As palavras de Rudy
1 As últimas palavras de Rudy Steiner.
Notas iniciais
Bem vindo ao diário secreto do Rudy.
Eu não sei quem você é.
Nunca vi o seu rosto ou mesmo a sua voz.
Mas se você está lendo este diário, espero que tenha sido por meio de uma dessas quatro formas:
1 — Você o encontrou.
2 — Você roubou.
3 — Liesel te deu ou te mostrou.
4 — Você é a Liesel!
Se foi a forma número 1, não vou te considerar tão magnífico assim, mas ainda posso dizer que você é um pouco... hum... Interessante. Porque você poderia ter simplesmente deixado este diário molhar na chuva, ser pisoteado, atropelado, ou ainda enterrado pela neve do Fürer.
Se foi a forma número 2, preciso lhe dar os parabéns. Estou orgulhoso, de verdade. Sabia que eu sou oficialmente membro de uma gang? É. A Liesel também faz parte, mas se você for ela, já sabe disso, claro.
Se foi a forma número 3, confesso que estou um pouco decepcionado, pra não dizer enciumado com isso. Sabe... Liesel não é só a minha parceira de futebol, ou minha colega da Juventude Hitlerista, ou minha sócia de roubos. Não... Liesel é simplesmente, extraordinariamente, a menina mais legal de toda a Alemanha. Não gosto de pensar que ela compartilharia isso com outra pessoa, até porque eu a conheço bem demais pra achar que ela se desfaria de um livro assim tão rápido. A não ser que já tenha se passado anos e anos... E ela esteja bem velhinha...
Se foi a número 4... Bom... Vai por o nariz em outro livro, sua *Saumensch!
Tudo bem, tudo bem, eu sei que a tentação é grande, pode ler. Até porque eu estou escrevendo já sabendo da possibilidade do meu diário parar nas suas mãos. Eu não consigo esconder nada de você. É sério. Eu simplesmente não consigo negar nada que essa carinha de Saumensch pede pra eu fazer.
Teve até aquela vez que eu deixei de ir atrás de comida só pra pegar aquele livro idiota. Sim, Liesel, eu não esqueci. E até acabei deixando pra lá meus ressentimentos depois daquele prato delicioso de biscoitos que a mulher do prefeito deixou pra gente.
Ah, falando naquele dia, acabei de me lembrar: eu achei uma bicicleta irada naquela rua das maçãs, sabia? Arthur Berg me ajudou a levá-la pra casa em troca de mais algumas maçãs. Fiquei meio triste por ter que me livrar do meu lanche, mas eu acho que valeu a pena, sabe. Ela está linda! Você gosta de andar de bicicleta, não gosta? Pois acho bom gostar agora, Liesel Meminger, porque eu não gastei quatro maçãs vermelhinhas pra você recusar seu presente adiantado de Natal.
E falando em presentes... Que tal um beijo, Saumensch? Ah, qual é. Um beijinho só. Você não vai precisar gastar nada, só seus lábios, ora bolas! Eu não entendo essa sua frescura. Tem algo de errado comigo? Eu sei que sou meio magrelo, mas eu sou o melhor corredor de toda a Alemanha!!! Nem assim, Saumensch? Não gostaria de beijar o Jesse Owens?
Tudo o que eu ganho por ser um bom corredor são beijos de terra. Aquele Arschloch do Franz Deutscher fica me empurrando toda hora, caramba! Qual o problema dele? Aposto que deve ser inveja. É. Ele deve morrer de inveja porque ele nunca me venceria numa corrida sem que me empurrasse antes disso.
Olha, se você não for a Liesel, aposto que está meio perdido com tantos nomes. Franz Deutscher é meu treinador lá da Juventude Hitlerista e Arthur Berg é o líder da nossa "gang". Mas não se preocupe, a gente só rouba comida. Essa bicicleta foi exceção, até porque ela estava abandonada e quebrada; tivemos de consertar sozinhos, meus irmãos ajudaram. Ai se essa Saumensch não gostar...
Ela tem que gostar. Não é?
Sabe... Minha vida mudou totalmente depois que Liesel entrou na rua Himmel. Eu me lembro como se fosse hoje. Eu estava jogando futebol com os meninos da rua quando ela chegou.
— Vai, vai, chuta logo essa bola, Saukerl!
— Se acalme, já vou, já vou!
Eu desviei de mais dois meninos e deixei que me roubassem a posse da bola quando aquele carro chique atravessou a rua. Eu me lembro muito bem de ver aquela Saumensch pela primeira vez. Os olhos dela pareciam assustados e ela não queria sair do carro de jeito nenhum.
— Anda logo, Rudy, você ainda tá jogando a porcaria do futebol?
— É claro que estou! — falei, como se fosse óbvio.
