Talia C.

Atravessamos um longo corredor. Rebeca carregava consigo o que seria a roupa de Bianca nos primeiros atos do musical. Parou na frente de uma porta escrito protagonista. Ela entrou, esperei.

–Talia ta aqui. — disse e Bianca soltou um gritinho de alegria. Como ela era falsa. Rebeca saiu sem as roupas na mão. — Pode entrar. Ah... Ela tem que estar pronta em dez minutos.

–Ok. — falei antes de entrar e fechar a porta.

Pela primeira vez tive um pouco de orgulho de vê-la vestida de Julieta, seus cabelos ruivos estavam soltos e bem cacheados. O comprimento chegava a cintura, vestia um tutu vermelho e um corpete tão apertado que seus seios saltavam um pouco para fora. Sorriu para mim, percebendo que eu a observava pelo espelho do lugar.

–Que bom que veio. — disse animada. Sentou-se num banquinho de madeira e começou a calçar suas sapatilhas. — Eu estou tão ansiosa. Você sabe, treinei essas duas semanas como uma louca para chegar a perfeição.

–E seu par? — perguntei curiosa.

–Renan? Foi difícil no começo nos entrosar, tive até que beijá-lo, você não liga né amor? Eu não senti nada por ele nem sinto. Rebeca o ama.

–Você não se sente culpada? — perguntei curiosa. Estava me sentindo como Jon. Pronta para dar um golpe baixo. — Fazer os dois terminarem por isso?

–Não. Rebeca vai superar. — disse sorrindo e respirando profundamente. — Esse papel é o meu sonho e depois dele tantas portas se abrirão para mim. Inclusive o Bolshoi.

–Ela sabe?

–Não. — ela terminou o laço de sua sapatilha. — Me ajuda com os acessórios?

–Claro. — sorri cinicamente, ela não percebeu. Fechei o colar de prata ao redor de seu pescoço. Ele tinha um pequeno pingente em forma de T . — Você realmente me ama?

–Mais que tudo. — disse colocando seus brincos. Virou-se de frente para mim. Como ela era linda. — Tudo bem amor?

–Tudo. — falei. Eu estava chorando e ela limpou minhas lágrimas com as mãos. — Estou chorando de alegria.

–Ah... — ela me beijou. E nesse misto de alegria e tristeza me lembrei de Jon. Foi por causa dele que eu estava quase terminando tudo, chutando o balde e estragando a vida de Bianca. — Eu te amo, vamos casar e adotar todas as crianças do mundo. Lembra ?

–Lembro. — sussurrei recuperando-me. — Realmente me ama?

–Se eu não te amasse, não estaria com você. Por que eu ia querer outra pessoa? — ela sorriu.

–Para o sexo. — tomei coragem. — Tipo Jon. — ataquei.

–O quê?

–Pensa que eu sou burra? — gritei. — Ele não gosta de você, apenas te usou. Ele não ama ninguém além dele, você foi apenas a diversão dele.

–Como descobriu? — seu rosto ficou pálido.

–Ele me contou. Por que se não fosse, eu jamais saberia que estava namorando uma vadia! Confiando na pessoa errada. — gritei. Em seus olhos brotaram lágrimas, do que adiantava aquela choradeira toda. Ambas chorávamos. — Não existe mais casamento, crianças nem felicidade ao seu lado.

–Você também me traiu com George. — disse ela. — Lembra?

–Eu te contei e você disse que não se importava. Agora meu irmão? — gritei. Agarrei seu pescoço e puxei com toda a força sua corrente, a corrente que eu havia lhe dado até arrebentar. A prata caiu no chão junto com nossas promessas vazias.

–E daí? Você pode me trair e eu não posso te trair? — indagou. — Fala...

–Com Jon não. Podia ser até com o namorado da Rebeca, já que você o beijou podia muito menos dar para ele. Agora Jon... Ele não. — falei. O gosto salgado das lágrimas por minha boca.

–Por que você o odeia? Ou é totalmente apaixonada por ele? — seus olhos se arregalaram. — É isso, você é louca por ele.

–Cala a boca você não sabe de nada.

–Eu tenho nojo de você Talia. Nojo. — cuspiu no chão. — Você ama seu irmão, isso é incesto sabia? Ah... Aquele estupro você deve ter adorado.

