Asas negras
4 Inexperado
De manhã, depois de engolir mais de dois comprimidos para me acalmar, sai mais uma vez para o trabalho.
Foi quando Aure ligou. Minha mãe, claro.- Alô? — atendi.- Aure? Aure? Porque não me ligou quando chegou?- Ah, desculpe! Eu estava toda preocupada com a reunião que, evidentemente, me atrasei e acabei esquecendo. Mas esta tudo bem e...- Eu fiquei super preocupada! Anne disse que você saiu a toda velocidade com o carro, sabe que não pode! O carro é da sua irmã e se você...- Nunca peguei uma multa, mãe. É difícil os guardas me pegarem ai, pode ter certeza.- Um dia eles podem...- Mas não vão. então, está tudo bem ai? — perguntei atravessando a avenida.- Claro, seu pai está bem melhor.- Ótimo. não seria nada legal se todo o esforço que fiz ai não desse resultado, fora um mês inteiro.- Pois é.- Ah e mãe, por favor, peça para o pai evitar de dirigir o carro. Pelo menos por enquanto. É que... — foi então que de repente alguém trombou em mim e saiu correndo. Eu era expert nesse assunto.Droga! Fui roubada!Sai correndo atrás do ladrão com mamãe gritando no meu ouvido me chamando. Empurrei pessoas, tropecei em degraus e quase esmaguei um cachorrinho. Tadinho, hoje não era o dia dele. O ladrão atravessou a avenida e eu fui atrás, mas o sinal abriu. Um carrão vermelho quase me atropelou, levei uma buzinada. Mas é melhor do que uma perna quebrada. Já basta o meu pai. Ele foi pela W 38th St em direção ao (coincidência talvez?) restaurante. Mas eu estava cansada de correr, salto é a pior coisa. Era alto o bastante para que eu tropeçasse e ralasse o joelho.Perdido.Tudo estava perdido. Lá estava todo meu dinheiro, documento, cartões de crédito, meu pequeno necessary e um anel que Anne tinha dado para mim. Ouro. Droga! Dessa vez aquele cara tinha tido sorte. Infelizmente.- Aure? Aure!- Desligando...Cheguei no shopping ensopada da cabeça aos pés com a chuva que caiu de repente enquanto voltava.Leonard e Vitor me viu primeiro.- Pai do céu! O que aconteceu? — exclamou Vitor.- Advinha.- Roubada?- não, Leonard, eu gosto de ficar molhada. Claro que roubada!- Hi! Ela esta naqueles dias... — cochichou.- Cale a boca Leonard Buton.- Vá se secar já ou será demitida! — gritou Ckipton do seu escritório. Novidade. Era a quinta vez nesse ano que ele me ameaçava. Fevereiro tinha começado muito bem, bem até demais.Sequei meu cabelo e coloquei a farda. não dava para esconder muito que eu estava pior do que um mendigo, mas pelo menos o cabelo não aparecia.Tentei completar meu turno, por mais que eu estivesse agora anônima no mundo (sem documentos), mas Ckipton viu o meu estado que por sinal... deploravel. Ele simplesmente me obrigou ir embora e falou que faltava pouco para me demitir, mesmo sendo protegida do superior dele.O dono do shopping.Ele era meu amigo e sabia que Ckipton era machista. Eu achava que os dois tinha um tipo de richa, mas ele não podia competir com o dono. Era rua na certa. Na verdade, eu só ficara com esse emprego por causa disso. Certamente.Edmundo trocou de turno comigo. Eu ficaria com o da noite.Droga.Todo mundo odeia o da noite, mas fazer o que? Troquei de roupa e fui direto para casa. Quase que arrombei meu cofre de baixo da minha cama e tirei o dinheiro que eu tinha guardado para emergências, essa era uma emergência. Tomei um belo banho e coloquei alguma coisa para ficar em casa, mas daqui a pouco tempo seria hora do almoço. Faltava 15 minutos. Coloquei alguma coisa que me esquentasse e fosse chique — o restaurante era pra lá disso. Soquei o mesmo sobretudo de ontem, um jeans colado (meio friozinho) e bota. Só isso. Eu só ia lá pra comer e voltar para dar um jeito sobre meus documentos. Eu mal sabia cozinhar. Sai correndo até um táxi e parei do lado restaurante.- Quanto o senhor quer para esperar 1h. — eu não pretendia demorar. Hoje realmente não era meu dia, nem ontem tinha sido minha melhor noite. Eu só queria ficar num lugar bem movimentado, mas que ninguém prestasse atenção em mim. Um teatro, ah, era o que eu precisava.As vezes eu ainda sentia aquela mesma sensação de pessoas me olhando — mesmo não tendo ninguém, via algumas vezes vultos na penumbra de alguns becos, mas eu mentia para mim mesma dizendo que era só invenção do meu subconscientes. Tinha que ser. E agora eu tinha medo da noite. Agora eu tinha medo de dormir, mas também medo de ficar acordada e sentir aquela horrível sensação. As vezes, até ver. A noite agora tinha se tornado meu pior pesadelo o qual...... Eu era a participante.- O dobro do valor e... uma cortesia.- É só o que eu posso dar agora. — expliquei. Eu não podia pagar mais, caso ao contrario eu não teria dinheiro para pagar minha refeição. O taxista franziu o cenho de tipo "insuficiente".- 40 minutos.Fazer o que? Eu tinha que aceitar. Mal tinha dinheiro para pagar outro táxi, pois nessa circustância que eu estava agora era só economizar. não duvido nada que mais tarde eu teria que comprar uma marmita pronta ou cachorro-quente para não passar fome. Fiquei enjoada só em pensar no cachorro-quente cheio de mostarda e ketchup vendido na esquina de casa, sei lá como é feito.
