As quatro estações de Amélia

1 As estações de Amélia.


Notas iniciais
Oiiiii.
Criei essa one ontem, quando não estava conseguindo dormir. Espero que gostem dela, porque, por algum motivo, eu gostei.
Boa leitura ^.^

As quatro estações de Amélia.

“Habitua-te a pensar que a morte nada é para nós, visto que todo o mal, e todo o bem se encontram na sensibilidade: e a morte é a privação da sensibilidade”. Epicuro.

Primavera

A primavera vem ainda na infância. E para Amélia, aquela era a melhor estação do ano. Tal como era a melhor estação de sua vida.

Via ao andar flores desabrocharem, e com apenas onze anos de idade não via a hora de estar no lugar delas. Queria desabrochar, e ser grande. Então, poderia ser um pouco mais livre. Poderia ser como todas as garotas que via por ai. Poderia encontrar um amor, poderia sair de mãos dadas, e poderia chegar tarde em casa, e então os pais estariam vendo TV, e ela daria um beijo em cada um, sorrindo, e eles iriam perguntar a ela sobre a sua noite, e onde ela fora, e então Amélia iria subir as escadas correndo, rindo, e se esconderia no quarto, se sentindo alegre por ter um segredo. E ligaria para sua melhor amiga, Ana, e iriam passar a noite toda cheias de cochichos e risinhos.

E no dia seguinte quando Amélia descesse para o café da manhã, toda alegre, os pais fariam piadinhas sobre o seu humor, e ela ter passado uma boa noite, e Amélia ficaria envergonhada. E então Ana iria buzinar na frente da casa, no mesmo instante, porque já teriam idade o suficiente para dirigir, e na escola Amélia correria para os braços de algum garoto que ainda não conhecia, mas que no futuro seria o grande amor da sua vida.

A Amélia de onze anos para a bicicleta e a joga em cima da calcada, pegando um flor que não sabia o nome, prestes a desabrochar. Prendeu ela em seu short, e então voltou a pedalar.

Verão

A Amélia de catorze anos está sorrindo. Ela, na verdade, vive sorrindo.

E assim como o verão, Amélia se sentia aquecida. Aquecida pelos braços de Mikey, que a rodeavam sempre que estavam perto um do outro, e então falava que a amava em seu ouvido. Aquecida pela sua melhor amiga, que vivia ao seu lado. E apesar de ainda não poderem dirigir, iam juntas para a aula de patins. Se sentia aquecida pelos pais, que ao chegarem de seus trabalhos iam diretamente para o seu quarto, e perguntavam como ela estava. E esperavam, ouvindo cada palavra que a garota tinha para dizer sobre o seu dia, mesmo que essas, basicamente, fossem sobre como ela e Ana foram a uma sorveteria perto da oficina do pai de Rachel, e o milk shake que era doce demais, e ela precisara lutar para conseguir acabar com todo o seu copo grande. Se sentia aquecida pelas notas altas, pelos professores sorridentes, e os elogios que constantemente recebia.

Ela se sentia aquecida por tudo e todos. Por cada momento, sorriso e olhar. Ela se sentia aquecida pela felicidade de sua vida.

Amélia moveu os pés com patins até chegar perto de Mikey, que assim que a viu abriu os braços e a abraçou, escondendo o rosto em seus cabelos, e então sussurrou:

— Eu te amo.

Outono

Outono é aquela estação onde tudo começa a esfriar. E assim foi com Amelia. A menina de quinze anos de repente fora atingida por um ar gélido, que acabara com o seu verão.

Ana estava fria, afastada. De repente, a amizade de anos e anos fora parar no lixo, sendo esquecida ao decorrer dos dias em que Ana começara a andar com novas garotas, e Amélia se refugiava em Mikey, se perguntando o porque da garota ter se afastado. E ao chegar em casa, Amélia se deparava com olhares frios dos pais, e passava as noites em claro, sendo obrigada a ouvir os gritos que vinham do quarto deles. E Amélia apertava os ouvidos, querendo gritar também, implorar para que parassem, para que voltassem a ser como eram antes.

— O que houve? – Perguntou Amélia. Ela estava parada na biblioteca, de frente a Ana, que segurava Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf. E Amélia se lembrou de quando lera o livro.

Ela se sentia muito jovem, e ao mesmo tempo, inacreditavelmente velha.

— Bom, eu estava indo levar o meu livro para cadastrar, e ai você apareceu, e ficou parada na minha frente com uma baita cara de idiota. – Respondeu Ana, com a ironia pura na voz.

— Não. – Disse Amélia. – O que houve?

