As mãos da Rainha
9 Capítulo 8 - Decisão!
Notas iniciais
No último capítulo:
– Todos os cinco foram enforcados na praça principal do povoado. – Adrian continuou.
– Oh, não! – Veranda resmungou.
– Eu sei. Também detesto fazer isso, mas o que posso fazer? Já tentei de tudo, você sabe.
– Sim, você sabe que eu sei. – informou a rainha – onde ocorreu o incidente?
– Em Dante. No povoado natal de Sofi.
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Gelo correu nas veias de Sofi.
A sensação mais estranha, pois não sentiu frio.
A sensação mais sensata, pois congelou sua reação.
A pior sensação, pois poderia conhecer os mortos.
– No povoado de Dante? O povoado de Sofi? – Veranda não escondeu sua reação tão bem como a nova dama. Pelo contrário, causou uma cena. Assim que as palavras do rei chegaram em ondas em suas orelhas, a rainha se pôs de pé rapidamente derrubando a cadeira atrás de si. O barulho da madeira no mármore junto ao grito de Veranda arrepiaram os pelos de Sofi.
Mas o gelo permaneceu. A nova dama começou a sentir as pontas dos dedos dormentes.
– Acalme–se. – Adrian também se colocou de pé, sua cadeira não fez ruído ao ser arrastada. O rei caminhou até sua esposa vagarosamente, se abaixou, levantou a cadeira caída e abraçou Veranda. – Você sabe que não posso fazer nada a não ser cumprir a lei que eu mesmo criei. Mesmo controverso, preciso seguir as normas para manter a paz. Você sabe.
– Quantos anos eles tinham? – perguntou Veranda, que após levantar–se não havia se movido um milímetro, mesmo quando fora abraçada. – Haviam mulheres?
– Coração, por favor. Não se torture. Você sempre faz isso...
– Quantos anos eles tinham? – agora quem perguntou foi a própria Sofi desperta de seu congelamento momentâneo. – Você sabe seus nomes?
Rei Adrian soltou Veranda para olhar a nova dama. Havia dor em seus olhos. A rainha também olhou Sofi e depois desviou os olhos, como se não pudesse encará–la no momento.
A dama sempre ficara tensa quando castigos eram aplicados em sua vila. Sendo enforcamentos, decapitações, chibatadas, prisões públicas, prisões comuns ou multas.
Não era novidade para ninguém.
Não era novidade para Sofi.
Mas a escuridão do desconhecimento, o não saber quem ou como, era insuportável. Ao menos, ao assistir uma execução pública, Sofi sabia o que o infrator fez e quem era o dito cujo.
– Vocês não querem saber nomes, sexo ou idade. – Adrian implorou. Não passou nem por um segundo na mente da dama que ela deveria ficar de boca fechada e respeitar a grande diferença de hierarquia entre os dois e ela.
Algo dentro dela sabia que ela não queria saber a resposta.
Algo dentro dela precisava saber a resposta.
– Adrian, por favor!
– Majestade, por favor! – as duas falaram ao mesmo tempo. Sincronizadas. Derrubando as defesas do rei.
Rei Adrian se dirigiu novamente ao seu lugar na mesa e se sentou com pesar, as mãos cobrindo os olhos. Alguns segundos se passaram e as duas mulheres sabiam que deveriam se aquietar e esperar a decisão final.
E esta, foi tomada rapidamente.
– Não sei nomes. Sei que havia um mulher. Também não posso informar idades com precisão, as únicas informações mais precisas são que dois deles tinham mais de 40 anos, dois por volta de vinte ou trinta anos e um estava ainda no inicio da adolescência.
– Uma criança? – Veranda explodiu. – Você matou uma criança?
– Eu não matei ninguém! – Adrian ainda mantinha o tom de voz baixo, mas algo se quebrou no sentença. – Entenda, Veranda: Eu não mato pessoas! Não sou um assassino. As mortes são as consequências dos atos destas pessoas. Elas sabiam o que aconteceria se o fizessem e mesmo assim o fizeram! Culpar o governo pelas consequências de seus próprios atos não é desculpa e muito menos justificativa. Se você não trabalhar, vai passar fome! Se você quebrar as leis, terá que responder a elas!
