Notas iniciais
Espero que gostem. Me contem suas opiniões. Ah, e eu não fiz revisão ortográfica antes.

Uma forte chuva caía pelo lado de fora fazendo com que o vidro da janela tremesse e isso só deixava a jovem mais assustada. A casa estava sem energia pelo visto e a única referência de luz que tinha era os lampejos dos raios e trovões de fora. Nunca estivera ali antes e nem sabia como fora parar naquele lugar estranho.

O coração palpitava e conseguia sentir um gosto estranho na boca, talvez fosse adrenalina. Como perdera os pais sedo demais e foi criada em um orfanato, ela ouvia das monitoras que quando o medo era muito grande e a adrenalina percorria o corpo todo, era possível sentir o gosto do medo na boca. Então talvez fosse esse o gosto do medo?

Deu alguns passos em direção ao que parecia um quarto. Não conseguia ver o que estava para trás e pouco se via do que se encontrava adiante. O corredor era escuro e ela tinha a certeza de ver quadros nas paredes e conforme caminhava lentamente, sentia que eles a olhava. Ao chegar no final do corredor, se deparou com uma porta entre aberta. Nem precisou tocar para que ela se abrisse. O cômodo estava com a janela grande da parede do fundo escancarada e o vento junto com água da chuva entrava sem piedade. De pé, em um canto entre a janela e a cama de casal desarrumada estava alguma coisa. Alguma coisa não, alguém. De costas para a porta. A jovem entrou lentamente. O gosto de adrenalina na boca aumentando. Quando chegou até a cama e estava a menos de um metro do ser de costas, ela soltou uma pergunta ridícula em uma hora ridícula, mas que nem sentiu as palavras passarem pelas cordas vocais antes de serem expilas pela boca.

— Oi? Quem é você?

O choro que ela ouvia desde que entrara se sessou e lentamente o rosto começou a se virar. Era uma mulher. Ela percebeu antes de ver a face. Usava uma camisola bege manchada com sangue e o cabelo enrolado até os ombros estavam bagunçados de tal modo que no escuro pareciam uma juba.

Helena abriu os olhos antes de ver a face. O coração martelando contra o peito. O suor correndo-lhe pela testa e costas. Não estava em um quarto estranho de uma casa estranha. Estava no próprio quarto. Também não chovia lá fora. Embora fosse outubro e estivessem na primavera, em Curitiba fazia frio o ano todo. Dos 365 dias do ano, praticamente 5 deles faziam calor, enquanto os outros, estourava sua garganta com o ar tão gelado. Estava embrulhada em duas cobertas grossas, sendo uma delas de pele de carneiro. Odiava a ideia de dormir com a pele de um animal sobre si, mas infelizmente não via outra maneira. Além do mais, não podia reclamar, pois ganhara de presente. Se dependesse de seu salário, compraria várias cobertas de lã fina.

Olhou ao seu redor, ofegante. Tudo em ordem. O guarda-roupa velho que comprara em um pregão perto de casa assim que se mudara estava ordenado, porém com as portas abertas. Ela sempre deixou mesmo sem saber o motivo real. A porta do banheiro fechada e trancada como deveria estar. Não era de seu costume levantar a noite nem mesmo se fosse uma emergência intestinal, mas era a primeira vez em anos que tinha pesadelos e nunca soubera lidar com eles.

Quando pequena e tinha alguns, não se mexia na cama. Ficava olhando para os outros beliches com as outras meninas dormindo plenamente. Em cada canto escuro do cômodo era como se um demônio enorme estivesse ali para engoli-la e arrasta-la para o inferno. No outro dia, contava para as tutoras que lhe davam um pouco de carinho e logo voltavam a fazer o que precisavam e sempre diziam que não se passava de um sonho. Que aquilo não era real, embora algumas vezes parecia tão verídico que chegava a passar mal e acordar da mesma forma que estava no sonho. E isso, para uma criança de dez anos não era nada tranquilizador.

Levantou-se e foi até a cozinha que por incrível que parecesse também estava em completa ordem. O escorredor de louça no seu devido lugar em cima da pia com as coisas do jantar secando, a geladeira fazendo o tradicional ronco insinuando que estava em funcionamento e o fogão em um canto com um pequeno armário ao lado. Encheu o copo com a água da pia e voltou para a cama.

Deitou-se novamente e ficou um tempo olhando para o a laje. Porque estava tendo pesadelos daquele tipo só agora? Um dia conseguiria esquece-los como fez com os de quando era criança? Tinha algum significado naquilo tudo ou era apenas coisa da sua imaginação? Se intrigava sim porque no dia seguinte era o seu vigésimo aniversário e por algum motivo desconhecido, pesadelos estranhos começaram a acontecer. Com certeza, contaria para Lucas assim que possível.

