As péssimas decisões de Lina Jensen
3 02. James Lancaster
Notas iniciais
Com exceção de Charles otário Miles, eu tive dois namorados oficiais e realmente sérios em todos os meus vinte e um anos poucos experientes de vida. O primeiro deles, Jared Dawson, foi responsável por tirar tanto meu BV quanto minha virgindade. Conheci ele e August juntos, quando tinha dezesseis anos, e antes mesmo de darmos nosso primeiro beijo eu estava tão apaixonada que sempre que o via o enxergava em câmera lenta, dentes brilhando de tão brancos e corações por todo lado, como nos filmes. Não deu certo porque aconteceu aquilo que acontece com todos os casais de dezesseis anos: eles terminam! Eu chorei no colo de Gus quando aconteceu, e fiquei contente por ao menos ter tirado alguma coisa boa daquilo.
O segundo foi Ryan Meets, e tenho certeza que foi ele que me estragou. O conheci logo depois que completei a escola, e estava indo tudo tão bem que achei até que iríamos nos casar, até Gus perder a mãe dele por causa de um câncer. Foi a fase negra do meu melhor amigo e eu tinha medo até de ir ao banheiro e o deixar sozinho. Ryan percebeu isso, mas ele não entendeu, inventou que era porque eu tinha uma paixão secreta por Gus e terminou comigo dizendo que agora eu poderia ir grudar no meu amiguinho o quanto eu quisesse. E eu fui mesmo, sem nem hesitar. Fui porque três meses depois foi o meu pai quem morreu por culpa de um infarto, e Gus fez a mesma coisa por mim.
Quando ele perguntou o motivo de eu e Ryan termos terminado eu inventei que era porque ele tinha dado em cima da minha colega de apartamento da época, algum tempo depois descobri que a minha invenção era verdadeira, porque Gus viu os dois juntos em uma praça.
Olhando para trás agora eu percebo que, na verdade, nunca me importei tanto na minha falta de experiência em relação à homens porque tinha tido Gus esse tempo inteiro, era ele quem eu levava nos casamentos e jantares em família.
Mas agora lá estava eu, encarando ele e Camily juntos nas cadeiras em frente a minha, só então deixando a fixa finalmente cair: as coisas tinham mudado! É claro que sempre seria a melhor amiga de Gus, mas eu não poderia mais o levar em jantares da minha família, mesmo que Cami fingisse não se importar.
Ele estava com os braços ao redor dela e sorria toda vez que ela abria a boca pra dizer qualquer coisa, o que me fazia parecer uma amargurada solitária na mesa dos dois. Até os próprios devem ter percebido meu estado, porque após dar uma grande mordida no hambúrguer e sem ainda nem ter acabado de mastigar, Gus disse:
—Ainda estamos apostando aquela coisa de você só dizer sim, certo?
—Termina hoje, finalmente! Foi a pior semana da minha vida! -respondi enquanto tirava a franja do rosto, me lembrando de todos os desastres da semana.
—Certo… -ele murmurou e trocou um rápido olhar cúmplice com Cami, esperei para ouvir o que os dois estavam tramando naquele dia. -Então, já que você vai ser obrigada a dizer sim para conseguir os seus duzentos reais, eu e Cami temos alguém pra te apresentar!
Franzi as sobrancelhas com uma expressão negativa no rosto.
—Não é só porque vocês estão namorando e radiantes que eu tenho que estar também, tá bom?! Charles terminou comigo tão recentemente…-comecei com as justificativas, mas Cami me interrompeu prontamente:
—O nome dele é James Lancaster, eu o conheci na fila do banco, e pelo que conversei com ele vocês tem tudo em comum! Ele também tem vinte e um, e o pai dele é famoso, como sua mãe, só que ele geralmente nem conta isso para as pessoas, e ele terminou recentemente porque a ex deu um pé na bunda dele. -Cami não parou nem para respirar enquanto tagarelava animada, como se tivesse encontrado minha verdadeira alma gêmea.
—Uau! -digo, realmente impressionada. -Você está sempre conhecendo pessoas em filas, não é? -perguntei, o que a faz dar de ombros e lançar um olhar para Gus como se esperasse que ele me convencesse.
