As três da manhã
7 Três da manhã
"Os olhos de alguém mostram o que ele é, e a boca representa aquilo que ele irá se tornar." John Galsworthy
Jonathan C.
A ruiva foi a primeira a chegar, mal abri a caixa de pizza e já estava por cima dela pegando seu pedaço com as mãos. Deus sabe onde aquelas mãos estiveram e eu não estava afim de comer a pizza depois disso.
Abri o refrigerante de dois litros e comecei a encher três copos. A ruiva se sentou na bancada, de pernas abertas como se a casa fosse sua. Ela era tão ingênua que não percebia cada movimento que fazia.
–Onde está minha irmã? — perguntei sentando numa das banquetas de vidro observando-a. Suas pernas se cruzaram com a proximidade.
–Falando com George. — disse enquanto mastigava. Poderia ter sido nojento se ela não fizesse aquilo naturalmente. — Você parece um cara legal, até pediu pizza. Isso é para reconquistar o afeto de sua irmã?
–Não, é para conquistar o seu. — respondi sem tirar meus olhos dos dela. Ela corou novamente como se estivesse fazendo algo errado. Parecia tanto Duda... — Então como se conheceram?
–Na escola. Éramos amigas, e percebemos que queríamos mais que isso. — contou sorrindo.
–Você ainda estuda? — perguntei confuso. Já que pelo visto ela não tinha ido para a escola de Talia hoje.
–Não... Estou só dançando e curtindo os bons momentos. — disse balançando os pés.
Fiquei surpreso. A garota era burra e além disso trouxa de sair da escola.
–Vai trabalhar de quê, sem estudo? Gari? Vai viver de que dinheiro?
–Eu casando com sua irmã é o que importa. — só faltava essa. Queria se casar com Talia, para que os milhões de nossa família a sustentassem. Vadia.
–A questão é, será que ela se casaria com você? — ela engoliu o ultimo pedaço de pizza e me encarou confusa.
–E porque não? — Talia entrou na cozinha vestida como uma verdadeira mulher. Seu olhar encontrou o meu.
–Uau! — exclamei. Havia me pego de surpresa, e eu não ia dar esse gostinho à ela. — Porque você ficaria deserdada. Ninguém, muito menos eu aceitaria que assine algum papel.
Bianca fez uma expressão de ofendida e Talia sentou-se ao seu lado na bancada de mármore. Sorte que não era eu que limpava aquilo se não já as tinha tirado dali.
–Você não pode fazer isso. — disse Talia.
–Não só posso, como toda a família aprovaria isso. A sua herança ainda pertence a nossa avó esqueceu? A velha pode muito bem mudar de ideia de repente. — respondi satisfeito. Seus olhos se estreitaram, Talia sabia que era verdade.
–Então é por isso que se odeiam, uma briga tola por herança? — se intrometeu Bianca, trocando o olhar de Tay para mim.
–Não quero o dinheiro de meus pais nem de meus avós. — disse Talia a olhando furiosa. — Não sabe o que diz.
–E você sabe? — interrompi. — Na nossa família não existe homossexuais. Case-se com essa ruiva e nem Greyson terá em seu nome.
–Já sei porque se odeiam. — sussurrou Bianca como se não estivéssemos ali.
–O problema não somos nós Jon, é você. Como uma pessoa pode ter tanto prazer em fazer da vida dos outros um inferno? — cuspiu cada palavra com raiva. — Primeiro nossos pais e agora eu? O que ganha com isso?
–Como as duas, vão ter filhos? — perguntei sarcástico. — Com o dedo?
–Adoção. — respondeu Bianca e dei de ombros. Nada do que dizia tinha importância.
–Como serão vistas na rua? Nem uma igreja poderão frequentar! Só estou preocupado... — ok eu estava sendo irônico.
–Eu não sei qual o motivo ou o quanto isto vai favorecer você. Porque quer nos separar? — perguntou Talia inclinando-se. Ela sempre foi boa em discussões, nessa horas tinha meu sangue.
–Eu não quero nem vou! — levantei as mãos como se me entregasse. — Só estamos conversando.
–Vai se foder Jonathan. — Talia se levantou. — Eu sei o tipo de conversa que você gosta. — saiu de lá, seguida por sua namoradinha que antes de desaparecer me lançou um olhar de pena. Acabei rindo, ela não precisava ter pena de mim e sim de minha irmã. O que eu estava fazendo era apenas o começo.
Após algumas horas estressantes na frente do notebook escrevendo e respondendo e-mails para os sócios e investidores da empresa, senti sono e uma imensa dor nas costas. Subi para dormir e lembrei-me que as duas não haviam jantado direito, foi só eu fechar e trancar a porta do quarto de meus pais (que agora me pertencia) para que quatros pés agitados e desesperados corressem para o andar de baixo. Estavam famintas, mas não iam jantar comigo as observando,era uma questão de orgulho principalmente para Talia.
Não sei quanto tempo dormi, quando abri os olhos ainda via pouco devido a escuridão então calculei que fosse tarde. Peguei meu celular e as horas demostravam isso, três da manhã. Ouvi passos e deduzi que a pessoa não quisesse fazer barulho. Se fosse Talia teríamos uma ótima conversa sobre sua péssima escolha, mas se fosse sua namoradinha seria ótimo brincar um pouquinho. Pulei da cama disposto a seguir os passos, não importando-me com o fato de estar apenas de calça de moletom.
Quando cheguei ao andar de baixo, a figura esguia entrou na segunda e então soube só poderia ser Bianca. Ela me lembrava tanto Duda, que não sabia se queria afastá-la de minha irmã ou mantê-la comigo. Ao entrar na cozinha escura, ela bebia um copo de água e quase o derrubou quando me viu.
–Ai ! — pôs a mão sob o peito. — Me assustou.
–Você que me assustou. — respondi aproximando-me. — O que faz acordada?
–Perdi o sono, pensando nas possibilidades de vocês se entenderem.
–Eu e minha irmã? — acabei rindo de sua cara. — Você é trouxa ou o quê? Jamais nos entenderíamos.
–Só me diga, porque se odeiam a ponto de um querer matar o outro. — seus olhos verdes encontraram o meu com a pouca luz que vinha da lua que atravessava as janelas.
–Simples. Eu fiz algo terrível com ela. Ok? — sorri. — Só que... Eu não me lembro entende, então não sei por que tanto ódio.
–Você faria isso de novo? Essa coisa terrível?
–Bianca. — estava tão perto que podia sentir o seu cheiro. Ela caminhou para trás e ficou encurralada com a geladeira atrás de si. — Eu posso, e sou capaz de fazer tudo. Inclusive uma coisa terrível. — avistei uma faca na bancada ao meu lado. — Até com você...
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