Notas iniciais
Boa noite meus caros leitores, não sei vocês, mas onde eu moro tem feito um frio danado... Um clima ótimo para uma pessoa sedentária como eu passar as férias. Assim tenho um motivo a mais para não sair do meio das cobertas ^^

O beijo foi rápido e casto tal como um beijo de criança, mas assim que acabou tanto Ludwig quanto Feliciano puderam perceber que alguma coisa havia mudado.

Depois do beijo o italiano sorriu de leve e voltou a se inclinar por sobre a mureta, enquanto que Ludwig continuou parado por mais alguns minutos encarando o vazio.

“o que diabos foi isso???”

XXX

A cabeça de Ludwig rodava mais rápido do que um tornado, milhões de coisas surgiam e desapareciam por entre seus pensamentos, e por um minuto ele se sentiu perdido e sem chão.

Na verdade, ele não sabia nem por onde começar a organizar suas ideias. Primeiro ele havia descoberto que toda a sua infancia havia sido uma mentira, que apesar de não se lembrar, havia presenciado a morte dos pais, morado em um orfanato e aparentemente se apaixonado por um menino!

“Meu amado Deus, o que está acontecendo?”

Mas aquele beijo simples trocado á pouco havia despertado uma sensação de conforto em Ludwig, e ao mesmo tempo em que fazia crescer ainda mais o bolo de perguntas mentais, lhe dava a certeza de que ele não ficaria sozinho.

E ainda haviam os sentimentos...

Fazia algum tempo que Ludwig vinha percebendo que alguma coisa mudara dentro de si por Feliciano. Não era amor! Não podia ser! Mas o beijo... O conforto... Tudo apontava para aquela direção, por mais improvável que podia parecer na cabeça do alemão.

“Será? Tudo está tão confuso...”

Ludwig ainda um tanto perdido caminhou bem devagar para os banquinhos de pedra improvisados, sentou-se lentamente e respirou fundo. Suas mãos bagunçaram novamente os cabelos, que nesse exato momento se pareciam mais com um ninho de passarinho e depois disso, abriram os primeiros botões da camisa, pois apesar da brisa leve, a noite parecia-lhe insuportavelmente quente.

Feliciano percebendo que o alemão se afastara, veio sentar-se ao lado deste.

–Você não se lembra? – Disse o italiano

Ludwig balançou a cabeça

–Nem depois do beijo?

Ludwig balançou novamente a cabeça e massageou novamente as têmporas

–Ludwig, eu vou te dar um tempo para pensar, não deve ser fácil para você... Mas acredite em mim – Feliciano passou a mão no joelho do alemão e fez com que este lhe encarasse fixamente – Você se lembrará.

Feliciano sorriu e se levantou

–Quando se sentir pronto venha falar comigo, eu lhe mostrarei mais coisas... Não tenha medo do passado, porque por mais horrível que possa parecer, ele já se foi...

Feliciano passou a mão de leve pelos cabelos dourados de Ludwig e saiu deixando o outro perplexo.

XXX

Feliciano saiu do beco como se saísse de um portal mágico e voltasse para a realidade. As ruas estavam quietas, e tudo que se ouvia era a leve brisa noturna que agitava as águas do canal, Feliciano se sentia um tanto triste por Ludwig, por toda aquela confusão e torcia com todas as suas forças para que ele se lembrasse do passado, para que ainda o amasse.

“Como eu tenho feito todos esses anos”

Assim Feliciano desceu a rua em direção a sua casa, e mesmo sabendo que estava tarde e que era perigoso, resolveu passar em frente ao canal. Por algum motivo misterioso aquelas águas sempre o acalmavam...

Há muito tempo atrás, quando o italiano se sentia perdido alguém havia lhe dito “Vá para Veneza, e encontrará suas respostas”, dito e feito, Feliciano se apaixonara pela cidade, pelas pessoas e acima de tudo, pelo canal que por algum motivo refletia no perfeito tom e nitidez a cor dos olhos de Ludwig.

Feliciano passou a mão de leve pela água e sentiu o líquido transparente escorrer por suas mãos.

“Já faz tanto tempo... Mas você sempre estará aqui para me ajudar...”

O italiano sorriu sozinho, e deixou-se levar pelo som das águas.

