Asas De Sangue

6 Capítulo cinco: Marcando hora


Não foi muito difícil para mim, identificar a casa. Antes de eu ver o papel com o endereço escrito na caligrafia estranha de Walquíria, eu já tinha certeza de que aquela era a casa.

A diferença entre a casa dos Ocinatas, e as casas vizinhas era quase gritante. Ela ocupava um quarteirão inteiro. Tinha um muro que parecia interminável ao longo da rua, e gigantesco, – o que dificultaria muito se alguém tentasse pulá-lo. Só se utilizassem uma escada – coberto por trepadeiras verdes. A casa era vistosa, daquelas que você enxergaria a quilômetros de distância – não era pra menos, afinal. Era alta, porque se encontrava em cima de uma garagem de madeira. As paredes da casa eram todas de vidro, com alguns detalhes de madeira. Conseguíamos ver com clareza a mobília da sala vazia, e de outros aposentos também vazios. Alguns eram cobertos por grossas cortinas bonitas. Deduzi que seriam os quartos.

Tentei me imaginar vivendo numa casa toda de vidro e madeira. Não devia ser muito diferente de estar no Big Brother Brasil.

--- A segurança dessa casa é quase absurda. – Comentou Mabi, fechando a porta do carro com mais força que o necessário. Ela erguia o dedão na direção da cerca elétrica por cima do muro. – Alguém avisa pra esse cara, que aqui não é nenhuma penitenciária de segurança máxima.

Revirei os olhos. Cruzei os braços sobre o peito, recostando-me contra a porta do carro.

Ninguém estava se preocupando com o fato da casa ser maravilhosa, — mesmo parecendo o Big Brother Brasil – nem com o fato de ter dois homens musculosos e mal-encarados em frente ao portão de metal, e muito menos com o fato de a casa parecer estranhamente vazia. Cada uma de nós, tinha em mente as suas preocupações. Por mais chulas que fossem.

Minha mãe se preocupava naquele momento com a minha avó, e Suzana também.Já a minha avó, se preocupava com Suzana sua neta predileta. Ela sorria debilmente, como se tentasse confortar a neta, de que daria tudo certo. Que logo, logo ambas teriam uma companhia a mais no sitio silencioso e quase vazio que as duas moravam a sós. E essa companhia pra minha avó era seu filho João, e pra todos nós era mais um pouco de magoas que ela levaria da viagem.

E Mabi, olhava fixamente para o fim da rua.Sem duvidas, estava preocupada com a minha tia Nívea, que já deveria ter deixado Walquíria em casa e já deveria estar conosco.

Eu? Bem, eu não sabia o que me preocupava. Mas tinha certeza que algo me preocupava, porque havia algo bem errado ali. E dessa vez eu não deixei passar.

--- Esse sei lá o quê Ocinatas, é alguma coisa importante? – Perguntei, direcionando meus olhos para a minha mãe. Tentei reformular a pergunta quando vi que ela não havia entendido. – Você sabe. Todos conhecem ele, então ele deve ser alguém importante não é mesmo?

Ouvi o barulho da porta se batendo novamente atrás de mim, e supus que Mabi havia entrado no carro de novo.

--- Querida, o Senhor Stevão de Ocinatas é um deputado. – Minha mãe caminhou até mim, com um rosto cheio de ternura. – Por que está tão preocupada com isso?

Eu estava tentando não preocupar a minha mãe com as minhas inseguranças, mas agora que eu estava cara a cara com ela, e de frente para a casa de Stevão de Ocinatas, eu resolvi despejar tudo que estava me afligindo. Quando separei os lábios para falar, – em um tom mais baixo para que minha avó não ouvisse, é claro – fui interrompida pelo cantar de pneus do carro azul da minha tia estacionando atrás do carro cinza da minha mãe.

Minha mãe me deixou sozinha imediatamente, como se de repente eu não tivesse mais tanta importância.

Cruzei os braços com raiva, franzindo os lábios.

--- O quê que ta rolando, Lara? – Mabi parou na minha frente com as sobrancelhas unidas e os olhos confusos. Nas mãos um pacote de biscoitos. Como é que essa menina não engordava?

