Asas Quebradas
7 Asas Ilustradas
Notas iniciais
Os dias da semana normalmente passam de uma forma tão normal que não deixam muitas memórias, mas até agora, a sexta-feira está ótima. Felizmente, meu ataque de pessimismo da segunda não foi presságio de nada pior que estava por vir, e até mesmo os hematomas da minha queda já não estão mais fazendo com que eu me torne o alvo de olhares curiosos e assustados em qualquer lugar que eu vá. Na verdade, nem é necessário algum motivo especial para tornar uma sexta ótima, elas já são ótimas só por existirem e anunciarem dois dias de folga. Além disso, é um dia em que minhas aulas em horário integral são um pouco menos integrais, saio mais cedo porque até mesmo os professores merecem e querem descanso. Mas pelo menos pra mim, sexta ainda não é o dia de descansar, e sim de fazer todas as tarefas de casa que eu devia ter feito nos dias anteriores da semana. Minha mãe não só precisa como merece encontrar tudo arrumado e brilhando.
Um cutucão no meio das costas faz com que eu desvie meus olhos do quadro onde a professora Leah escreve alguma coisa sobre o sistema respiratório. Viro para trás com cara de poucos amigos, ainda que seja só para manter a aparência de que estava prestando atenção na lição. Evan parece não se intimidar com minha aparente irritação.
― Feira do livro, hoje, depois do almoço, topa? ― Ele aponta o dedo na minha direção.
― Ainda tá tendo? ― Pergunto sem demonstrar muito interesse.
― Fica até terça que vem. A Melanie pediu pra eu comprar um livro pra ela, lá deve estar mais barato.
― A essa altura, tudo que era interessante já vendeu. ― Viro para frente. ― Mas te acompanho sim.
― Tenho certeza que ela não quer um livro que parou de ser editado nos anos 50. ― Ele provoca.
― Anos 80. ― Corrijo. Mesmo sem ter certeza se ele ouviu, reviro os olhos e me debruço sobre a mesa.
Evan tocou num ponto que ainda me incomoda. Minha paixão por feiras do livro e sebos é facilmente explicada porque há algum tempo venho procurando um livro meio antigo que não consigo encontrar em lugar nenhum. Não que seja uma edição específica ou uma grande raridade, mas parece que quanto mais o tempo passa, mais difícil é encontrar um exemplar. Escrito por Ray Bradbury nos anos 50, “O Homem ilustrado” já me rendeu o maior calote da minha vida. A única vez que tentei negociar esse livro pela internet, perdi preciosos quarenta dólares. E toda essa busca nem é por vontade de ler pela primeira vez, guardo o .pdf com muito carinho no meu computador. É a mais pura vontade de ter meu livro favorito em versão física. Penso um pouco e acho que realmente posso dizer que esse é meu livro favorito. Ficção científica nunca foi um gênero que me atraiu, mas alguma coisa na história do homem coberto de tatuagens ― “ilustrações, e não tatuagens” ― feitas por uma viajante do futuro simplesmente me fascinou. Com uma caneta, rabisco algumas estrelas na minha própria mão.
A professora termina a explicação que estava dando e pede para que os alunos arrumem suas carteiras em duplas, para a realização de mais um dos famosos questionários de biologia. Prendo a caneta na gola da blusa e junto meu material dentro da mochila. Arrasto minha carteira rumo ao outro lado da sala enquanto observo Rob vir para a frente da sala se sentar na carteira ao lado do Evan. Pode parecer um tanto surpreendente até para mim, mas não estou fazendo dupla com meu melhor amigo, e sim com Sophia. Os poucos dias que se passaram revelaram que ela é bem legal e até temos coisas em comum: Ela é fã de duas das minhas bandas favoritas e compartilhamos uma paixão por reality shows de culinária. Sophia me saúda com um sorriso quando termino de ajeitar minha carteira ao lado da dela. O caderno que ela abre é o mesmo no qual eu fiz o desenho no início da semana, e ao ver as folhas dele passando, reparo que a página desenhada ainda está lá. Acabo sorrindo também, e logo recebo o questionário das mãos da professora.
― Vou escrever logo nossos nomes, tudo bem? ― Tiro a caneta azul da gola da blusa e vejo minha amiga assentir com a cabeça.
Começo a preencher o cabeçalho da folha de respostas com informações básicas como data completa, matéria e nome da professora.
― Qual o seu sobrenome mesmo? ― Pergunto meio sem jeito logo após preencher meu nome completo e apenas o primeiro nome de Sophia.
― Pode deixar só um espaço que eu anoto depois. ― Ela responde prontamente.
***
Pouco antes do último tempo de aulas do dia, uma aluna do penúltimo ano bate na porta da sala procurando por mim. Alice também faz parte do programa de monitoria e é uma das que mais se esforça pra fazer um bom trabalho, talvez por pretender cursar medicina quando terminar o colégio. Ela me entrega um pendrive e explica a situação.
