Asas Quebradas
4 Asas Salgadas
Notas iniciais
Quarta-feira é aquele dia da semana tão chato que, quando é notado no calendário, as pessoas não sabem se dizem “nossa, hoje ainda é quarta...” ou “que bom que já é quarta!”. Um dia tão medíocre, no sentido literal da palavra, que chega a ser pior que uma segunda. Começo a pensar nisso tudo porque depois de alguns minutos de pensamento, concluo que estamos no mês mais “quarta-feira” do ano escolar. Praticamente um mês depois da fogueira, é cedo demais para ter testes e provas e tarde demais para se dizer que ainda é início do ano letivo. Mas hoje é uma segunda e mesmo que fosse outro dia, eu poderia dizer que estava me sentindo como uma quarta-feira. Não que houvesse algum motivo em especial que causasse o meu desânimo, mas sempre tem aqueles dias em que a gente, por mais que tenha dormido uma ótima noite de sono, acorda com uma única vontade: ficar rolando pela cama sem ter o que fazer. Evan vai faltar os primeiros tempos de aula porque está levando o irmão para fazer um exame de rotina. Por mais que ele não sente próximo a mim na sala de aula, talvez a ausência dele esteja contribuindo para o dia não melhorar. Até mesmo a risada do Rob soa diferente por ele estar conversando com outra pessoa que não seja seu melhor amigo.
A aula de espanhol não está sendo das mais empolgantes e, enquanto uma música da Nelly Furtado toca pela oitava vez seguida, alguns alunos ainda têm dificuldades para completar as partes da letra que faltavam no papel impresso que a professora distribuiu para todos os alunos no início da aula. Não que essa seja uma tarefa fácil, só consegui entender as últimas palavras depois de cinco replays da música e muito pensamento dedutivo. Espanhol é aquela matéria que não é das mais difíceis, mas eu não tenho tanta habilidade para me garantir sem estudar. Mas como não é tão importante como matemática ou redação, sempre dá para deixar de lado com a justificativa de ter que estudar outra coisa mais urgente. E isso normalmente acaba fazendo de espanhol meu ponto fraco: eu tiro notas baixas nos testes e tenho que correr e me dedicar muito para conseguir com muito esforço recuperar tudo nas provas.
Olho para o relógio que fica acima da porta enquanto murmuro a música conforme ela se inicia novamente. Ainda faltam cinquenta longos minutos para que comece uma aula de outra disciplina, e eu desejo sinceramente que a professora de espanhol tenha preparado alguma outra atividade que não envolva mais replays da mesma canção. Como meu desejo não parece a ponto de se realizar, desvio meu olhar do relógio e fito a professora. Pelas expressões que ela faz, provavelmente deseja o fim da música tanto quanto eu. Na verdade, eu não sei se ela está fazendo caras e bocas pelo tédio ou se é algum tipo de ginástica facial para se manter jovem. Porque ela é esse tipo de pessoa que, mesmo com cinquenta anos, faz de tudo para ter rosto e corpo de vinte, incluindo enfrentar diariamente uma série pesada de exercícios físicos e retocar de tempos em tempos a raiz do cabelo com uma tintura de um tom preto azulado tão estranho que só parece existir naturalmente nas asas das borboletas. Tudo bem que cada um faz o que quer da vida, mas não posso negar que sempre me pego rindo ao imaginar a reação dela se um dia descobrir que, a portas fechadas, algumas pessoas da turma se refere a ela pelo apelido de Vovó Maromba. Aos poucos, o tédio começa a se transformar em cansaço. A música repetida também não está ajudando em nada, até me causa uma leve dor de cabeça. Pego meu casaco de dentro do bolso da mochila e o coloco em cima da mesa, apoiando a cabeça sobre ele. Se eu pretendo cochilar, é melhor parar de olhar para a professora, não por medo de levar bronca, só para evitar sonhar com a cara estranha dela. Fecho os olhos. Provavelmente eu tenho uns cinco minutos de descanso.
