Asas de Vidro
1 Prólogo
Notas iniciais
Boa leitura ♥
As aulas de dança eram mais do que um mero apoio psicológico para Helena, e sim, sua maior paixão. Como de costume, acabara por chegar bem mais cedo do que previsto, gostava de treinar um pouco antes das aulas começarem.
Colocando sua bolsa de couro em um dos encostos depositados pelo salão, a garota trocava seu par de tênis por delicadas sandálias de saltos não muito maiores que sete centímetros, deixando-os firmes em seus pés. Logo, levantava-se sem pressa e encarava seu reflexo no espelho, pronta para iniciar uma série de alongamentos.
A calça legging de tom escuro lhe proporcionava uma grande liberdade para as pernas, enquanto a regata da mesma cor não prendia-lhe os braços. A única coisa que, de alguma forma, a atrapalhava, era sua franja que teimava em cair aos seus olhos.
Antes que pudesse colocar a música para iniciar seus movimentos, uma pequena coisa voadora chamou sua atenção. Uma borboleta. Uma simples borboleta, cujo as asas deixaram Helena intrigada no mesmo segundo; eram escuras, com apenas um fino risco vermelho, batiam e se movimentavam em círculos, pareciam até mesmo querer chamar atenção da jovem dançarina!
Sem mais, a garota acabava de se aproximar da curiosa figura voadora, observando-a com exagerada atenção, como se fosse um imã. Logo, a borboleta levou seu voo em direção a porta, parando ali, como se esperasse a dançarina, que, sem pestanejar, seguia as asas para onde quer que elas fossem.
Nem reparava que acabara entrando no banheiro feminino, imediatamente não entendendo ao certo o motivo de seguir a criatura.
Logo, Helena balançava a cabeça em negação, indo até a pia e abrindo a torneira, deixando suas mãos por debaixo da água fria e logo passando-a em seu rosto, fechando os olhos por um breve momento.
Ao abrir suas orbes castanhas, arfou. Uma figura, que não era ela, a encarava através do reflexo do espelho. Seu reflexo foi virar-se rapidamente, e, ao ver que não havia nenhum grão de areia atrás de si, sugeriu que era apenas fruto de sua imaginação fértil. Respirou fundo algumas vezes, pensando em como estava distraída naquela noite.
Porém, ao caminhar vagarosamente até a porta, notou que a mesma se encontrava trancada. Imediatamente sentiu o coração acelerar, colocando suas mãos na maçaneta e forçando-a, na esperança de que abrisse de alguma forma.
Virou seu corpo na direção oposta, soltando um grito agudo ao se deparar com uma forma um tanto quanto esquisita.
A mulher era alta, seu corpo esbelto e suas cabeleiras loiras disfarçavam a grande cicatriz que tinha do olho direito até os lábios avermelhados; porém, o que lhe chamava mais atenção eram as inúmeras tatuagens que fechavam seus dois braços e a enorme marca de duas asas de borboleta que ficava logo abaixo do pescoço, asas como as da criatura que lhe atraiu para o banheiro.
— Helena? – A voz da moça soou rouca, pode-se dizer que até mesmo cansada.
A jovem engoliu em seco, cruzando os braços antes de tomar coragem para responder.
— Depende de quem queira. – Disse firme, não deixando transparecer nenhuma gota de nervosismo.
Logo, a criatura pode sorrir e mostrar seus dentes perfeitamente alinhados e pontiagudos. Não demorou para se aproximar da dançarina, que tentava continuar na pose de durona. Afinal de contas, quem era ela? Ou melhor, o que era?
— Eles me pediram você viva. – Deu uma pausa. – Mas garanto que irão ficar felizes com a sua cabeça na mesa de jantar. – Comentou, poucos segundos antes de pular por cima de Helena.
Em um impulso que não sabia que tinha, a garota desviou, caindo no chão e batendo fortemente a cabeça contra o piso de azulejos brancos.
—...Por que eles insistem em fazer isso no banheiro? – Uma nova voz surgiu no ambiente, aguda e adorável, nem parecia transparecer tanta ironia quanto ao tom usado.
Imediatamente, Helena ergue a cabeça, se deparado com outra mulher. Contudo, extremamente diferente da primeira.
Aparentava ser mais velha do que a dançarina, possuía cabelos longos e devidamente cacheados. Sua pele era da cor de chocolate ao leite, e suas feições mostravam que continha grande força. Como a outra, continha a marca de asas logo abaixo do pescoço, porém, azuladas.
Passaram-se alguns segundos de puro silêncio, quando a recém chegada decide enfim, atacar.
Retirou de seu bolso traseiro um pequeno frasco transparente, lembrando algo que se usa em laboratório; dentro do recipiente se encontrava uma mistura verde água, juntamente com pequenas pedrinhas cinzas. Helena ficou atômica, que diabos era aquilo?
A mulher jogava o potinho contra a loira, fazendo com que o mesmo se chocasse com violência e quebrasse em milhões de pedaços. A dançarina observava atentamente a pele da criatura tatuada começar a tomar uma tonalidade acinzentada, fazendo com o que a mesma começasse a tossir e ficasse, literalmente, petrificada.
Feito isso, a outra se aproximava ainda mais daquela monstruosidade, pegando um bisturi de seu cinto e começando a passar por cima do contorno das marcas de asas.
— O que você está fazendo? – Helena perguntou, franzindo o cenho e se levantando. – Quem é você? Quem é ela? – As perguntas vieram todas de uma só vez, estava desconfiada demais para esperar a morena começar as explicações.
— Por enquanto, tudo que deve saber sobre mim é meu nome. – A outra suspirou. – Me chame de Nayla. – Respondeu, terminando o contorno das marcas e vendo claramente as mesmas sumirem e a loira de pedra cair inconsciente sobre o chão. – Agora precisamos sair daqui.
Helena, como sempre desconfiada, rolou os olhos e se encostou na pia. Por mais que estivesse morrendo de medo, não sairia daquele jeito com uma completa estranha. Ainda mais confusa do jeito que estava.
— Não. – Disse, tentando inutilmente não tremer a voz. – Como posso ter certeza de que não é uma...Dessas coisas.
Nayla já estava perdendo a paciência, não queria ter de levar a jovem contra sua vontade.
— Olha, eu passei por maus bocados para te buscar, é melhor que venha comigo. – Respirou fundo. – Sei que está confusa e com medo, mas você PRECISA confiar em mim. Você corre perigo, Terp.
“Terp” Pensou Helena, de algum modo, aquele nome não lhe era estranho.
Começou a andar de um lado para o outro, eram muitas coisas para processar. Não se permitiu fazer um escândalo e nem em desacreditar na moça, afinal, acabara vendo com seus próprios olhos o ocorrido; mas também não se dava ao luxo de confiar na estranha.
Sendo assim, acabou por fechar os olhos e engolir em seco. Já tinha uma ligeira ideia em mente.
— Antes de ir com você para qualquer lugar, nós vamos conversar e você vai esclarecer todas as minhas dúvidas. E não vamos ter essa conversa aqui. – Disse, encarando a que estava em sua frente.
— Escolha um lugar. – Nayla disse, com a voz repleta de tédio.
— Cafeteria. Eu ‘tô’ com fome.
Fale com o autor