As pegadas da Borboleta
7 De forma literal
Minha cabeça estava começando a doer enquanto procurávamos o caderno de Aidan. Nina e Amanda procuraram nas caixas, eu vasculhei a escrivaninha e alguns arquivos do laptop e espera de encontrar mais alguma pista. Mas nada estava dando certo.
O estresse começava a tomar conta do ar.
— Seu pai não era o tipo “cara organizado”, não é mesmo? – as palavras de Amanda saíram em tom de sarcasmo. Nina que terminava de guardar os entulhos de volta para caixa, a encarou.
— Por que diz isso? – quis saber quase de imediatamente franzindo o cenho.
Amanda movimentou a face para poder observar minha irmã.
— Olha para essa prateleira de livros... aviação, biologia, publicidade... parece uma zona. – comentou sorrindo apontando com o indicador uma das prateleiras de livros a parede. Rapidamente andou em direção a ela disposta a organizar aquela zona.
— Não mecha na prateleira... – Nina advertiu.
— Por que? – agora eu perguntara.
— Deve ter um motivo para ela estar assim. – Nina arquejou. Deixou de lado seus afazeres e então se colocou a frente da prateleira, como se isso fosse a ajudar a enxergar melhor.
— E qual seria o motivo? – perguntei novamente enquanto levantava-me da cadeira de trás escrivaninha.
-DIRETO AO TOPO... -
— O que? – não estava entendendo absolutamente nada, e possivelmente minha indagação carregada de euforia deixara isso bem claro.
Nina inclinou a face em minha direção. Seus olhos reluziam, como se tivesse visto algo tão obvio, mas que passava despercebido aos olhos de qualquer outra pessoa.
— Direto ao topo... leia os livros na ordem seguindo a primeira letra de casa capa. – ela indicou-me a linha de livros que formulavam a frase.
Parei a frente da prateleira. Meus olhos focalizaram cada capa colorida dos diversos livros. Analisei cada um deles minunciosamente. Queria entende o que Nina estava falando.
Dieselpunk – Pais da aviação – de Lodi-ribeiro.
Introduction to air trnasport economics – Fleming, Tracker e Vasigh.
Redação publicitária – Gabrieli e Hoff.
Evolução – O sentido da Biologia – El-hani e Meyer.
Transformando crise em oportunidade – Velloso.
O gene egoísta – Dawkins.
Amazônia contrastes e perspectivas – Pennaforte.
O maior espetáculo da Terra – Evidencias da evolução – Dawkins.
Transporte aéreo e aviação no Brasil – Fernandes e Pacheco.
O planeta azul – Uma introdução as ciências marinhas – Schmiegelow.
Perda total – Sant’anna.
O que é ser humano? – Ferry e Vincent.
Era como se nosso pai tivesse deixado mais uma pista no ar. Mas o que aquilo significava?
— Direto ao topo? – indaguei tentando compreender o verdadeiro significado daquela frase, minha voz recobrara o animo. Era como se meus neurônios levassem um grande choque, agora estava mais desperta do que nunca. Olhei para Nina, ela encarava-me com a mesma intensidade.
— Ao topo de que? – questionou-se Amanda rindo da própria indagação. – Topo da carreira?
— Não faço ideia... – comentei relaxando os ombros. — vou vasculhar os arquivos do computador. – comentei jogando-me novamente a cadeira da escrivaninha.
— Tenho um pendrive na bolsa... pode copiar os arquivos para mim? – Nina quis saber. Não era invasão de privacidade.
— Claro... vou ficar com o laptop. – Nina esticou-me um pendrive verde que rapidamente o pluguei no USB e transferi o maxi de arquivos que couberam em seus 16GB.
Procuramos por horas um significado para aquela frase. Talvez não tivesse um significado, ou então Aidan apenas achara engraçado colocar os livros naquela ordem. Bem, para ele tudo tinha um significado, tudo era passível de interpretação, e não só por um lado, mas uma interpretação que desencadeasse inúmeras incógnitas em nossa mente. Aidan era um apaixonado por enigmas.
— Não querendo ser estraga prazeres, mas já são seis e meia gente. – Amanda nos alertou checando a tela de seu samartphone. — meu ônibus sai as oito e meia.
Ela retornaria para Curitiba ainda hoje, precisava voltar a sua rotina, e principalmente para a faculdade.
Passei as mãos nos olhos, tentando despertar, fazia um tempo já que eu estava vasculhando as pastas de arquivos do computador. Mais tempo do que eu esperava passar.
Levantei-me em um impulso. Nina apanhou toda papelada a qual espalhara pelo chão e jogou dentro de uma das caixas de papelão.
— Tudo bem... – assenti para Amanda. Era hora de parar e retornar para nossas vidas reais. — Vou levar você de volta Nina... – tínhamos passado tempo de mais ali, esperava não ter arranjado problemas para Nina e Cecilia.