— Pois não parece!
Lancei um olhar irritado para Tommy Müller e voltei ao jogo. Mas eu não consegui dormir direito naquela noite, eu tinha que ver a tal garota nova. E eu comecei a perseguir ela todo dia até que hoje viramos grandes amigos. Mas eu ainda não esqueci da promessa do beijo, tá ouvindo, Saumensch? Você me deve desde aquele dia que eu ganhei a corrida e você se recusou aceitar a derrota!
Eu sei que eu tô lotando essas páginas só falando dela, mas você tem que entender que ela é incrível! Se você a conhecesse, com certeza saberia do que eu estou falando. Liesel também me ensinou um montão de coisas. Tipo a ler sem precisar ler, entende? Tudo bem, isso parece maluquice, eu sei. Mas eu tô dizendo algo tipo ler de verdade. Liesel era semi-analfabeta quando entrou na rua Himmel, mas nem por isso deixou de amar a leitura.
Ela lia nossos olhos, sorrisos e até nossa mentes, tô falando sério! Ela lia o céu para aquele amigo dela que não posso dizer o nome, me desculpe. É que eu prometi que ia guardar segredo, entende? Ela é importante demais pra eu quebrar um juramento desses, até porque esse segredo é infinitamente mais sério do que promessas de beijos idiotas.
O que me lembra do porquê resolvi começar este diário, afinal. Eu estou com medo. O meu papai voltou da guerra, mas ela ainda continua, sabe. Dá pra sentir nos ares de fumaça, na neve suja, nas bombas noturnas do Fürer. Pelo menos, sempre que vamos pro porão dos Fiddler, a Liesel lê pra nós. Acho que é uma forma de nos acalmar, embora não dure muito.
Na última vez, ela terminou de ler "O Dar de Ombros". Achei bem legal. Mas eu não posso mentir pra você, Liesel, eu continuo assustado. Meus irmãos também estão, embora não queiram admitir. Minha irmãzinha disse que quer dormir comigo todos esses dias. Sei lá, acho que ela se sente segura e eu deixei. Na verdade, eu queria dormir aí com você, Saumensch. Acho que sua voz e suas histórias acalmariam um pouco ela, sabe. Mas o papai disse que não, que ele quer nos proteger.
Estou começando a bocejar. Já deve passar das 8pm. Está na hora de dormir, porque amanhã a gente tem treino. Mas como eu odeio aquele Fürer! Eu queria muito que tudo isso acabasse e a gente pudesse brincar lá fora de novo, despreocupados. Ah, por sinal, tenho que lembrar a mamãe pra colocar a bandeira lá fora, amanhã tem inspeção, né? Se eu pudesse eu colocava a porcaria da bandeira lá naquela fogueira dos livros. Ela ia queimar junto com minha raiva dessa guerra! Mas eu tenho medo. Eu estou aterrorizado, Saumensch.
Que tal um beijo de boa noite? Só umzinho. Ah, como eu queria que Liesel estivesse aqui pra tudo ficar, um pouquinho só, melhor.
Depois eu escrevo mais no diário. Agora a minha irmãzinha está pedindo pra eu deitar com ela e dormir. Vou ligar a luz à gás, talvez ela durma mais rápido assim. Schlaf gut, amigo.
Espero que goste de palavras, assim como eu aprendi a gostar, na convivência com Liesel Meminger. Talvez eu esteja escrevendo tanto, mas tanto assim, porque... Bom, porque eu acho que assim eu me sinto mais perto dela.
Não sei se mostro, eu mesmo, o diário pra ela.
Vou pensar nessa possibilidade.
Obrigado por ler! Espero que tenha uma boa noite onde quer que você esteja, e eu espero que seja bem longe do Fürer.
Assinado: Rudy Steiner.
Um dia, um caderno pequeno, amassado, estaria enterrado na mistura de neve e sangue alemão. Só haveria aquele único capítulo. Rudy não teria mais outro dia. Talvez ele estivesse escrevendo tanto, mas tanto, porque sabia de alguma forma que aquelas seriam as suas últimas e sinceras palavras. Um dia, alguém o encontraria. Esse alguém choraria lágrimas de desespero e o beijaria com violência. Com as mãos trêmulas, esse alguém se agarraria ao caderno e nunca mais o soltaria. Liesel choraria ao pensar que se Rudy dormisse consigo, na noite em que escrevera, ainda estaria ali. Ele teria acordado. Liesel teria visto seus olhos brilhantes, seu cabelo cor de limão, seu sorriso sincero e caloroso.
— Acorde, Rudy, acorde. Está aqui, o seu beijo!
Mas tudo o que Liesel Meminger teria eram as palavras, como sempre. As últimas palavras de Rudy Steiner.
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