O sonho que teve quando conseguiu pegar no sono de novo também não foi nada agradável. Ela se viu na mesma casa que antes. Dessa vez como sabia o que viria, tentava acordar, mas era como se algo te prendia ali. Quando chegou no topo das escadas, no lugar de virar a direita e ir até o quarto em que foi antes, virou a esquerda. Não atravessou o corredor lentamente como antes. Foi como se estivesse em uma esteira e só parou quando atingiu com toda a força o quarto oposto ao outro. Lá dentro, a mesma mulher estava deitada no chão, inconsciente.

O tempo pareceu parar e teve a sensação de horas terem se passado até que ela se mexesse. Deu um, dois, três passos e a janela se abriu com toda a força. Um vento quente entrou com tanta força que a sentiu-se sendo atravessada por ele. Como um fantasma. A mulher deitada no chão começou a ser arrastada para trás dela, porém não conseguia virar e ver o que tinha atrás. O vento continuou forte até que ela foi arremessada para fora do cômodo. Atravessou o corredor e caiu no quarto de antes.

A mulher que fora arrastada continuava parada no canto, exatamente como antes. Levantou-se e mesmo contra sua vontade, caminhou lentamente para próximo da estranha que lentamente começou a virar o rosto. E pela segunda vez naquela noite, Helena Brook, acordou de um pesadelo.

Quando acordou, o dia estava nublado e chuvoso. No fundo tivera esperança de que não ficaria assim, pois era seu aniversário e a última coisa que queria era um banho de uma poça d’água de um carro. Tomou uma ducha quente e se arrumou para mais um dia de trabalho no fast-food.

Novamente sua roupa estava cheirando a comida e óleo de fritura. A pior parte de se trabalhar em um restaurante. Uma mensagem de texto de seu melhor amigo, Lucas estava avista no visor do telefone. “Hoje é meu dia de folga, pode passar em casa depois do trabalho?”, dizia a mensagem. Ela olhou, leu e releu antes de responder que passaria.

Toda a sua vida sempre teve entusiasmo pelo seu aniversário. O único dia em que todos lembravam de você por coisas boas que fizera, ou simplesmente pensavam em você. E sempre tinha comida, a melhor parte, bolos, salgadinhos ou rodízios de pizzas. Além dos presentes, é claro. Contudo, era uma coisa interessante que quando se é criança, acaba recebendo uma quantidade absurda de presentes, porém conforme vai crescendo e ficando velho o máximo que conseguira ganhar é um vale da Netflix ou do Uber.

A infância de Helena não foi nada cheia de presentes. Pelo contrário. Ganhava um bolo da casa onde morava e pronto. Algumas cartas das outras crianças com rabiscos que se pareciam com desenhos e palavras curtas e fofas que ela sabia que eram da boca para fora, porque é impossível uma criança sentir tudo aquilo entendendo tão pouco do mundo. Enquanto isso, Lucas que tivera e tem uma família, ganhava no mínimo três presentes no dia do aniversário. Quando tinha onze anos, talvez isso fizesse diferença e a incomodaria, só que hoje, nem um pouco. Até preferia não ganhar presentes. Menos tranqueira para guardar.

Hoje, porém, não se importava tanto com o aniversário. Era só mais uma data em que tinha que se lembrar de que estava ficando mais velha e como sua vida estava uma merda por ter vinte anos e nem uma faculdade ter começado ainda. Especialmente depois dos acontecimentos da noite passada. A mansão, os gritos, choros, a mulher... Odiava ter pesadelos e sempre que os tinha levava quase uma semana para conseguir supera-los. Esses então, poderiam chegar a duas quinzenas.

Seria um dia entediante, era o que pensava. Sempre era quando Lucas estava de folga. Raramente ambos conseguiram folgas simultâneas para poderem ir a uma balada e se divertir, ou ficar em casa comendo sorvete e vendo um filme idiota. Lucas era a única pessoa com quem conversava no trabalho. De vez em quando com uma garota chamada Larissa que era muito estranha, mas gente boa. Nada mais do que cumprimentos e um pouco de assunto sobre o tempo, ou sobre o que aconteceria de bom na capital nos próximos dias. De modo geral, quase ninguém gostava de trabalhar ali, todavia precisavam do emprego, então não podiam ficar reclamando mais do que necessário. Sendo assim, quase não se faziam amigos que durassem. As conversas nunca passavam de necessidade de trabalho.

