Asas
1 Capítulo único - Heledur
Notas iniciais
História dedicada à Laís Lacet.
Espero que goste do seu presente ♥
Espero que goste do seu presente ♥
Estou escrevendo estas singelas palavras, porque gostaria de lhes contar uma história de vida sobre dois amantes. Por favor, peço que não desistam de ler agora, pois não irei me demorar muito em minha narrativa, mas é que existem certas histórias que precisam ser contadas, senão o mundo desacreditará na magia, no amor e, principalmente, desacreditará em mim. Não, este não é um conto da carochinha, muito menos algo inventado, eu realmente presenciei isto desde o inicio e fiz o possível para que o seu fim fosse o esperado. Rabisco agora este papel com um grande sorriso no rosto e com a sensação de dever cumprido.
Eu sei, você deve estar pensando que eu devo ser desocupada, ou até mesmo intrometida ou fofoqueira. Quanto ao primeiro não poderia estar mais enganado sobre mim, eu trabalho todos os dias sem descanso! Já em relação ao segundo... Bem, se eu não o fosse como eu poderia trabalhar?E também, não: não sou jornalista, colunista de fofocas ou apresentadora de programas especulativos, se o fosse não perderia meu tempo colocando em livros as palavras em minha mente como venho fazendo desde o início dos tempos... Entendam-me, gosto de reunir os caminhos de todos vocês em um único exemplar e, por se tratar uma tarefa antiga a minha, não vejo porque de escolher outro meio para eternizá-las. Até porque, por mais que eu possa ajudá-los, vocês não me enxergam, para vocês eu sou um mero conceito abstrato e que pode ser encontrado no dicionário, então que outro modo seria este senão pelo legado da escrita?Justamente por não poder ter sua companhia, assim como vocês desfrutam da minha, meu caminho é solitário e meu passatempo é me fixar por um tempo em uma cidade qualquer e observar os milhares de histórias a serem contadas. Vez ou outra, alguma delas chama a minha atenção o suficiente, para que eu dedique boa parte de meu tempo. Esta história é uma delas e aconteceu há muitos anos, nos tempos que o mundo ainda era uma grande porção inexplorada de terra, onde os povos bárbaros habitavam em sua maioria. Não me pergunte exatamente onde este fato se deu, como eu disse já se faz muitos anos e minha memória é falha, são muitos os caminhos dos quais cuidei desde então e, por algum acaso, peguei-me lembrando deste caso em especial uns dias atrás.Recordo-me de ser inverno, uma grossa camada de neve de mais de um metro cobria toda a superfície por várias milhas em qualquer direção que se olhasse. As árvores não passavam de braços marrons secos e retorcidos, cobertos com uma fina camada do que ao longe, poderia se passar por cristal brilhando ao sol ameno. Em uma planície rodeada por montanhas e pinheiros, encontrava-se um pequeno vilarejo formado por casas de madeira, barro e tetos de palha, algumas tendas como as que armazenavam lenha e grãos eram grandes estruturas de madeira e couro de animais. Não viviam mais do que cem pessoas ali.Nos bosques, todos os dias, eu sempre encontrava o mesmo menino trajando espessos casacos de pele e pedaços de couro amarrado aos pés, correndo para lá e para cá com um enorme sorriso no rosto. Sempre percorria o mesmo caminho, longo e sinuoso, até o topo da colina mais alta que era chamada de Heledur. O significado desse nome também me escapou agora, peço desculpas quanto a esses buracos. Caso eu volte a lembrar de acontecimentos ou significados relevantes, eu volto a deixar aqui uma pequena nota.Lá em cima, havia uma grande árvore com mais de trinta metros de altura, um tronco tão grosso que para dar uma volta completa no seu entorno, gastava-se o que hoje equivale a aproximadamente seis minutos de caminhada. As suas folhas formavam uma cúpula que