As pegadas da Borboleta
3 Segunda – 11:32 da manhã – Curitiba-PR
O estudo da Psicologia não é uma tarefa fácil, embora muito pensem que apenas loucos tem a capacidade de entender outros loucos.
Cheguei da faculdade uma hora antes. Minha mente estava exausta depois da avaliação de Psicologia Existencial e Humanista. E para variar entrei em guerra com a porta do apartamento novamente, pela terceira vez na semana ela custava em girar a chave.
Empregando um pouco mais de força consegui adentar o apartamento, quase caindo com o empurrão que dei na porta.
— Cath você é uma mentira! – ouvi o sarcasmo no tom de voz de Amanda, minha colega de contas; já que dividíamos o apartamento há quase dois anos.
Ela despontou de seu aposento. Seus longos cabelos castanhos esvoaçavam com seus passos apresados. Amanda era uma garota bonita, pele bronzeada e sem imperfeiçoes, cabelo até a cintura, olhos castanhos que sempre estavam atentos a tudo ao seu redor.
Fechei a porta e cortei o aposento indo até a mesa da cozinha, onde depositei minha bolsa carregada de livros sobre o mármore.
— O que eu fiz dessa vez? – indaguei franzindo o cenho. Inclinei-me para olhá-la.
Ela desviou o passa pratos que dividia a sala da cozinha, parou na minha frente com aquele tipo de olhar em particular, era desafiador encará-la por muito tempo.
— Você deu um fora no Felipe? – sua fala estava carregada de indignação. Revirei os olhos e bufei. Dei as costas a Amanda caminhando em direção a geladeira, era o melhor jeito que esquivar-me de conversas sobre garotos. — o que disse a ele? – ela insistiu.
Abri a geladeira e observei seu interior. Apanhei uma lata de refrigerante. Respirei fundo pensando em uma boa resposta a minha amiga. Fechei a geladeira e a encarei.
— Amanda, o mundo não gira em torno dos garotos que eu estou pegando, ou que eu vou pegar. – abri a lata e bebi boa parte de seu conteúdo sentindo o gás do liquido arranhar minha garganta.
— Não me venha com esse discurso de: eu me basto... não hoje. – comentou puxando uma das cadeiras da mesa e sentando-se empertigada, apanhou o smartphone do bolso, agora tinha os olhos concentrados na tela do objeto.
Liguei a TV e me juntei a ela a mesa.
— Por que matou aula? – a questionei, tentando mudar de assunto, dei mais alguns goles no refrigerante. – não vi você nos corredores...
Amanda parecia muito concentrada em seu celular digitando alguma mensagem. Travou o aparelho e depositou o olhar sobre o meu, agora apresentava um aspecto entristecido.
— O orientador do meu artigo está me crucificando... – desabafou desgostosa.
Amanda cursava o quarto ano de Geografia.
— Mudou o tema de novo? – perguntei curiosa. Nas ultimas quatro semanas ela já havia mudado o tema cinco vezes. Tinha muita criatividade e um interesse diversificado por temas aleatórios como: Geografia Escolar, Território Semiárido, Rochas...
— Mudei... – ela assentiu. – penso em falar sobre aquecimento global e a Amazônia.- comentou empolgada. Tirei os olhos da TV para observá-la. — Seu pai poderia me ajudar nisso...
Nunca gostei de tocar no assunto do meu pai, e Amanda sabia muito bem disso. Era um dos motivos de eu não me apagar tanto a relacionamentos; uma hora ou outra, por mais perfeitos que pareçam, eles estão fadados a acabar. Como o que aconteceu com o casamento dos meus pais.
Ele tinha outra casa, em outro lugar. E também tinha outra família, uma esposa mais jovem que minha mãe, e outra filha a qual ele enciste em dizer que é minha irmã. É difícil engolir que seu pai foi casado por vinte e dois anos com sua mãe, mas também tinha um relacionamento a dezoito com outra mulher.
— Nem pensar... Eu não falo com ele... – funguei, bebi em um gole o que restara do refrigerante na lata apenas para que a sensação de pesar desarvorasse de meu peito.
— Em falar nisso, não é ele na TV? – meus sentidos voltaram-se para o aparelho antes mesmo de eu processar a informação. Encarei os olhos de Aidan Matias sendo transmitidos de uma GoPro. Conseguia ouvir o barulho das hélices do helicóptero.
Mas havia algo errado com Aidan. Com aquele olhar. Ele não demonstrava sua excitação habitual, por outro lado, parecia que certa agonia rompia deles.
— É sim... vou mudar de canal.- levantei-me rapidamente tentando ignorar o que Aidan estava prestes a falar, havíamos perdido o controle da TV, sendo assim só poderia tirar meu pai fora do ar encarando mais de perto a sua face.
— Boa tarde telespectadores... eu sou Aidan Matias. – sua voz ecoou por todas as extremidades de meu crânio, fiquei inerte por alguns segundos na frente do aparelho de TV, apenas encarando aquele homem. — e estou sobrevoando uma das três maiores florestas tropicais do mundo... estou aqui para convidá-los a assistir o programa na sexta... ele vai falar sobre...- a transmissão começou a ficar ruim de uma hora para outra. A câmera congelou na face em pânico de meu pai. – O que está havendo? – a voz dele parecia perturbada, estava baixa de mais, mas mesmo assim eu conseguia constatar o pânico.
— Fomos atingidos. – comentou outra voz, a mesmo tom, chiada. A transmissão fora cortada ali.
Meu coração disparou, era como se o ambiente não comportasse ar suficiente para dilatar meus brônquios. Meus pulmões estavam hiperventilado, iria desmaiar por conta do nervosismo que se espalhava por toda minha nomenclatura.
— Ai meu Deus... – falei, Amanda rapidamente veio a meu encontro, mas não me movi até os ancoras do jornal reaparecerem.
— Desculpem-nos, mas tivemos um problema técnico. – comentou o homem de terno.
— O que aconteceu? – quis saber, minha pergunta era direcionada ao apresentador do jornal, parecia uma lunática falando com um aparelho de TV. Esquivei-me do toque de Amanda que tentava me abraçar. Cliquei em um dos botões do painel, outra emissora transmitia uma bola de fogo queimando entre uma vegetação, em baixo conseguia ver a legenda “acidente aéreo ao vivo”. Meu coração congelou. – PAIIIII – gritar foi à única reação que consegui ter.
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