As ruínas de Chicago
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Capítulo 1
A luz do sol invade meu quarto pequeno sem pedir licença, me acordando e me arrastando para o dia que se seguirá lenta e dolorosamente.
É o dia dos testes de aptidão, que definirá se eu sou uma nerd, uma estraga prazeres, uma amante da paz, uma louca que pula de prédios ou uma careta. A julgar pelo sangue que corre em minhas veias, de origem desconhecida, eu posso esperar qualquer uma dessas opções.
Meu nome é Teresa Xavier, tenho dezesseis anos, e sou filha adotiva de Joe e Sarah Xavier. Eu e meu irmão Isaac fomos adotados quando ele tinha cinco anos e eu tinha três. A dois anos, Isaac fez sua escolha: Audácia. Agora ele é um louco que pula de prédios. Não que eu já o tenha visto pulando de prédios, até por que, não o vi desde o dia anterior a sua escolha, a qual me neguei a presenciar.
Hoje, eu farei minha escolha. E ele não estará lá, é justo.
Arrasto-me da cama e começo a me vestir, uma calça preta, sapatos pretos e uma camiseta branca de mangas longas. Penteio meus longos cabelos negros com meus dedos, o que os deixa com uma aparência desleixada que Sarah odeia. Mas eu não ligo, apenas volto para arrumar a cama, quando Sarah abre aa porta e enfia sua cabeça coberta de cabelos precocemente brancos pela brecha.
–- Teresa, você já está pronta? – Ela pergunta, de forma doce, há um leve tremor em sua voz.
–- Sim, só estou arrumando a cama – Eu digo, virando-me para vê-la.
–- Seja rápida, precisamos chegar logo.
Olho para ela e penso se ela esqueceu o café da manhã, Sarah nunca esquecia ou dispensava o café. Ignoro e imagino que o trabalho no tribunal a esta irritando.
Desço as escadas e caminho pela sala até Joe aparecer e me abraçar, o olhar em seu rosto é de angustia, uma angustia sem sentido, já que eu não faço a mínima ideia de pra onde eu irei.
Seguimos pela calçada até o centro da cidade, onde todos jovens de dezesseis anos estão prestes a mudar de vida, ou não.
Eu sento-me à mesa com o pessoal da franqueza, encolho meu joelho esquerdo até o peito e o abraço, enquanto faço desenhos na lustrosa mesa de mogno com as pontas dos dedos. Jamie, um amigo de infância está sentado do meu lado, me cutuca e pergunta:
–- Oque aquele cara tá olhando?
Corro meus olhos pelo salão e me deparo com um rapaz alto e esguio, que provavelmente desconhece a existência de pentes, a julgar pelos seus cabelos negros bagunçados, seus grandes olhos azuis estão cravados em mim e há um sorriso branco congelado em seu rosto.
–- Não sei – Eu digo, encarando ele também, ele umedece os lábios e volta a sorrir para mim.
–- Você o conhece? – Jamie pergunta.
–- Acho que eu me lembraria se o conhecesse – Eu digo, e volto minha atenção aos meus desenhos.
Continuo sentindo os olhos do rapaz cravados em mim, mas não me abalo. Apenas ignoro os olhos azuis, cabelos negros, pele clara, os prováveis 1,80 de musculo e continuo a pensar em banalidades. Até que a voz do instrutor chama as primeiras cinco pessoas.
–- Jemima Carson, Natalie Mercy, Teresa Xavier, Jamie Gordon e Carter Snow.
Quando chamam o ultimo nome, o rapaz se levanta e passa a mão nos cabelos, eu me levanto e sigo até a porta, tento evitar esbarrar nele, mas diante dos outros três mal educados que tentam passar pela porta estreita de uma só vez, eu paro e espero que eles se resolvam, então sinto alguém atrás de mim e uma mão no meu ombro:
–- Licença, eu tenho um teste pra fazer – A voz grave e de sotaque acentuado soa no meu ouvido.
Ergo meus olhos e me deparo com o rapaz, Carter, a camiseta preta é justa, não de uma forma brega, mas de uma forma que salientava os músculos de seu braço. Não que eu tenha observado isso, só estava observando um fio solto na manga da camiseta, só isso.
–- Claro – Eu diz enquanto saio da frente.
Carter toca nos ombros de Jemima e Natalie e elas abrem caminho, olhando para Carter como se a existência dele fosse inacreditável. Ele então cutuca Jamie, que me olha com as sobrancelhas erguidas e sai da frente do rapaz. Carter então abre a porta e quando penso que ele vai entrar, ele virou para mim, e sorriu.
