As testemunhas - O lado mais sombrio
7 Elena - onde vivem os monstros
“Aquele que luta com monstros
deve acautelar-se para não tornar-se também um monstro.
Quando se olha muito tempo para o abismo,
o abismo olha para você”
ELENA
Querido diário
Onde vivem os monstros?
Eu passei metade da minha vida me fazendo essa pergunta, e fui ensinada que não existem monstros, e que sua existente moradia não passava de um delírio da uma mente de uma criança, mas eu sabia que eles existiam, em cada beco da rua, em cada sombra dos meus caminhos eles estavam lá, eu os via caminhar nas ruas devorando com suas línguas compridas os sentimentos das pessoas, eu os ouvia debaixo da minha cama sussurrando palavras de ódio e rancor – me dê a mão minha criança – eu os ouvia falar – você viu que lindo jogo de facas prateado que sua mãe ganhou de aniversario?, vamos até lá cortar a garganta deles.
Não sei quantos gritos acordei meus pais durante a vida, mas eles passavam mais tempo acordados tentando me acalmar do que a maioria dos pais de uma criança normal, e como pais preocupados com a saúde metal de uma criança pouco sã, eles me obrigaram a ir em vários psicólogos.
Dona flor foi a primeira deles a chamavam assim por sua peculiaridade com vestidos floridos e perolas extravagantes, ela me fez crer que os monstros que via não passava de reações de sentimentos confusos, mas como a maioria deles ele estava errada.
O meu favorito foi o Dr tomas, ele me escutava e era um alivio inimaginável, ele era um pouco inconveniente para um psicólogo, lembro a primeira reação da minha mãe ao vê-lo, ela o julgou como se fosse um mecânico de carro barato e não um psicólogo, mas ele era o melhor entre todos, ele acreditou em mim e me fez perceber que os verdadeiros monstros eram as pessoas, e que tudo iria ficar bem, ele me fez acreditar na paz interior e que somos criaturas fantásticas que podemos criar nossos próprios mundos, que somos donos do nosso próprio tempo, até uma sexta normal como qualquer outra aquele dia fazia um sol intenso e eu estava sentada na cadeira de couro marrom a sua espera, eu olhava fixamente para o relógio que ficava na parede lateral da sua sala, o ponteiro marcava três da tarde, pouco tempo passou e o ponteiro marcava três e vinte da tarde, as três e vinte oito escuto um baque apressado na porta – querida – era a minha mãe que me olhava assustada como se tivesse visto um dos meus monstros – Meu amor o Dr tomas sofreu um acidente no caminho, ele não vai poder vir.
Então percebi duas coisas
A primeira, vivemos todos juntos em uma grande zona de impacto.
O Dr tomas saiu de casa as duas e meia mas a pressa o fez esquecer a chave do carro que estava em cima do criado mudo do seu quarto e o fez voltar para dentro e pegar a chave, ele entrou no seu carro as duas e trinta e cinco o mesmo horário que um caminhoneiro que carregava baterias parou para tomar um café pois ele havia dirigido anoite inteira com pressa de chegar para o aniversário de quatro anos da sua filha, o as duas e trinta e sete o senhor Thomas deu partida no carro, mas apesar de empecilhos o carro não ligou, não fazia sentido não tinha duas semanas que ele tinha comprado o carro dos seus sonhos um sedam prata do ano, ele teve que chamar dois vizinhos para empurrar o carro, então as duas e quarenta e cinco ele começou o seu trajeto, no mesmo instante que o caminhoneiro pagava a conta e ia embora, as duas e cinquenta o Dr tomas deu uma freada brusca no seu carro, pois um pedestre louco atravessou a rua com pressa sem prestar atenção, ele estava atrasado para o trabalho por causa do seu despertador que o acordou cinco minutos atrasado do que o normal, as duas cinquenta e seis o caminhoneiro parou para pegar o presente da sua filha que havia encomendado na loja de brinquedos, mas a vendedora da loja não o havia embrulhado porque na noite anterior tinha rompido com o namorado por causa de uma briga , então só as três e dez da tarde o caminhoneiro saiu da loja com o pacote nas mãos, enquanto as três e quinze o dr tomas cruzava a esquina a menos de uma quadra do consultório, o caminhoneiro seguiu sua viagem e próximo a uma avenida pouco movimentada, e as três e dezoito o sol intenso daquela tarde começou a incomodar os olhos do caminhoneiro que se distraiu por um segundo para pegar seus óculos escuros no painel do carro, e esse segundo de diferença o fez chocar vinte mil toneladas em um sedam prata que cruzava a rua.
O carro virou uma lata de sardinha, era o que todos diziam.
Se ao menos uma coisa daquele estranho dia tivesse dado certo, se o Dr tomas não tivesse que voltar para pegar as chaves do carro, se o caminhoneiro não tivesse parado para tomar café, se o carro do Dr tomas tivesse ligado de primeira, e se a moça da loja não tivesse terminado com o namorado no dia anterior, se o pedestre louco tivesse acordado na hora certa, e se o sol não tivesse tão intenso naquela tarde, o Dr tomas teria chegado vivo ao consultório para nossa seção.