—Se estiver ruim é só me mandar aquela mensagem e a gente finge a ligação de emergência. -Gus falou como se já tivéssemos usado o truque da ligação emergencial várias vezes, mas só ele tinha o péssimo costume de me mandar mensagens no meio da noite pedindo para que eu inventasse uma desculpa para ele terminar os encontros.
—Não vai te custar nada, vai? Qual o máximo que pode acontecer? -Cami sempre fazia a mesma pergunta quando queria convencer alguém a fazer algo. "Qual o máximo que pode acontecer?", pensei em responder que dá última vez que conheci alguém ele me trocou pela ex, mas os dois já estavam cansados de me ouvirem lamentar sobre a história.
—Certo, tudo bem! Mas só porque amanhã eu finalmente vou poder voltar a dizer não o quanto eu sentir vontade. -enfim respondi,, fazendo Cami dar um mini-escândalo de alegria.
—Você não conseguiria dizer não a ela nem mesmo se não tivéssemos apostado. -Gus diz rindo do exagero da namorada.
—Pode ser hoje? No Brilliant Night? -Cami ligou seu celular, prestes a mandar a mensagem confirmando para o tal do James. Gus e eu trocamos olhares, ele havia insistido para que eu parasse de me encontrar com pessoas naquele lugar, parecia que o barzinho/boate tinha realmente algo contra minha vida amorosa, mas ele ergueu as sobrancelhas esperando por minha resposta.
—Eu não posso responder um não, né?! -respondi e esperei que ela confirmasse o encontro e me mostrasse uma foto de James Lancaster, e de repente não estou tão incomodada em ir.
(…)
A campainha tocou enquanto eu me olhava no espelho pela trigésima vez. Olhei para porta pensando se Cami teria contado ao James onde eu moro, e se ele teria vindo me buscar em casa. Ou talvez fosse a própria Cami na porta avisando que ele cancelou o encontro porque voltou com a ex-namorada.
Caminhei até lá esperando encontrar qualquer um dos dois, mas quando abri a porta tive uma surpresa. Não é James, não é Camy. Se trata de Ben.
O mesmo Ben que me levou pra casa após a noite de bebedeira excessiva e aproveitou para passar a noite. O mesmo Ben que disse que iria me passar uma mensagem pra contar sobre a noite esquecida na minha memória, mas não passou.
—Lina! -ele sorriu e em seguida me olhou de cima a baixo, surpreso. -Está de saída? Desculpa, eu não devia ter aparecido sem avisar. -continuou, mas seria impossível não reparar que ele parecia nervoso e tinha uma mochila enorme nas costas.
—O que faz aqui? -perguntei, franzindo as sobrancelhas, ele apenas sorriu novamente, deixando transparecer fofas covinhas que o faziam parecer um adolescente.
—Estava preocupado com você, conseguiu se lembrar dos acontecimentos daquela noite?
—É muita gentileza da sua parte, mas foi tudo culpa daquela aposta com meu amigo, e ela finalmente termina hoje, então não precisa mais se preocupar! -contei a ele, na tentativa de despreocupá-lo, provavelmente ele ainda deveria estar com pena da garota bêbada que falava com o copo.
—Isso é ótimo, porque na verdade, eu preciso de um favor! -ele se escorou na minha porta, mas antes que eu tivesse a chance de perguntar qualquer coisa ouvi meu celular tocando.
—Então, eu estou um pouco atrasada agora… -falei, enquanto voltava para dentro de casa para pegar meu celular no sofá. A ligação é da Cami. -Um minuto! -virei-me para Ben antes de atender o celular.
—Alô?!
—Oi Lina, já está no Brilliant Night? —ela perguntou, do outro lado da linha.
—Estou prestes a sair, por que? Ele não vai vir mais não é? Reatou com a ex-namorada! Droga, por que essas coisas sempre acontecem comigo? Dessa vez eu achei mesmo que poderia dar certo, você falou de um jeito tão…
—Lina! -ela finalmente interrompeu minha tagarelice sem fim. -Não é nada disso, sua maluca. Ele mandou avisar que vai demorar uns 10 minutinhos porque está preso no trânsito, é só isso.
—Ah… -murmurei, já arrependida pela minha mini crise existencial precipitada.
—Apenas dez minutos, te ligo daqui a algumas horas pra você me contar como foi. Gus vai comer a pizza toda sozinho se eu não correr!