***
Sinto o leve calor dos raios de Sol no meu rosto. Normalmente seria uma sensação incômoda, mas o tempo não estava dos melhores e o dia havia amanhecido gelado, então me sentir aquecida é um alívio. Em termos de frio, a sala de aula também não ajuda muito. O dia lá fora pode estar só nublado e ventoso, mas talvez pelo sistema de calefação só dessa sala estar em um interminável reparo, o ambiente sempre parece estar alguns graus abaixo de uma temperatura agradável. Pelo menos uma coisa mudou nessas semanas que se passaram, colocaram o vidro que faltava na primeira janela. Não tem mais a corrente de ar violenta que atingia quem entrasse pela porta ou sentasse nas primeiras carteiras, mas ainda assim a sala está fria. Aliás, eu não me surpreenderia se em um dia de chuva eu entrasse e percebesse que está nevando só aqui dentro. Mas nada disso está de fato atrapalhando meu sono.
― Clair...
Acho que ouvi meu nome. Apuro os ouvidos e espero mais um pouco para ter certeza que não foi só uma impressão. Alguns segundos depois, nada. Que bom que não abri os olhos, por mais que não esteja de fato dormindo, não vale a pena me agitar por isso. Vou levantar a cabeça só quando ouvir a voz da professora.
― Clair Garrison.
Okay. Uma vez pode até ser engano, mas duas vezes já é demais. Fora que o tom de voz dessa vez é bem conhecido, a ponto de eu torcer mentalmente para não ser quem eu estou pensando. Abro os olhos e quase fico cega com a luz. Ouço as vozes sussurrantes de alguns dos meus colegas e quando enfim consigo enxergar, minhas suspeitas se confirmam. A coordenadora está na minha frente e pior, meu estado é de completa bagunça. Não tem um livro sequer sobre a minha mesa e o casaco que estava servindo como meu travesseiro deve ter caído no chão em algum momento, porque tem até marcas de sapatos sobre ele. Antes que ela possa falar qualquer outra coisa me repreendendo, lanço mão da primeira frase que me vem na cabeça.
― Desculpe Senhora Day, é que eu estava passando meio mal. ― Normalmente pessoas indispostas recebem mais piedade do que repreensões, e eu torço para que isso aconteça comigo no momento.
― Ora, se está passando mal vá para a enfermaria, tem mais chances de melhorar lá do que dormindo em sala. Vá logo, diga que eu te mandei, não precisa nem do papel de autorização.
Saio da sala ainda bocejando e com a certeza de que não vou passar na enfermaria, principalmente porque não tenho a tal autorização. Não gosto de dormir durante as aulas, acho meio desrespeitoso com o professor mesmo que não esteja rolando nada de importante. Sei que isso também não é o tipo de atitude que esperam de uma aluna como eu, mas hoje o tédio não permitiu que eu ficasse acordada. Já que estou do lado de fora mesmo, resolvo ir até o banheiro e, só para ganhar mais tempo fora de sala, vou ao banheiro que fica no primeiro pavimento do colégio. No caminho, passo pela secretaria e vejo Evan com seu irmão assinando o livro de ocorrências devido ao atraso, então resolvo mudar meus planos para falar com ele. O irmão de Evan sai primeiro da saleta da atendente, me dá um breve sorriso e sai a passos apressados rumo ao fim do corredor onde fica sua sala.
― Bom dia, cara ― Surpreendo meu amigo com um soquinho no ombro assim que ele passa pelas portas envidraçadas da recepção.
― Hmm, que surpresa encontrar você aqui embaixo. ― Ele sorri enquanto se dirige à escada por onde desci ― Fugindo da aula de espanhol?
― Não faço ideia de que aula tá rolando agora ― rio de leve e me recosto no corrimão da escada ― Cochilei por cinco minutos e acordei perdida no tempo, com a Senhora Day me chamando.
― Tá com cara de quem dormiu mesmo, o óculos deixou uma marca vermelha em você. ― Ele checa a hora no celular que trazia no bolso ― Agora é biologia, bom lembrar. Tem aqueles questionários na biblioteca para tirar xerox.
― É mesmo, vamos lá.