XXX

Enquanto isso do outro lado da cidade, Gilbert andava de um lado para o outro na sala.

–Roderich, eu sou um péssimo irmão, não sou? Eu fiz tudo... Mas mesmo assim...

O austríaco por sua vez acabava de voltar da cozinha ainda enxugando as mãos, pois depois que Ludwig e Feliciano saíram, Gilbert ficou extremamente nervoso e sensível, era raro ver o albino assim... Mas mesmo naquela situação Roderich conseguiu convence-lo a acabar seu prato de macarrão, bem como conseguiu também jantar razoavelmente bem.

Assim, depois de terminada a refeição Roderich retirou a mesa e lavou os pratos na cozinha, enquanto Gilbert continuava a rodar pela sala ao mesmo tempo em que murmurava coisas ininteligíveis.

–Roderich, você ouviu?

–Ah sim, eu ouvi... E não, você não é um péssimo irmão. É na verdade o melhor que conheço... – Roderich colocou o pano de prato que segurava no encosto de uma cadeira e abraçou Gilbert pelas costas fazendo com que ele parasse, mas não pelo carinho e sim pelo susto, Roderich dificilmente se aproximava desse jeito.

–Jovem mestre, você está bem?

–E-estou! Agora fique calado! Não vê que estou tentando te confortar?

Gilbert sorriu de leve e passou suas mãos extremamente brancas por cima das de Roderich, agora um tanto coradas.

–Ele me perdoará? Algum dia...

–Gil... Não pense assim... Ludwig é um homem adulto e entenderá os seus motivos, além disso...

Nesse momento ambos ouviram um barulho no portão e logo se soltaram, Roderich recuperou a postura aristocrática e voltou para a cozinha com o pano, enquanto que Gilbert se aproximou da porta bem a tempo de ver a estranha figura que a abria.

Por um momento Gilbert achou que fosse um estranho, mas olhando bem percebeu que na verdade era Ludwig. Este tinha os cabelos extremamente bagunçados, os primeiros botões da camisa e os da manga estavam desfeitos e esta estava coberta por uma generosa camada de suor.

O olhar de Ludwig parecia ao mesmo tempo assustado e ameaçador, Gilbert recuou dois passos para que ele pudesse passar sem dizer uma palavra.

O alemão por sua vez passou reto pelo irmão sem nem lhe olhar nos olhos, abaixou a cabeça e foi até o seu quarto e pouco tempo depois entrou no banheiro... Em menos de cinco minutos, Roderich e Gilbert escutaram o chuveiro ser ligado.

XXX

Ludwig tirou a camisa suada e a jogou junto com todo o resto da roupa em cima do vaso, geralmente ele dobrava ou colocava direto no cesto de lavagem caso as peças estivessem muito sujas, mas nesse caso não fez questão nenhuma de nada, estava cansado demais de tudo e só queria dormir...

Assim que ligou o chuveiro, Ludwig tentou esvaziar sua cabeça e relaxar, mas mesmo a água corrente não conseguiu afastar o fluxo constante de pensamentos, mas de uma coisa estava quase certo, ele já não enxergava Feliciano apenas como um amigo...

Graças ao beijo trocado á alguns minutos, o alemão no caminho de volta para casa constatou que quando Feliciano estava perto, ele se sentia mais calmo, mais alegre, mas ao mesmo tempo mais nervoso por não saber como agir direito na sua presença.

O alemão ainda não chamava esse sentimento de amor, pois muito do que sentia não batia com os livros... Tá, tudo bem, ele se sentia nervoso e um tanto abobado, e ao mesmo tempo contente com a presença o outro, quando este demorava para chegar, Ludwig se sentia impaciente, e quando ia embora, tinha vontade de acompanha-lo para onde quer que fosse..

Mas mesmo assim, ainda faltava algo... O amor devia ser uma coisa esplêndida, uma emoção que o fizesse se sentir completo, e no fundo, bem no fundo Ludwig ainda se sentia um tanto vazio.

“Serão as memórias que...”

Nesse momento seus pensamentos foram interrompidos por batidas ritmadas na porta.

–Bruder, ah... você está...uh...bem?

Ludwig esboçou um pequeno sorriso irônico.

–Claro que sim, porque não estaria?