Como havia previsto, nada de interessante aconteceu naquele dia. Estava tão entediada que até ficou stalkeando algumas pessoas no facebook na hora do almoço. Quando o outro funcionário chegou para substitui-la, fez como o combinado e foi direto para a casa de Lucas.

Pegou dois ônibus sendo que entre um e outro teve que desembarcar em um dos terminais. A vantagem de morar em Curitiba era que existia um transporte coletivo para qualquer lugar que você quisesse ir de qualquer terminal praticamente. Se errasse o ônibus era só descer no primeiro terminal e trocar para o lugar certo sem problemas.

Por sorte, existia um ponto na frente da casa do amigo e foi nesse que ela desceu. Era um pequeno prédio de dois andares com uma garagem em baixo, próximo a um dos campi da federal do estado e por isso o aluguel costumava ser mais em conta.

— Quem?

— A diva mais diva que você já conheceu. — Respondeu ela rindo e logo em seguida o estalo do portão abrindo.

Como se tratavam de dois andares, obviamente não possuía elevadores e foi obrigada a subir as escadas. Desde que viera a primeira vez na casa de Lucas, logo depois que começaram a trabalhar juntos, ela conseguiu identificar o apartamento dele pela plaqueta na porta. Ele tinha um darth vader pendurado.

Helena tocou a campanha, mas ninguém respondeu e nem abriu por um tempo. Suspirou impaciente e forçou a fechadura, descobrindo que estava aberta. As luzes estavam apagadas e nem se tocou do que se tratava até ascender e ver balões espalhados pelo chão, alguns colocados nas paredes, um bolo grande de mousse de maracujá – o seu preferido – nas mãos do amigo e um par de velas sinalizando 20 pegando fogo.

— Feliz aniversário! — Gritou Lucas subitamente.

Helena gritou com o susto e logo em seguida os dois puxaram uma risada longa e gostosa. Involuntariamente ela fechou a porta atrás de si, ainda absorvendo o que estava acontecendo.

— O que é tudo isso? — Questionou, incrédula.

Ele a abraçou por um tempo bem aperto depois de colocar o bolo na mesa.

— Faça um pedido e assopre as velinhas.

E ela o fez. Levou alguns instantes para raciocinar o que realmente queria, mas estava decidida naquilo. Desejou o passado. Que tudo fosse como um espelho, uma projeção ou qualquer coisa que no futuro lhe mostrasse o passado. O que realmente aconteceu com os pais na noite em que morreram, porque os corpos nunca foram encontrados, porque ela nunca teve parentes, onde estaria seus tios, avós, primos. O que era todo esse mistério em cima da família. Era a única coisa que queria agora e sempre quis, desde que era menina.

— Amigo, não precisava disso tudo. — Falou ela quando voltou a si depois que a pequena fumaça subiu quando as chamas se apagaram.

— Claro que precisava. Você merecia uma virada de década.

— Como assim virada de década?

— Ué, você fez vinte anos, certo? Passou da segunda para a terceira década.

Helena não tinha parado para pensar naquilo. Duas décadas de vida e uma inteira sem os pais. Era triste pensar naquilo, contudo decidira não o faze-lo no dia de hoje. Seu melhor – e único – amigo lhe prepara uma festa incrível e não deixaria o passado lhe atingir agora.

— Vamos comer o bolo? Eu estou morrendo de fome. — Disse Lucas e saiu para o pequeno cômodo da cozinha do flat com os cabelos escuros voando com o vento. Alguns instantes depois e ele voltou segurando uma espátula de bolo prata. Helena cortou o primeiro pedaço e entregou para o amigo. Depois que pegou o seu, sentaram no sofá da sala e colocaram outro episódio de Gossip Girl. Combinaram de sempre assistirem juntos, pois era uma das series preferidas deles.

— Esse bolo estava maravilhoso. — Comentou ela comendo o último pedaço. Como sempre, ambos comeram a bandeja inteira. Era quase uma tradição entre os dois. Nunca permitir que comida sobrasse.

No fim, era quase três da manhã quando decidiram ir dormir, pois no dia seguinte nenhum deles estaria de folga. Muitas vezes Helena dormia na casa de Lucas e ele na dela. Muito provável era isso que fazia com que a amizade dos dois continuasse tão forte. Sempre estavam juntos de uma forma ou de outra.

Outra tradição que acabaram criando com o crescer da relação era todos os finais de semana passarem juntos vendo seriado e comendo brigadeiro e uma vez a cada dois meses irem a alguma balada para se divertirem.

— Estou pensando em pedir demissão. — Anunciou Lucas quando estavam deitados no chão da sala prontos para dormir.

— O que? Porque?

