As vicissitudes da vida

6 Esperança: Fisioterapia


Já dentro da clínica, Noah rolou a cadeira até a recepção e parou em frente ao balcão, do seu lado, seu pai.

—Boa tarde. — George iniciou a conversa com uma das recepcionistas. Aquele homem sempre foi bom de papo. Na verdade, bom até demais... O que ele tinha de bom, tinha de excessivo. E, levando em consideração a comparação, aquele homem era excessivo até demais.

Uma conversa que poderia levar dois minutos, levou dez. Noah até colocou, com as mãos, uma perna sobre a outra e ficou encarando seu pai, que não se tocara que o filho queria dar-lhe um chute na bunda. Nem que, para isso, precisasse da ajuda de alguns médicos.

Quando a conversa finalmente terminou, Noah e seu pai foram conduzidos por um corredor até uma sala à esquerda, onde encontrava-se um senhor de meia idade.

—Doutor Harry. —Falou a mulher ao bater na porta, que estava aberta. —O paciente chegou.

Ela abriu um espaço para que Noah pudesse passar e seu pai o empurrou para dentro.

O médico, que estava sentado quando Noah entrou, levantou-se e caminhou até o garoto, estendendo a mão para ele apertar.

—Olá, garotão. Noah, certo? — O menino assentiu, apertando a mão do homem. — Muito bem. Está dois minutos atrasado, mas vou relevar. — Continuou o homem, num tom de brincadeira.

George bateu no ombro do filho e deu alguns passos para fora da sala.

—Vou estar na recepção te esperando. — Disse o homem e Noah acenou para ele. A porta foi fechada pela recepcionista, que também saiu, e o fisioterapeuta empurrou a cadeira de Noah até uma maca encostada na parede.

—Então — Falou o homem e ajeitou a maca, arrumando o travesseiro para Noah. —, acidente de carro, né?

O garoto novamente assentiu.

Doutor Harry segurou o menino por debaixo dos braços e o colocou sentado sobre a maca com certa dificuldade.

—Uhr, não sou tão novo como antigamente. —Reclamou, passando a mão nas costas.

Enquanto Noah deitava-se na maca, a porta se abriu. Um garoto de aproximadamente um metro e noventa adentrou apressado. Ele vestia uma camisa polo branca, calça jeans e sapato social. De seu ombro, uma mochila se pendia e um boné cobria seus cabelos cacheados.

—Desculpe a demora, Doutor. A faculdade fica um pouco longe daqui, ainda tive que passar em casa para tomar banho, trocar de roupas e tal. —O garoto explicou-se, andando na direção do médico. Noah ficou o observando.

—O paciente acabou de chegar, também. Você é o...? — respondeu Doutor Harry.

—Matheus. Matheus Thompson. — O garoto abriu um sorriso de lado. — Sou o novo estagiário... cheguei no começo do ano.

—Ah, sim! O da faculdade de Ohio. Certo, Matheus. Coloque sua roupa e pode começar com o paciente. Já te expliquei como é o procedimento, não já?

—Sim senhor, semana passada e retrasada, eu acho.

Matheus desviou seu olhar para Noah, que ainda o observava e abriu um sorriso de lado.

—E o que está esperando? — Perguntou o homem, depois de constatar que seu estagiário ainda estava parado no mesmo lugar. — Vá se trocar.

—Imediatamente, senhor. —Ele respondeu e desviou seu olhar, seguindo em passos apressados para uma portinha no final da sala.

...

Alguns minutos depois, Matheus saiu vestindo um jaleco branco, um pouco menor do que o de Doutor Harry. Ele ajeitava a blusa por baixo, quando levantou o olhar para Noah.

—E aí? —Matheus cumprimentou, parando em frente a maca.

Noah mexeu as sobrancelhas em resposta e emitiu um “e aí” desmotivado.

Após terminar de se arrumar, Matheus colocou as mãos na cintura e voltou a olhar para o garoto deitado, o explorando com seu olhar da cabeça aos pés. Numa mesa ao lado da maca, havia uma prancheta que o garoto pegou. Ali havia as informações sobre os pacientes com hora marcada para aquele dia.

—Noah Martins. — Matheus leu.

—Eu mesmo.

— Acidente de carro...

—Eu mesmo.

—Que irresponsável.

—Eu mesmo. — Completou Noah, abrindo um sorriso de lado.

Com um sorriso nos lábios, Matheus segurou em uma das pernas de seu paciente e a dobrou.

—Sente?

Noah balançou a cabeça, dizendo que não.

—É... foi uma pergunta idiota. —Matheus riu, ao concluir.

—Só um pouquinho. —Comentou Noah.

