As três da manhã

30 Primeiro Ensaio


Bianca S.

–Desculpa eu estou atrasada. — falei ainda com a respiração ofegante. Renan sorriu.
–Tudo bem ninguém vai ensaiar hoje. Ele só vai montar as coreografias. — respondeu.
–Como Rebeca está? — perguntei curiosa.
–Chateada. Com você principalmente.
–Eu juro que não tive nada haver com isso. — expliquei. — Foi a Pety.
–Porque ela faria a gente dançar juntos, nunca dançamos juntos.
–Tudo tem a primeira vez. — disse ela surgindo atrás de nós, maldita. — Venham comigo, vocês dois vão ensaiar a primeira coreografia juntos, quando Romeu encontra Julieta no baile de máscaras.
Seguimos ela pelas salas de ensaios, nós dançaríamos separados já que os outros dançarinos tinham suas coreografias memorizadas e preparadas. A peça seria apresentada daqui a duas semanas, era o tempo de memorizarmos três coreografias juntos, e outras cinco individuais. Nada para que me preocupasse, se não fosse o fato de dançar com Renan, era Romeu e Julieta. Tínhamos que ter química e principalmente confiança um ao outro, na dança. O que mais me preocupava era que depois de ler as poucas falas que tínhamos, haveria um beijo entre nós.
Encarei Pety em todos os espelhos da sala. Ela se sentou atrás de um piano branco no canto da sala, uma garota e um garoto com violinos nos esperava. O garoto era bonito.
–Bem... Primeiro quero que vocês dois ouçam música... Sintam-na. — odiava quando ela falava isso. — Lembram do quebra nozes? — como não esquecer aquela peça. — Quero que os dois dancem juntos a coreografia que quiserem.
–É impossível como vamos saber a hora de...
–Cale a boca Bianca. Dance. — cortou-me. Ela começou a tocar e os violinistas também.
Renan se aproximou na ponta dos pés. Ótimo eu não sabia dançar com alguém, apenas sozinha. Movi os braços suavemente também na ponta dos pés, ele pegou minha mão a sua e me arrepiei. Droga... Seu corpo colou ao meu, tentei fugir dramatizando uma fuga e Pety parou a musica.
–Pare! — gritou. — O que está fazendo Bianca? Você não pode fugir dele. Você vai se apaixonar, querer dançar com ele.
–Eu até conseguiria fazer isso. — falei me recompondo. — Se não fosse Renan.
–Deixe de ser estupida. — resmungou ficando furiosa. O garoto do violino piscou para mim. Tentei sorrir. — Renan é o melhor garoto que poderia dançar com você.
–Você sabe que não. — disse ele e o olhei surpresa. — Meu par seria Rebeca.
–Ah... — ela revirou os olhos. — Ela é péssima no individual. Dançando com você pode até ser boa, mas sozinha... Bianca é a correta.
–Eu não vou dançar com Renan. — cruzei os braços.
–Eu não vou dançar com Bianca. — disse ele e quase sorri por estar do meu lado.
–Então os dois perdem a vaga no Bolshoi por causa de Rebeca? Vão perder essa oportunidade pelo capricho dessa menina? Ah... Era o que me faltava. — engoli em seco, se desistíssemos perderíamos a chance de ir para a melhor escola de dança do mundo. — Existem melhores dançarinos querendo esses papéis. Desistam e o sonho de vocês vai por água a baixo. Vão beber agua e refrescar as idéias. — disse balançando a mão com desdém.
Renan foi o primeiro a sair, segui-o.
–Renan. — chamei.
–Ela é uma puta. — disse furioso. — Ela fez isso de propósito, ela sabe que eu e você não temos química alguma na dança.
–Só resta uma opção. — falei. — A gente começar a dançar junto.
–Rebeca vai nos odiar. Ela não vai suportar ver nós dois nessa peça. Eu a amo Bianca.
–Então desista, desista por ela.
–Não posso. Você não tem noção o quanto eu, me esforcei para chegar até aqui.
–Estamos entre o nosso sonho e a pessoa que amamos. — falei pensativa. — Droga.
–Isso é culpa de Pety...
–Temos que dar a ela o que ela quer.
–O quê?
Aproximei-me dele e seus olhos se arregalaram. Desde a noite com Jon, eu sabia que estava mais corajosa. Rebeca me perdoe por isso.
–Química. — falei antes de colar meus lábios aos dele. Minhas mãos pressionaram sua nuca enquanto sua língua se unia a minha. Era tão errado, eu não sentia prazer fazendo isso, tinha que fazê-lo. Quando me afastei dele, ele me olhou ainda assustado. — Vamos. Temos uma dança para realizar juntos.
[...]
Terminei de me vestir e sai do vestuário. No corredor principal o garoto do violino tocava uma melodia triste. Quando passei ele parou de tocar e sorriu.
–A bailarina revoltada. — disse ele. Parei confusa. — Muito bonito seu jeito. Você dançou bem hoje.
–Obrigado. — coloquei uma mecha de meu cabelo atrás da orelha.
–Não sei o que fez para o outro garoto, porque depois que foram beber água... Dançaram bem.
–O que está querendo dizer? — ele se levantou com o violino na mão. Fitei-o de cima a baixo. Usava calça jeans e uma camisa social branca.
–Que você é uma garota que corre atrás do que quer, não é? — perguntou ainda sorrindo. — Sou Pedro.
–Bianca. — falei desconfiando de seu interesse. — Obrigado por seu elogio, eu tenho namorada.
–Namorada? Uma garota tão bonita, lesbica.
–Que foi? Você é tão bonito que pensei que fosse gay. — retruquei. — Com licença.
Terminei meu caminho e ao passar pela bilheteria do teatro vi Rebeca. Devia estar esperando Renan.
–Beca. — falei me aproximando. Ela me fuzilou com o olhar.
–Eu não tô a fim de falar com você Bianca. — disse revirando os olhos. — Aproveita e vai dançar com meu namorado.
–Eu juro, que não fui eu que pedi a ela. — expliquei. — Pergunta para Renan, ele viu hoje que ela fez de propósito. Beca... Somos melhores amigas, essa bobagem não vai estragar anos de amizade vai?
–Não. — ela suspirou. Abracei-a. — Só se ajoelhar e pedir desculpas.
Fiz o que ela pediu, ajoelhei e ela sorriu.
–Me perdoa por tudo?
–Claro. — ela assentiu. — Agora me conta que homem delicioso era aquele com você ontem.
Essa era a Rebeca que eu conhecia. Levantei e juntas saímos do teatro. Ficamos em silêncio até chegar a um café, sentamos numa mesa do lado de fora.
–Jonathan. — falei, ela lia o cardápio.
–O quê? O irmão da... Ai meu Deus Bianca, diz que vocês transaram. — disse chamando o garçom com a mão.
–Sim.
–E? — o garçom chegou. — Foi gostoso? Ah... Garçom queremos dois chocolates quentes e dois pães de queijo. — ele assentiu e sumiu de volta. — Fala Bianca.
–Foi e o pior é que eu não me sinto culpada por trair a Talia.
–E nem devia né? — ironizou ela. — Ela te botou tanto chifre que você finalmente teve que descontar. Como ele era fala...
–Não vou falar isso.
–Bianca! Eu te conto todos os detalhes de meu romance com Renan, eu quero saber... — disse dando um chilique.
–Na cozinha. E ele é gostoso.
Ela riu.
–Eu falei que você ia gostar. Principalmente com ele.
Os chocolates e os pães chegaram.

Notas finais
Regra dos cinco. 😉