Apanhei o laptop, entreguei o pendrive para Nina. Não havíamos encontrado resposta alguma. E o vídeo que Aidan deixara para nós apenas mexera com nossa imaginação.
— O que disse para sua mãe? – perguntei a Nina enquanto trancava a porta.
Ela armou um sorriso, passou a mão sobre seu cachos perfeitos e me encarou com um olhar malicioso.
— Que, uma conhecida queria me ver... – disse displicente. Comecei a rir da desculpa mais boba que já ouvira na vida.
— E ela deixou você sair? – Amanda a questionou. Agora embarcávamos no gol.
— Ela ia ficar deitada no quarto o dia todo... – falou fechando a porta do automóvel. Suspirou melancolicamente. — ainda não se recuperou.
Fiz um barulho com a boca de modo a parecer um riso sem graça.
— Olha para nós duas... acho que procurar enigmas de nosso pai não é sinônimo de recuperação. – dei a partida com o carro.
— A diferença é que: ele tinha algo para nos mostrar. – Nina tinha razão em sua afirmativa. Mas por que Aidan era tão misterioso, talvez nunca tenhamos conhecido de fato nosso pai.
Talvez nunca conheceremos de fato uma pessoa, não importa quão próxima ela pode ser... sempre terá um lado obscuro, um lado que ninguém, nem mesmo em uma forma microscópica, consiga ver. Até nós temos um lado obscuro.
Deixei Nina no estacionamento do Hotel Napoleon, ela desembarcou, mas antes de fechar a porta do automóvel lançou me um olhar inquieto.
— Se tiver alguma ideia, me liga. – pediu, curvou a face e encarou Amanda.
— Digo o mesmo. – falei.
-Tchau Amanda, foi um prazer. – despediu-se brevemente dando um aceno a Amanda.
— O prazer foi meu... – comentou minha amiga com um sorriso a face. — boa viagem para casa.
Nina fechou a porta do automóvel e distanciou-se de nós, checamos se ela entrar no Hotel, se estaria segura.
O inicio da noite fora tranquilo. Amanda e eu jantamos em um dos três restaurantes da Cidade X, e a comida estava excelente. Logo a levei para casa, apanhou suas coisas, despediu-se de minha mãe, e então a levei até a rodoviária.
Esperamos por cerca de trinta minutos a chegada do ônibus, Amanda tentou interpretar a frase “direto ao topo” umas mil vezes, só que nenhuma fez completo sentido, e algumas de suas interpretações eram cômicas apenas para me animar.
— Você vai ficar bem? – ela perguntou logo após o ônibus chegar e colocar suas malas no bagageiro.
— Vou sim... ainda não posso voltar para Curitiba. – disse enquanto assentia.
— Eu entendo... – o motorista passou recolhendo os tíquetes das passagens. — mas, para o que você precisar eu estou disponível. – disse como boa amiga que era. — se precisar que eu...
— Está tudo bem. – tesourei suas palavras. Sabia que poderia confiar minha vida a Amanda. A abracei em forma de despedida. — me ligue quando chegar em casa. – pedi.
— Ligo sim. – ela disse cessando o abraço. E embarcando no ônibus.
Fiquei parada a plataforma até o ônibus partir. Voltei para o gol e dirigi rumo minha casa.
...
Tomei um banho para relaxar e tentar esquecer todas as informações que meu cérebro recebera naquele dia, mas fora impossível esquecer das palavras e mistérios de Aidan Matias.
Deitei na cama e puxei o leptop, estava disposta a rever todas as pastas de arquivos novamente. Deveria ter algo que não consegui encontrar.
— O que está fazendo? – minha mãe adentrou meu aposento sem bater na porta. Usava seu hobby de cetim negro. Ela permaneceu parado e apoiada ao encalço da porta. Seus olhos encaravam-me com um aspecto dócil, era praticamente um pedido de paz.
Margaret sempre teve um gênio difícil, mas quando ela vai atrás de algo é porque saber que vale a pena. E neste caso, ela sabia que me tratar com arrogância depois de seu ataque histérico no jantar, havia sido um erro mortal em sua vida.
— Nada... tentando me distrair um pouco... – fechei o laptop que pegara no escritório de Aidan e o coloquei sobre a mesa de cabeceira. A encarei por longos instantes analisando cada traço. Não havia mais curativo em sua mão. — como você está?
— Bem melhor. – ela adentrou o quarto, parou em frente a cama. — Como foi seu dia com Amanda?
— Foi tranquilo... obrigada por me deixar ficar com o carro. – tentei manter minha voz ao mesmo tom do de Margaret.