lembrava o formato de um cogumelo, de um verde intenso, dos galhos pendiam grossos cipós que chegavam até um metro e meio do solo. E não importava a época do ano, a árvore sempre se mantinha com a mesma imponência dos milhares de anos que já estava ali.Rezava a lenda de que somente criaturas de coração puro e boas intenções poderiam chegar perto da árvore, por isso o local era considerado sagrado e todos do pequeno vilarejo a cultuavam, pois acreditavam que ela traria proteção contra ameaça ao seu povo.Todos os dias ao pé dessa árvore, ele se encontrava com uma pequena menina de longos cabelos loiros. Brincavam de escalar o tronco, balançar nos cipós e tudo o mais que a imaginação pudesse permitir. Conforme os anos se passaram, tudo mudou exceto a rotina dos dois amigos. A pequena vila havia triplicado em tamanho e habitantes e agora passara a ser explorada por um rei de um povo bárbaro que estava conquistando terras e queria controlar o vilarejo por ser rota do caminho para se chegar ao mar. A árvore cresceu incontáveis metros e ostentava mais folhas e um verde ainda mais bonito, que lembrava aos olhos diversas esmeraldas cintilando. Como era de se esperar, os dois amigos também cresceram. Ele agora ostentava longos cabelos negros que contrastavam com a pele morena e os olhos castanhos de formato amendoados. Era agora o herdeiro de sua tribo, e como era de costume, a cada vitória conquistada o guerreiro ganhava uma tatuagem. Longas padronagens percorriam seus braços, costas e até mesmo a lateral do rosto e a testa. Seu corpo havia se tornado musculoso e robusto. Já ela continuava com os mesmo longos cabelos loiros, mas agora ostentava uma delicada coroa de prata incrustada de pedras preciosas. Quando descia da árvore para visitar seu amigo, costumava vestir simples vestidos de veludo ou seda, apesar de ser costume em seu povo nada vestirem.
— Já disse que não precisa se vestir para vir me ver, Lionor. Sabes que não tenho malícia alguma e muito menos me interesso nas riquezas de teu povo. – ele sussurrou enquanto passava os dedos por uma delicada rede de prata e diamantes que prendia o coque dela naquele dia. — Sem contar que eu sei como é incomodo para você ter que passar suas asas nas fendas dos vestidos. —Timur, em você eu confio e em seu povo também. São com estes forasteiros com quem me preocupo. Eles não estão aqui simplesmente para chegar ao mar. – lamentou-se, uma lágrima escorreu por seu rosto.— Não é necessário toda essa cautela, sou o herdeiro de meu pai. Em breve irei assumir a liderança da tribo e tirarei meu povo dessa inercia. Irei liderar a batalha contra Ilya e retomarei o controle, com eles longe daqui nada poderá chegar até vocês, eu prometo. – Ele beijou-a na testa e se virou para descer a colina.Passaram-se alguns meses desde que ele fez a promessa. Como eu havia me afeiçoado aos dois, não podia deixar que Timur partisse deste mundo tão cedo. Apesar de não ter previsto que Ilya o atacaria a meio caminho da árvore sagrada e ao escutar os gritos de agonia, Lionor viesse ao seu encontro, sofrendo também um duro golpe: a perda de suas asas.Timur jurou somou a seu antigo juramento, vingar-se pela morte de inocentes de sua tribo e recuperar as asas de sua amada. Então eu o acompanhei em batalha e o protegi inúmeras vezes. Perdi a conta de quantas almas negociei com minha irmã para que a dele não fosse levada. Mas pelo menos no fim tudo que ele sofrera foram alguns cortes profundos.Você deve está se perguntando quem é minha irmã, afinal eu ainda não havia falado nela. Costumo não estar por perto quando ela se faz presente, sua presença é um tanto quanto incomoda então, às vezes, eu cometo o equivoco de não apresenta-la devidamente. Minha irmã é o meu completo oposto e é rodeada de tristeza e