“O cheiro de sangue, ele me consome, me governa, nunca fora assim. Eu sentia fome, eu matava, mas pra saciar a dor do intestino. Era apenas fome, sem sede, sem ódio, sem remorso de quem morre com os olhos cravados no seu algoz”

Um vulto atravessou a mata sem se importar com o que lhe poderia aparecer mais a frente. Pisava levemente nas folhas que caiam das árvores e anunciavam o início do outono. Fazia pouco barulho, como um animal acostumado a caçar silenciosamente. Sua respiração era baixa e descontinua, abria a boca para conseguir mais ar. Um baque surdo invadiu o local, tinha tropeçado. As mãos ossudas apoiaram-se na terra fofa e molhada, há quanto tempo não as olhava? Estavam sujas e maltratadas, lembrou-se porque nunca as olhará, nunca se preocupara com elas, na verdade o estranho era que finalmente notasse. Segurou-se na árvore ao lado e levantou-se, olhou para os pés e percebeu a mesma secura e a pele suja de lama, porque isso importava tanto agora?

Puxou o sobretudo para a região da virilha, sentia frio, precisava loucamente sair daquele lugar. Voltou a caminhar, não tão rápido como queria, aquela parte da mata estava bastante fechada, havia chovido há pouco e a terra mostrava-se escorregadia, as folhas caídas por cima acentuavam ainda mais este contratempo. O céu continuava cinza, dando uma pausa na avalanche de água que caía, não tardaria a voltar. O garoto de sobretudo sabia disso, sua vivência e seu instinto lhe guiavam, os seus pais lhe ensinaram bem, anos de esforço, carinho e compreensão valeram a pena para aquele filhote, não havia uma parte da mata que não conhecesse, sabia se guiar, sentia o cheiro do menor bicho e ouvia o barulho do galho da árvore mais alta. O instinto lhe caia bem.

As pernas feridas e sujas seguiam pelo caminho que o instinto do garoto guiava, mas em vez de acelerar ao encontro do local pretendido cada vez mais tornava-se difícil levantar o pé para depois pisar firme no chão. Estava inseguro, sabia que nenhum mal lhe causaria, mas fora criado por instinto, este era o seu conhecimento mor, nunca foi de contradizê-lo, mas dessa vez ele sabia que o alarme era falso. Quantas coisas seriam jogadas por terra esta noite? Novas verdades, novas mentiras. O mundo a sua volta estava tornando-se diferente e o maior problema dessas mudanças é que não foi o universo ao seu redor que mudou e sim ele. Mantinha os olhos vidrados nas árvores retilíneas a sua trilha, sentia-se tão vazio, tão doloroso, pensou em se deveria seguir adiante tanto no caminho quanto na vida, não queria ser o mostro que agora era. Lembrou-se dos seus pais, não poderia colocar os esforços dos mesmos em vão apenas por isso. Lutaria com todas as forças para não sucumbir, mas na verdade sentia que não podia morrer agora, algo lhe aguardava, algo que não viria agora, algo que ele mesmo sentia o quão importante era para ele, algo que tornaria sua vida um simples mecanismo para que aquilo acontecesse. Foi quando avistou a pequena cabana na clareira, desejou ter que nunca adrenta-la.

Notas finais
*Obrigado pela Leitura, qualquer erro é só reportar.*