—Deixa um pedaço pra mim!
—Vou tentar. Tchau! -ela disse e desligou.
Só então me virei para porta, e me lembrei que Ben estava ali, ouvindo tudo. Mas agora ele se posicionava dentro da minha casa e já havia colocado sua mochila no sofá.
—Me desculpe por isso. Você disse que queria um favor? -perguntei, me lembrando do atual dilema do homem parado a minha frente.
—Eu sei que você meio que não vai poder dizer não, e vou me aproveitar disso. Mas pode dizer não se for um pedido absurdo, não pode? Quer dizer, se um bêbado decidisse te estuprar você seria obrigada a dizer...
—Ben? -o cortei no meio da frase.
—Sim?
—O que você quer? -questionei, realmente curiosa sobre o porquê ele estaria na minha casa depois das oito da noite.
—Você me contou sobre a sua última colega de apê, que vocês dividiam o apartamento, mas aí ela ficou com seu ex-namorado. E eu estou precisando de um lugar pra ficar por uns dias. Não se preocupe, vamos dividir as contas! -ele contou, apreensivo. Então ele precisava de um lugar para morar?!
—Você não era casado, ou algo assim? -indaguei, mesmo com outras milhões de perguntas na ponta da língua. Ali estava, na minha frente, alguém que parecia ainda mais perdido que eu. Era realmente possível.
—Tive um filho depois de uma noite de bebedeira, não sou casado! -ele explicou como se fosse óbvio. Procurei por alguma aliança por via das dúvidas, mas ele tinha razão, nada de aliança.
—E você não tem uma casa?
—Eu sai de onde eu morava a umas duas semanas, e depois fiquei revesando entre as casas dos meus amigos, mas o problema é que eu só tenho um amigo, e ele está morando com a namorada agora. -ele continuou as explicações, parecia pronto para responder todas as minhas perguntas.
—Por que você saiu de onde morava? -continuei a série de perguntas.
—Era meio preocupante morar com meus colegas de quarto. -ele respondeu de maneira suspeita.
—Por que? Eles também tinham uma queda pela sua namorada?
—Não, porque eu costumava chamá-los de mãe e pai. -ele replicou, fazendo uma careta engraçada logo depois.
—Ah!
—Eu sei que você também estava precisando de alguém pra dividir as contas, posso pagar adiantado, prometo que não vou dar trabalho! -ele diz como se aquele fosse o tipo de decisão fácil de se decidir, mas pelo que eu sei ele ainda poderia ser um ladrão, ou um mendigo.
—Olha, eu não tenho certeza, vou precisar pensar á respeito! O que acha de ficar por hoje, e eu te dou uma resposta depois? -perguntei, tentando ajudá-lo.
—Eu meio que esperava um não, então isso é ótimo! -ele se sentou no sofá, contente com minha decisão.
—Você pode dormir no quarto de hóspedes, eu estou atrasada para um encontro, mas amanhã podemos resolver isso! -confirmei, procurando por minha bolsa.
—Deveria fazê-lo esperar um pouquinho! -Ben disse depois que peguei minha bolsa e fui direto para a porta, mas me virei para encará-lo.
—Você acha?
Ele levou os olhos aos meus e confirmou com a cabeça, ao mesmo tempo em que retirava seu casaco e jogava na poltrona ao lado. Esperei mais dois minutos antes de descer correndo.
(...)
James Lancaster é mais bonito do que parecia na foto. Ele é alto, está com um corte de cabelo curto estilo galã de novela, têm a pele clara e olhos mais verdes que os meus. Ele usava um suéter preto e parece o tipo de cara que escreve poesias na cafeteria. Camily tinha um gosto maravilhoso para homens, era um fato!
—Deixa eu adivinhar, Lina Jensen? -ele se levantou enquanto eu me aproximava da mesa, passou os olhos sobre mim curioso.
—Decepcionado? -perguntei deixando escapar um sorriso ainda impressionada pelo homem a minha frente.
—Nem um pouco. É um prazer finalmente conhecê-la! -ele ergueu a mão direita para me cumprimentar, rapidamente a apertei. -Camily me disse tantas coisas sobre você. -ele continuou.
