As testemunhas - O lado mais sombrio
5 Malakai - Guardião
“eu te guardarei na tua entrada e na tua saída, desde agora e para sempre” salmos 121:8
Malakai
Ela não conversou nada durante todo o trajeto até o colégio são Paulo, e eu a entendia como sempre e desde sempre eu a entendia, havia um buraco no seu peito e no lugar onde havia um coração agora só existia a dor, eu não pude proteja-la, eu não consegui salva-la da pior dór que alguém pode sentir na terra, eu a perdi por isso.
Mal havíamos chegado no portão do colégio e já ouço os gritinhos estridentes da sua melhor amiga Jessica, eu ia me despedir, mas fui atrapalhado pelo barulho irritante que meninas fazem quando não se veem a seis meses, então ela entrou no pátio e eu a fiquei olhando até perde-la de vista.
— Sabe que ela nunca vai ficar com você, — o Diego era algo mais próximo que pude chamar de irmão desde que meus pais me largaram na varanda de uma porta qualquer.
— A Diego cala a boca – mas na maioria das vezes ele era o que os jovens chamavam de “ pé no saco”, mas era um pé no saco que tinha razão, mas era meu irmão, não exatamente meu irmão, quando se cresce sem família sua concepção própria de irmão é meio pobre, mas todo mundo achava que éramos irmãos e eu gostava disso apesar de não termos nada em comum, ele era ruivo de cabelos espetados enquanto eu moreno de cabelos lisos, eu acho que o problema do Diego sempre foi achar que morreria no dia seguinte então ele vivia cada dia como se fosse o ultimo e eu bem eu não tinha tempo para viver.
— Só estou dizendo – disse ele – que enquanto ela estiver com o Alex você não tem nenhuma chance.
Aquele nome me dava náuseas, ele era só o jogador número de futebol da escola que convidou ela para o baile, e eu fiquei olhando enquanto eles dançavam anoite inteira sobre o som de Only Hope.
— Eu tenho que ir – Eu não tinha que ir só precisava ver como ela estava.
— Vai lá, mas não esquece de balançar o rabinho, ela deve adorar isso.
— Te vejo na aula.
— Fale por você, eu vou puxar uma atrás da quadra – eu não estava brincando quando disse que ele era louco.
— Porra Diego achei que você tinha parado com isso.
— E eu parei só que hoje é segunda e eu odeio segundas – disse por cima do ombro enquanto ia embora.
— Eu vou estar te esperando aqui de frente quando tocar o sinal – gritei, e ele acenou a mão como sinal que tinha escutado.
Não era difícil de encontrá-la, estranhamente eu sempre sabia onde ela estava, agora percebo que não é tão estranho como parecia a seis meses atrás, ela estava ao pé da escada para o segundo andar ao lado do bebedouro em cima tinha uma faixa vermelha com fontes gigantes em negrito SOMOS CAMPEOES uma frase de incentivo aos vestibulandos, lembro que era um dos nossos sonhos favoritos e hoje não faz mais sentido para mim.
— oi – eu nunca gostei de grupinhos de escola, ela também não, eu me afastava e evitava-os, ela os contratava-os.
— oi – disse ela – antes que pudesse falar mais alguma coisa sempre era atrapalhada por pessoas dizendo que sentiam muito e estavam com ela, mas eles não sentiam, e tão pouco estavam com ela.
— Oi Kai nossa o que houve com você levou um choque olha o seu cabelo – essa era paloma uma das amigas que acompanhavam elena.
— oi paloma acho que vidro aberto não combina comigo, e você como esta?
— além de ser a única filha do pastor da cidade a estar gravida na adolescência, estou ótimo – ela sorriu
— ai isso é mal, mas organizada como você é aposto que planejou tudo.
— sabe como é tudo planejado, temos que ir para a aula a me convida depois pra dar um role no seu carro pode me levar pra onde você quiser – e deu uma piscadinha de olho enquanto empurrava elena e Jessica até a sala.
— elena – gritei
— Te vejo na saída – gritou ela enquanto era arrastada.
O dia passou horrivelmente lento aquele dia, aulas inúteis com lições inúteis, as vezes me pegava no devaneio do tempo e me pegava pensando nela, pensando em como seus cabelos negros se dobravam em formato do seu rosto branco dando contraste com seus lábios vermelhos, e me lembrava também daquele dia a seis meses atrás, tudo ainda estava fresco na minha memória, ela nunca iria me perdoar por isso, eu nunca me perdoei pelo que fiz.
