As voltas do mundo
1 Capítulo 1 - As voltas do mundo
Era uma tarde de muito calor como sempre fazia em Goiânia nos meses de outubro. A chuva estava muito atrasada e 36º era a temperatura a sombra, simplesmente desagradável! Mas foi numa tarde assim, num sábado a tarde que as 5 amigas decidiram se encontrar como sempre faziam. Andréia, Marinéia, Jurema, Verena e Patrícia. Para fugir do calor, resolveram trocar a casa da Jurema para irem ao shopping, aproveitar o ar condicionado, tomar sorvete e paquerar. Coisas da idade. Mas vamos conhecer um pouco mais sobre elas. Andréia, bonita, não gostava de estudar e só pensava agora no seu novo namorado, o Osório. Filho de uma família de sobrenome tradicional, Osório proporcionava uma vida de conforto e glamour que Andréia sempre sonhou. Naquele dia, quando se encontraram no saguão do shopping, Andréia muito feliz disse: Meninas, hoje é tudo por minha conta!! As outras se olharam e meio incrédulas perguntaram a Andréia o que estava acontecendo. Ela sorriu e disse: Gente, eu sempre quis fazer isso, parem de reclamar e vamos nos divertir! Patrícia, a mais ácida logo soltou: Humm, Julesca está podendo... Andréia soltou um olhar de fúria, odiava esse nome... Andréia era batizada por Andréia Julesca Farella, e Patrícia sabia disso e usava com muito sarcasmo. Andréia retrucou: Nem você Pat, sua mal comida vai me tirar do sério hoje...vamos meninas, estou morrendo de vontade de tomar um milk shake e contar as novidades. E elas foram para a praça de alimentação. Jurema e Marinéia sugeriram que fossem para o piso superior no café da livraria, mas as outras três retrucaram: — Chega de livros!!! Patrícia era a encrenqueira da turma, temperamental ao extremo, era tudo do seu jeito, boa escritora e perspicaz, seu único ponto fraco era adorar “ficar”.... e como adorava, mas podia, era uma morena muito bonita.... e a Andréia sacaneava chamando-a de “peguete da galera”! Jurema era extremamente tímida, mas só ao vivo, nas redes sociais, soltava seu humor ácido, alta, de pele alva, tinha uma beleza clássica daquelas meninas inglesas. Adorava livros e escrever. Marinéia, morena linda e misteriosa, tinha um pacto de amor com Matrello, um italiano que queria ser bailarino, gostava de Allan Poe e estava muito focada nos estudos. Não falava muito suas opiniões, ouvia mais que falava, mas isso era típico de quem tinha levado Zeitgeist “o filme” a sério, as pessoas não aceitavam certas idéias. Bem, e Verena, era uma “princesa” como dizia um professor de história, linda, contida, falava pouco e era uma lady. Educada até demais para as maluquices de Patrícia. Mas voltemos ao encontro. Sentadas na praça de alimentação para ver os “gatos”, já que Jurema e Marinéia foram voto vencido, estavam as 5 numa mesa redonda. Resolveram cada uma sair por uns instantes para pedir algo para comer ou beber. Quando voltaram, Andréia começou: — querem saber da novidade? Elas responderam em coro: — conta logo!! Andréia com um brilho nos olhos soltou: — Vou passar a vê-las só aqui. Não vou mais para a escola! As outras se olharam e não entendiam nada.... Andréia continuou: — estou grávida do Ozório, e ele disse que a gente ia se casar!! Até deu o cartão de crédito dele para mim... e aí meninas? Podem começar o bombardeio! Patrícia não se conteve e começou... depois eu sou a peguete, como assim? ficou grávida e acha que vai casar?? KKKK, só na sua fantasia minha cara... você são duas crianças e a família dele não vai permitir, muito menos sua mãe... para de viajar Julesca!! Andréia olhou com raiva, mas se conteve e continuou: — Vamos, quero mais pareceres!! Verena disse: amiga, se você está feliz com isso, boa sorte para você porque eu não vejo graça nenhuma em parar de estudar e muito menos engravidar na adolescência!! Vou te apoiar, mas não vou mentir que acho isso boa coisa!! Andréia soltou: Creedooo, ninguém vê o meu lado? Nunca mais vou estudar aquelas chatices, aqueles exercícios do psy do inferno de duas páginas! Aquelas aulas de inglês do pânico! Jurema disse: Amiga, você tá meio louca, já falou com sua mãe? O que ela disse? Andréia respondeu: — Ela brigou comigo, disse que me apoiaria na gravidez mas nunca em me casar e muito menos parar de estudar! Andréia já desanimada, disse: — Nossa que amigas vocês? Ninguém me entende!? Falta a última estaca, sua vez Marinéia. Ela responde: Nem sei por que você está surpresa, sabe muito bem como pensamos e o que pensamos sobre isso. Sempre dei forças para você batalhar seu espaço, conquistar suas coisas! Andréia apela e diz: Ok! Ok! Mas aconteceu, e foi lindo. Marinéia, você é uma coitada, bv.... fica naquela coisa que nem sei o que com o Matrello. E acha que estudando vai chegar em algum lugar? Pra começar você é macaca!! Patrícia interpela: — Ôô rascunho de piriguete!! Se ela é macaca, eu sou o que? O king Kong!? A gente quer colocar juízo na sua cabeça e você vem com essas idiotices racistas!! Marinéia abaixa a cabeça e sorri com desdém. Andréia fala: — Ok, desculpa gente! Mas vamos falar sério! Estudar para mim está um saco! O Ozório é um amor, e ele foi meu primeiro!! Patrícia disse: Depois eu sou a safada, por pegar todos, mas safada esperta, você é safada burra!! Como foi engravidar?? As outras riem e começam a trollar a Patrícia... – Pat, você não sabe como engravida? Pede ao Amarildo que ele te ensina..kkkkkkkkkk! Todas caem na risada! Andréia continua: — A Pat é esperta, vai se virar, A Verena é linda e está tranquila com a vida dela, a Marinéia jura que vai ser alguém estudando e torço por ela assim como a Jurema, mas e eu gente? Odeio estudar e trabalhar! A vida está me dando uma chance!! Pat interrompe e solta: — a vida não amiga, só vc deu aqui!! Todas riem e resolvem mudar de assunto.