— Você já é adulta... – comentou armando um sorriso de canto de boca. — mas será que uma adulta ainda tem tempo de assistir um filme com sua mãe? – questionou-me. Era um tratado de paz, finalmente.
— É claro que tenho... – Margaret andou até o outro lado da cama e se deitou, logo puxou o DVD que trazia em mãos “E o vento levou”, era um de seus filmes favoritos; aquele tipo de filme que te dá forças quando sua vida está um desastre, e você não precisa de mais ninguém para jogar TNT.
...
Eu estava andando sobre uma grande ponte de madeira, algumas partes cediam com o toque de meus pés e despencavam despenhadeiro a baixo. Sentia a sensação de que estava prestes a cair. Então um barulho inundou meu crânio, como se algo vibrasse.
Despertei do sonho com o celular tocando. A foto de Amanda sorridente com um copo de cerveja na mão tomava a tela do celular.
Atendi a ligação.
— OI. – a voz de Amanda parecia animada do outro lado da linha.
— Você chegou bem? – perguntei entre um bocejo.
— Sim... a viagem sempre é cansativa... desculpa ligar a essa hora. – retirei o celular do ouvido e chequei as horas, eram duas da manha, colei o aparelho próximo a meu rosto novamente. – o ônibus teve um problema na pista, por isso atrasou. – comentou, já que em horário normal fazemos a viagem em quatro horas.
Meus olhos começaram a pesar com o sono.
— Não... fui eu quem pediu para você ligar... – comentei. — como está o apartamento?
— Está tranquilo. – disse. Por alguns instantes ouvi apenas a sua respiração do outro lado da linha, era como se quisesse me falar alguma coisa. — eu estive pensando no ônibus... e se aquela frase for de uma forma literal... direto ao topo... o que tem no topo?
Não estava compreendendo nada do que Amanda estava dizendo. Meu cérebro não conseguia processar informação alguma.
— Como assim? – minha fala saiu quase inaudível por conta da sonolência.
A voz de minha amiga novamente tomou meus ouvidos.
— A luz do indicador do sinto estava ligada no teto do ônibus... o topo do ônibus é o teto... – foi como um estalo interior. O sono sumiu do nada, abri bem meus olhos e encarei o teto de meu quarto. Meu coração começou a pulsar rapidamente dentro de meu peito. Ela tinha razão. — olhe pra cima.
— Ai meu Deus Amanda... tenho que voltar ao escritório. – com um impulso sentei-me na cama sendo dominada por uma corrente de energia.
— Me manda noticias. – ela pediu. Desliguei a ligação sem ao menos a responder.
Corri para o andar de baixo, quase caindo escada abaixo por conta das pantufas. Rapidamente apanhei a chave do gol e do escritório, direcionei meus passos para a garagem. Tentei não fazer muito barulho para minha mão não despertar, dei a partida com o carro e sai pelas ruas da Cidade X, rumo, novamente, ao escritório de meu pai.
Sem luz o local ficava completamente assustador. Tinha o aspecto de um depósito de entulhos. Acionei o interruptor, mas a luz não acendeu, possivelmente haviam cortado a energia elétrica, afinal de contas o escritório estava às moscas há meses.
Acionei o flechei de meu smartphone iluminando o local por onde passava. Pulei algumas caixas então iluminei o teto do escritório. Meus olhos logo se depararam com uma protuberância nos quadrados de gesso, como se um deles não fosse encaixado corretamente. Deveria ter algo ali. Empurrei as caixas do chão, logo posicionei a escrivaninha sob o bloco de gesso. Coloquei uma dadeira sobre a escrivaninha, de modo a fazer minha escalada literalmente “direto ao topo”. Subi na cadeira e empurrei o bloco de gesso para cima. Ele cedeu com facilidade e deslizou para a esquerda abrindo um buraco no teto. Pensei duas vezes antes de colocar a cabeça dentro do buraco, ainda iluminando o local com o fleche do celular. Passei a luz por todo o forro empoeirado. Então encontrei o que Aidan queria fosse encontrado. Havia um embrulho feito com jornais, colocado a lateral esquerda de outro bloco de gesso. Fiz esforço com os pés me esticando e tomando cuidado para a cadeira não ceder. Apanhei o embrulho completamente empoeirado e coberto de telhas de aranha, rapidamente pulei para o chão.
Apoiei meu celular na mesa, de forma que o fleche continuasse a iluminar a ambiência. Sentindo a aspereza do pó que acumulara nos jornais, rasguei os papeis com os dedos, desvendando o que havia por baixo daquele “presente”, e para minha surpresa era o que nós estávamos procurando. Ali estava a agenda com capa de asa da Borboleta Coruja. “Dexei algo no Notebook” a voz de meu pai ressoou pelos meus ouvidos. Ele adorava mesmo um enigma.
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