As Águas de Veneza
19 Capítulo 19
Notas iniciais
Ludwig, Gilbert e Roderich acabaram oficialmente a “faxina geral” na terça feira. Boa parte desta havia sido feita pelo albino e seu companheiro, pois Ludwig, querendo ou não, ainda tinha que trabalhar e comparecer ao escritório;
Já passava das sete da noite quando Ludwig voltou do serviço. Ele estava cansado, e com uma dor de cabeça medonha. As suas ultimas duas horas podiam ser resumidas em uma única palavra “tortura”.
O alemão tinha planejado sair do escritório mais cedo para ajudar seu irmão e futuro(?) cunhado a arrumar o que faltasse da casa, mas quando se virara para guardar um ultimo papel na pasta, um dos estágiários apareceu na porta de sua sala(ou cubículo de rato, como gostava de dizer) extremamente agitado e um pouco ofegante. Investidores novos e bastante poderosos haviam resolvido passar de surpresa e realmente precisavam de sua ajuda.
Resignado, o alemão tirou da bolsa o notebook e mais alguns papéis e rumou para a sala de runião, sem claro, deixar de bufar um pouco. Naquela espaçosa sala, Ludwig ficou as próximas duas horas ouvindo os homens conversarem entre si (em sérvio) e com ele (em um italiano cheio de sotaque), porque não, eles não falavam alemão.
Nas pausas que faziam para beber água/café, ou ir ao banheiro, Ludwig se pegava pensando em Feliciano, algo mais ou menos do tipo:
“Se ao menos ele estivesse aqui podia me ajudar com o italiano... É quase impossível entender o que eles falam”
Ou
“É nessas horas que eu queria poder trabalhar junto com Feliciano no café central, parece bem mais agradável”.
Entre outras coisas mais.
Por isso, quando o alemão chegou em casa e a encontrou-a toda brilhante sentiu um imenso contentamento, seus olhos brilharam um pouco ao sentir o cheirinho de produto de limpeza.
“Lar doce lar”
Estranhamente enquanto entrava pela casa, não escutou barulho nenhum e tambem não viu ninguem.
“Suspeito...”
Mas mesmo assim continuou entrando, o cheiro de lavanda ficava cada vez mais evidente a medida que passava pela sala, então pela cozinha, deu uma olhada na lavanderia, no banheiro e finalmente entrou no quarto/escritório. A casa estava completamente vazia.
“Devem ter saído” pensou. “O Roderich disse que queria ir ao mercado... Só espero que encontrem o caminho de volta...” Disse se lembrando da conversa que tivera com o irmão aos cochicos no dia anterior sobre péssimo senso de direção do austríaco.
“Espero que o Gilbert o ajude um pouco”
E se sentou na cama deixando em cima dela a pasta com o notebook. Tirou o sapato e procurou com os olhos alguma toalha limpa que pudesse ser usada. Encontrou uma dentro da cômoda por trás do vidro e depois de pega-la foi até o banheiro tomar um banho.
XXX
Mal entrou no chuveiro Ludwig escutou o telefone tocar na sala. No início o alemão pensou em não sair do chuveiro (até porque já estava ensaboado e completemente molhado), simplesmente deixaria o incomodo aparelho tocar em vão. Mas então uma ideia lhe passou pela cabeça... E se fosse Gilbert ou Roderich? Ambos haviam saído e não conheciam a cidade.
E se se metessem em alguma encrenca?
Sem pensar muito, Ludwig abriu a porta do box rapidamente e pegou a primeira toalha que encontrou, amarrando-a na cintura (porque apesar de estar sozinho, ele ainda tinha seus pudores).
Então, quando finalmente chegou até a sala e estava pronto para tirar o aparelho do gancho, os toques ceçaram.
Ludwig praguejou alto e olhou de volta para o banheiro, a porta ainda permanecia escancarada e o chuveiro mal fechado de modo que um filete d’agua ainda caía ralo á baixo, além disso uma trilha de pegadas molhadas e gotas d’agua se espalhavam pelo chão da casa toda.
“Mal acabei de limpar!”
Resignado, o alemão voltou para seu banho.
“Se for o Gilbert , daqui a pouco ligará de novo”
Ligou o chuveiro e deixou que a água quente tirasse suas preocupações.
XXX
“Não é possível!” “será que saiu?”
Feliciano estava sentado na beirada do banquinho do telefone com uma enorme lista telefonica no colo.
Uma vantagem de se morar em Veneza e de caminhar por ela quase que diáriamente, era poder se familiarizar e conhecer á todos, assim não foi difícil descobrir o numero de Ludwig na lista telefônica visto que”Belshmidt” era um sobrenome bem incomum para um italiano.
Feliciano resolvera ligar para o outro sob o pretexto de lhe avisar que na tão esperada quarta feira, o italiano precisaria sair mais tarde do trabalho, e para não incomodar, resolveu que ele mesmo encontraria o endereço do alemão e iria até lá sozinho.
O problema era. Por mais que ele ligasse ninguém atendia ao telefone.
“Ve~ Vou tomar um café, depois eu tento de novo”
Depois de 20 minutos e de um bom capuccino com biscoitos, o italiano estava mais uma vez sentado na banquetinha do telefone discando números.
XXX
Ludwig já tinha sído do banho e limpado o chão todo molhado. Atualmente o alemão se encontrava devidamente vestido e sentado no sofá da sala lendo um livro. Porque como era de costume, não conseguia gostar de ver televisão.
“Não devia ser Gilbert” – Pensava “ A essas horas ele já deveria ter ligado umas 500 vezes se eu não tivesse atendido de primeira...”