O alemão desligou o chuveiro bem a tempo de ouvir uma exclamação de contentamento vinda do outro lado da porta

–Ah que bom! Então... Eu vou dormir na sala com o Rod, tudo bem?

Ludwig deu os ombros enquanto se secava.

–Tudo...

–E... Eu vou pegar o colchão, ok?

–Sim

O alemão ouviu do outro lado da porta Gilbert conversando com Roderich sobre alguma coisa, e então ouviu algo sendo arrastado, e depois Roderich reclamando novamente. Passado algum tempo, quando Ludwig já estava quase totalmente vestido, Gilbert voltou á porta.

–Bom, então... Boa noite, bruder! Sonhe com os anjos! Kesesesesese

A risada no final lhe pareceu um tanto forçada, mas essa era uma tática velha de Gilbert, fingir que os problemas não existiam e continuar fazendo tudo normalmente. Assim o albino parecia inabalável por fora, mas por dentro Ludwig bem o sabia, que estava prestes a desabar.

Neste momento o alemão percebeu que ele não era o único que sofria, entendeu o porque de tudo aquilo, de todo o segredo e de todos os anos de mentira... Sabia-o que Gilbert o amava, desde que se lembrava (não é muito bom confiar na memória agora) eles sempre foram próximos, então deveria ter sido muito difícil para Gilbert fingir todo esse tempo... E para Roderich também, por precisar manter o relacionamento a distancia...

Pela primeira vez naquela noite, enquanto secava os cabelos com a toalha, Ludwig teve pena de seu irmão...

“Eu te entendo , Gilbert...”

XXX

Quando estava quase adormecendo abraçado á Roderich no colchão, Gilbert sentiu uma estranha luz brotar dentro de si...

“Não me diga que vou ter que ir ao banheiro de novo, mas que droga!”

O albino estalou a língua e com um bufo virou-se para o outro lado voltando a dormir.

XXX

Durante a noite, Ludwig sonhou que estava em um campo cheio de lírios, ventava um pouco e ele teve que segurar seu chapéu para que este não voasse. Mais a frente, o alemão viu uma camponesa de costas, seu vestido era verde e ela usava um lenço no cabelo, seu coração se acelerou assim que a viu.

Dando uma olhadela para sua mão direita (pois a esquerda ainda segurava o chapéu), Ludwig percebeu que carregava um bouquet de flores cor de rosa, e por algum motivo se sentiu nervoso.

O ruido que o alemão fazia enquanto caminhava sobre as flores chamou a atenção da camponesa, que nesse momento começou a se virar lentamente, como se estivesse em câmera lenta.

E então, quando a moça estava prestes a se virar completamente e mostrar o rosto, Ludwig acordou no seu quarto novamente.

Não era a primeira vez que tinha sonhos assim, na verdade, era comum para ele durante a infância sonhar com coisas desse tipo, e esse sonho especificamente era um dos mais comuns, se não o mais frequente.

Ludwig respirou fundo...

“Oh, não... Lá vamos nós de novo...”

Desde que se mudara para Veneza, suas noites de sono tinham piorado bastante, os sonhos estranhos ficavam cada vez mais recorrentes... Mas agora que pensava, será que eles não teriam alguma coisa ver com suas memórias?

Ludwig fez uma anotação mental para começar um diário de seus senhos e pesquisar mais sobre o tema na internet, mas por agora, tudo o que Ludwig fez foi virar para o outro lado e voltar a dormir.

XXX

Os sonhos assim como o calor continuaram por mais uma semana, e mesmo com Ludwig se policiando e anotando os sonhos no caderno, parecia que nada dava resultado. Gilbert e Roderich voltaram a se aproximar dele, e agora o trio trabalhava em conjunto tentando fazer com que Ludwig se lembrasse do passado.

O alemão não voltou a ver Feliciano durante esse tempo, apesar de já ter decorado o endereço deste e saber que podia sempre encontra-lo no café central, não tinha vontade de vê-o de novo, pois sabia que não conseguiria ver a seu rosto triste quando lhe dissesse que ainda não se lembrava de coisa alguma.

As coisas continuaram monótonas assim até a chegada da chuva.

Notas finais
É só isso pessoal, os reviews logo serão respondidos :)