–- Primeiro as damas – Ele diz, fazendo uma reverência exagerada.
–- Sabe, nunca pensei que gentileza fosse uma característica de audaciosos – Eu digo, tentando esconder o rubor que se apoderara de meu rosto.
Ele apenas sorri e me deixa passar, então segue atrás de mim até o corredor de salas que nos aguarda. Cinco portas espelhadas estão dispostas na parede também espelhada. Eu paro na porta número três, ele para ao meu lado, na porta número dois. Quando elas se abrem, ele me olha e sorri, então ambos entramos nas salas para nossos testes.
Em uma cadeira, diante de duas telas e alguns tubos de ensaio, está um rapaz de pele escura, ele está preparando uma seringa, que me faz sentir arrepios. A parede de dentro da sala também é espelhada, eu encaro meu reflexo descabelado e imagino se era por isso que Carter me encarava. Oras, que moral ele tem pra reclamar do meu cabelo?
–- Olá – O rapaz chama minha atenção – Meu tome é Lucas.
–- Teresa – Eu digo estendendo a mão, ele a aperta e indica a cadeira ao seu lado.
–- Sente-se, eu vou injetar o soro da simulação, vai fazer efeito rápido – Ele diz – Pode tirar o cabelo dor ombros, por favor? – Ele pede.
Tiro o cabelo dos ombros e observo as roupas de Lucas, totalmente pretas. Audácia. Sempre achei que trabalho voluntário fosse coisa dos abnegados, esses audaciosos me surpreendem a cada minuto.
Ele injeta o soro e eu tremo ao sentir a agulha sob minha pele. Logo começo a me sentir frágil, e a sala se dissolve na escuridão total.
Quando finalmente consigo enxergar algo, vejo uma mesa com um pedaço gordo de carne e uma faca.
–- Se eu fizer um churrasco eu vou pra Audácia? – Pergunto ironicamente enquanto pego a faca.
Vejo o cabo talhado e passo os dedos pelos desenhos, até ouvir um ruído atrás de mim, como um grunhido de cachorro. Lá estava um pastor alemão, sentado me encarando. Eu me aproximo vagarosamente, mas ouço o rosnado se formar no fundo de sua garganta. O cachorro se aproxima, e eu dou dois passos para trás. Ele avança rapidamente, eu jogo a faca para o lado e me encolho, pronta para sentir seus dentes cravados em minha carne. Mas ele não me morde.
Quando abro os olhos, o cachorro estava sentado, me olhando com aqueles olhos escuros que momentos antes eram quase cor de sangue. Eu até podia jurar que ele estava fazendo biquinho!
Ri de mim mesma por temer algo tão fofo. Olhei para o lado onde eu havia largado a faca, e me inclinei para pega-la enquanto acariciava o cachorro. Tomei a faca em mãos e continuei a olhar o cabo. Quando ouvi uma porta se abrindo, e uma garotinha entrou.
Seu vestido preto e branco contrastava com sua pele morena, seus cabelos longos eram soltos e bem penteados. Eu não teria tanto medo se a menininha não fosse eu!
Cambaleei para trás enquanto ela sorria e chamava o cachorro, que avançou até ela como um raio. Minha única reação foi correr em direção a garotinha – Eu (?) – e me jogar sobre ela. Desta vez eu senti os dentes do cachorro nas minhas costas, me retorci e me encolhi. Então a cena se dissipou. O cachorro se foi, assim como a garotinha. Ao invés disso, eu estou sozinha – na sala de teste, agora vazia. Viro-me devagar e não consigo ver meu reflexo em nenhum dos espelhos. Abro a porta e caminho para o corredor, mas não é um corredor, é um ônibus e todos os lugares estão ocupados.
Paro ao lado de um dos bancos e me apoio no encosto. Abaixo meus olhos para o rapaz que está sentado lendo um jornal, ele segura o papel e pela pressão em seus dedos, posso acreditar que ele não gosta muito do que está lendo.
Tento ler a matéria, algo sobre assassinatos e coisa do tipo. Sinto um arrepio ao ler a palavra, mas ignoro. Então o rapaz vira pra mim e pergunta:
–- Você conhece esse rapaz?
Tento distinguir o rosto do homem na manchete, mas meus olhos embaçam e eu nego com a cabeça. Mas sinto que conheço o rapaz na foto. Observo as mão do homem que segura o jornal e consigo identificar algumas queimaduras. Ele se levanta e vem na minha direção.
–- Você tem certeza que não o conhece? – Ele pergunta, quase um rosnado.