E a segunda coisa que percebi em tudo isso, era meio obvio, mas o Dr tomas também estava errado não éramos donos tempo e sim escravos dele.
E onde vivem os monstros?
A minha pergunta insana ainda continuava sem respostas, e as pessoas eram realmente monstros, mas os meus monstros eram bem piores, e agora eu sei, eles são reais.
— Elena, temos que ir – era o kai que me chamava, não o kai que conheci e que vivi minha vida toda ao seu lado , um kai novo que me escondia coisas e guardava segredos, era um estranho na pele do meu melhor amigo.
A gente estava no meu quarto, e eu tentava colocar o essencial na minha mochila de costa, enquanto ele fitava sombriamente as gotas de chuva irregulares se chocarem no vidro da janela do meu quarto.
— Preciso me despedir da tia becka.
— Não temos tempo o quanto antes sairmos daqui melhor.
— para onde vamos?.
— não sei, mas não vou te entregar para a ordem.
Ele abriu a janela do meu quarto e a chuva começou a entrar no quarto.
— esta pronta ?
— o que vamos por ai ? tem uma porta aqui sabia?
—não podemos ser vistos, precisamos desaparecer, você esta pronta?
Finalmente eu encontrei debaixo da minha cama o meu diário com a foto dos meus pais, ele me estendeu a mão sobre as gotas de chuva caindo e a luz da lua prateada ele tinha realmente a aparência de um anjo.
— não preciso da sua ajuda – falei – e desci por uma escada improvisada em direção ao solo, ele veio logo atrás de mim.
Tudo estava escuro a não ser pela luz irregular de um poste que piscava iluminando a rua , a chuva forte banhava toda aquela cidade de homens moribundos , tentando em vão limpar a sujeira de tudo e de todos.
— Vamos embora – mas antes que pudéssemos seguir caminho ouvimos o som de pisadas irregulares na lama.
— Espera – disse ele me envolvendo a cintura com seu braço – era estranho, mas eu só pensei em me livrar dos braços dele, como se ele fosse um estranho na rua.
— o que foi isso ? – as pegadas na lama vinham em nossa direção primeiro devagar e depois acelerou como as batidas de um coração, e depois simplesmente parou.
— kai por favor me fala o que é isso.
— eu não sei – disse ele.
A chuva que caia interruptamente estranhamente parou, e eu percebi o quanto estávamos molhados, meu coração batia acelerado sobre o silencio fúnebre que se estendia, quando das sombras de uma arvore uma criatura que eu não sabia o que era, primeiro suas mãos cinzas arranharam o tronco da arvore, depois o outro braço se estendeu segurando o tronco, uma perna e depois a outra, ele era extremamente cinza seus braços e pernas pareciam a de um ser humano que tinha sido esticado a ter todos os ossos serem quebrados e tomado a forma de uma criatura extremamente alongada.
Com uma súbita força kai me jogou para trás e se pós na minha frente – sem heroísmo dessa vez.
A criatura saiu completamente de trás da arvore, ele não tinha olhos só o traçado de uma boca que contornava todo o seu rosto, ele abriu a boca como se estivesse sentindo o ar ao seu redor como a cobra que faz com a linha que estar prestes a abocanhar sua presa.
Um frio terrível percorreu toda a minha espinha – o que em nome de Deus é isso?
— É um demônio Kevam, ele não pode nos ver, ele se guia pelo nosso cheiro.
E o monstro com passos como uma aranha veio em nossa direção
— Então ele deve estar com o olfato muito apurado.
Kai puxou do bolso da sua jaqueta uma adaga prateada de menos de 3 cm aquilo me fez rir – acha que vai derrotar essa coisa com isso ?
E em um arremesso certeiro ele jogou a adaga que transpassou pelo meio do monstro que se transformou em fumaça antes que a adaga pudesse acerta-lo.
— Vamos corre temos um tempinho até ele recuperar a sua forma – ele falou apressado me puxando pelo braço.
— Espera e a tia becka, precisamos pega-la
— Acredite em mim – ele disse olhando nos meus olhos – não é ela que ele veio buscar.
— do que você esta falando? Porque eu devo acreditar em você, pelo que eu sei você só mentiu para mim.
— Elena por favor vamos embora demônios kevam não cação humanos, ele foi mandados até a gente – ele parou por um minuto para absorver toda a situação – mudança de planos, precisamos da ordem – ele gritou um urro de dor, o monstro rasgou a suas costas com suas garras humanoide.
Kai se virou rapidamente apunhalando o monstro na altura da barriga com sua adaga de prata ignorando totalmente a dor, o monstro se dissipou em cinzas e ossos que se amontaram no chão.
— kai – gritei.
Enquanto ele caia com a cara no chão molhado.
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