E riu consigo mesmo.
“Ele realmente não tem jeito”
Então o telefone tocou. Ludwig se assustou com o barulho repentino e atendeu o aparelho antes que ele desse o terceiro toque.
–Alô? – Atendeu Ludwig
– Ludwig? – Feliciano fez essa pergunta por costume porque a voz grave no telefone já denunciava o outro.
–É ele mesmo, quem é?
–Ah! Oi é o Feliciano!
–Feliciano? Aconteceu alguma coisa? – Perguntou com legítima preocupação — E... Como conseguiu o meu numero?
Ludwig se acomodou melhor na poutrona e deixou o livro em um canto, seu cenho estava franzido.
– Ah? Ve~~ sim...
–Sim para o problema ou para... – Interrompeu Ludwig um pouco confuso.
–Não não... estou falando do seu numero... sabe... eu procurei na lista telefonica...
–Oh – Precisava se lembrar de usa-la mais vezes. – Mas então, por que ligou?
– Bom, eu queria avisar que quarta não precisa me buscar no café. Eu vou ter de sair mais tarde aqui e não queria encomodar...
–Não, de jeito nenhum... Você sabe qual o endereço?
–Ve~~
–Isso foi um sim ou um não? – Ludwig nunca conseguia entender o que seu amigo dizia quando fazia um Ve~~, mas de certa forma achava isso fofo.
–Foi um não, ve~~
–Imaginei... – E deu um pequeno sorriso — Tem papel e caneta por perto? Eu já lhe passo.
–Ah, espere um pouco, vou lá pegar.
Feliciano foi buscar uma caneta e anotou o endereço no bloquinho ao alado do telefone.
Depois de conversarem mais um pouco sobre banalidades, ambos desligaram e Feliciano foi tomar um banho e relaxar, afinal, ainda estava com o suor do serviço.
XXX
– Ludwig, você sabe porque eu o chamei aqui?
Um tempo se passara desde a entrada dos Bellshimidt no orfanato Eldstein. Ludwig já tinha 6 anos de idade e ainda sim continuava pequeno, tímido e um tanto bochechudo. O alemão ao contrário de seu irmão, não conseguia se enturmar com as outras crianças, e apesar de tirar as notas mais altas na escola, não conseguia fazer amigos e nem se aproximar de ninguém que não fosse Gilbert.
Tal comportamento despertou o interesse do diretor. O Sr. Eldstein que percebendo o acanhamento do outro, pediu que o levassem á sua sala. E era exatamente onde estavam naquela manhã de inverno, e apesar do frio , do vento gelado e sobretudo da neve, as crianças continuava brincando extremamente agitadas pelos jardins da propriedades.
–Então – Disse se virando bondosamente para o outro – Sabe por que lhe chamei?
Ludwig balançou a cabeça em negação, mas apesar disso, tinha uma idéa vaga do que estava fazendo naquele lugar.
–Bom, -disse o diretor- Já que não sabe, vou lhe explicar.
Com extrema delicadeza, o diretor mesmo sendo um homem alto se levantou da cadeira e fez um gesto para que Ludwig o seguisse até a janela. Apontando para fora, o diretor se dirigiu ao alemão.
– O que vê lá fora?
–Crianças... Ludwig respondeu ainda um pouco inseguro.
–É, sim... E o que elas fazem?
–Brincam...? – E a resposta saiu mais como uma pergunta do que como qulaquer outra coisa, mas mesmo assim o diretor aceitou-a.
–Exato. E porque você não vai brincar com elas?
Ludwig retraiu-se todo e encarou o diretor pelo canto do olho.
–Escute – Começou o diretor, e se abaixou para ficar na altura dos olhos da criança – Você é um menino exelente, mas precisa superar essa timidez, sim? Precisa se abrir... Precisa de amigos...
–-M-mas... Eu... – E desviou o olhar para o canto
–Veja, eu só quero o seu bem, por isso resolvi te ajudar com esse problema... Você me deixa ajuda-lo?
Ludwig concordou com a cabeça e voltou a encarar o mais velho com os olhos azuis brilhando de curiosidade.
–Como o clube de teatro precisa de ajudantes... – Começou o diretor sugestivo – Acho que não teria problema se você fosse lá dar uma mãozinha, não? – E sorriu paternal
Ludwig não conseguiu olhar para aqueles olhos castanhos por trás das lentes e dizer não, por isso simplesmente olhou para baixo e concordou com a cabeça. No mesmo instante o diretor ficou de pé e caminhou até uma porta da esquerda, depois de abri-la e sumir por algum tempo, o Sr Eldstein voltou todo sorridente com outra criança, (por mais incrivel que pareça menor que Ludwig) e vestida de camponesa.
–Ludwig~ – Quase cantarolou o diretor – Esta linda camponesinha se chama Feli e vai te ajudar com tudo o que precisar.
A camponesa que até então estava parcialmente escondida atrás das pernas do diretor foi insitentemente encorajada por este a abandonar seu esconderijo, e agora sem a proteção de ninguém, a camponesa enrubeceu um pouco e cumprimentou o menino com um singelo “oi” e um aceno de mão.
–M-me chamo Feliciano Vargas mas pode me chamar de Feli, eu vou te ajudar com o teatro – E sorriu, o sorriso mais puro que Ludwig já tinha visto na vida.
E então, meio constrangido o alemão seguiu seu guia pátio abaixo. E apesar de estar com um casaco fino ele não sentia frio, muito pelo contrário, Ludwig estava extremamente quente com todas aquelas borboletas dançando em seu estômago.
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