Olhei para a minha prima incrédula. Porque motivos ela havia trocado de roupa?Não havia motivos para tal atitude, já que ela estava divina com aquele vestido curto preto. Mas, Mabi simplesmente devia ter enjoado da roupa em seu corpo e decidira trocar por um vestido cinza. Não que tivesse feio, – eu já havia chegado à conclusão que não existiam roupas que ficassem feias em Mabi – mas porque ela tinha que trocar de roupa? Aquilo foi outro banho de água fria na minha auto-estima.

--- Acontece que eu acho que tem algo bem errado nessa história. – Ignorei a sua roupa, e sussurrei. – Esse cara é deputado, vive numa casa que ocupa um quarteirão inteiro e é aberta ao público, e realmente consegue se meter numa polêmica dessas? Fala sério, Mabi. Se fosse assim, todo mundo teria visto ele fazer esse tal “milagre” que trouxe seu filho de volta.

De repente eu não estava mais com medo. Eu estava com raiva. Raiva pelo que Clayton tinha feito. Por ele ter nos persuadido com essa história, mesmo sabendo sobre a fragilidade da minha avó devido à morte do filho. Porque eu sabia que não aconteceria nada naquela casa. Que os Ocinatas não eram psicopatas nem nada do tipo. Eles não iam nos atacar como a minha mente frágil e débil pensou. A gente estava ali pra bancar idiotas. E sairmos humilhadas e envergonhadas, quando o próprio Ocinatas nos disser que isso é uma mentira, que seu filho nunca esteve morto. Ele é um deputado, é comum eles se meterem em histórias confusas e polêmicas. Intrigas da oposição.

--- Eu também acho na verdade. – Mabi deu de ombros, levando outro biscoito recheado á boca. – Todas nós achamos. Mas estamos aqui, pela vovó. Ela é a única de nós que acredita nisso. Não que ela acredite em Clayton, mas é porque ela realmente quer acreditar que isso pode acontecer. Ela quer acreditar em qualquer coisa que lhe disserem.

Bufei de frustração. Mabi estava certa.

--- E então gente, nós vamos ficar por aqui mesmo ou vamos cumprir nosso objetivo? – Perguntou Mabi, se virando para minha mãe e minha tia Nívea, que conversavam em particular um pouco mais longe de onde nos encontrávamos. – Porque se for pra ficar aqui, eu vou ver se trouxe algumas cartas para que eu e Lara possamos matar o tempo.

Revirei os olhos. Suzana lançou um olhar de alerta na nossa direção, nos avisando para que ficássemos caladas. Encolhi os ombros. O que havia de errado com Suzana hoje?

Claro que eu não poderia a culpar. Todas estavam angustiadas, hesitantes, preocupadas e infelizmente, com razões para estarem assim. E eu não deveria estar ajudando muito. Porque ao invés de estar ali para ajudá-la, ampará-la e reconfortá-la, eu estava ali para ver outro garoto. E estava me aproveitando da sua dor, — a dor de se lembrar da morte do pai com tanta freqüência, e a dor da preocupação com a avó idosa e cardíaca – para conseguir chegar ao meu objetivo.

Me senti egoísta e fútil. Uma formiga se tornou maior do que eu, em questão de segundos.

--- Vamos? – Minha mãe olhou tristemente para dona Solange. Ao olhar para os olhos verdes da pobre senhora cheios de esperanças, o rosto da minha mãe se desmontou. Como um vidro sendo estraçalhado em vários pedaços.

Suzana ajudou a minha avó a subir os degraus de mármore que nos levava até os seguranças carrancudos.

Tia Nívea envolveu o braço ao redor do meu pescoço, afagando meus cabelos com o nariz. Éramos quase do mesmo tamanho, o que não era lá de bom grado. Portanto, estiquei o meu pescoço tentando parecer mais alta e mais velha.

Partimos atrás de Elena e Mabi, que estava levando um sermão gentil da minha mãe por ela ter sido tão rudimentar, há segundos atrás.Subimos os degraus lentamente. Imediatamente eu percebi que minha tia também hesitava entrar na casa. O que não era de se espantar.