Para quem gosta de livros, a biblioteca do meu colégio é um cenário um tanto entristecedor. Um espaço incrível que é usado basicamente como depósito de livros didáticos antigos que são guardados por sei lá qual motivo. Fora isso, tem algumas enciclopédias que tem cara de ser dos anos noventa, além das pastas dos professores que eventualmente colocam materiais como apostilas extras e exercícios para os alunos tirarem xerox. Sempre sonhei com uma biblioteca de verdade, até porque sempre gostei de ler, mas nunca tive muito dinheiro para gastar com esse tipo de lazer. Hoje em dia, com os arquivos em .pdf que circulam livremente pela internet, já devo ser considerada uma criminosa por causa de todos os downloads ilegais que fiz e faço, mas confesso que pelo menos meu acesso aos livros é muito mais fácil. Ainda assim, enquanto leio, a vista se cansa e bem lá no fundo bate a sensação de que seria muito melhor estar virando páginas de papel em vez de grudar os olhos em uma tela.
Como a biblioteca não é de fato uma biblioteca, não existe aquela regra básica de fazer silêncio para não perturbar quem quer que esteja lá. A própria funcionária que cuida de tudo por lá não é das pessoas mais silenciosas. Quando não está conversando com alguém, está ouvindo o rádio no volume máximo, de uma forma que eu sempre me pergunto se ela sabe da existência de um dispositivo genial chamado fone de ouvido. Um pouco antes de entrar na biblioteca, a voz do apresentador de um programa de rádio chama a atenção de mim e de Evan. Alguma notícia sobre roubos de carros e um acidente na estrada perto da saída da cidade. A voz do rádio se cala assim que a funcionária percebe que passamos pela porta.
― Só coisa ruim, nem dá mais vontade de ficar ouvindo isso. ― Ela pensa alto enquanto tira o rádio da tomada ― Olá queridos, o que desejam?
― Duas cópias do arquivo da pasta da professora Leah, por favor ― Evan pede com um sorriso amigável.
Enquanto ela busca a pasta no grande armário de madeira que fica no fundo da biblioteca, olho mais uma vez para aquele lugar e não escondo um suspiro. As estantes de metal abarrotadas de livros que só são úteis para as traças que devoram suas entranhas velhas. Nunca entendi como um colégio de tanto prestígio pode ter setores tão desleixados.
― Está dando pra sentir sua tristeza daqui. ― O tom da voz de Evan é bem baixo para a funcionária não escutar. Ele já sabe de toda a minha insatisfação com a biblioteca. ― E falando nisso, eu lembrei de uma coisa que vi hoje, está tendo feira do livro naquela galeria do centro.
― Jura? Vamos lá hoje? ― falo sem pensar, como se tivesse todo o restante do dia com tempo livre.
― Olha só, você me convidando a matar aula! Cadê a garota que tinha crises de consciência pesada por não ter feito um dever de casa? Será que ela queimou na fogueira do ano novo?
― Não. ― Abaixo a cabeça, visivelmente derrotada. ― Falei besteira, esquece. É que às vezes eu só queria ter um pouco mais de tempo livre.
― Ou menos peso na consciência. ― Evan fala em um tom mais baixo.
― Ah sim, porque deve ser ótimo dizer “dane-se” para as coisas importantes sem culpa nenhuma e ver meu futuro afundar pouco a pouco. ― Levanto um olhar enviesado para ele juntamente com um sorriso irônico. ― Agora minha tristeza só aumentou e a culpa é sua, você não devia ter me contado sobre a feira.
― Você fala como se faltar a duas aulas fosse te rebaixar de classe. Se eu mal te lembro, você está matando aula agora mesmo. ― Evan pega o questionário da mão da funcionária e rapidamente se dirige à saída ― E se a culpa é minha, melhor eu ficar longe de você.
Evan tem esse hábito que me irrita muito às vezes. Ele foge de discussões, e faz isso com tanto empenho que eu juro que se um dia a namorada chamá-lo pra discutir a relação, vai descobrir que ele começou a correr uma maratona. Eu não falei nada com a intenção de iniciar uma briga ou algo parecido, mas essa fuga só mostra que ele não está afim de discutir nenhum assunto por hoje ou pelo menos discutir comigo. Talvez algumas pessoas encarem isso como um indício de amadurecimento ou autocontrole, mas para mim é só... Um comportamento irritante. Me concentro em checar se a xerox do questionário está com todas as páginas corretas e pago a funcionária, sem perder uma chance de tentar sair por cima da situação.
― Quer saber? ― falo com a certeza de que ela havia acompanhado atentamente nossa conversa ― Se ele não quer me acompanhar, problema dele, não é? Posso ir perfeitamente com as minhas pernas.