–- Sim – Eu minto, sempre fui uma boa mentirosa. Não é irônico que viver na franqueza tenha me tornado uma boa mentirosa – Nunca o vi, pergunte ao pessoal da frente, eles devem saber – Eu digo, indicando os bancos a frente.
O homem então faz uma reverencia e segue pelo corredor. Eu solto uma respiração que nem sabia que estava prendendo. Então a cena se dissipa, e eu estou de volta a sala de testes.
Lucas me olha confuso, um pouco frustrado, aparentemente.
–- Achei que esse ano seria diferente, achei que eu conseguiria uns resultados normais, só pra variar – Ele se queixou.
Ergui uma sobrancelha e cruzei os braços, notando que os pelinhos dos meus braços estavam arrepiados, eu os acariciei, nervosa.
–- Olha, você sabe que não pode falar a ninguém sobre o resultado do seu teste, não é? – Ele pergunta seriamente.
–- Eu sei – Eu digo, na defensiva, sem saber exatamente por que.
–- Especialmente o seu – Ele diz, pegando um pedaço de papel – Seu resultado foi inconclusivo. Audácia, como eu esperava, e Erudição, pelo uso da ironia, devo deduzir. Eu registrei um dano nos cabos e pus o resultado manualmente: Audácia. Apensa finja que deu um resultado normal e tente levar uma vida normal. Tá bom? – Ele diz, apertando meu ombro.
Eu arquejo mas concordo.
Quando saio da sala, a porta ao lado abre-se ao mesmo tempo da minha. Carter sai e para na frente da porta, encarando seus pés, seus punhos cerrados sugerem nervosismo.
Ele me olha e eu reconheço em seus olhos a angustia que eu carrego.
Passo por ele e sigo até uma saída de emergência no final do corredor, ele me acompanha, eu pergunto irritada:
–- Por que tá me seguindo?
–- Não é certo deixar uma dama andar sozinha pela cidade, é perigoso – Ele diz, ironicamente, mas há nervosismo em sua voz.
–- Seus amiguinhos audaciosos vão ficar preocupados, não? – Eu pergunto.
–- Bem, somos meio individualistas as vezes – Ele diz pondo as mãos nos bolsos.
Ando mais rápido até chegar na porta. Desço os degraus e sigo até a rua, com Carter no meu encalço.
–- Ah, você não vai me seguir até em casa, ou vai? – Eu pergunto.
–- Vou – Ele diz – Não posso correr o risco de deixar você se machucar...
Paro e o encaro, cerrando os olhos e olhando o mais fundo que eu conseguia em seus olhos.
–- Eu vi olhar no seu rosto, eu vi seus punhos cerrados, foi como olhar num espelho. Então não pense que sou indefesa, eu sei me virar.
Então viro-me, atravesso a rua e entro num buraco que havia na parede do prédio ao lado. Os prédios interligados são a melhor forma de chegar em casa rápido, Isaac descobriu a passagem a uns anos, venho usando-a desde então. Passei pelas as aberturas nas parede e tive que pular algumas vigas que estavam caídas ali a anos. Carter me seguia segue, esgueirando pelas vigas, sua agilidade me faz lembrar as raposas sobre as quais Joe me contava. Dizia que eram espertas, insistentes, ágeis e traiçoeiras. Isso me fez confiar menos em Carter, que continua a seguir-me.
Até que quando estamos passando pelo saguão destruído do que, um dia, fora um hotel, eu paro e viro-me para ele.
–- Oque você quer? – Pergunto cruzando os braços.
–- Acho que já te vi antes, você me parece familiar, então pensei que devo te conhecer de algum lugar – Ele diz dando de ombros.
–- Não podia simplesmente perguntar de onde nos conhecemos?
–- Isso soaria como um flerte.
–- E me seguir até em casa por dentro de prédios abandonados soa como o que? – Eu falo, mais agudo do que o esperado..
–- Okay, você tem um ponto – Ele diz, virando-se e fazendo o caminho de volta.
–- Hey – Eu chamo, não queria que ele me seguisse até em casa, mas também não queria que ele fosse embora – Quer comer alguma coisa? – Foi a primeira coisa que eu consegui pensar.
Carter virou-se, aparentemente confuso, mas assentiu.
–- Claro, seria um prazer.
Ao fim da tarde, havíamos comprado comida com um pessoal da amizade: pães e umas garrafas de suco. Tagarelavamos sobre nossas vidas e coisa do tipo. Eu estava sentada no primeiro degrau de uma escada rolante quebrada, Carter se estirou uns degraus acima, e mexia no cabelo o tempo todo. Senti minhas pálpebras pesarem e fiquei encarando o pão em minhas mãos.