– Mas eu odeio isso! Você sabe que odeio! — Veranda disparou.
Silêncio. Os olhos de Adrian arregalaram-se. Mas a dama mal estava escutando. Sua mente parou na parte do "um deles estava no inicio da adolescência".
Quem pode ser? As possibilidades eram gigantescas.
Seria Bruno, filho do ferreiro? Seria Beatriz, irmã de Nora? Ou Dowglas? Ou Carlos? Ou Amanda, Serena, Gemma, Clara, Ana... ou seria Pedro, seu irmão?
Ela sabia muito bem que seu irmão mais novo não se agradava do governo e sempre fugia para participar de reuniões mortais. Sabia, mas não poderia perguntar. Precisava ficar quieta. Não poderia levantar suspeitas desnecessárias.
Não poderia perguntar.
Precisava perguntar.
– Você sabe a aparência do mais novo, majestade? — não se conteve.
– Não importa a aparência. Não importa a idade. Não importa o sexo, nome ou religião. Os castigados começaram a instigar uma rebelião! O caos se instalaria no reino se não tomasse medidas. Agora, Veranda, sente-se, vamos continuar a refeição.
– Não tenho fome. — respondeu Veranda. Sofi começou a se levantar quando as palavras do rei a parou.
– Acredito que tenha dito: "Sente-se, vamos continuar a refeição", coração. Então, sente-se e vamos continuar a refeição, Veranda. Tudo bem?
Contudo, Veranda não se moveu. Os dois se encaram por alguns segundos, Sofi pensou que iriam se encarar para sempre. Mas diferente do que qualquer um pensaria, não havia tensão no ar. Rei Adrian continuava sereno e com um sorriso no rosto, seu cabelo desarrumado quase cobrindo os olhos dando o ar infantil e delicado. Veranda mantinha uma pose contrariada, a situação ainda permanecia entalada em sua garganta. Simplesmente não conseguia engolir.
Sofi mal podia respirar. Medo. Estou com medo. Concluiu a pequena parte de sua mente que ainda se mantinha sã. A outra era só Que não seja ele! Que não seja ele! Deus, proteja Pedro. Que não seja ele. Por favor!
A nova dama permanecia encurvada, sem saber o que fazer. Nem em pé, e muito menos sentada. Se algum servo aparecesse na sala de jantar neste minuto poderia achar a situação hilária.
– Tudo bem? — Adrian repetiu, confirmando as suspeitas de Sofi: se ninguém fizesse nada, os dois ficariam se encaram eternamente.
Ou ao menos, por um longo tempo.
A rainha suspirou antes de voltar a sentar. Finalmente derrotada, Veranda suavizou sua expressão e virou os olhos.
– Tudo bem! — começou a rainha — O que você não me pede chorando que eu não faço sorrindo!? Não é mesmo? — e ainda riu de suas palavras. Sofi rapidamente se sentou e voltou a servir a rainha. Ela não precisava de comandos, sabia o que estava fazendo.
– Pelo que pude perceber da situação, eu não estava chorando. — ironizou Adrian — muito pelo contrário. Sou incapaz de chorar quando olho pra você, coração. Sua presença é água pura para meus olhos!
– Claro, claro! Desculpe! Você conseguiu! — Veranda sorriu e virou os olhos novamente. — Eu sei que você tem que desempenhar sua função. Assim como devo desempenhar a minha.
– E a minha senhora o faz maravilhosamente bem!
– Não duvido. Afinal, que escolha tenho?
– Nenhuma, sinto muito. — Adrian deu de ombros e Sofi se perdeu. Os dois estavam conversando em códigos que somente eles conheciam. A nova dama irritou-se. Não gostava de não saber o que estava acontecendo. Sua natureza não permitia isso. — Os soberanos carregam o peso de uma nação nas costas. Todos os infratores devem ser punidos.
