As loucas viagens de Calebe Arnoffini
1 Capítulo 1 O roubo a bruxa da Arábia
Notas iniciais
O roubo a bruxa da Arábia
Com os olhos cerrados e a visão completamente turva, Calebe Arnoffini tateava seu criado mudo em busca dos óculos fundo de garrafa. Acordara ansioso para conhecer seu novo colégio. O lugar era amplo, localizado no ponto mais rico da cidade. Sua sala ficava no terceiro andar. Lustrou o protuberante relógio de bolso dourado, pertencente a sua família a gerações, os ponteiros eram delicados e bem desenhados, encantadores a quem os visse. Observou-o por longos minutos e foi à escola. Mal sabia o menino da misteriosa história por trás daquele aparentemente inocente objeto.
Durante os domínios impetuosos da Igreja Católica, vários europeus viajaram em Cruzadas para o Médio Oriente em busca da remissão de seus pecados em Jerusalém, a Terra Santa. Entre eles estava o jovem Wihem Arnoffini que, certo dia, numa expedição à Arábia, se perdeu de seu grupo e acabou em uma rústica cabana no deserto. A moradora daquela estranha residência era uma velha de cabelos prateados e olhos preenchidos por um azul etéreo. Seu visitante não sabia, mas se tratava de uma bruxa. Apesar da natureza duvidosa da anfitriã, Wihem foi recebido de forma muito hospitaleira.
No entanto, o rapaz de curiosidade aguça não pôde deixar de surrupiar um estranho e chamativo artefato. Vasculhou a fundo sua própria mente em busca de algo conhecido similar ao objeto em suas mãos, mas não conseguia assimilar. Tratava-se de um relógio, ou melhor, um artefato mágico muito avançado para a época, que os homens só entenderiam muito tempo depois. Pertencia à feiticeira, e esta, por sua vez, só percebeu o roubo depois que o jovem já se fora. Aquele amuleto controlava quase todos os seus poderes. Enfurecida, revelou seu lado vil e praguejou ferozmente contra o ladrão. Transcorreram-se os anos e a descendência dos Arnoffini chegou ao Brasil. Calebe era um desses descendentes.
O garoto, neste momento, chegará à escola. Sua primeira aula foi História. A professora chegou atrasada, entrou sorrateiramente. Seus olhos azuis etéreos percorriam a sala.
Na verdade tratava-se da própria feiticeira, que conhecia a História no geral como a palma de suas mãos pelos longos anos de vida a ela concedidos. Assim, disfarçada, continuava sua busca incessante por sua preciosidade roubada há tantos anos atrás. Não imaginava quão próximos estavam. A aula acabou. Todos os alunos voaram desenfreados pela porta. Tom, sempre desastrado, foi o último a se aproximar da porta. Derrubou o relógio dourado no chão antes de terminar o trajeto e abaixou-se para recolhê-lo. Com olhos psicopáticos, a bruxa fechou a sala e virou-se para encara-lo.
Sem nada entender, o garoto segurava seu relógio atordoado enquanto corria de um lado a outro. A velha sussurrava palavras de baixo calão. Os dedos esmaecidos esticados para Calebe. Desejava mata-lo. Todavia, um movimento mal calculado do menino, deixou o artefato cair da janela aberta. Sabendo que sua imortalidade dependia da relíquia, a feiticeira jogou-se tentando alcança-lo. Felizmente de seu corpo só restou o pó.
Calebe desceu as escadas do colégio vazio o mais rápido que pôde. Chegou ao térreo bem abaixo da janela e recolheu solenemente os pedaços do relógio de bolso quebrado. Cabia a ele desvendar estas e outras histórias inauditas dos Arnoffini.
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