Asas negras

10 Capítulo 5 - Obsessiva


capitulo 5 — Obsessiva.

Eu estava frente a frente com o lugar que eu costumava ir e vê-lo. Mas Kyle não estava lá. Lembro-me que ele disse no restaurante que me conhecia por muito tempo, mas não me lembro de ser ninguém. Era como ele estava me tratando agora. Como pode me deixar sozinha naquele park sinistro e com aquela sensação que pareceu depois que foi embora? Kyle não podia ser tao mal. Não parecia. E porque do beijo? Agora meu coração era dele, só dele.

Agora meu amor era apenas ele, eu tinha me apaixonado por ele. Eu o amava agora. Eu tinha me apaixonado por alguém pela primeira vez em anos de solidão. Meu coração voltara a bater e minhas veias esquentar quando eu pensasse em seu nome. Era como se eu nunca tivesse me apaixonado de verdade, era como aquela primeira paixãozinha de escola. Forte, que enfrenta os obstáculos, sem escrúpulos e que lutava pelo coração que a conquistou. Eu estava me sentindo uma menininha, mas ao mesmo tempo uma mulher com o coração partido. Rachado — com milhões de pedaços faltando.

Entrei no restaurante e perguntei ao garçom pelo Kyle.

- Oi lembra de mim?

Então, perguntei.

- Uhum. O chefe foi viajar para a Grécia. Em Thira, Santorini.

- Grécia! Mas como?! Porque...?

- Porque? Quer o telefone dele?

- Claro!

Achei que fosse minha salvação, mas não. Não era mesmo. Deixei mais ou menos 15 ou 20 mensagens na sua caixa postal. Uma delas era tao grande que tive que usar duas ligações. "Kyle, desculpe se forcei a barra. Não me importo que seja um ladrão de shopping... ok, eu me importo. Não posso mentir, mas por favor, pelo amor de Deus, por tudo de mais sagrado, liga! Eu... " é tao grande que ocuparia duas folhas.

Ir para a Grécia? Falta dinheiro.

Eu não podia ir sozinha.

O que eu fazia só num país que mal conheço atrás de uma pessoa que conheço menos ainda?! Eu não queria me tornar obsessiva por um homem! Justamente por Kyle!

Foi então que uma semana depois desisti.

Não havia mais pra que. Kyle não ia atender, não ia ouvir, e não ia voltar. E eu nem sabia porque ele tinha ido embora! Nem se estava com raiva de mim e porque! Vitor também ligou para se desculpar, mas quem queria saber de Vitor aqui?!

~-~-~-~-~-~-- [Oito semanas depois.] [11 de março.] ~-~-~-~-~-~-~-~-~-~-

Entre amigos

Era de manhã, mais uma vez.

Aquela sensação tinha melhorado um pouco. Já fazia 9 dias que elas não vinham, ótimo. Eu já conseguia dormir bem, pelo menos. Nem trabalhar eu trabalhava. Isso tinha melhorado muito meu sistema nervoso. Jordan, meu mecânico, tinha ligado a poucos minutos para avisar que o carro já estava pronto. Eu teria que ir ao Brooklyn na sua oficina improvisada em casa para pegá-lo. Não era muito longe. Era só atravessar a ponte e ir no Montangue St., uns 8 ou 15 minutos — se não tiver transito.

Tipo, impossível.

Estava uma barulheira danada perto de lá. Era de alguma coisa sendo perfurada, coisa caindo e carro ligando. Era lá. Virei a direita e parei na frente da garagem/oficina. Jordan estava em baixo de uma caminhonete verde-escuro sob um pequeno carrinho, mas ele não pareceu perceber eu chegar. Ajeitei meu moletom roxo com bolinhas, estiquei minha saia xadrez e obriguei meu All Star se caminhar até perto da caminhonete e agachei.

- Quem está ai? Ai! — ele bateu tao forte a cabeça ali que doeu até em mim. Ele impulsionou o carrinho para fora da caminhonete e deu de cara comigo.

Cheguei até parar de respirar.

- Jordan... — cantarolei.

- Aure! Você veio mesmo! — disse me abraçando cheio de graxa e músculo. O meu mano, só diferenciado pela cor. Mas nenhum de nós nos importava. Não tínhamos preconceito.

- E por que não viria? — perguntei. - Fiquei sabendo que você estava na maior deprê, beleza?

- Estou me virando. Então, cadê o carro?

- Ah, a belezinha? Ta arrebentando! — disse me puxando para mais fundo da garagem e lá estava. Meu conversível prata e cheio de estilo. Estava brilhando, o capô estava arrumado (eu tinha batido o carro sabe?) e as rodas pareciam novas. Levei a mão à boca.

- Jordan! Você. É. Incrível. — falei, pausadamente. - Só... não sei porque, mas toda vez que olho esse carro imagino você batendo ele no meio da Grand St. — disse rindo. Revirei os olhos.

- Ah, sabe quem veio aqui ver o carro?

- Quem?

- A branquela da Joanne e o Athos.

- Joanne? Athos? Por que?

- Há quanto tempo vocês não se falam mesmo?

- Já uns quatro anos. Meu serviço ocupava todo meu tempo.

- Porque vocês não ficam juntos? Quer dizer, voltam a conversar. Joanne está com saudades.

- E Athos?

- Virou gerente de uma agencia de turismo. Um almofadinha.

- Não fale assim! Athos é legal, você sabe. Alias, ele perguntou por mim? — não que eu me importasse. - Uhum, os dois.

- Onde eles moram agora? — perguntei pensando que uma viagem de amigos seria bem legal. A quanto tempo eu não me divertia mesmo? Algo doeu minha cabeça, a lembrança. Tentei esquecer isso e abaixar o torpor a minha volta.