–- Oque eles põem nisso? – Eu perguntei.
–- Chama-se soro da paz, é pra tranquilizar.
–- Drogas? Você me deu drogas? – Eu pergunto irritada.
–- Não, você os comprou, achei que soubesse – Ele diz, meio grogue – Sem contar que não são drogas, são apenas soníferos. Geralmente usado para cessar brigas e conflitos na Amizade.
–- Achei que você fosse da Audácia, quando esse lado Erudito aflorou? – Pergunto, deitando-me no degrau.
–- Francamente, é muita audácia da sua parte perguntar isso – Ele responde, e ambos caímos no riso.
Conheci Carter a menos de quatro horas e já gostava dele mais que da maioria dos meus amigos. Ele me fazia sentir a vontade com todas as minhas indecisões e idiotices.
–- Sabe, você é bem mais interessante que as outras meninas que eu conheço – Ele diz, sonolento.
–- Bem, se você não gosta do tipo Maluca que Pula de Prédios, eu sou um bom partido – Eu digo, bocejando.
–- Na verdade, eu gosto do tipo de pessoa que entende meus trocadilhos, compartilha os mesmos gostos que eu e que não reclama por passar uns minutos sentados apenas conversando – Ele diz, sério demais.
–- Bem, eu não tenho um tipo
Carter me olha por um momento, como se ponderasse oque dizer, por fim, ele diz:
–- Teresa, sério, você é de longe a pessoa mais interessante que eu já conheci, e olha que eu te conheço a menos de um dia – E completa: -- E é gata.
Enrubesço diante do elogio informal, então soltei um riso fraco.
–- É por que você chegou num momento em que eu estava com a guarda baixa – Eu tento explicar – Eu jamais deixaria você chegar tão perto de mim se eu não estivesse tão nervosa por causa do teste!
–- Que sorte a minha, graças a sua guarda baixa eu tive as melhores quatro horas da minha vida até agora.
Me poupe, eu penso, aposto que ele fala isso para todas.
A conversa está tomando um rumo bem delicado, então quando eu estou prestes a anunciar que está tarde e eu preciso ir para casa, Carter se levanta, desce os degraus e diz:
–- Eu preciso ir, os testes já devem ter acabado e o trem já vai passar.
Olho para ele, a fraca luz do sol que entra pelas janelas quebradas e me faz estreitar os olhos, mas ainda posso vê-lo umedecer os lábios e se inclinar sobre mim.
–- Tchau, Teresa. Foi ótimo te conhecer – Ele diz, depositando um beijo na minha bochecha, frustrante no mínimo!
Então ele paira sobre meu rosto por alguns milésimos, como se cogitasse me beijar. Eu estou ocupada demais encarando seus sapatos para pensar em seu lábios.
–- Olha para mim – Ele pede.
Ergo meus olhos.
–- Nos vemos amanhã?
–- É inevitável, não é? – Eu digo, tentando soar calma – É o dia da escolha, todos estarão lá.
–- É – Ele diz, rindo – Bem, até amanhã, Teresa.
Carter faz seu caminho de volta por entre os escombros, quando ele finalmente desaparece eu toco meu pescoço e respiro fundo, soltando oque parecia ser todo o ar dos meus pulmões. Ainda estou sonolenta por causa do soro da paz, então sigo para casa para tirar um cochilo, esgueirando-me pelos escombros, vejo algumas sombras dos sem-facção mas os ignoro, sei que é errado, e que eu provavelmente soei cruel comendo nos prédios abandonados onde eles morrem de fome. Então, olhei para a sacola de pão em minha mão e a pendurei numa viga próxima, imaginando se alguém a acharia.
Isso é pro caso de eu ter soado soberba, desculpe.
Segui meu caminho e quando cheguei na rua de casa, soldados estavam parados na porta de casa, com armas em punho, Sarah chorava compulsivamente, e Joe a consolava como podia. Quando me viram dobrar a esquina, Sarah soltou-se dos braços de Joe e correu em minha direção, os soldados guardaram as armas e Joe respirou, como se não o tivesse feito o dia todo.
Sarah me agarrou e chorou nos meus ombros por uns cinco minutos, oque me deu uma chance de criar uma desculpa melhor do que “Passei a tarde com um audacioso recém conhecido nos prédios detonados comendo pão da paz. Mas tá tudo bem.”
Quando ela se calou, Joe apenas nos escoltou para dentro de casa, para o maior sermão da história da humanidade.
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