, adorei a gravata. Como você vai amanha para a cerimônia de escolha? Poderíamos ir juntas, né?
— Vou com minha mãe. – Respondi procurando ‘alguém’ no meio da multidão da Abnegação que acabara de chegar.
— Ah, posso ir dormir na sua casa? Aí amanhã vou com vocês.
— Hoje eu e minha mãe vamos passar a noite juntas, por causa da cerimonia de amanhã, ela até dispensou Marta.
— Ah, tá. Francamente, esses caretas não têm vergonha? Olha essas roupas. E o lance de “generosidade incondicional” será que eles são tão trouxas que pensam que alguém ainda acredita nisso? – Perguntou com a voz carregada de nojo. “Careta” era o apelido que as outras facções usavam para denominar os membros da Abnegação, por conta de suas vidas e vestes simples e regradas. Revirei os olhos.
— Eu vou para a sala, tenho matemática agora. Tchau. – Disse já me retirando, não sem antes ouvir “Nos vemos o intervalo?” ignorei.
Adentrei a sala de aula e me sentei em meu espaço da mesa dupla que dividia com Caleb há três anos, por determinação da professora.
— Bom Dia – Exclamou ele sorrindo divertido enquanto encarava minhas roupas.
— Um comentário e eu esqueço que sou civilizada e te atiro janela abaixo. – Comentei divertida. Ele gargalhou, mas logo se conteve.
— Fez o trabalho? – Perguntou retirando seus livros.
— Como se minha mãe fosse deixar que eu não fizesse.
— Ah é, às vezes esqueço que você é filha da “Sabe-Tudo” superior. – Disse. Apelidos como “CDF”, “Sabe-Tudo” ou “Rato de Biblioteca” eram constantemente associados a membros da erudição, entretanto, Caleb não dissera com maldade. Eram piadas internas nossas.
— Nossa “Careta”, como você é desligado. – Brinquei. Continuamos conversando animadamente quando Beatrice Prior, irmã de Caleb nos interrompeu com um pigarreio:
— Podemos conversar? – Questionou. O irmão assentiu. Eles saíram da sala, mas ainda pude ouvir – Sério Caleb, erudita? A filha da Jeanine?
Depois de alguns instantes ele voltou e sentou-se ao meu lado.
— Tá tudo bem? – Perguntei.
— Tá sim e só... besteira.
— Sério Caleb? Deveria pertencer a Franqueza, já que é um péssimo mentiroso.
— É sério, não é nada. – Disse virando-se para guardar algo na mochila, só então percebi que ele segurava um jornal, o qual, arranquei de sua mão.
— Chloe... – Ele me reprimiu. Li a manchete e entendi tudo, era mais uma reportagem contra a Abnegação, desta vez contra Andrew Prior, pai de Caleb. A reportagem não mencionava fontes, mas todos sabiam que as informações saíam da Erudição.
— Caleb...desculpe... eu... – Iniciei constrangida.
— Não é coisa sua. Relaxe.
Após o início da aula não tocamos mais no assunto, estávamos no terceiro período quando uma mulher vestindo roupas azuis sociais adentrou a sala. Normalmente seria a função de alguém da Abnegação, contudo, como o soro do teste de aptidão havia sido produzido pela Erudição, o trabalho ficara por conta deles.
— Bom Dia, me chamo Amanda, sou a líder do departamento química da Erudição. Há cem anos, depois da guerra nossos fundadores criaram o sistema de que acreditavam que iria prevenir futuros conflitos e trazer a paz eterna. Hoje, testes de aptidão baseados em suas personalidades levarão vocês a uma das facções. Mesmo acreditando que aderir ao resultado do teste de aptidão é a forma mais fácil de garantirem o sucesso dentro do sistema de facções, amanhã é direito seu escolher uma das cinco facções, independentemente do resultado do teste. No entanto, uma vez em que a escolha seja feita, nenhuma mudança será permitida. – Exclamou ela. — Agora irei encaminhá-los para as salas de teste. Serão chamados de 10 em 10 e por ordem alfabética decrescente, os resultados são secretos. Chamo aqui: Oliver Underwood, James Tucker, Ana Snaklebolt... – E os nomes foram sendo chamados, a medida que voltavam, minha angústia aumentava. Na terceira chamada ouvi:
Patrícia Purtlin
Caleb Prior
Ana Vitória Naughterash
Chloe Matthews
Sophia Macedo ...
Não ouvi mais o restante, apenas me levantei e segui a fila para as salas em que seriam feitos os testes. Assim que adentrei o cômodo, me pus a observa-lo. Era escuro, a pouca iluminação que vinha da janela era tapada por uma cortina vermelha, uma cadeira semelhante a encontrada em consultórios médicos estava posicionada no meio, ligada a uma pequena tela. Uma mulher jovem de aparência asiática encontrava-se arrumando os aparelhos.
— Prazer, sou Tori. – Disse com um meio sorriso. Observei suas roupas: Pretas principalmente composta de couro, também possuía uma tatuagem, engoli minha curiosidade de perguntar o significado dela.
— Chloe Matthews, não é? – Perguntou sem ao menos consultar a prancheta que descansava sobre uma mesinha ao lado da cadeira. Assenti.