Eu fiquei por uma hora encostado ao carro a esperando, até que o sinal tocou, e finalmente começaram sair como um formigueiro que se taca fogo, um a um eu a procurava em cada rosto então a vi saindo no portão ela estava com o Alex e senti um calafrio na barriga aquela mesma sensação que sentia quando ela estava com ele e era horrível, ela o abraçou e o beijou, eu senti náuseas, ele tinha um metro e oitenta e cinco forte e o jogador número um da escola, Diego tinha razão eu não tenho nenhuma chance contra ele, ela veio até mim.
— Vamos?
— Você viu o Diego por ai ?
— Não e ele também não foi para aula de inglês.
— Me espera aqui.
— Aonde você vai?
— Eu já volto me espera ai.
Caminhei até a rampa que dava acesso a quadra da escola, mas eu sabia que não ia encontra-lo ali, então pulei o corrimão e fui até o final do muro, aquele lugar era podre fedia a viciado, era o ponto de encontro dos drogados da escola no muro estava pichado em letra cursiva Where is God? ( onde esta Deus?), Não tinha ninguém lá e quando estava prestes a ir embora escuto uma tosse irregular, ele estava deitado embaixo na sombra do muro, eu não queria que fosse ele, aquela situação era demais até para ele, eu o virei e ele estava apagado com o rosto sujo de lama e uma baba fina que descia pelo pescoço.
— Diego, acorda cara – eu o balancei varias vazes até ele acordar.
— Me deixa em paz – arquejou ele
— olha para sua situação vamos embora eu vou te levar para casa.
— Casa ? — ele riu descontroladamente – sabe melhor do que eu que nenhum de nós tem uma casa.
Ele escondia uma bolsa do que pareceu ser cocaína — mas diferente de você eu não afundei minha vida nessa porcaria
Ele se sentou encostou as costas no muro e começou a chorar descontroladamente – eu preciso de ajuda, eu não consigo sair disso sozinho por favor kai, me ajuda a sair disso.
— Eu não tenho tempo para isso. – Infelizmente agora isso não era uma opção.
Eu tentava prestar atenção na estrada a minha frente, mas eu queria olha-la, ver o seu sorriso acender o dia como sempre fazia, mas eu sabia que ela não sorria mais, seus cabelos negros balançavam pelo vento da janela aberta, ela olhava o nada, eu daria tudo para saber o que ela estava pensando, o que eu não daria para conseguir entender essa garota, mas ela era uma tempestade impossível de ser entendida ou controlada.
— Kai acho que você deveria prestar atenção na estrada.
— sim, claro, desculpa – ela não falava mas, ela não conseguia mas ficar a vontade dentro de um carro, ou era ao meu lado que ela não conseguia ficar a vontade.
— Então como foi o primeiro dia de aula?— sabia que tinha sido horrível mas eu tinha que acabar com aquele gelo.
— me senti no funeral dos meus pais de novo cercado por um bando de loucos bajuladores – ela ainda não me olhava, continuava a fitar o nada.
— falar em loucos , e as alucinações voltaram?
Ela me olhou incrédula me deu um soco no ombro e riu, finalmente ela riu e o seu sorriso era coisa mais linda do mundo .
— Me chamou de louca na cara de pau – disse ela sem conter o riso
— E eu consegui
— conseguiu oque?
— fazer você sorrir?
Ela ficou seria por um minuto e seu sorriso morreu,
– eu senti sua falta, senti muito a sua falta
— Eu sei me desculpa, eu...
— Não para – ela me interrompeu – não quero uma desculpa, quero você de volta, eu não vou conseguir mais sem você.
Eu tinha que ficar feliz mas me lembrei das palavras do Diego ( eu não vou conseguir sem você) e aquilo me congelou.
— kaiiiiiiiiiiiiii – gritou
Um homem parado imóvel na frente do carro quase me fez desviar, e o carro rodopiou nas duas rodas laterais, mas consegui para-lo a tempo sem machucar ninguém.
Ela saiu do carro se autoventilando – ow meu Deus eu não posso mais passar por isso, ela se ajoelhou no chão e começou a chorar desesperadamente como se tudo tivesse voltado, e naquele momento percebi que ela estava revivendo tudo de novo.
— tudo bem, tudo bem eu estou aqui do seu lado – pelo menos dessa vez eu estou.