- Na Monroe St., os dois. Vai aceitar meu conselho?

- É, faz tempo que não viajamos entre amigos. Porque não vem? — não sei porque — eu não queria admitir que estava ficando obcecada por kyle, mas uma lampada pareceu acender sob minha cabeça. A mãe de Athos morava na Grécia. Que ironia! Podíamos visitar ela, não é? Ele olhou sob os ombros e se aproximou como se fosse contar em segredo. - A patroa me mata se eu for. Principalmente se saber que um homem e duas mulheres iriam junto, três brancos.

- Uma pena Jordan. Uma pena.

- Agora corre. Athos sai do trabalho daqui a poucos minutos. Talvez você possa alcançá-lo e causar um ataque cardíaco a tempo. — disse rindo. Não pude me conter, ri também.

- Jordan! — gritou alguém no andar de cima. — Com quem você esta conversando?!

- Melhor eu dar o fora.

- Se não quiser uma cabeça decepada...

Jordan abriu um portão atrás do meu conversível e deu passagem para que eu passasse. Pude ouvir os pneus cantarem quando sai, e a mulher dele entrar pela porta da garagem/oficina. A mulher dele, apesar de grande, era incrivelmente bonita. Uma mistura de Beyonce com Keke Palmer, parecia aquelas mulheres negras de filmes. Incrivelmente lindas.

Eu ri.

Jordan tinha se dado bem.

Eu estava me dirigindo até o trabalho de Athos quando o celular tocou.

- Alô?

- Auremeron! Onde você está?!

- Ckipton?! Como descobriu o meu novo numero?

- Não importa. Volte ao trabalho já!

- Não, não sou sua propriedade. Esqueça. Eu me demito!

- O que?! Por que?

- Na verdade, eu já tinha me demitido faz tempo! O que você achava que minha ausência do trabalho significava?

- Por que? Mereço uma explicação pelo menos.

- Você já sabe o porque. Por tudo que já passei nessa porcaria de trabalho segurança! Eu podia ter morrido daquela vez que fiquei no turno da noite!

- Fique no turno da manhã então.

- Não é só por isso! Quase errei de caminho por causa dele.

- O jeito que você me trata... não quero mais mais ai nenhum segundo. Aliás, vou viajar.

- Para onde?

- Não te devo satisfação. Até nunca! fechei o celular antes que ele pudesse dizer mais alguma coisa. Eu não ia deixar que ele estragasse meu dia com seu machismo, não mais. Eu jamais voltaria olhar para Ckipton, evitaria até não poder mais.

- Cara estupido! — cuspi.

Palavras que eu sempre quis dizer a ele — eu tinha dito agora.

Não exatamente o que passava pela minha cabeça a anos, mas dava conta. Monroe St. era logo a frente. Estava escrito Gréc'Athos Turismo, era lá claro. Reconheci Athos pela gravata ridícula branca com estampa de florzinhas roxas. Ele sempre fora meio... "Colorido", sabe? Não ia ser dificil reconhecê-lo, por mais que tivesse mudado. Qual era a chance de duas meio bichonas no mesmo ambiente empresarial? O que... mais ou menos... 25% ou 15%? Era uma probabilidade bem baixa. Parei o carro no acostamento e gritei seu nome pulando do conversível.

- Athos! — chamei-o com uma estranha surpresa escondido na voz. Surpresa? Ele nem havia mudado tanto.

- Sim? — ele pareceu não me reconhecer.

- Lembra? Aure. Grupo de viajantes da faculdade te lembra alguma coisa? - Aure!

- é.

Ele havia mudado bem. Sua sexualidade estava bem definida, até demais. Principalmente com o cumprimento tipico de mulher, beijinhos na bochecha.

— Ai menina! O que faz aqui?

- Athos? Nossa... você esta....

- Diferente? Bonito? Obrigado.

- Awm... claro. Ham... viu meu conversível? Ótimo, não?

- É, eu fui ver esses dias quando Jordam comentou que você apareceu por lá. Quanto tempo não é?

- Muito. O bastante para juntar o grupo de novo. — botei o plano para funcionar. Athos adorava a mãe — ele tinha de aceitar!

- Sério? Mas você não está ocupada trabalhando? E Joanne também? Não sei se ela aceitaria... afinal, por que isso?

- Eu estava conversando com Jordan e essa ideia surgiu quando percebi quanta saudades eu sentia de vocês.

- Sério?

- Sério.

- Mas para onde iriamos? Quer dizer, eu andei sabendo que você não ganha muito como segurança... não que eu tenha bisbilhotado. — ele tinha sim. - Que tal visitar sua mãe? A dona Ephane vai adorar nos ver juntos de novo, passar uns dias com ela.

- Hum... eu acho que posso ligar para a Joanne. — disse pegando o celular. Esperei até que digitasse o numero dela pulando de alegria em volta dele, acho que isso o constrangeu. Eu só ouvi um "uhum", "claro" ou "é ela mesmo".

Foi uma conversa curta e rápido, até me surpreendi.

Eles não tinham perdido contato ainda — pensei comigo. Demorou um bom tempo até ele desligar. Até deitei no conversível, cansada.

- Hei! Boas noticias! — disse indo até o banco do carro onde eu estava deitada.

- E ai? Ela aceitou?

- É, no começou ela ficou meio confusa e indecisa. Tanto que parou de falar um pouco até raciocinar um pouco, mas aceitou. Para Grécia?

- Onde vamos encontrá-la?

- Se você não perdeu ainda a manha de arrumar malas em meia hora... daqui a pouco no aeroporto maninha.

- O grupo está de volta!!! — gritei!