— Sente-se. – Me indicou a cadeira. Ela pôs uma mão em minha clavícula empurrando meu corpo levemente para que eu escorasse minhas costas no encosto da cadeira. Dois pequenos discos adesivos foram presos a cada lado de minhas têmporas.
— Beba. – Disse me entregando um pequeno frasco com um líquido azul.
— O que é isso? – Perguntei desconfiada.
— Beba. – Insistiu.
— Eu não vou beber. O que é isso?
— Foi feito pela Erudição. É apenas um soro de simulação. Então ao menos que sua mãe seja uma assassina que tenha desenvolvido algo para matar todo o público de dezesseis anos de Chicago, incluindo a própria filha, acredito que não seja venenoso – Explicou em um tom de voz informal. – Não sei o motivo de estar fazendo o teste quando seu resultado é claramente óbvio. – Disse mais para si.
Sorri pegando o frasco de sua mão e virando-o em um gole só. O gosto era uma mistura de amargo e ácido. Alguns instantes depois, senti meu corpo relaxar. Minha visão ficou preta, mas logo foi substituída pela imagem da sala de simulação, cercada por diversos espelhos, notei que Tori também não estava lá. Por algum motivo, eu tinha consciência de que aquilo não era real.
— Escolha. – Uma voz ecoou na sala. Vi uma mesa com um queijo e uma faca. – Não hesitei em pegar a faca. Um queijo acabaria e não me adiantaria para tudo. Já a faca seria útil. No instante em que minha mão envolveu o cabo metálico do objeto, o cenário mudou, transformando-se em uma ilha. “Para ficar nesse lugar por tempo indeterminado, escolha: Uma companhia, uma faca, ou água potável?” Observei a minha volta. Não havia nada. Sabia que aquilo era só um teste. Não era real. Forcei-me a pensar no que alguém da Erudição faria, por fim respondi: Água. A imagem novamente se distorceu, me vi parada dentro de um ônibus lotado.
— Você conhece essa pessoa? – Perguntou um senhor de forma ranzinza. Ignorei. – Conhece? – Insistiu. Observei a foto do rapaz, os traços me pareciam familiares, entretanto, neguei.
— Tem certeza – Tornou a perguntar. Eu confirmei. — Estaria salvando minha vida se o conhecesse. – Novamente neguei.
Me vi em uma sala, a minha frente continha três recipientes. O primeiro continha livros, o segundo ouro e o terceiro uma maçã. Prontamente peguei os livros. Me vi diante de um lobo. Ao meu lado havia uma faca e um pedaço de carne. Peguei a adaga, e assim que o fiz o animal começou a rosnar. Quando a empunhei, ele se aproximou. Observei que a cada movimento que eu fazia com a mão que utilizava para segurar o objeto, mais furioso ele parecia ficar. Respirei fundo e tentei me acalmar, pois sabia que eles poderiam farejar “meu medo”. Assim que me abaixei e depositei a faca no chão, vendo que não resolvera, comecei a falar:
— Calma. – Emiti em uma voz serena. – Tá tudo bem. — Sem cortar o contato visual com o animal, me aproximei lentamente. Minhas mãos a frente do corpo. Quando estava a cerca de um metro, o lobo se abaixou e submeteu-se agora em uma forma canina. Sorri enquanto acariciava seus pelos. Uma garota vestida de cinza apareceu, o animal rosnou para ela. – Ei, menos. Calma. – Ordenei com a voz controlada. Ao ver que ele me obedecia, me pus a frente da garota fazendo sinal para que ela recuasse.
Abri meus olhos e me deparei com uma Tori sorrindo.
— Acabou? – Perguntei ainda meio desnorteada. Ela assentiu. Me entregou um copo de água dizendo.
— Beba, é água. Vai ajudar. – Obedeci.
— Qual foi o resultado? – Indaguei realmente curiosa. Ela me entregou um papel. Onde corri meus olhos direto para parte inferior: Erudição.
Saí da sala satisfeita, e acima de tudo sabendo o quão feliz minha mãe ficaria. Encontrei Caleb encostado em uma parede próximo ao corredor que levava a sala de aula. Ele estava pálido.
— Está tudo bem? – Questionei. Ele assentiu.
— Qual foi seu resultado? – Perguntou.
— O previsível. E o seu? – Sei que não deveríamos falar do teste, mas praticamente todos ignoravam a regra. Ao vê-lo ficar tenso, completei. – Quero dizer, não precisa dizer, se não quiser, apenas perguntei porque... – Contudo ele me cortou, entregando-me seu resultado. Assim que desdobrei o papel pude ler: Erudição. Em um gesto impulsivo o abracei, mas quando me dei conta do que estava fazendo me soltei rapidamente. Para a Abnegação, o contato físico não era comum, e por isso tornara-se um gesto desconfortável. – Desculpe. – Pedi. Ele me surpreendeu ao segurar meus braços, em um desajeitado abraço.
— Tudo Bem. Acho que preciso disso. – Após algum tempo nos soltamos.
— Já sabe o que vai fazer? – Questionei. Ele balançou a cabeça negando.
— Meu teste deu Erudição, é uma facção com a qual me identifico, mas após os ataques dos últimos seis meses, seria uma traição. – Explicou. Concordei. — E você?
— Não é como se eu tivesse opção.
— Chloe, você tem que pensar em sua família, mas também deve lembrar de você. – Disse me olhando no fundo dos olhos.
— Digo o mesmo. – Respondi.
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