Não notei o homem que se aproximava, ele usava um smoker preto perfeito sem nenhum arranhão, seu rosto era familiar mas não sabia de onde mas tinha certeza que não era desse mundo, ele parou ao nosso lado sem mover um dedo ou mencionar uma palavra, então notei que os humanos não nos viam e isso me fez congelar, oque ele estaria fazendo aqui?
Elena, olha pra mim – ela me olhou seus olhos de azuis cobalto me perfuraram a alma e eu sabia que não poderia perde-la – corre.
— o que? — disse ela
— Sabe aquele lugar?, aquele lugar onde o sol bate primeiro.
— ela balançou a cabeça em lagrimas – corre pra lá
E ela correu até que eu a perdesse de vista, e ele continuou parado imóvel. – sabe que isso é inútil malakai.
— o que você quer comigo?
— Com você ? — ele riu – com você nada eu quero a garota.
Aquelas palavras me destruíram, porque ele queria ela? isso não faz sentido algum, mas não importava eu faria de tudo para protege-la, ate dele se fosse possível.
Antes que eu pudesse confronta-lo sou interrompido pelo som de um tijolo quebrando na cabeça dele – é tenho que admitir apesar dela ser estupida, ele mereceu, não achei que fosse causar efeito nele masss....
— ai ai ai sua desgraçada filha duma ....
— deixa o kai em paz ou eu te dou outra tijolada – não havia cena mais irônica, a força que ela tinha era desumana, não força física mas de espirito
— eu te mataria se já não estivesse morta.
— espera como assim?
ela me puxou pelo braço – vamos embora daqui.
— Não elena espera
— ele é um louco vamos embora – ela não entendia nada, e eu também queria que ele não tivesse dito isso.
— acha que eu não tenho o que fazer a muitos mortos para dar passagem para o outro mundo por ai – ele parou pra tirar os últimos pedaços de tijolo da sua careca lisa.
— isso não é possível deve haver algum engano – essa era a questão eles não se enganam.
— kai do que ele esta falando – ela me olhava assustada.
— hellououuu garotinha você esta morte, puft, is dead, acabou fim do túnel, bay bay.
— como isso é possível, eu estava com ela o tempo todo.
— mas na hora que ela mais precisava você não estava não era guardião- aquilo me congelou a espinha.
— ela morreu no acidente dos pais, pobre garotinha estava dormindo no banco de trás sonhando com seu príncipe do cavalo branco que surgiria para salva-la – ele caminhou na nossa direção – mas ele não apareceu.
Ela estava paralisada olhando aquele homem e no medo ela não buscou minha mão como era de costume.
— mas a questão é que seu coração parou de bater, mas a sua alma se recusa deixar esse mundo.
Então me lembrei das historias que contaram naquele dia, eles contavam sobre a garota que saiu ilesa do carro em chamas andando em direção a mata, a encontraram pela dormindo a beira de um riacho, todos diziam que tinha sido um milagre dos céus, mas eu sou a prova que os céus não tomaram partido.
— eu nunca vi isso antes e eu tenho muitos anos de carreira – foi eu quem levou Hitler sabia? ele insistia que o levasse para os aposentos dignos de um imperador, pobre coitado – ele riu, como ele conseguia achar graça nessa situação?.
— então você é a morte?, o que está acontecendo aqui — ela ainda achava que estava tendo os transes e as visões que tinham na infância.
— eu falo que ela esta morta e ela me pergunta se eu sou a morte? o criador desse jeito o senhor não facilita o meu trabalho.
— humanos e suas criatividades limitadas, eu sou a ponte entre esse e o outro mundo.
— então o que vocês querem com ela?
— eu não quero nada, nem gostei dela, mas a ordem a quer pra que eu não sei, talvez disseca-la em uma mesa sei lá.
— se a ordem a que, eu mesmo vou leva-la.
— muito bem facilita o meu trabalho, tenho muito o que fazer.
Ele desapareceu, ela estava imóvel, em choque, quando ela era pequena era assombrada por visões, o fato é que desde cedo ela consegui ver o que os humanos não viam, ela era especial.
— kai o que aconteceu aqui, eu estou tendo alucinações de novo por favor me tira daqui me lava pra casa – ela estava em choque.
— você não pode mais ir para casa, não pode nunca mais voltar para casa, você nunca teve alucinações.
— kai – ela gritou desesperada — o que você esta falando me tira daqui ?
— calma nos temos que sair daqui, tenho que te proteger eu vou contar tudo para você.
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