As vozes na água

1 As vozes na água


Ele estava em um ônibus atravessando a ponte sobre o Rio Paraná. Era um rio imenso, impressionante e assustador. A ponte em si tinha aproximadamente dois quilômetros e meio de extensão. Ele não sabia se o rio estava em uma cheia ou não, mas pensava que, tranquilamente, havia uns 50 metros de profundidade sob os seus pés. Imaginar o ônibus caindo naquela água fazia-o sentir arrepios na espinha. Especialmente para ele, que não sabia nadar.

Mas o temor logo foi substituído por uma sensação de fascínio por aquelas águas. O ônibus estava preso em um congestionamento e o motorista resolveu abrir as portas do veículo, permitindo que passageiros descessem e que vendedores de "chipa" subissem à vontade. Aparentemente, o objetivo era agilizar a passagem pela aduana, já que a ponte ligava o Paraguai e a Argentina.

Quando as portas se abriram, ele aproveitou e desceu também. Foi até a beirada da ponte e pôs-se a olhar as águas a poucos metros abaixo de si. Ouvia atentamente o som delas batendo na estrutura da ponte e olhava tão profundamente, que parecia querer enxergar o fundo do rio, sabendo que jamais o veria. "A não ser que...", uma ideia perigosa lhe ocorreu.

O som da água passou a chamá-lo. "Não vai durar nem um minuto", dizia-lhe calmamente.

Na sua mente, conseguia visualizar a si mesmo sendo tragado pela escuridão enquanto olhava para cima para ver os últimos raios de sol. Ninguém viria atrás dele. Era um mero desconhecido ali. 50 metros de profundidade? Provável que sequer fosse encontrado depois.

O coração disparou. Era a chance que ele tanto queria. "Não vai durar nem um minuto", as águas lhe diziam mansamente. Um convite irrecusável, sedutor, quase hipnótico. "Vai ser rápido", repetia como um canto de sereia. Um canto que o levava à loucura.

Olhou para os lados e viu as pessoas conversando em espanhol misturado com guarani, homens preocupados em vender as "chipas", mulheres conversando sobre o preço das hortaliças ou sobre alguém que se casara recentemente. Olhava as vestes daquelas pessoas, suas linhas de expressão no rosto, suas características étnicas. Perdia-se na sua imaginação tentando adivinhar como teria sido àquelas pessoas crescer no Paraguai, como eram suas escolas, sua cultura, sua religião.

Começou a perceber que observar pessoas era algo divertidamente curioso. Ainda havia muito o que fazer e aprender. Não poderia deixar passar a oportunidade de conhecer mais. Não ainda. Decidiu continuar andando em direção à aduana.

O vento soprou ruidosamente e as águas bateram mais forte sobre a ponte. Agora estavam gritando mais ferozmente: "É a sua chance. Vai ser rápido!", mas ele não lhe deu ouvidos.

Foi embora e continuou observando o mundo. Tudo o instigava. Mas, vez ou outra, ouvia a mesma frase.

As vozes na água nunca o abandonaram. Sempre estiveram à espreita, esperando por uma brecha. Ainda hoje elas permanecem ali para atormentá-lo.

Notas finais
Escrevi este texto em razão da campanha #SetembroAmarelo. Contudo, não quis postar em minhas redes sociais.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!