–Cala a boca eu já mandei. — gritei de volta.

–Isso é doentio... Vocês são irmãos, mesmo sangue mesmos pais. Você é escrota por trocar o meu amor pelo dele. — A porta do camarim foi aberta e Pety entrou nos olhando furiosa.

–Quem trocou amor algum aqui, foi você. Só que se deu mal, Jon jamais vai te amar.

–Claro. Ele vai estar ocupado retribuindo o amor doentio que você sente por ele.

–O que está havendo aqui? — perguntou. — Parem de gritar, não estão na casa de vocês. Talia fora! — gritou Madame Pety apontando para a porta. Antes de sair ainda me virei para fuzilar Bianca com o olhar. Ela se tornou uma vadia. E das piores.

Ao sair vi Rebeca do lado da porta chorando baixinho. Droga, ela havia ouvido tudo.

–Rebeca ta tudo bem? — perguntei.

–Obrigado por me fazer ver a cobra que eu tinha como amiga. — disse ainda chorando.

Dei de ombros e voltei para a platéia. Jon estava sentado e quando me viu acenou. Ele realmente estava sentado na primeira fileira, como eu havia pedido.

–Tudo bem? — perguntou me olhando preocupado.

–Esta. A gente terminou. — sussurrei.

–Relaxa. Vamos ver a peça ta?

–Claro com ela sendo a protagonista vai me animar muito!

Ele piscou e foi tão sexy e engraçado que tive de rir.

–Vamos? — perguntou. — Vai ser divertido.

–Ta. — concordei. — Vamos vê-la dançar.

O que dizer de tudo? Foi lindo. Eu que nunca gostei de ballet, apenas fiz alguma aulas para agradar minha mãe, gostei. Bianca apareceu pouco e no que apareceu todos apreciavam-na, no ultimo ato quando Romeu morre por ela, e Julieta desperta encontrando-o morto, ela me viu. E talvez o choro e a triste dança que fez fosse mais para mim do que para seu próprio papel, ainda na ponta dos pés fingiu espertar uma adaga em seu coração, as luzes piscaram e lentamente ela foi caindo ao lado do corpo de Renan. Todos ao meu lado choravam, Jonathan bocejava de tédio.

As luzes se apagaram e depois de alguns segundos, os dois reapareceram com outra roupa, ambas brancas e dançaram juntos. Bianca continuava triste, mas ninguém a não ser eu percebeu isso. Levantei-me antes que tudo acabasse sendo seguida por Jon para fora da sala de espetáculos.

–Eu odeio aquela vadia. — murmurei para Jonathan que sorriu. — Como ela conseguiu dançar lindamente depois de tudo?

–Calma. — eu estava praticamente correndo para fora do teatro. — Vem, vamos para o carro.

Deixei que ele fosse na frente.

[...]

–Ai que raiva! — gritei entrando na sala e chutando a mesa de centro. — Aposto que ela vai abrir as pernas para o diretor daquela peça, lhe dar outro papel.

–O que você fez?

–O que eu fiz? — me virei furiosa para ele que se arrependeu em seguida de ter me perguntado algo. — Eu entrei lá, e praticamente joguei todas as verdades na cara daquela infeliz. Daquela vadia!

–Eu devia ter ficado calado. — sussurrou.

–Você fez certo. — falei enquanto ele se aproximava de mim. Não me movi. — Mostrou a puta que eu estava namorando.

–Ela não merece tanto ódio.

–O que? Vai se fazer de bonzinho com ela? Logo você que adora estragar a vida das pessoas? — eu não acreditava.

–Não... — ele pegou em minha mão. Não a puxei. — Eu só vou ser bonzinho com você a partir de agora entendeu?

–Então vai me ajudar a destruir a vida daquela vadia?

–Muito melhor. — seu rosto ficou tão perto do meu. Seus olhos azuis encontraram os meus e ele sorriu. — Ela mesmo vai destruir sua própria vida.

Nisso ele tinha razão.

–É... Vamos esquecê-la. — olhei para a TV. — Filme?

–Sim. — disse se jogando no sofá. Acabei rindo.

Notas finais
Vou postar os últimos três. Acabar de uma vez isto.