― Queria saber se você pode imprimir esses infográficos pra trazer na monitoria segunda, já que eu não vou poder vir. A Sra. Day pediu eles com antecedência, e…
―Tudo bem, imprimo hoje mesmo. ― Pego o pendrive e dou um sorriso. ― Alguma instrução especial?
― Formato A3, papel couché, se der. As cores ficam mais vivas. Aí você traz a nota que terça eu te pago.
Balanço a cabeça de forma afirmativa e nos despedimos. Entro na sala novamente e me sento na cadeira, admirando o pendrive e me perguntando quando os famigerados cartazes feitos com cartolina e canetinha que acompanhavam as apresentações de trabalhos se tornaram infográficos impressos em papel especial e cores vivas. Pelo menos já sei que vou aproveitar a saída com Evan para imprimir isso de uma vez. Espero que ele pelo menos me ofereça uma carona na bicicleta dele, porque ainda não mandei a minha pro conserto.
***
A feira está exatamente como eu pensei: Estandes mais vazios, mas ainda assim uma boa variedade que garante que os livros pedidos por Melanie sejam encontrados sem esforços. Pego uns dois títulos de suspenses que me parecem interessantes pra baixar depois e me distraio bastante com Evan até vermos tudo o que existe para ser visto por lá. Depois disso, vejo meu amigo ser vencido pela preguiça e voltar para casa. Aposto que se ele tivesse me acompanhado até encontrar um lugar para imprimir o que Alice havia me pedido, o resto da tarde seria bem mais agradável. Independente disso, a pior parte de encontrar uma papelaria ― ou melhor, uma gráfica ― que imprima os tais infográficos no papel certo não é nem a peregrinação pela cidade atrás da tal gráfica. Se eu estava achando a busca ruim, saber o preço do serviço foi uma experiência pior ainda.
Conto notas, moedas, penso até em empenhar meus questionários de biologia, meu celular e alguns documentos caso não consiga juntar a quantia necessária, mas no final, dá tudo certo. Depois de pagar ao atendente e ser informada de que deveria buscar a encomenda logo antes do fechamento da loja, confiro meus dinheiros e percebo que todo meu patrimônio foi reduzido a dez dólares. Ai de mim se tivesse comprado alguma coisa na feira mais cedo, não teria como imprimir nada para levar segunda e prejudicaria uma garota que nem é da minha turma. Ainda assim, minhas economias conseguem cobrir um café em uma cafeteria próxima, parte de uma promoção que une espresso e petit-fours por cinco dólares. Já que esperar é obrigatório, pelo menos não quero esperar com fome.
Depois de alguns minutos de tédio esperando meu pedido, reparo que as estrelas desenhadas a caneta se tornaram nada mais do que um borrão azulado na minha pele. Lembro novamente da história do livro que me motivou a fazê-las. O homem ilustrado vê cada desenho como uma maldição, e não consegue levar uma vida normal após ter sido tatuado pela misteriosa pessoa que conheceu em um circo de variedades. As ilustrações são dinâmicas, possuem vidas e vozes, e contam histórias para quem dedica um pouco do tempo a admirá-las. A ideia de ter desenhos correndo pela pele com certeza foi o que mais agradou e impressionou minha pessoa de alguns anos atrás, que foi quando ouvi falar desse livro pela primeira vez. Recordo que em algum momento o homem diz que sente as imagens se moverem como formigas. E até o único espaço em branco que ele possui nas costas não é motivo de tranquilidade. O vazio revela o futuro de quem estiver olhando para ele. Encolho os ombros em uma leve frustração por não ter o livro comigo. Em momentos como esse reconheço o inestimável valor das versões físicas. Tudo o que eu mais quero é só folhear algumas páginas para matar o tédio.
A visão do protagonista do livro inevitavelmente faz com que eu lembre da minha mãe. Pelo menos pra mim, prever o futuro nunca pareceu uma maldição. Seria maravilhoso poder ajudar pessoas avisando antes que qualquer coisa ruim pudesse acontecer, estudar a matéria necessária para as questões de uma prova antes dela ser aplicada, e até saber os números certos para jogar na loteria e conseguir imprimir alguns infográficos com o prêmio ganho. Fico rindo baixo por causa desse último pensamento, pego uma caneta e rascunho em um guardanapo um quadrado simulando uma tela de televisão. Nela, um repórter genérico e engravatado fica atrás de uma bancada e a tarja de notícias diz: “Exclusivo: ganhador da loteria gasta todo o prêmio em impressões A3”. Meu café chega e começo a mexê-lo porque tenho amor pelos meus lábios e os biscoitinhos não despertam meu interesse tanto quanto deveriam. A fumaça desaparece no ar e tento imaginar nela alguns formatos criados pelo meu tédio e , sem criatividade para pensar em algo interessante, olho para o grande relógio na parede. Vou acabar pegando um ônibus pra voltar, ainda que ele me deixe um pouco longe de casa. Não aguento mais andar a pé.