O garçom estranhou minha pontualidade no horário, 12h em ponto. Mas me acompanhou até a minha mesa de sempre sem fazer qualquer pergunta. Um ótimo garçom.- então?- O mesmo de ontem, mas capriche na mozzarela.- Para beber nada, não é?- A água é de graça? — perguntei meio sem jeito.Ele assentiu e vôou para a cozinha.então, pensei nas minhas opções. Quer dizer, obrigações.Primeiro: Ir a delegacia e fazer um B.O (boletim de ocorrência). Seria minha garantia caso eu precisasse utilizar o documento antes da chegada da segunda via.Segundo: Comunicar meu banco para bloquearem meus cartões de crédito, especificamente minha conta inteira. Comunicar um alerta de furto e roubo no SPC. Me registrar e etc.E terceiro: não perder a cabeça enquanto esta quase sem dinheiro. Meu fundo de emergências daria conta de quase uma semana ou duas, mas dependeria de quanto eu tivesse estômago para aguentar cachorro-quente e marmitinha até o final do mês que por sorte já estava chegando.Ah, meu salário!- O aluguel... o mecânico... minha irmã... — contei nos dedos quantas pessoas teriam que esperar eu ficar ativa de novo. — Meus pais... Claro.então o garçom chegou e trouxe meu prato. Ah, e a água.- Bem caprichado?- Uhum. — respondi só me concentrando em comer e saborear a única comida decente que eu comeria por dias. estava tudo muito bom. Mas a água nunca esteve tão amarga ao beber, senti aquela sensação de novo. Se isso continuasse... quer dizer, não quero nem ver quando estiver a noite. Sozinha. No shopping. Com um ladrão a solta. Sem documento. Sem dinheiro. Era como se eu não existisse mais!Bati forte meu punho direto na mesa, o copo de água caiu. Mais essa! Massageei minhas têmporas com os dedos médios tentando afastar a dor de cabeça que chegava para me atazanar. Que ótimo.Senti passos até a mim. Será aquela sensação de novo? não.- Irritada? — perguntou uma voz calma e macia.Congelei na hora.- Encontrei um ladrão correndo aqui por perto com uma bolsa e pensei que fosse... hum... de alguém daqui. — o dono, o mesmo cara que me ofereceu o vinho, estendeu minha bolsa. — Auremeron?- Aure, por favor. Ficamos em silencio. Quase me esqueci da bolsa.- Ah, tome. — levantei, peguei-a e verifiquei. Cartões de crédito, dinheiro, documento, minha maquiagem... tudo estava ali. Puxa! Que sorte.- Obrigada. Obrigada por se... encomodar.- Ah não! não foi um encomodo. É uma obrigação de cada um dos habitantes, não é?- Claro, claro. Puxa! Obrigada mesmo! Eu já estava ficando tão desesperada e quase pensei que ia ficar paranóica com tanta coisa que eu teria que fazer. — disse ofegando.- Suponho que não está pensando mais em cachorro-quente.- Como? — fiquei desconfiada, mas não era meio evidente? — Ah! Claro. Ninguém merece.- Que tal comer bem agora?Eu sorri.não era algo que alguém me perguntava todo dia. Pedi um vinho, mais alguma coisa e curti a companhia dele. Nos divertimos enquanto falávamos da minha paranóia que comecei a ter sobre ladrões — mesmo sendo segurança -, mas mesmo assim percebi um pouco de resistência ao falar de sua vida. Rapidamente ele mudava de assunto e tudo ficava tenso, mesmo num silencio s;ubito da sua parte.Kyle Hendrick Genoom.Eu sabia que tinha ouvido falar dele, especificamente do seu sobrenome, em alguma revista, mas não consegui me lembrar. Nem ao menos do que falava a revista.Nos tornamos bons amigos — pelo menos foi o que eu pensei. Mas eu ainda não sabia nada da sua vida — até perguntei mais uma vez, mas ele mesmo pediu para que não perguntasse mais. Soou meio rude, até demais, mas tentei não transparecer minha decepção.
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