Asas de Vidro
10 Décimo
Notas iniciais
Quando abri os olhos, tudo que conseguia pensar era na dor que eu estava sentindo. Minha cabeça doía como se estivesse recebendo marteladas, e eu tinha um tubo acoplado no meu braço, que tinha recebido oito pontos. Foi então que eu percebi que estava em um quarto de hospital.
Eu não sabia como tinha ido parar ali, mas sabia que Isaac estava comigo antes de tudo ficar escuro.
Tomei um susto ao ouvir o som da porta abrindo, e uma enfermeira sorridente apareceu na minha frente.
— Que bom que a senhorita acordou! — Ela exclamou, escancarando a porta. — Tem alguém que quer muito te ver.
Abri um sorriso ao pensar em Isaac entrando no quarto, mas ele logo desapareceu quando vi Claire correndo na minha direção. Ela estava chorando.
— Alexis, eu estou tão feliz de saber que você está bem! — Ela me apertava com tanta força que eu mal conseguia respirar. — Você quase me matou de susto!
— Onde está Isaac? — Murmurei, minha voz estava rouca. — Ele está bem?
Eu só conseguia lembrar do som do tiro e do frio que senti.
— O senhor Isaac estava com ferimentos graves, por isso foi levado ao hospital em Delborn. — A enfermeira nos informou. — Nosso hospital é pequeno, não tínhamos a equipe cirúrgica necessária para aquele tipo de procedimento.
— Que tipo de procedimento? — Minha respiração falhou por um momento.
— A bala atravessou o peito dele e perfurou um dos pulmões, senhorita. — Ela respirou fundo. — Se ele não estivesse na sua frente, teria acontecido o mesmo com você. A bala perdeu velocidade e ficou presa na sua costela.
Puxei a camisola do hospital, sem acreditar. Logo abaixo do meu peito tinha um curativo, exatamente como a enfermeira disse. Como Isaac estaria?
— Claire, me leve para Delborn. — Me sentei na cama, tentando tirar aquele tubo do meu braço. — Eu preciso ver Isaac, agora.
— Mas… — Ela segurou minhas mãos, tentando me parar. — Você acabou de levar um tiro. Tem que ficar aqui.
— Eu estou ótima. Isaac precisa mais de ajuda que eu. — Olhei para Claire, e ela continuava chorando. — Por favor, eu só preciso ouvir que ele está bem. Só isso.
Ela concordou, e levou algumas roupas para que eu me trocasse. A viagem de carro levaria uma hora, e eu tive que assinar um termo me responsabilizando por sair do hospital sem autorização médica. Mas eu não precisava daquilo, só de Isaac do meu lado.
No carro, Claire me contou que Scott desapareceu da cidade logo depois do tiro. Ele que chamou a ambulância para nos socorrer, mas quando já estava fora da cidade. Deixou a arma e o distintivo na mesa da casa de Isaac e simplesmente sumiu.
Todo o ódio que eu sentia por ele se multiplicou a ponto de doer no meu peito. Eu queria matá-lo.
(...)
Quando chegamos ao hospital, a primeira coisa que fiz foi perguntar sobre ele no balcão de informações, com Claire atrás de mim. Uma moça mascava chiclete e procurava algo no computador.
— Por favor… — Olhei para seu crachá. O nome dela era Amber. — Eu preciso de informação sobre um paciente. O nome dele é Isaac Davies.
Amber começou a digitar algo no computador, e sua expressão não ficou nada boa. Ela pegou o telefone e começou a cochichar com alguém. Quando desligou, me lançou um sorriso triste.
— O médico que operou o senhor Davies irá aparecer logo. Você e sua amiga podem esperar nas poltronas da sala de espera.
Fizemos o que ela disse. Eu não conseguia distinguir o que estava sentindo, um misto de emoções que não me deixavam respirar. Eu sentia ódio por Scott, eu sentia dor por mim, eu sentia medo por Isaac.
E quando meu peito estava prestes a explodir, o tal médico apareceu. Seu rosto estava impassível.
— Você é namorada do paciente? — Ele olhava diretamente nos meus olhos.
— Sou. — Minha voz saiu trêmula. — Ele está bem?
Tudo o que eu queria ouvir era uma resposta positiva. Só um simples "sim". Mas o médico continuava em silêncio, me estudando com seus olhos.
— A cirurgia de Isaac era um procedimento muito delicado. O projétil perfurou seu pulmão direito e afetou a veia cava superior. — Ele respirou fundo e encarou Claire, que mordia os lábios. — As chances dele eram ínfimas.
— Mas vocês conseguiram, certo? — Eu atropelava as palavras. — Isaac está bem, não é?
Claire segurou minha mão e a apertou com força.
— Sinto muito por ter de dar essa notícia, mas Isaac faleceu, Alexis.
Minha cabeça girava. Eu não sentia mais o chão sob meus pés, e tudo que consegui fazer foi cair do joelhos no chão, aos pés de Claire e do médico. As lágrimas pinicavam atrás dos meus olhos, e se romperam em um soluço surdo.
Minha melhor amiga se ajoelhou ao meu lado, me abraçando também. Ela não chorava.
— Isso não pode ser verdade… — Sussurrei. — Ele não podia ter ido. Isaac disse que iria me proteger.
— Ele está melhor agora, meu amor. — Ela me beijou na bochecha.
— E como eu fico? — Eu mal conseguia falar. Os pensamentos rodavam na minha cabeça, e eu só conseguia lembrar daquele sorriso. E em como eu continuaria sem vê-lo todos os dias.
Claire me sentou na poltrona novamente e me entregou um copo de água. Ela conversava algo com o médico, mas eu não prestava atenção em mais nada.
Claire me levou para casa, e não conversamos no caminho de volta. Eu simplesmente não conseguia dizer algo.
Ela estacionou seu carro na entrada de casa e segurou minha mão novamente. Puxou meu rosto para que eu olhasse para ela.
— Eu posso dormir aqui com você, se quiser. — Ela tentou esboçar um sorriso. — Posso fazer aquela lasanha que você gosta e vemos um filme.
— Obrigada por ser a melhor amiga que eu poderia ter, Claire, mas eu preciso ficar sozinha. — Funguei. — Só por hoje.
Ela assentiu. Saí do carro e entrei em casa, e aqueles cômodos nunca me pareceram tão frios e escuros.
Eu não tinha mais o meu porto seguro.
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