pesar. Seu trabalho é mais repulsivo que o meu, pois o fardo dele não é leve. Por um ponto final no caminho de alguém é o seu dever. E é isso que a torna mais famosa, pois ela é mais temida. Mas o que nos interessa não é esta história. Pois bem, enquanto Timur viajava longas distâncias com os seus guerreiros, em sua tribo a situação ficava a cada mais difícil: os grãos ficaram escassos e a água do rio estava secando. Tudo isso se devia à morte da árvore sagrada, que definhava junto com a sua protetora, Lionor. Sem a energia da árvore, a vida naquele lugar isolado era praticamente insustentável. Todos pregavam pela volta bem sucedida de seus guerreiros.Muitos meses mais tardes, quando não havia mais esperanças e tanto as fadas já se encontravam fracas, quanto os habitantes da tribo em grande parte haviam perecido de fome e sede, Timur retornara vencedor. Ele então subira a colina e mesmo ferido e fraco, tomou todo o cuidado com o conteúdo enrolado em tecidos que carregava árvore acima. Por já ser um velho conhecido, o grande ancião usou as ultimas energias que lhe restavam para projetar seu tronco de modo que tornasse a subida de Timur mais fácil e rápida. Após meio dia de escalada, ele finalmente havia chegado à entrada do reino das fadas. Estas não se preocuparam com o pudor, sabiam quem ele era e o motivo de estar ali. Tudo que queriam era restaurar o equilíbrio novamente. Depois de uma longa e exaustiva caminhada por entre os galhos, ele chegou ao ponto mais alto, onde se encontrava Lionor, sentada em seu trono. Ela estava pele e osso, seus cabelos outrora macios e brilhantes estavam parecendo palha. — Lionor? – ele chamou, enquanto ajoelhava a sua frente e passava levemente as costas da mão no rosto dela, acariciando-o. Ao som da voz e do toque quente, ela abriu com dificuldade os olhos.— Você voltou. – tentou sorrir, porém seus lábios rachados arderam e seu rosto enrugado contorceu-se em dor.— Sim, eu prometi que não deixaria nada lhe acontecer. – ele então desamarrou de suas costas o que trazia consigo e depositou com cuidado no colo de Lionor.Esta ao desenrolar o pano grosso, ganhou um brilho no olhar que há muito não era visto. Timur ajudou-a a levantar-se e com toda delicadeza e cortesia, ajudou-a a recolocar seu par de asas. Onde antes havia uma ferida enorme e sangrenta, quase que instantaneamente sarou e as asas voltaram a ser parte do corpo de Lionor, sem nunca parecer que um dia foram arrancadas. Aos poucos se pôde notar que a árvore ganhava vida novamente, assim como as fadas que voltaram a ter as faces coradas e uma aparência saudável, o rio voltou a jorrar água cristalina e as florestas e plantações retomaram seu antigo esplendor.— Obrigada por tudo. — Não precisa me agradecer, faria tudo novamente se fosse preciso.— Não será, estamos seguros. Algo me diz isso. – ela sorriu como em meses ele não a via fazer.— Sim estamos. E agora eu tenho você. Nada pode ser melhor que isso. Ele então tomou-a nos braços e encostou seus lábios delicadamente nos dela em um beijo carregado de paixão, alívio e felicidade.Dali em diante, a tribo e o reino se uniram. Um único líder sucedeu Lionor e Timur e passou a governa-los com sabedoria e amor. Este fez questão de passar a história adiante para o líder seguinte para que ele soubesse o quanto seus avós lutaram bravamente para proteger o povo que agora passava a ser sua responsabilidade. Hoje em dia, esta história virou somente uma lenda regional, porém deixo aqui meu relato de que esta foi uma das histórias de amor mais pura e sincera que já tive o prazer de acompanhar e prezo para que esta memória não se perca.OBS: Heledur significa a montanha dos amantes.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!
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