Dez anos se passaram depois daquele dia. O que aconteceu com nossos personagens? Vejamos.
Patrícia era agora redatora chefe de um canal de notícias da CNN no Brasil, mas Goiânia havia ficado para trás, morava agora em São Paulo, e continuava solteira e esperta! Dizia que não tinha paciência para aguentar uma vida a dois. Trabalhava muito e viajava, como sempre sonhou. As amigas do passado, só umas poucas conversas em rede social ou quando ia passar o natal em Goiânia na casa dos seus pais.
Jurema virara uma escritora de livros para adolescentes. Casada e com um filho, estava realizada, deixara seu emprego de advogada da União e passou a viver como escritora, sua última obra permitiu isso, afinal não é todo dia que se consegue uma vendagem de 1,5 milhão de exemplares. Seu segredo, como ela mesma diz nas entrevistas foi colocar no papel as angústias e sentimentos dos tímidos na adolescência. Esperta ela, a maioria parece que é assim!
Verena casou com um cirurgião plástico. Não sabemos se por amor ou vontade de ficar bela para sempre! Mas não é uma dondoca, como sonhava Andréia, tinha uma loja de decoração de móveis e era muito bem sucedida em Goiânia.
Mas e Andréia? Não tem como falar de Andréia sem falar nos outros juntos. Vamos voltar no tempo. Andréia realmente parou de estudar naquela época, brigou feio com sua mãe e resolveu sair de casa e se casar. Ozório também não teve vida fácil, apesar de querer, a família de Ozório permitiu o casamento, mas com uma cláusula contratual, de separação total de bens, e que os bens adquiridos caso fossem numa partilha por divórcio seriam apenas da criança. Caso Andréia quisesse algo, teria que trabalhar. Nesses termos, parece que o plano de Andréia tinha dado errado, mas Ozório era muito compreensivo e proporcionou uma vida de conforto para Andréia até o dia X. Dez anos, não são dez dias, e hoje os casamentos ou melhor ajuntamentos não duram tanto. Na nossa sociedade de consumo, ninguém quer consertar nada, apenas jogar fora e comprar outro, e assim se fazem com os relacionamentos. Andréia ainda era uma bela mulher, mas estava uns bons quilos a mais, e a vida de ficar em casa, cuidando apenas do filho, deixara ela como uma mulher bem desinteressante. Seus assuntos eram a casa, o filho, o trânsito, e suas “amigas” de porta de escola ou de shopping. Havia afastado das meninas da adolescência por estarem em sintonia diferente. Mas isso tinha um efeito devastador sobre Ozório. Aquela menina linda que roubou seu coração, agora era uma chata que só sabia pedir dinheiro, viagens e roupas. Numa das viagens de negócio, Ozório reencontra Patrícia numa cobertura sobre um fórum de empresários. Ambos se sentem atraídos e falam coisas do passado. Patrícia pergunta da antiga amiga e ele meio sonso responde que ela está firme no propósito de não fazer nada, apenas engordar!! Patrícia lembra do “peguete da galera” e com uma pontinha de vingança pensa: — Julesca, você vai ver quem é a peguete da galera!! Resultado, ficam juntos! Pat era muito experiente e simplesmente desnorteou Ozório, que apesar de ser boa pinta, sempre foi fiel e Andréia era seu primeiro amor...Mas uma “pegada” dessas num cara que está cansado do casamento, é fatal. Ozório ficou maluco! Agora só pensava em voltar para casa e se separar. Quando chegou, Ozório apenas comunicou à Andréia: — Meu advogado está cuidando dos nossos papéis e apesar daquela cláusula que você assinou no nosso casamento, vou te deixar uma firma para que você tenha algum rendimento. Estou decidido e você sabe que estamos num casamento de fachada a anos. Quero ser feliz! Ela não diz nada. Chora convulsivamente, não pelo amor ao Ozório, isso não existe mais, mas pelo medo do desconhecido. Sabia que o filho não ia passar necessidade mas e ela?! Ozório resolveu abrir uma firma que terceirizava faxinas doméstica, já que não existem domésticas para a classe média, apenas os ricos hoje tem uma empregada uma vez que o salário médio é de cerca de 20 salários mínimos. Ozório não fez isso de sacanagem, pelo contrário, era a única coisa que Andréia sabia fazer, ou pelo menos cobrava das suas empregadas. E tirando o preconceito do serviço, era um excelente faturamento para os empregado e a firma!