― Esse lugar que vocês falaram é naquele bairro perto da ponte, não é? ― Ela se senta novamente na cadeira próxima ao rádio.
― A galeria? Sim, é na rua que dá na ponte sim, porque?
― Ih, menina, então toma cuidado lá. ― Ela aponta o dedo indicador para mim, a unha coberta de esmalte vermelho descascado ― Acabei de ouvir no rádio que sequestraram uma pessoa numa praça ali perto.
― Tudo bem... ― Franzo a sobrancelha com o conselho. É estranho, mas pelo menos ela parece bem-intencionada.― Obrigada por me alertar, não sabia disso.
― Foi hoje cedo, eu acho. Hoje em dia todo lugar está perigoso… ― a fala dela vai diminuindo até parar de vez.
Ouço o rádio ser ligado novamente e saio da biblioteca com um leve sorriso que se desfaz assim que passo pela porta. Quero ir na feira porque essas feiras itinerantes normalmente têm curta duração e nos últimos dias já não tem quase nada que se aproveite lá. Mas para isso eu preciso negligenciar alguma coisa, e eu realmente não posso perder as aulas do período da tarde. Além de aulas normais de química, tenho o programa de monitoria de biologia, que é o que vai me dar carga horária para ter um bom currículo escolar pra faculdade. Basicamente, nessas aulas extras eu e alguns outros alunos que escolheram participar desse programa ajudamos alunos das séries menores que estão com dificuldades.
Subo as escadas a passos lentos, ainda maquinando o que posso fazer. Não vale a pena chegar atrasada na aula de química e ser obrigada a sentar no fundo da sala. Penso em passar na feira depois da última aula da monitoria, mesmo sabendo que para passar na galeria, só basta desviar um pouco do caminho da minha casa. Subitamente, o conselho da funcionária da biblioteca passa pela minha mente como se quisesse me lembrar de que é melhor não passar pelas imediações de onde uma pessoa foi sequestrada quando está próximo do anoitecer. É difícil arranjar algum tempo livre quando a única janela de tempo existente é a hora do almoço. A não ser que eu ignore o almoço. Essa ideia surge assim que meu pé alcança o último degrau que completa minha subida. Abro um sorriso e entro em sala sem me preocupar com a professora que escreve alguma coisa no quadro. Sei que posso fazer isso sem problemas quando é o horário da Leah. Ela é quase uma mãe para a minha turma.
Evan está sentado na carteira atrás de mim, prestando atenção no quadro. Jogo meu questionário recém-impresso na cara dele de uma forma discreta, só para dar um susto.
― Acho que eu já te disse que odeio quando você me deixa falando sozinha ― falo me protegendo do bloco de folhas que Evan me joga de volta ― E se eu não te disse estou te dizendo agora, ouviu?
― Tá bom, agora presta atenção senão vai ficar de mau humor e dizer que a culpa é minha de novo.
― Ela ainda não terminou de desenhar, não tem o que prestar atenção. ― pelos desenhos da professora, parece que a aula vai ser sobre as organelas da célula animal ― Você vai comigo na feira ou não vai?
―Não sei, qual aula você vai matar?
― Nenhuma. Vou no horário do almoço. ― falei minha ideia com um sorriso triunfante no rosto.
― Sério que você está pensando em ficar com fome o resto do dia por causa disso? ― A expressão de incrédulo do Evan chega a ser cômica.
― Nossa, que drama. ― Reviro os olhos ― Dá pra comprar alguma coisa e comer no caminho.
― Ah, Clair, desculpa aí, fica pra outra vez. Bateu uma preguiça aqui que só deve ir embora amanhã.
― Tudo bem então. ― Me viro para frente ― Me deseje bons livros.
***
Por mais que exista aquela teoria de que o tempo parece demorar a passar quando a gente quer muito que uma determinada hora chegue, parece que hoje ela não estava funcionando muito bem. As aulas voaram até a hora do almoço. Enquanto Evan e a maioria dos alunos se dirige ao refeitório, me encaminho para o portão lateral, por onde normalmente entro devido ao meu tipo de transporte: bicicleta. Para aplacar a fome, comprei mais cedo na cantina uma embalagem de salgadinhos, daqueles pacotes gigantes do tamanho de um travesseiro que vem três sabores misturados.