— Quero mudar de vida, Helena. — Respondeu ele com um tom melancólico. — Estou cansado desse ciclo do trabalho. Quero ir para longe, fazer coisas novas, conhecer lugares novos...

A ideia lhe bateu no peito, pois nunca pensou que poderia ficar longe do amigo. Ele era sua única família.

— Mas como você pretende fazer isso?

— Não sei ainda. Acho que vou pegar a grana que tenho no banco e comprar uma Kombi. Sair viajando pelo mundo.

— Como um hippie?

Os dois riram por um tempo antes de continuar a conversa.

— Sim. Deve ser maravilhoso.

— Não faz muito meu estilo Lucas, isso quer dizer que vamos nos separar.

— Não necessariamente.

— Como não? Eu não vou conseguir te acompanhar nas viagens...ainda mais em uma Kombi.

— Qual o problema com a Kombi?

— Nenhum, é só que...

Na verdade Helena se recusava a pensar em um momento em que não veria Lucas perto de si. A relação dos dois não era a mesma que a de um casal de namorados e nem a de irmãos, mas era muito próxima disso. No fundo, sentiam ciúmes um do outro e a ideia do amigo distante, viajando e passarem dias sem se ver mexia com os sentimentos dela.

— Vamos dormir, pode ser? Eu estou cansada.

No outro dia cedo, Helena levantou primeiro que Lucas e foi direto para a cozinha preparar um café da manhã para o amigo, como uma recompensa pela festa de aniversário do dia anterior. Foi até a padaria, buscou pães fresquinhos e uma geleia de uva que ela sabia ser a preferida do pisciano. Quando o café terminou de coar, acordou Lucas com uma batia forte de duas tampas de panelas. Ele gritou com o susto.

— Filha da...

— Olha a boca! — Brincou ela. — Vem, vamos tomar café antes de sair para trabalhar.

— Já vejo comida o dia inteiro e você quer que eu coma. — Zombou Lucas se levantando e espreguiçando.

— Bom Apettit.

Levou alguns instantes até que ele saísse do transe que lhe atingiu ao ver a pequena mesa da pequena cozinha farta de coisas.

— Da onde tudo isso surgiu? — Questionou ele.

— Acordei mais cedo e fui na padaria.

Lucas arregalou os olhos.

— Helena a padaria mais perto fica a vinte minutos daqui.

— Eu sei. Mas não tinha nada para comer nessa casa além de macarrão instantâneo então eu fui obrigada a ir comprar algo. Ou você queria macarrão sabor galinha caipira para o café da manhã?

Ele riu e os dois se sentaram para comer. Acabaram atrasando vinte minutos por conta da quantidade de comida e dos assuntos sobre os colegas de trabalho que foram surgindo e saíram de casa faltando apenas quinze minutos para baterem o ponto, o que logicamente acarretaria um atraso de no mínimo trinta minutos.

— Alisson vai nos matar. — Falou Lucas quando entraram no ônibus.

— Não vai não. Eu invento uma história de que ontem saímos para comemorar meu aniversário.

— Do jeito que ele é vai ignorar e descontar do nosso salario.

— Eu dou um jeito nele, não se preocupe. — Retrucou Helena. Lucas a olhou com um olhar sarcástico e ela na hora sacou o que ele estava pensando. — Não nesse sentido Lucas.

Quando estava dentro do ônibus passando pelos prédios da cidade e de vez em quando em alguns comércios, parou para pensar pela primeira vez desde da noite anterior nos pesadelos que tivera. A mansão, a mulher, a força sobrenatural que não lhe permitiu abandonar o sonho. Como tudo aquilo era possível e o que ela tinha haver com aquele lugar e aquela mulher?

Pegou-se perguntando para si mesma se teria alguma ligação com os pais ou algum outro parente, porém, não fazia sentido. Até onde sabia, seus pais eram pessoas humildes que nunca tiveram muito dinheiro, o que seria impossível morar numa mansão daquela. Outro ponto ascendeu-se em sua mente: Será que todos esses anos contaram-lhe a história errada? E se ela pertencesse a uma grande família com uma fortuna cheia.

O pior também foi ter que ver o sofrimento daquela mulher. Nunca a vira antes na vida, mas sentira tamanha compaixão.

O pesadelo a seguiu até a hora em que o som metálico e gravado do ônibus anunciou a próxima parada e ela e Lucas desceram do biarticulado. Estavam exatamente na frente do restaurante. Alguns carros já estavam no drive-thru fazendo seus pedidos e outros clientes se acomodavam nas mesas do interior do ambiente com seus lanches grandes e gordurosos com um pedaço moído de animal dentro para comer como se tudo estivesse bem.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.