As vicissitudes da vida
5 Inferno, digo, escola (continuação)
Assim como a chegada, o restante do dia na escola foi péssimo, tendo, vez ou outra, alguns pontinhos de felicidade, como rever Peggy, por exemplo.
As aulas, assim como antes do acidente, eram monótonas. Poucas coisas estavam diferentes do ano passado. A primeira, bem, Noah estava numa cadeira de rodas. A segunda, todos os olhares da sala caíam sobre ele. A terceira, Noah estava num nível de popularidade mais alto do que Patty Minton, a dona do colégio. Pena não ser a mesma popularidade de estar em um time da escola, ou dar uma festa de arromba. Mas sim, estar paraplégico.
Popularidade... essa palavra sempre foi presente na vida de Noah. Mesmo não sendo de clube de esportes algum, ele era bem reconhecido no colégio. Participava de diversas festas, muitas delas exclusivas para o time de futebol americano, e fora em uma delas que seu romance com Marcy começou.
Marcy estava com um grupinho de T-leaders, o qual se constituía, em sua maioria, de amigas dela. Noah ficou olhando de longe quase a festa toda, comentando com seu melhor amigo, Greg, o quão era bonita, a garota dos cabelos alaranjados. Não tendo mais paciência para o amor platônico que Noah estava começando a desenvolver, Greg foi até Marcy e a puxou, colocando sentada ao lado de Noah. Depois ele disse “Noah, garota que Noah está afim. Garota que Noah está afim, Noah. Agora, se conheçam, se beijem e transem” e foi para a pista de dança.
Depois de o último sinal bater, Noah rolou sua cadeira para fora da sala e enfrentou o tumultuado corredor, em sua “hora do Rush”. O garoto desviava de pessoas se abraçando, contornava carrinhos do pessoal de limpeza e evitava os olhares das pessoas que andavam ao seu redor.
Quando finalmente chegou à porta de saída, ele olhou para a frente e viu que o carro de seu pai já estava lá. Respirando fundo e agradeceu por não precisar espera-lo, o que o deixaria a mercê dos olhares dos outros alunos.
—Boo! — Uma voz veio de trás da cadeira e o rosto de Peggy apareceu ao lado de Noah. Ela estava com o corpo curvado sobre seu ombro e com seu cabelo cobrindo metade do rosto.
Noah abriu um sorriso para a menina.
—Como foram as aulas? — Perguntou Peggy.
—Monótonas...— Ele respondeu e empurrou sua cadeira rampa a baixo, travando as rodas para descer devagarinho. Os alunos passavam por eles assim como as águas de um rio contornam uma pedra.
—Sempre são. — Ela falou seguindo-o logo atrás.
Ao chegar no final da rampa, o garoto olhou para trás na esperança de encontrar alguém, mas era muita gente saindo de um buraco só. Encontrar uma pessoa naquele meio era tão difícil quanto encontrar um Smurf específico no meio de todos aquelas criaturinhas azuis. E detalhe, eles estando pelados!
—Procurando Marcy? —Perguntou Peggy, olhando para a porta de saída que mais parecia um formigueiro pós ataque terrorista de uma criança de dois anos, a qual tinha como arma uma mangueira jorrando água.
Noah respondeu com balançando a cabeça.
De repente, um tufo de cabelo ruivo brotou na multidão e Noah encontrou os olhos verdes que procurava. Ele quase levantou-se da cadeira, esquecendo que não conseguia. Ergueu seu braço para chamar a atenção da garota e conseguiu.
Marcy caminhou de encontro ao menino e abriu um sorriso nos lábios. Acenou para uma garota que parecia acompanha-la e parou em frente ao namorado. Claro que a garota teve de dar aquela olhada de cima a baixo em Noah, como quase todos faziam. Ele a conhecia, e gostava dela. Até porque, fora uma das pessoas que incentivou o namoro dele com Marcy.
—Noahzinho. — Ela abaixou-se e beijou a bochecha do garoto, que estava sorridente por estar com a namorada.
Marcy trocou sorrisos com Peggy e passou a mão nos cabelos de Noah, os colocando para trás.
—Como foram as aulas? — Ela perguntou e passou a mão na bochecha do menino.
Noah, que parecia estar um tanto hipnotizado, respondeu atrasado.
—Maravilhoso.
Peggy franziu o cenho olhando para o melhor amigo e revirou os olhos em seguida.
—Pombinhos, pombinhos, eu já vou indo. — Anunciou Peggy, dando passos para trás e virando-se, seguindo para o ponto de ônibus.
Noah acenou de volta, mas logo virou-se para sua namorada.
—Ah, que ótimo. — Marcy continuou falando. — Alguém mexeu com você? Pois, se o fizeram, vão se ver comigo. — Ameaçou ela, mas com um sorriso de lado, como se brincasse.
A buzina do carro soou e Noah virou-se para ver que seu pai acenava para ele, o chamando. Fora naquele momento que ele lembrou que tinha fisioterapia, a esperança mais próxima da realidade que ele tinha.
—Não, ninguém. —Ele respondeu e tentou manobrar a cadeira.
Vendo a dificuldade que o namorado enfrentava, Marcy resolveu o ajudar e empurrou a cadeira, a levando na direção do carro.
—Ótimo, ótimo.
Na presença de Marcy, tudo parecia bem daquele jeito, mesmo. Ótimo. Tudo estava ótimo. Aulas monótonas? Claro que não! Reclamar da vida era apenas com Peggy e qualquer outra pessoa. Com Marcy, as aulas estavam ótimas, maravilhosas, supimpas.
Ao chegar em frente ao carro, George caminhou até os dois e abraçou Marcy com um pouco de força.
—Marcy, que bom vê-la. Espero que ele não tenha dado muito trabalho. — Disse o pai de Noah, bagunçando o cabelo do próprio filho, como se o garoto tivesse três anos de idade e acabado de sair da creche.
Marcy apenas sorriu para o homem, o cumprimentando com um “oi, senhor Martins”.
—Então, filho, temos que ir. A fisioterapia vai começar daqui a meia hora.
—Fisioterapia? Que ótimo! — Falou Marcy, abrindo um largo sorriso. — Logo, logo estará andando de novo, não é? — havia um tom de urgência quase imperceptível em sua voz. Noah não pareceu ter notado, mas estava lá.
—Se deus quiser!!— Exclamou o pai de Noah, respondendo pelo filho.
—Sim. —O garoto respondeu mesmo assim, tendo um sorriso esperançoso nos lábios.
—Fico muito contente.
George abriu a porta do Carro e Noah preparou-se para ser levantado. O garoto foi posto sentado no banco do carona, suas pernas postas para dentro e a porta foi fechada.
Enquanto o pai do namorado colocava a cadeira no porta-malas, Marcy debruçou-se na janela e ficou encarando Noah. Ele não soube interpretar bem a expressão dela. Tinha uma mistura estranha naquele sorriso de lado, que não condizia com seu olhar.
O garoto inclinou-se e deu um beijo em Marcy, que não durou muito.
—Quero te ver andando, hein. — Marcy falou dando passos para trás, afastando-se do carro quando Senhor Martins entrou pela porta do banco do motorista.
—Você me verá correndo! — Retrucou Noah, sorrindo.
O motor do carro ligou e o veículo começou a andar.
Marcy acenou para Noah enquanto ele se distanciava, até que, depois de uma certa distância, ela virou-se e tirou o celular do bolso. Olhou ao redor e atravessou a rua com o aparelho ainda em suas mãos.
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