--- O Senhor Stevão de Ocinatas, está? – A voz doce da minha mãe soou estrangulada, ao se direcionar ao grandalhão de terno e pele cor de chocolate.

O homem se moveu, para o meu espanto. Ele parecia quase uma estátua, imóvel, olhando para o nada, com os braços cruzados sobre o peito que parecia de ferro. Com a mesma expressão: Inexpressivo.

Ele tirou os óculos de sol preto, curvando-se para olhar dentro dos olhos da minha mãe. Estremeci. E ela também. Rapidamente me afastei de tia Nívea e fui me postar á frente da minha mãe, numa posição quase que defensiva. O homem me olhou por um segundo, e eu o olhei de volta tentando esconder todo o medo que eu estava sentindo.

--- Vocês. Tem. Hora. Marcada? – Ele perguntou pausadamente, como se nós fossemos débeis mentais. E era isso que deveríamos estar parecendo mesmo. – Se não tiverem, nada feito. Como presumo que vocês não têm hora marcada, espero que se retirem rapidamente e gentilmente, sem que nós precisemos colocá-las para fora.

O homem voltou a sua posição de estátua, ficando igual ao seu colega de trabalho da pele cor de creme, ao lado.

Minha mãe e tia Nívea se entreolharam, apreensivas. Elas não tinham nada em mente, e muito menos hora marcada. Obviamente, estava nítido que nós não conseguiríamos passar pelos seguranças, e nem tentar conversar com eles. Também não havia o que conversar. O que iriam dizer? Que gostariam de saber se Cadú de Ocinatas tinha realmente revivido? Ou perguntariam se Stevão de Ocinatas era algum santo? Como justificativa lhe diriam que uma velha idosa cardíaca, gostaria de saber.

Os seguranças iriam nos expulsar do portão com pauladas.

A viagem estava perdida. Olhei para Mabi que avançou dois passou á frente. Reformulei o pensamento: “Quase perdida”

--- Olha aqui seu bolo de carne vencido, — Mabi apontou o dedo indicador contra o peito do segurança. Porque será que ela tinha justamente que falar em comida? – Nós dois sabemos muito bem, que nenhuma de nós tem a droga da hora marcada. E eu sei muito bem que vocês só perguntam isso para assustar as pessoas, e mandá-las embora. – Minha mãe puxou o cotovelo de Mabi para que ela se silenciasse. Mas ela apenas puxou o braço de volta, e continuou. – Mas quem lhe disse que nós vamos embora? E você pode usar a grosseria e a ironia com outra pessoa, porque comigo não vai rolar. Nós vamos ficar e ponto final. E se você não mover esse traseiro gordo,e ligar para esse Ocínatas rapidamente, eu vou armar o maior escândalo que essa cidade já presenciou. – Os dois homens riram. Se divertindo com a explosão de Mabi. Se eu fosse eles, eu não teria feito isso. – O que foi? Estão duvidando? Pois bem, sabem quem eu sou? Sou Mabi Martins. Irmã da Walquíria Martins. E pelo que me lembro, minha irmã namorou com o idiota do Jatobá, quase seis meses. Se vocês não nos deixar entrar, — Ela se virou de costas para o segurança, ficando de frente para a rua. E começou a gritar, feito uma histérica. – TODO MUNDO VAI SABER QUE A MINHA IRMÃ FOI ASSEDIADA PELO SENHOR OCÍNATAS, E QUE ELE TENTOU SUBORNÁ-LA PARA QUE TERMINASSE O NAMORO COM O SEU FILHO, E FICASSE COM AQUELE VELHO NOJENTO.

Minha mãe pôs as duas mãos nas têmporas, desesperada. Nós não seríamos mais expulsas com pauladas, seríamos processadas e apanharíamos até a morte.

As pessoas que caminhavam na rua, pararam e começaram a nos fitar com os cenhos franzidos. Mabi sorriu triunfante, e virou-se para o segurança que a olhava boquiaberto

--- E então, vai nos deixar entrar ou prefere que eu continue?- Ironizou, triunfante.

Todos na rua nos encaravam. Se tivesse um buraco no chão, com certeza o meu rosto estaria enfiado nele agora. De repente, quis ser um avestruz.