Pouco depois de sair do colégio, sinto a fome apertar e abro o pacote que parece suficiente para alimentar uma família de quatro pessoas, por mais que salgadinhos fritos não sejam uma refeição adequada. Para minha grande surpresa, metade do saco é ar, e dos três sabores, só um é tolerável, mas se a embalagem não me dissesse que era de presunto, eu poderia jurar que era feito de isopor. Os outros ― isopor murcho e isopor fedido, quer dizer, milho e queijo ― são intragáveis, mas servem como uma boa diversão, pois é engraçado vê-los ao vento, levados pela corrente de ar que me atinge enquanto pedalo na ao lado da avenida principal da cidade. Jogo algumas unidades para o alto e não contenho um sorriso quando percebo que os triangulinhos de queijo voadores formam uma cena levemente poética, como as flores de cerejeira em um momento romântico de um desenho japonês.
“Que tipo de romance nasceria a partir de uma atmosfera de salgadinhos voadores?” penso. “Com certeza seria entre duas pessoas apaixonadas por junk food. Ele, um amante de frituras, ela, adoradora de sobremesas. Os dois se conhecem num evento de food trucks.” Deixo minha criatividade voar longe enquanto minhas pernas pedalam em um ritmo mecânico. A quantidade de pensamentos que me ocorrem me dão a sensação de que as coisas que crio na minha mente são parte de um universo paralelo que se alimenta de situações ou pessoas reais. De repente, um tranco na bicicleta e um estalo me desviam do meu mundo imaginário. Em segundos sinto a roda puxar fortemente para o lado e aperto os freios com força numa tentativa desesperada de tentar parar e retomar o equilíbrio, mas não tem mais jeito. Caio com tudo no concreto da calçada.
A dor que atinge minha cabeça só não é maior do que o alívio que sinto quando percebo a posição em que caí, com o corpo sobre a divisória de concreto que começa a calçada. Ainda no chão, percebo que tive sorte. Alguns centímetros para baixo e minhas costelas teriam ido com tudo na divisória, e provavelmente meus ferimentos seriam bem mais graves. Passado o susto inicial da queda, começo a testar minhas articulações para saber se ainda tenho plenas condições de me mexer. Braço esquerdo, ok. Braço direito também parece estar ok, mesmo eu tendo caído sobre ele. Meu ombro dói. Meus óculos ainda estão inteiros, menos mal. Ainda assim, parece que minha cabeça que levou a pior nisso tudo, juro que senti meu cérebro chacoalhar. A queda foi tão repentina que nem tive condições de me proteger melhor. Levo a mão à bochecha e olho para ver se tem algum vestígio de sangue, mas só sinto ardência e tiro areia que colou na minha pele. Me desvencilho de uma alça da mochila para tentar me sentar na calçada e sair debaixo da bicicleta.
Sem a bicicleta sobre a minha perna, consigo me mover melhor. Os dois lados da minha perna direita doem, mas nenhum tipo de dor extrema ou que pareça causada por fratura. Movimento o joelho só para ter certeza de que nada saiu do lugar. Coloco a alça da mochila novamente e levanto com algum custo, os joelhos trêmulos e alguma terra sobre minhas roupas. Reparo que o pacote de salgadinhos voou longe e não me importo em pegá-lo, não é como se eu ainda quisesse comê-los, pois algo dentro da minha boca dói e sinto um gosto salgado que denuncia que eu devo ter me mordido com o impacto. Coloco a bicicleta de pé e tento examiná-la para entender o que aconteceu. Uma das rodas está com um raio quebrado. Suspiro fundo. Acabaram-se os planos de visitar a feira. Estou dolorida demais para continuar a pedalar, e nem sei se a bicicleta está em condições para isso. O jeito é voltar pro colégio andando e encarar toda uma semana de aulas com as pernas doídas e a cara roxa.
Acho que agora entendo um pouco da bronca das pessoas. Retiro tudo o que disse mais cedo sobre as quartas-feiras. Quartas podem ser chatas por natureza, mas existe um fim de semana próximo para compensar. Já segundas, quando são ruins, fazem a gente encarar a dura realidade de que a semana começou mal e que cada dia que está por vir é só uma oportunidade para tudo piorar.
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