***
Depois de andar umas duas quadras, coloco as chaves no portão de casa com o pensamento de que preciso urgentemente consertar minha bicicleta. Pedalando, teria economizado tempo, dinheiro e com certeza não estaria acabada. Estou inacreditavelmente cansada, e só de pensar em arrumar a casa, o cansaço só aumenta. Ignoro o chão empoeirado há alguns dias e a gigantesca pilha de louça ― uma caneca, um prato e um potinho ― do meu café da manhã ainda dentro da pia, e me encaminho para o meu quarto, ouvindo as madeiras do chão estalarem levemente quando piso sobre elas. Passando pela sala, reparo que o telefone está com uma luz vermelha piscando. Aperto um botão para ouvir os recados acumulados na secretária eletrônica. Depois de descartar dois anúncios de televendas, ouço um recado importante.
“Oi filha, hoje devo sair daqui depois das nove horas. Não precisa me esperar acordada nem preparar janta, tudo bem? Beijos.”
Largo a mochila no chão e suspiro aliviada. Arrasto-a até o quarto e pego algumas roupas limpas na gaveta do armário. Tudo o que eu preciso no momento é de um banho quente e um pouco de sono. Saber que minha mãe vai chegar um pouco mais tarde me dá a opção de extravasar um pouco do cansaço com um cochilo antes de começar a arrumação da casa. Deixo o celular na mesinha que fica ao lado da cama, só para não esquecer de programar um alarme assim que sair do banho. Dizem que só existem duas coisas infinitas: o universo e a estupidez de certas pessoas. Eu acredito que existe uma terceira, e ela é meu sono. Não posso me dar ao luxo de virar uma bela adormecida enquanto tudo está de pernas pro ar, por isso preciso do alarme.
Pouco mais de uma hora depois, antes do celular despertar do trigésimo modo soneca, me levanto da cama. Saio do quarto ainda sonolenta, mas com os membros bem mais descansados. Ligo a televisão para aliviar a solidão e vou para a cozinha me acertar com a louça. Passa de dez horas, minha mãe já deve estar a caminho. Faço um sanduíche para ela e deixo na geladeira. Pego a vassoura e os produtos para limpar o chão e começo pela cozinha. A televisão continua falando sozinha na sala, e quando vou limpar o outro quarto, o “boa noite” dos dois jornalistas na bancada anuncia que o noticiário das onze horas começou. Vassoura pra tirar a poeira, depois desinfetante e por fim um pano seco para dar brilho. Felizmente o piso não é daquelas madeiras que precisa de ceras frescurentas que demoram horas pra secar. Vou para a sala e começo a varrer, agora prestando mais atenção nas notícias do dia, ainda que nenhum acontecimento de uma cidade pequena como essa ganhe destaque nesse tipo de telejornal.
“Um caso perturbador assusta os moradores da pequena cidade de Woodbridge. Durante a manhã dessa sexta-feira, o corpo de uma mulher foi encontrado numa região de mata fechada próxima ao parque estadual de Leesylvania. A vítima teve o coração removido e as investigações suspeitam de rituais de magia negra. A Divisão de Homicídios já foi chamada e está ajudando na investigação, material está sendo coletado para verificar a possibilidade do corpo ser da jovem Victoria Hall, desaparecida há uma semana. Mais informações com o nosso repórter...”
Não consigo terminar de ouvir a notícia. A pá de lixo cai da minha mão espalhando toda a poeira coletada pelo chão. Sinto minhas pernas fraquejarem e dou dois passos com dificuldade até o sofá para não desabar sobre a sujeira e tento escutar o que o jornalista está falando, mas só consigo ouvir as batidas aceleradas do meu próprio coração. Belisco meu próprio braço para ter certeza de que não é um sonho, limpo meus óculos em uma atitude boba de provar que estou vendo o que realmente estou vendo. Mais uma vez aquela sensação de uma situação familiar, tenho certeza de que estou presenciando algo que já vi, vivi ou ouvi. Aliás, não é só uma sensação, é uma certeza, eu já vi esse caso antes. Me sinto tonta e ao mesmo tempo paralisada, ainda não consigo entender nenhuma palavra dita na reportagem, meus pensamentos parecem estar extremamente rápidos e, ao mesmo tempo, totalmente ineficientes.
“Esse não era o nome de alguém dos seus quadrinhos?” A pergunta que Evan fez no início da semana de alguma forma salta na minha mente e começa a ecoar repetidas vezes.
Ao fundo, escuto barulho de chaves na porta, e pela primeira vez na vida, não me importo com o que minha mãe vai dizer ao ver alguma sujeira pelo chão. A sensação de dèja-vu fica insuportável à medida em que começo a vasculhar minha própria memória, até que me dou conta de uma coisa.
O que estou sentindo não é a certeza de ter visto esse caso em algum lugar.
É a certeza de ter criado esse caso.
Fale com o autor