Foram mais sete dias dentro do hospital antes de Noah tomar alta. Deitado sobre aquela cama, não podendo levantar. Noah chorou durante todos dias que esteve em seu leito, dizendo o que qualquer pessoa normal diria, como, por exemplo: "Minha vida acabou!", "Nunca mais poderei andar!", "Eu vou me matar! ". E, quando ficou mais são... "Quero ir ao banheiro. ". Foi quando descobriu que estava de fraldas e se perguntou quem o trocou. A enfermeira de presilhas no cabelo era bem bonitinha.

Em seu último dia de hospedagem, por um descuido, Noah ouviu algo que reconstituíra sua vontade de viver.

—Há uma pequena chance de seu filho voltar a andar. — Dizia o médico no corredor, baixinho, com esperanças de que o garoto estivesse dormindo. — Mas não se deve tirar conclusões precipitadas. O caso do garoto é recente e o impacto foi bem feio... eu diria que dez por cento de chances de o garoto voltar a andar...

Dez por cento, pensou o garoto em sua cama, melhor do que nada.

Além de pensar sobre sua grande perda na parte de baixo e constatar de que o amigo que residia entre as pernas ainda conseguia se levantar -O que o aliviou bastante-, houve algo que preenchera sua mente, enquanto ele olhava para o teto branco do quarto. Marcy, sua namorada.

Marcy era uma garota linda de cabelos ruivos e olhos esmeralda. Bem clichê, não?! Ela usava uns óculos de armação quadrada que, na opinião de Noah, a deixava muito mais gata. Tinha intensões de ingressar em direito. Ela nunca perdia uma discussão, seus argumentos eram impecáveis!

Noah se perguntava o porquê de ela não ter ido visita-lo nos dias em que ficara no hospital. Talvez ela não soubesse do acidente, já que sua tia Patty lhe disse que, assim que receberam a notícia do acidente, saíram correndo de casa e se enfiaram no carro. Sua mãe depilava as axilas na hora e teve que puxar a cera enquanto botava o cinto de segurança... mas ela deveria ter ligado, certo?! Quer dizer, o namorado dela sumiu por três semanas, Hello?!

Quando finalmente ganhou alta, o pai do menino adentrou o quarto em que ele estava internado empurrando uma cadeira de rodas azul. Tinha desenhos de estrelas e skates ao redor, o que fez o garoto se perguntar se seus pais haviam comprado aquilo em alguma loja de deficientes mirins.

Suspenso pelos enfermeiros, Noah foi posto sobre uma cadeira de rodas e seus pés, encaixados nos pedais. Ele analisou a cadeira e passou a mão pela estrutura acolchoada do apoiador de braços. Era bem confortável, ele tinha de admitir, mas não possuía intensões de ficar sentado nela por muito tempo. Logo, logo estarei de pé, ele pensava enquanto apertava suas pernas.

O garoto foi empurrado pelos corredores por sua mãe que tagarelava e tagarelava, dizendo suas falas evangélicas, o que entediava Noah. A relação entre o garoto e Deus era de desconfiança. Noah acreditava, porém duvidava. Tinha perguntas que ainda não puderam ser respondidas, como, por exemplo, de onde Deus nasceu. Ele não se contentava com as respostas que recebia. "De lugar nenhum, querido, Deus sempre existiu"

Seus irmãos abriram a porta da entrada do Hospital para que o novo cadeirante passasse e sua mãe o conduziu pela rampa à esquerda. Mais à frente, o carro da família esperava-o de portas abertas e som ligado... adivinhe qual era o gênero musical que tocava no carro. Rock! Seu pai se amarrava em Guns'n Roses.

—Desliga este barulho! — Gritou a mulher ao chegar próxima do carro, tampando os ouvidos. A ordem foi acatada e George, o pai, saiu de seu assento e fora ajudar o filho a entrar no carro.

Posto no banco da frente, e a cadeira de rodas no porta-malas, o carro dera partida. Seu pai estava no volante e sua mãe e seus dois irmãos no banco traseiro. Tia Patty, vovô e vovó foram embora antes. Eles disseram que precisavam fazer algo importante, mas, como era de costume, foram só preparar uma festa de boas-vindas para ele e Noah sabia disso. Tinha esperanças de que Marcy estivesse lá, por isso não quis estragar a surpresa.

O carro parou em frente a uma casa amarela, que se escondia atrás de arvores bem podadas com suas copas com formato cúbico. As janelas eram de madeira e o jardim tinha várias flores multicoloridas. Quando ele já estava fora do carro sobre sua nova companheira de viagem, o garoto pusera as mãos nas rodas e empurrou-as, se locomovendo pelo caminho cimentado que cortava o jardim.

Onde deveria existir uma escada, agora havia uma rampa de madeira. Rápidos, ele pensou. Seu irmão mais velho empurrou a cadeira rampa acima e logo chegaram à porta.

Enquanto sua mãe procurava as chaves, ele respirou fundo e olhou para o teto, fazendo uma contagem regressiva. "3" A chave foi posta na porta. "2", foi girada. "1" A porta se abriu e as luzes se acenderam, seguidas de gritos de seja bem-vindo. Forçando uma expressão de surpresa, o garoto pôs as mãos na cabeça enquanto era empurrado para dentro e disse a frase esperada pelos que ali estavam

—Oh, Deus, que surpresa! -Sem pouco se importar com a pilha de presentes sobre a mesa de centro da sala, Noah vasculhou o local com os olhos ignorando muitos familiares, até encontrá-la. Marcy estava encostada na parede e rindo para um smartphone que segurava com uma das mãos. Usava shorts curtos e casaco verde-água.

Ela olhou para o lado, avistou Noah e deu seu típico sorriso de dentes brancos. Desencostou da parede e se direcionou até ele. Parou em sua frente e se agachou até ficar em sua altura.

—Bem-vindo de volta, Noahzinho.