— Eu não sei. – Respondeu. – Mudamos, acho.

Quando Ana voltou a sair, Amélia sentiu aquele ar gélido. Aquele que acabava com todo o seu calor.

Inverno

E o vento ficou ainda mais forte. E choveu por seus olhos. E seu coração virou neve.

Amélia se via abandonada pela melhor amiga, e o namorado, que de repente parecia achar que não queria mais uma namorada que quisesse algo mais intenso que beijos. Que queria uma conversa, que queria conhecer, de fato, sua personalidade. Ela via os pais se separarem, e se afastarem. Via a mãe em uma tentativa desenfreada de esquecer o ex, bebendo todo dia, e sendo carregada pela rua. Via o pai achando ser um adolescente, e saindo com garotas de sua idade, e se esquecendo de ligar para ela todo final de noite, como prometera. Via a mãe se afastando, a cada vez que pedia para ela ficar. Via o pai desligando, toda vez que ela tomava coragem de ligar.

E durante a noite, Amélia se via sozinha na casa grande demais, olhando para a escuridão do seu quarto e sentindo-a penetrando em si. E antes que pudesse dar conta, as lágrimas escorriam pelos seus olhos, e o sentimento de abandono aumentava a cada instante. No dia seguinte, Amélia costumava acordar sempre com os braços e pescoços arranhados, e apesar de qualquer calor que fosse fazer no dia, ela vestia seus largos moletons. Assim, as pessoas acabam sempre lhe olhando torto. E Mikey acabou terminando com ela, alegando não estar mais aguentando sua “aura negra".

E Amélia estava sozinha, a cada dia mais. Sua mente por vezes viajava, e perdia o foco nas aulas, resultando na queda de suas notas, e consequentemente, no carinho que os professores vinham tendo com ela.

E em uma noite, no silêncio de seu quarto, Amélia se lembrou de um texto que lera:

“Não sei ao certo porque deito em minha cama no meio de uma tarde, enquanto poderia estar fazendo milhares de outras coisas por ai. Dificilmente estou cansando nesse horário, mas tenho uma vontade de ficar lá olhando para cima por um momento, sem música, sem barulho, sem luz. E pode acreditar, não é sono. Talvez eu tenha encontrado um lugar em que posso desistir sem que ninguém veja, escute ou perceba. Nem mesmo eu. Ando fazendo coisas escondido de mim mesmo”

E era assim que Amélia se sentia. Como se tivesse acabado de encontrar o seu refúgio, onde poderia se esconder e desistir sem que ninguém soubesse. E fechando os olhos, Amélia queria parar. Parar naquele momento, na escuridão, onde ao invés de sentir dor, sentia como se tivesse descoberto algo. Algo importante.

— Mamãe? – Chamou a garota, alguns dias depois. A mãe estava fazendo um café na cozinha. Fazia semanas desde que Amélia vira a cena.

— Bom dia, meu amor. – Sorriu ela. – Quer que eu faça chá pra você? Sei que não gosta de café.

Amélia sorriu para a mãe, enquanto concordava.

“As quatro estações de Amélia, por Amélia E. Peres.

Temos a primavera. Ela normalmente vem quando ainda estamos em nossa fase de crescimento, onde estamos formando nossas opiniões. E como uma flor, a gente desabrocha, com novas ideais e uma característica única.

O verão vem quando estamos maiores, e conhecendo a vida. Quando estamos de bem com tudo, com amigos, pais amorosos e namorado. O verão nos aquece, e nos faz gostar de viver.

Já o outono aparece quando as coisas esfriam um pouco. O garoto já não parece mais tão carinhoso quanto antes, e seus amigos acabam ficando diferentes, e se afastando. As coisas esfriam em seu interior.

O inverno é o que mais demora para passar. Ele chega gelando tudo ao seu redor. E você se vê sozinha, sem ter quem te aquecer. O inverno gela seu coração, faz chover pelos seus olhos e te faz sentir dor.

Mas é importante lembrar que as quatro estações são um ciclo. Elas vem e vão a todo momento, e antes que você se dê conta, já é primavera outra vez, e tudo bem, talvez você nunca chegue a se livrar do inverno, mas acredite que quando a primavera voltar (afinal, nunca continuamos os mesmos) ela será cada vez melhor.”

Notas finais
É isso. Espero que tenham gostado.
As frases que usei: A do início é de Epicuro. A que ela pensa, quando encontra Ana na biblioteca é do livro Mrs. Dalloway da Virgínia Woolf. E a que ela pensa no quarto dela é se Sean Wilhelm.
Digam o que acharam.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!