—Espero que apenas coisas boas! -repliquei e nós dois nos sentamos frente a frente na pequena mesa.
—Muitas coisas boas e algo sobre não esquecer meu casaco com você essa noite. -ele respondeu. Muito engraçado Camily!
—Longa história! Mas ela também me disse algumas coisas sobre você…
—Espero que não tenha te deixado com muitas expectativas. -ele respondeu com um lindo sorriso brotando nos lábios. Difícil seria não criar expectativas...
—Bem, quando alguém diz que achou sua alma gêmea, as mulheres tendem a criar expectativas. Sorte sua que sei quão exagerada ela pode ser! -afirmei, enquanto ele fez um sinal para chamar um garçom.
—Não sei se ela te disse, mas eu tive um último término complicado… -ele contou, voltando-se a mim.
—Deixa eu adivinhar! Ela te traiu com o ex dela? -perguntei.
—Não. -ele respondeu rindo.
—Com seu colega de apartamento?
—Não!
—Com seu melhor amigo?
—Quase!
—Ai meu Deus! Ela te traiu com seu irmão? -perguntei novamente. Ele fez uma careta engraçada, como quem admite o fracasso fazendo ficar impossível não rir.
—Não tem o direito de rir da minha desgraça, sei tudo sobre o Charles-babaca!
—Ela te contou sobre o Charles? Eu vou matar a Camily!
—Queimou mesmo o casaco dele?
—Tem alguma coisa que ela não te contou?
—Bom, ela não tinha me dito que você era tão mais bonita pessoalmente…
Outro sorriso. Ele sorri também. É quando descubro que não há nenhuma maldição no Brillant Night, eu é que tinha o péssimo costume de escolher pessoas erradas, e naquele momento, pedi a todos os seres divinos que podiam me ouvir que James não fosse uma dessas pessoas.
(…)
No fim da noite, ele faz questão de me levar até a porta de casa. Nós dois estávamos rindo quando ele se aproximou para me beijar, cedi imediatamente, é um beijo doce e calmo, que terminou com um gosto absurdo de quero mais. Assim que ele se afastou, foi minha vez de reaproximar, o beijando novamente.
—Desculpa interromper! -a porta da minha casa se abriu, eu havia esquecido que Ben era meu novo hóspede.
—Esse é o Ben! -falei me virando para James, tentando arrumar alguma maneira de colocar em palavras a situação de Ben, desisti assim que vi a expressão confusa dele.
—Futuro morador dessa casa. -Ben acrescentou, sorrindo.
—Você não me disse que ia se mudar. -James revesou o olhar entre nós dois antes de presumir.
—Eu não vou!
—Vocês demoraram em! Eu não sabia se deveria trancar a porta. -Ben continuou, me fazendo querer arrancar sua cabeça.
Lancei o meu melhor olhar de vilã de filme de terror para ele, que apenas fingiu não ver.
—James, o encontro foi ótimo. Obrigada pelo jantar! -eu disse, tentando acabar com o momento estranho.
—De nada. Tenham uma boa noite! -James disse, olhando para o chão.
—Pra você também, amigão! -Ben respondeu enquanto James se virava para ir embora,e onde eu estava com a cabeça quando deixei Ben ficar?
Empurrei ele para dentro e fechei a porta.
—Você tem cinco anos por acaso?
—Ei, essa é a idade do meu filho. -ele respondeu, eu o encarei com o olhar macabro de novo. -Ah, você queria trazê-lo para dentro? Me desculpa! -só então ele pareceu notar, tentando segurar outro sorriso que começava a se formar. -Ainda vou poder ficar, certo? -perguntou logo em seguida, preocupado.
—Já passou de meia-noite?
—São uma e quatro da manhã. -ele conferiu em seu celular.
—Então, não! Você não pode ficar. -afirmei, nunca mais precisaria dizer sim a ninguém. -Como eu senti falta de dizer isso! Não, Ben! Não! -neguei novamente, me sentindo livre.
—Vou te deixar pensar mais um pouquinho, Lina. -ele diz fingindo não ouvir, andando até o quarto de hóspedes.
—Não, não, não! —cantarolei enquanto também andava até meu quarto, finalmente me sentindo aliviada depois de tantos dias. -Não! -disse mais uma vez antes de fechar a porta e cair na cama.
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