A sessão de fisioterapia teve início. Matheus movimentava as pernas de Noah para cima e para baixo, para um lado e para o outro. Mesmo que Noah não sentisse aquilo, se houvessem chances reais dele voltar a andar, os músculos da perna de Noah se ativariam com o passar do tempo.

Noah revezava olhares entre suas pernas e o garoto, o observando enquanto trabalhava. Já Matheus estava convicto nas pernas do menino, até que...

—Preciso tirar suas calças. — Informou o aspirante a fisioterapeuta.

—O quê?!— Noah tomou um susto ao ser tirado de seus pensamentos pelo que o garoto falou.

—As calças. — Matheus repetiu, sorrindo por causa da expressão do menino. — Preciso que tire para fazer a massagem. Se tivesse vindo de shorts, não teríamos esse problema.

Noah olhou para o garoto e respirou fundo, tirando suas calças.

—Eu vim direto da escola. — Explicou-se Noah.

Matheus puxou a calça do menino e a deixou de lado, sobre um sofá.

— E onde estuda? —Perguntou o estagiário, passando um gel nas mãos e as esfregando, antes de começar a massagem na batata da perna de Noah.

—Archbold high School.

—Ainda está no ensino médio?!— Matheus pareceu surpreso, erguendo uma das sobrancelhas.

—Sim... tenho dezessete.

—Ah, sim... tenho dezoito.

—Onde faz faculdade?

—Bom... Faculdade de Ohio.

—E é legal?

Matheus deu de ombros prosseguindo com a massagem na perna de Noah. Suas mãos deslizavam de cima para baixo apertando a pele do garoto, até que chegaram à coxa.

—Sim, normal.

—E você faz faculdade de medicina? — Perguntou Noah.

—Não, fisioterapia. Não sou tão inteligente assim para conseguir bolsa pra Medicina. Meus pais também não podem pagar por isso. Então, escolhi fisio.

—Entendi...

Matheus desviou o olhar para o rosto de Noah e depois voltou ao seu foco, trocando de perna e passando a massagear a outra.

—Não me julgue. — Disse Matheus.

—Eu não estou.

—Sim, está. Sempre que falo que não passei para Medicina, as pessoas fazem essa cara.

—Qual?

—Sei lá, a de alguém que está julgando.

Noah não estava exatamente julgando, mas refletindo sobre aquilo. Aquele garoto não tinha passado para a faculdade que queria e escolheu outra para fazer. Noah não sabia se faria o mesmo. Na verdade, ele não se imaginava não entrando na faculdade. Era um garoto inteligente. Ele queria arquitetura.

—Só estava pensando...

—No quê? — Matheus perguntou.

—Você pergunta tudo pros seus pacientes?

—...— O garoto fingiu estar pensando e fez um beicinho. — Bom, já descobri altas senhas de banco.

Noah ergueu uma das sobrancelhas, o que fez Matheus rir.

—Não, não pergunto. Na verdade, você é meu primeiro paciente. E, mesmo que não pareça, estou um tanto nervoso.

—Ah... então sou seu teste da faculdade. — Concluiu Noah.

—Basicamente. —Afirmou Matheus. — E eu ficaria bem contente se você voltasse a andar. Me daria um belo dez!

—Eu também ficaria muito feliz se eu voltasse a andar.

—Então vamos fazer você andar.

A sessão durou cerca de uma hora e meia. Quando terminou, Matheus ajudou Noah a se por sentado sobre a maca. Ele já estava vestido e calçado novamente.

—Acabou aqui, doutor. — Disse Matheus.

Harry saiu de trás de um tipo de parede que separava a mesa com computador da área das macas e olhou para os dois garotos, um sorriso leve nos lábios.

—Muito bem. Como ele foi, Noah? —Perguntou o doutor, empurrando a cadeira para mais perto da maca.

—Deu pro gasto.

Matheus sorriu de lado e pegou Noah por de baixo dos braços, o levantando.

—Podia me ajudar no meu dez, né?! —Reclamou Matheus enquanto colocava o garoto sentado.

—Hm... Ele foi bonzinho. — Falou Noah, após uma expressão pensativa. O garoto endireitou seus pés sobre os pedais da cadeira.

A porta do consultório se abriu e George apareceu.

—E aí, garotão? Já consegue sentir as pernas?

—Claro, acho que já consigo mexer os dedinhos. — Mentiu Noah, mas por uma boa causa. George abriu um sorriso tão largo que quase não coube na boca.

—Que ótimo, filho!

Noah rolou a cadeira na direção da porta e parou ali. Olhou para trás e viu Doutor Harry e Matheus. O estagiário limpava as mãos com papéis.

—Até a próxima sessão. Doutor. Estagiário. — Ele balançou a cabeça e seguiu para fora.

—Até, teste da faculdade. —Matheus respondeu.