Mas mesmo com a falta de empregadas domésticas e diaristas, a firma de Andréia tinha um problema grave, era nova no mercado e não tinha referência alguma. Os meses se passavam e nada, os poucos clientes que apareciam eram insuficientes para manter o negócio funcionando. Andréia sabia que precisava fazer algo como tentar um contrato com uma grande empresa. Começou a distribuir propostas para os hospitais e clínicas, locais onde a assepsia era muito exigente devido as super bactérias. Apenas um pequeno hospital, mas muito conceituado resolveu atender a proposta da firma de Andréia. Era o HNI, Hospital de Neurocirurgia Integrada, um hospital de referência no tratamento de ofoi bem técnica e fria. O adminstrador foi bem claro: a Senhora é a dona da empresa? É quem gerencia os empregados? Por que se não for, eu preciso da pessoa encarregada direta com os empregados que vocês vão mandar aqui. Andréia responde prontamente: sim, eu mesma coordeno a equipe, pode ficar tranquilo. Ele responde: o teste é bem simples. Vou te dar um consultório e uma sala de internação, você vai na nossa dispensa, pegue o que quiser e vai fazer uma faxina completa. Vamos monitorar com uma camera e marcar o tempo. Após a faxina, vamos realizar um teste de contagem de bactérias e se tudo estiver aceitável, faremos um contrato de experiência. Andréia diz: — quando começo? O adminstrador responde: agora! Se quiser!
Andréia vai para o depósito do hospital, pega aqueles carrinhos de camareira de hotel e começa a escolher todos os ingredientes, lembra das suas aulas de química e seleciona muitos produtos clorados para esterilizar bem. Começa a faxina, bem meticulosa, e fica lembrando da raixa que suas empregadas ficavam quando ela ficava exigindo que fizesse assim e assado. Ela se lembra de cada chatice sua e lembrando daquele dia no shopping, pensa: — eu a foda!! Virei faxineira!! Aff, ainda bem que a Patrícia nojenta não está me vendo. Nem aquela Marinéia, isso sim é que é nome de faxineira!! Mas volta rapidamente a se concentrar no serviço quando escuta o barulhinho daquela câmera mexendo e acompanhando seus movimentos. Termina o serviço, o administrador, lhe indica um local para se higienizar e trocar de roupa e diz que o dono do hospital quer conversar com ela.
Ela toma uma ducha rápida e rezando, pensa, nossa, esse médico poderia gostar de mim... mas logo para de viajar quando alguém bate na porta. Era o administrador e a leva para a sala da presidência. Ele a deixa lá e diz: a doutora logo vai te receber! Andréia pensa: ai que azar!! Logo mulher... se ela não gostar da minha cara, nem vai rolar serviço, mulheres são muito competitivas. Quando a porta abre, Andréia quase fica sem ar.... apenas sussurra: — você!? A doutora era a Marinéia! Marinéia responde: sim, minha amiga, a macaca bv!!! Andréia fica pálida...e desvia o assunto: — Nossa, amiga, você sumiu, então virou médica mesmo, e o Matrello? Marinéia responde: — Matrello e eu ficamos juntos por anos, me ajudou demais e eu formei para medicina e ele sempre me acompanhando... quando fui me especializar em neurocirurgia, resolvei ir para a Europa e escolhi um lugar onde ele pudesse continuar seus estudos de dança! Ele é um produtor de musicais em Londres e a macaca voltou para o Brasil para abrir esse hospital! Andréia sem graça diz: — amiga , para com esse lance de macaca... Marinéia responde: claro amiga, só pra vc lembrar que quem é ofendido nunca esquece, mas para quem ofende, é bobagem. As duas riem, e Marinéia continua: — pelo menos você é uma ótima faxineira, passamos o luminol e os ambientes estão acima da média estabelecida! Você ganhou o contrato. Agora é a faxineira da macaca!!!
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