As mosqueteiras
1 Adele
Notas iniciais
O belo par de luzeiros azuis fitava atentamente da pequena fresta, as formas que pouco a pouco se tornavam nítidas na medida em que se aproximava e o sol lentamente surgia. A cada centímetro percorrido pela carruagem, seu coração batia mais rápido e forte. Um misto de ansiedade e medo possuiu seu corpo e sua mente vagava, projetando cada decisão que seria tomada a partir do momento em que cruzasse os portões da bela cidade. Paris era um sonho e sempre fervia, os acontecimentos concentravam-se naquele pequeno ponto do mundo. Era comum, pessoas migrarem para a capital da vida agitada, havia um pequeno pedaço do mundo inteiro nas formas que ficavam mais nítidas. Os portões da cidade simbolizavam em sua mente, a chance de uma nova vida. Paris era certamente um ponto de partida magnífico, abria caminho para uma vida melhor e a jovem Adele Bessette decidira que estava pronta para embarcar rumo a um futuro promissor.
Como poderia ter certeza de que não haveria preocupações? Muito simples. Encarregara-se de construir uma vida que lhe provesse conforto. De assegurar que ela teria status, poder e regalias. Havia lutado bastante para chegar até àquele ponto em que o trajeto faziam com que sua alma vibrasse a cada passo. Encarregara-se de que seus mais profundos desejos fossem atendidos. O sorriso desapareceu por alguns minutos. Recordou-se do momento em que viu sua vida mudar. Sua família estava certa de que era seu fim. Todos prontos para deserdá-la e expulsá-la de seu lar. Um erro. Bastou um erro. As consequências por conceder demasiado amor a um homem foram despontando para ela, que até aquele momento, era apenas uma criança, ingênua. Seria sua ruína e sua desgraça, descobrir que casara às escondidas com alguém que estava prometido a outra. E que aquele em quem confiou cegamente, a deixara, por medo e amor ao poder que a condição de Adele não poderia conceder. Agora, após um duro amadurecimento, ela compreendia perfeitamente os motivos de seu primeiro amor.
Ele se casou com aquela que herdaria o título de duquesa de alguma coisa. Adele não queria saber. Já não importava. Seu coração simplório havia se partido. Tinha apenas dezesseis anos na época, era impulsiva o bastante para desesperar-se por amor. Seus pais a censuraram por tal comportamento. Um envolvimento amoroso que fora consumado... Adele não era mais digna de ser uma esposa respeitável de algum homem de valor. Para sua família, havia equiparado-se a uma meretriz. Estava marcada, manchada.
Forçaram-na a afastar-se de seu círculo social, sua vida. Reclusa em um lugar esquecido por Deus, aprendeu a sobreviver, a usar seus encantos de mulher. Amadureceu e retornou ao lar, renovada, com seus sentimentos mortos, para que nada, nem ninguém pudessem machucá-la de novo. No momento em que resolveu colocar tudo que aprendera em prática, conheceu Armand. A influência daquele homem misterioso, seu poder, sua vitalidade e inteligência, surtiram em Adele, um forte interesse. Encantou-o, enlouqueceu-o, despertou nele um desejo ardente e foi assim a jovem ingênua conseguiu meios para chegar onde quisesse e conquistasse o que ansiasse. Claro que sempre havia um preço a ser pago, o de Adele fora a admiração. Armand causava uma grande admiração nela. Como era possível? Ela sabia perfeitamente que era impossível ignorar o fato de que havia naquele homem, algo extremamente magnético.
Assim, tornou-se Adele Bessette, a amante de Armand Richelieu, o cardeal, conselheiro e amigo íntimo do Rei Louis XIII. Sua sorte estava feita. E agora, seguia à recompensa para sua felicidade: Paris. A carruagem finalmente havia parado, já havia passado dos portões que tanto admirou enquanto aproximava-se. O cocheiro abriu a portinhola e a jovem de longas madeixas douradas saiu. De pé, junto a uma grande porta talhada em madeira nobre, estava seu amante acompanhado de dois de seus guardas. De cabelos acinzentados, vestes pretas, com detalhes em vermelho e dourado, ele estava ali, parado e sério. Adele havia esquecido-se daquela expressão tão severa, algumas vezes, fria.
— Espero que a viagem não tenha sido enfadonha, minha querida. — Ele disse enquanto beijava as mãos da jovem. — Não estamos na melhor localização de Paris e creio que por fora, não aparenta ser um palácio, mas acredito que estará de acordo com seu gosto o que fiz no interior de sua nova casa.
— Armand, meu amor. Sabes que não faço tanta questão de luxo, desde que estejamos juntos. — Ela disse após beija-lo no rosto, fazendo uma expressão de indiferença quanto ao presente.
— Adele... — Ele fitou seus olhos nela. — Entre! Espero que agrade você. — Disse, pondo as chaves nas mãos dela.
Ela hesitou um pouco ao abrir a pesada porta. Olhou ao redor e viu uma rua estreita, triste e cinzenta. Mas no interior... O luxo imperava. Tudo era quente, claro e banhado em seda, pedras e ouro. Ostentava poder e riqueza. Estava no caminho certo, seus desejos e ambições começaram a se tornar reais.
