As três da manhã
14 Escondendo algo de mim
"Por favor ignore os apelos, por favor ignore os gritos. A única verdade sou eu."
Bianca S.
Acordei com uma imensa dor nas costas, dormi a noite inteira naquela poltrona de hospital desconfortável demais até para um animal ou uma cobra dormir. A única luz que vinha de fora era pouca, peguei meu celular e vi que ainda eram quatro e meia da manhã.
A enfermeira estava trocando o soro de minha mãe, e seu olhar foi para mim.
–Sua mãe vai embora hoje. — disse ela com hostilidade.
–Que bom. Recebeu alta?
–Não. — ela balançou a cabeça. — Vai ser encaminhada para o hospital público. Lá é o lugar de gente pobre e medíocre como vocês.
–Eles não vão ajudá-la. Vai ficar num corredor esperando atendimento. — levantei pedindo um pouco de solidariedade.
–O diretor já deixou ela ficar a noite toda. Não entende não é garota? Os remédios de sua mãe são caríssimos nem a rede pública tem condições de mantê-los para todos os pacientes. Procure alguém para ajudá-la, faça um empréstimo no banco! — ela saiu do quarto e eu praticamente me descabelei.
–Droga! — gritei e minha mãe se mexeu, mas não acordou. Peguei minha mochila e a joguei nas costas, meu pai já devia ter ido trabalhar.
Peguei meu telefone e guardei-o. Contei algumas moedas que tinha no bolso, davam para pegar um ônibus. Depositei um beijo na testa de minha mãe e corri pelo corredor do hospital até conseguir parar a mesma enfermeira.
–Eu vou arrumar o dinheiro, hoje mesmo. Por favor cuide dela, eu não vou demorar. — falei.
–Tem certeza ou está brincando com a minha cara?
–Eu vou arrumar a grana para ela ficar aqui e tomar quantos remédios for preciso para melhorar, ok?
–Claro. Se não pagar a conta do hospital até... — ela olhou para seu relógio de pulso. — As sete da noite, sua mãe será transferida.
–Ta. — abandonei a enfermeira para correr. Mandei uma mensagem a Rebeca para avisar o motivo para que eu faltasse ao ballet aquele dia. Ela não questionou, apenas me deu boa sorte.
[...]
–Bianca Soares. — falei ao porteiro do condomínio de casas onde Talia morava.
–Ah sim, você frequenta a casa Greyson não é? — assenti com a cabeça. — Claro, a menina Talia está em casa, chegou tarde ontem.
–Posso ir?
–Sim. — ele destrancou o pequeno portão de ferro para eu passar. O outro portão por onde os carros entravam e saíam era protegido com cerca elétrica no próprio ferro. Aquele condomínio era tão seguro e protegido que ninguém entrava a não ser com nome na lista. Até visitantes tinham que deixar os nomes antes e confirmados pelos moradores para entrar.
Caminhei pelas lindas ruas de pedras, com calçadas de mármore. Ali dentro parecia que eu estava andando por uma vila antiga na Europa, a diferença era as mansões luxuosas. O mais engraçado era que o condomínio ficava entre a zona mais agitada da cidade, perto de edifícios de comércio e prédios enormes. Ali dentro era tudo florido e verde. Eu gostaria de morar ali. Era bonito e sossegado.
A casa de Talia ficava no terceiro quarteirão. Ao lado de duas casas à venda. Não tinha portão nem grades, apenas a porta da sala. A calçada ligavam-se a ela por ladrilhos também de mármore e para chegar lá, tínhamos que atravessar o jardim da frente que não era nem um pouco bonito. Lindo com flores, árvores e até arbustos.
Toquei a campainha e aguardei Tay abrir a porta. Era ainda seis da manhã e ela não havia acordado para ir para a escola. Continuei apertando o botão, várias e várias vezes até ouvir a porta ser destrancada e em seguida a figura de Talia apareceu. Ela vestia uma daquelas camisas enormes dela que cobria-lhe a pele até o meio da coxa.
–Bianca? — franziu a testa e esfregou os olhos. — O que...
–Eu preciso de um favor.
–O que faz aqui? Que horas são? — ela deu dois passos para a frente e fechou a porta trás de si como se estivesse escondendo algo de mim. — Fala...
–Bem.. Eu, preciso de dinheiro. Minha mãe vai começar o tratamento de câncer num hospital particular e os remédios são caros e...
–Acha que eu sou banco? — ela balançou a cabeça. — Sou sua namorada não sua conta bancária!
–Eu sei. — balancei a cabeça confirmando. Acho que eu ia chorar. — Mas eu não tenho escolha!
–Claro que tem, mande ela para o hospital público onde ela ficou desde o início do tratamento! — ela passou a mão por seus cabelos.
–Eles não vão cuidar bem dela. — sussurrei já sentindo as lágrimas escorrendo. — Por favor.
– Eu não posso fazer nada, Jon administra o dinheiro da família agora, não eu. — disse. — Desculpe...
A porta abriu-se atrás dela e uma garota de cabelos vermelhos passou por ela. Usava um vestido meu, um vestido que eu havia esquecido na casa de Tay! Olhei de Tay para ela surpresa. A garota beijou-a no canto da boca e sorriu.
–Desculpa, tenho que ir. — disse. Em seguida seu olhar caiu sobre mim. — Ah... Oi!ianca
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