– Então o que você está fazendo na minha frente? — Veranda disparou.
Alguns segundo se passaram em silêncio. A frase havia sido muito mal colocada, na opinião da Sofi. Veranda fez parecer até... até... mas não. Pare com isso! Repreendeu-se a nova dama, antes de concluir o pensamento maldoso.
– Não posso nem passar tempo de qualidade com a mulher da minha vida? — Adrian revelou o significado das palavras. É claro! Repreendeu-se, Sofi.
– Sempre que quiser, meu rei! — informou Veranda encarando seu marido. A boca torcida num meio sorriso travesso. — Sempre que quiser.
– Fico feliz que tenha se conformado com os últimos acontecimentos. Sei que odeia os castigos, mas estes são necessários.
Sofi já havia parado de escutar faz tempo. Seu medo havia irrompido de sua pele em vapor e inundava a superfície da nova dama. O gelo ainda corria em suas veias, porém agora não mais se sentia congelada. Estranhamente, sentia-se quente. Gelo nas veias, fogo na pele. Contradição e desentendimento.
Algo naquilo tudo não pareceu bom. Algo naquilo não era bom.
Mal se deu conta que já havia dado toda a comida para Veranda e se viu raspando o prato.
Mal se deu conta de levar a rainha aos seus aposentos.
Mal se deu conta de ir para a cozinha (mal se deu conta de chegar rapidamente pelo mesmo caminho da primeira vez).
Mal se deu conta de chegar na cozinha e cumprimentar Geni.
– Você está bem, So... — a chefe da cozinha começou a perguntar, porém foi interrompida por Guarda: 604 que irrompeu na cozinha.
– Sofi, posso falar com você por um minuto?
Sofi saiu de seu estado de entorpecimento pelo repentino aparecimento do guarda (que estranhamente entrou pela porta e não apareceu em fumaça em sua frente). Porém o que realmente a despertou foi sua expressão.
Essa não. Foi tudo o que pensou.
– Ora! Mas o que você está fazendo aqui novamente? — Geni começou, porém não houve tempo para continuar. Os dois rapidamente deixaram a cozinha.
– É sobre os castigados, não é? — Sofi se adiantou.
– Como você sabia? — Guarda:604 arregalou os olhos, o transformando momentaneamente em quase uma pessoa qualquer. Quase.
– Ai, meu Deus.
– Se acalme. Não me faça me arrepender. Eu nem sei porque estou fazendo isso, se for pego... bem, não seremos!
– Fale logo! — Sofi não aguentava mais o mistério. E o medo. Tinha muito medo do mistério.
Não queria saber. Precisava saber. Não queria saber. Precisava saber. Não queria saber. Precisava saber. Não queria saber. Precisava saber. Não queria saber. Precisava saber. Não queria saber. Precisava saber. Não queria saber. Precisava saber. Não queria saber. Precisava saber.
– Os corpos estão no castelo. — Não queria saber. — Você quer verificar se não é ninguém que você conhece? — Precisava saber.
– Por onde vamos? Iremos na sua fumaça? Vamos!
– Já falei, se acalme. Primeiro, minha fumaça não é minha. É uma dádiva do rei, não posso compartilhar ou usar quando quero. É a vontade do rei que move a guarda. E não é uma fumaça... é como se fosse uma viagem, mas eu não sei explicar. Segundo, você tem certeza que quer ver? Vou avisar, é arriscado. Eu nem sei porque estou fazendo isso, só acho que você deveria ver. Eu gostaria de saber se fosse comigo... se eu viesse de uma vila... se... enfim, você quer?
– Eu...
– Pense nas consequências. Mesmo se você conhecer alguém ali, não poderia fazer nada. Não poderá falar nada. Terá de agir como se nada tivesse acontecido. Você consegue fazer isso? Você prefere a escuridão do conforto ou a dor da clareza e conhecimento?
Sofi hesitou por uma fração de segundo antes de se decidir por completo.
– Eu preciso saber.
– Tudo bem, então. Me acompanhe.
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