— A- Armand... É... Tão lindo... — Disse boquiaberta. Um momento de euforia tomou conta do seu ser. Queria rodopiar, dançar e divertir-se perdida entre os móveis, as cortinas, os tecidos, o espaço. Mas a lembrança da menina impulsiva de seus dezesseis anos a fizeram repensar seus modos. Contentou-se com uma expressão de felicidade, seguido de um olhar doce e ardente diretamente nos olhos de Armand. Andou até o centro do andar e sabia perfeitamente que ele acompanhara seus passos. Não houve qualquer surpresa ao sentir o de seu amante tão próximo ao seu, manteve seus olhos direcionados à janela, sentindo o sol que entrava e repousava delicadamente em sua pele. Fora proposital, ela tinha consciência dos olhos de Armand pousados nela, em grande contemplação. Ele a queria, ela havia determinado assim.
— Então, — Ele disse suavemente no ouvido alvo, enquanto seus dedos passeavam pelo pescoço macio e suave. — Devemos celebrar. O que acha?
Adele fez um gesto de consentimento e deu um sorriso malicioso. Richelieu a tomou por uma de suas pequenas e delicadas mãos, conduzindo-a pela escadaria, até o andar superior, onde ficava o maior quarto da residência. Sua amante de pé, parada junto a grande cama, respirava afoitamente. Ele começou a beijá-la e vagarosamente, retirar as inúmeras camadas de roupa que a cobriam. Deitou-a com cuidado na cama e amou-a.
Vários dias se passaram desde a última visita de Richelieu e Adele, apesar do grande número de criadas na casa, sentia-se solitária em um espaço tão grande. Ainda não havia feito amigos em Paris ou passeado pela cidade. De todas as pessoas de seu passado, nenhuma viria à casa de uma cortesã. Apesar de sentir que havia vencido uma competição que poucos enxergavam, Adele sabia que todos em seu passado sentiam-se superiores à ela em qualquer aspecto. Precisava respirar o ar da cidade, ver o mercado, ver a vida. Sua rotina monótona havia cansado seu espírito jovial. Chamou uma criada de sua confiança para acompanha-la, vestiu-se e colocou pela primeira vez seus pés no meio daquela rua estreita e cinzenta.
O mercado era incrível e cheio de vida. As cores, os perfumes, as pessoas. A movimentação era intensa. Adele estava com um brilho no olhar e com a satisfação estampada em seu rosto angelical. Não havia como ficar melhor.
De repente, notou um tumulto mais a frente. Aproximou-se para ver do que se tratava. Alguns homens estavam duelando, as espadas dançavam em perfeita sincronia e as pessoas riam. Reconheceu o símbolo da guarda vermelha, exército de seu amante. Eram oito guardas contra apenas dois homens e riu ao ver que a maioria estava perdendo. O povo aplaudia, gritava e gargalhava. Adele pensava tratar de alguns bêbados arruaceiros. Um era forte, robusto, com a pele negra e os cabelos curtos. O outro era um pouco mais belo, cabelos compridos e desalinhados e possuía bigode.
— Astrid! — Dirigiu-se à criada. — Do que se trata toda esta confusão, por que o povo aplaude?
— Minha senhora, agora podes dizer que vives em Paris. Trata-se de mais uma briga entre os Mosqueteiros do Rei e os soldados do Cardeal.
— Mosqueteiros... — Devaneou.
Mal dissera tais palavras e o homem de cabelos compridos foi arremessado em sua direção. Atordoada com o que acontecera, Adele ficou sem reação, apenas escutou aquela voz suave:
— Perdão, mademoiselle. Mas ouso dizer que se não estivesses nesta posição, ele teria me jogado na barraca de galinhas! — E começou a rir. Em seguida berrou. — Estes projetos de homens, são oito! E nem em vantagem conseguem me vencer, não achas, Porthos?
— Não comeces a agir como se eu deixasse toda a diversão para ti. — Respondeu aquele que respondia pelo nome de Porthos.
— São animais! — Continuou o homem. — Lançaram-me na senhorita! Devo dar o exemplo dos bons modos. — E virou-se para Adele. — Mademoiselle, permita-me desculpar-me por tê-la importunado. A culpa foi destes oito ogros. Se lhe amassei o belo vestido, peço-te perdão. E agradeço por não me deixares cair entre as galinhas, do contrário, não poderia apresentar-me como o devido cavalheiro que sou. Como se chama minha bela salvadora? — Em seguida curvou-se desajeitadamente.
— Adele. Adele Bessette, monsieur. — Disse timidamente.
— É perfeitamente o nome que eu designaria a um anjo. — O homem disse, um tanto desajeitado.
— E como devo chamar o homem que me sujou a barra de meu vestido favorito? — A moça revidou.
— Perdão, mademoiselle, por seu vestido. — Pegou a mão de Adele e beijou intensamente. — Chame este homem desajeitado pelo nome que lhe foi dado ao nascer. — E terminou a frase com um belo sorriso no rosto. — Sou Aramis.
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