Asas de Vidro
8 Oitavo
Notas iniciais
Estava no mercado no centro da cidade quando o vi na sessão de bebidas importadas. Precisava comprar alguns mantimentos e suco para as crianças, por isso pedi para que Isaac e Claire ficassem em casa e cuidasse dos pequenos enquanto eu não voltasse. Isaac até pediu para me acompanhar nas compras, com medo de que Scott aparecesse novamente e fizesse algo comigo, mas eu disse que me viraria sozinha. Já passava da hora de enfrentar aquele fantasma do meu passado.
E Scott estava lá, no mercado, como se tivesse lido meus pensamentos de fazer compras. Ele fingia estar distraído em seu uniforme policial, lendo o rótulo de uma garrafa de vinho, e eu fui até ele batendo os pés. Coloquei minha cesta de compras ainda vazia no chão e o encarei, os braços cruzados em frente ao meu peito.
— Perseguição não é ilegal? — Minhas palavras saíam secas. — O que você quer comigo?
— Ir até o mercado é considerado perseguição? — Ele sorria com escárnio. — Só quero fazer umas compras, Lexi.
Meus olhos se estreitaram e meu rosto começou a arder.
— Nunca mais me chame de Lexi, ou vai se arrepender. — Meu dedo indicador estava fincado em seu peito, minha unha quase rasgando sua camisa azul. — E eu já percebi o que você está fazendo. Sempre está onde eu estou, em qualquer lugar, o tempo todo.
Aquela não era a primeira vez que eu o encontrei “coincidentemente” em algum lugar. Em todos os parques, praças, salas de cinema e restaurantes, ele sempre estava me vigiando e cuidando da minha vida. Já tinha me cansado daquilo.
— Meu papel na sociedade é prezar pela segurança de todos, e é isso que estou fazendo com você. Isaac não pode ser considerado alguém equilibrado, principalmente depois do que fez com meus nariz — Pude perceber uma pequena saliência no osso do nariz, onde Isaac provavelmente o quebrou. —, e eu preciso ter certeza de que você está bem. Afinal, você tem que concordar comigo, ele é um completo estranho.
Mesmo querendo negar, aquilo era verdade. Já estava com Isaac por algum tempo, mas não sabia quase nada sobre ele.
— É até irônico o fato de terem escolhido justo você para ser policial da nossa pequena cidade, não? Depois de seu passado obscuro e de tudo aquilo que fez na minha casa algumas semanas atrás. — O encarei, e sua expressão não mudava. — Era Isaac que estava me protegendo. De você.
Seus olhos castanhos me observavam com atenção, me estudando. Um sorrisinho surgiu no canto de seus lábios, e eu sabia que ele estava tramando algo. Sua mão foi em direção ao meu rosto, segurando meu queixo com seus dedos de uma forma quase suave.
— Vou te provar que ele não é bom o suficiente para você. Que você nunca deveria ter me deixado. — Sua voz baixou o tom. — É uma promessa.
Sorri.
— Morra tentando, Scott. Isso será impossível.
Dei meia volta e peguei minha cesta de compras. Deixei Scott ali, e fui fazer minhas compras. Quando cheguei ao caixa para pagar, ele já tinha desaparecido no mercado.
...
Já em casa, depois que todas as crianças foram embora, eu e Isaac ficamos sozinhos, nos olhando no sofá da sala.
— Você é linda. — ele soltou, me encarando fundo nos olhos.
— Meu cabelo está horrível, minha camiseta está suja de suco, estou com olheiras imensas e engordei dois quilos. Acho que você é cego, Isaac.
Ele se aproximou um pouco mais e segurou minha mão.
— Essas coisas não mudam o que você é, Alexis. Você é maravilhosa, por dentro e por fora. Mesmo com essa mancha na camiseta e essa sujeira no seu rosto.
— Onde? — Coloquei minhas mãos no rosto, tentando limpar o que quer que fosse.
— Aqui.
Ele passou o dedo nos meus lábios, deixando um beijo quente. Eu queria aproveitar aquele momento, como sempre fazíamos, mas as palavras de Scott que eu ouvira mais cedo ainda ecoavam na minha cabeça. Eu não o conhecia.
Parei o beijo, me afastando um pouco de Isaac. Ele estranhou.
— Você está bem? — Isaac parecia um pouco preocupado. — Eu fiz algo errado?
Neguei com a cabeça. Aquilo seria embaraçoso.
— É que... — Eu não sabia por onde começar. — Não me leve a mal com isso, mas... Eu sinto como se eu não te conhecesse por completo. Como se tivesse algo faltando.
Os olhos de Isaac se arregalaram em surpresa.
— Eu já te disse tudo sobre mim. Sou um ex fuzileiro que fugiu da turbulência e veio para Angel Falls com o intuito de descansar. Nesse tempo, conheci minha vizinha, Alexis Woods, a mulher mais irresistivelmente linda que eu já tive o prazer de conviver em toda a minha vida. — Não pude deixar de sorrir com aquelas palavras. — E eu me apaixonei por ela. É o que basta.
Eu o abracei, minha cabeça descansando em seu peito. Seus braços me envolveram, como ele adorava fazer. Me proteger.
— Me desculpe. — Sussurrei, me sentindo envergonhada. — Eu não devia duvidar de você.
Ele me abraçou mais forte, então levantou meu rosto. A ponta de meu nariz tocando a dele, nossas respirações se misturando naquele curto espaço entre nossos lábios.
— Preciso te dizer algo. — Os olhos verdes dele fundos nos meus.
— Diga. — Murmurei, encostando nossos lábios.
— Alexis Woods, eu te amo.
Então Isaac me beijou, como se selasse aquelas palavras, para que ficassem marcadas em mim para sempre.
— Posso te dizer que é recíproco. — Sorri.
Isaac se levantou do sofá, me pegando no colo como uma princesa. Comecei a rir, segurando o pescoço dele com força para não cair no chão. Ele me levou ao andar de cima, para o meu quarto, e me colocou na cama com delicadeza. Ficou em pé na minha frente com o sorriso mais lindo que eu já vi estampado no rosto.
— Eu não consigo parar de olhar para você.
Coloquei as mãos no rosto, ainda rindo. O colchão se moveu um pouco, fazendo meu corpo balançar. Tirei as mãos dos olhos, e Isaac estava em cima de mim. Tirou a franja dos meus olhos e beijou minha testa suavemente. Afundei meus dedos em seus cabelos cor de bronze e o beijei novamente.
— Eu vou te fazer a mulher mais feliz desse mundo. — Ele cortou o beijo. — É uma promessa.
Com aquelas últimas palavras, me lembrei da conversa que eu tive com Scott algumas horas antes daquele momento, e em como ele estava errado. Isaac nunca seria um estranho para mim.
E nós fizemos amor durante toda aquela noite, com apenas o som de nossas vozes e suspiros ocupando toda a minha casa. E repetimos tudo na manhã seguinte, antes que Claire e as crianças chegassem.
E eu não poderia me sentir mais feliz.
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