Notas iniciais
Grata a todos. Com amor, Andy.

Era noite de 24 de Dezembro, o natal daquela época não era muito diferente de atualmente, sempre as mesmas coisas, amigo secreto, peru, "é pavê ou pra comer", eu só não sabia se na casa do Finn o natal era assim. Eu estava pronta, o meu clássico sobretudo preto, só que desta vez ele estava aberto, blusa de lã vermelha com as golinhas brancas a mostra, um colar, por que agora a ocasião requeria um colar, calça jeans, um cachecol marrom e aquela bota que eu usei na festa da Santana, prendi meu cabelo no tipo rabo de cavalo, deixando a franjinha solta, coloquei uns brincos de pérolas, rímel e caprichei no batom vermelho.

Eu não podia aparecer de mão abanando e como eu sou uma pessoa muito esperta, não comprei nada antes e agora, obviamente, está tudo fechado, então eis que tiro a vergonha da cara e levo uma lasanha congelada e uma Coca-Cola. Olha o meu nível, eu não sei o que era pior, aparecer sem nada ou aparecer com uma lasanha congelada. Estava saindo de casa, quando decidi deixar a lasanha e levar só o refrigerante.

Sua casa tinha apenas alguns pisca-piscas no telhado da varanda, a sala estava acesa, bati na porta.

– Oi Amiga do Finn, venha fia, entre, entre — a avó do Finn me disse toda feliz me recepcionando.

Pendurei o sobretudo no cabideiro e a segui até a cozinha, onde ela tomou o refrigerante de mim e o colocou na geladeira, Finn desceu a escada às pressas.

– Rachel Ber! — me cumprimentou com um largo sorriso no rosto, simpático.

– Vó e vô, esta é a Rachel Ber, minha amiga — ele me introduziu aos avós, dos quais os nomes não foram revelados, então ficou apenas "Vó e Vô".

Seu avô estava sentado na mesa da cozinha, era um senhor alto e magro, os cabelos e o bigode brancos, ele abriu um sorriso.

– Ah. você é a Amiga do Finn? Ele nos contou que conheceu você na escola.

– Sim, eu sou a Amiga do Finn, é, praticamente isso.

– Senta, senta, a véia foi pegar o peru.

Escutei alguns passos vindos da escada, eram passos lentos, uma moça de cabelos curtos e usando um roupão apareceu, as olheiras em baixo de seus olhos eram visíveis.

– Oi, eu sou Carole a mãe do Finn — ela me cumprimentou com as mãos, bebeu um gole d'água foi até a Vó, cochichou algo e em seguida me deu um leve sorrisinho subindo novamente para o quarto. Não a vi o resto da noite.

– Sabe, minha mãe trabalha muito, então quando chega o feriado ela só quer saber de dormir — Finn me explicou.

Eu assenti com a cabeça.

Era cerca de 21:30 quando a Vó colocou o peru na mesa, eu a ajudei a pegar os pratos, talheres e os copos, Finn tirou a Coca da geladeira, o Vô pegou a farofa, o purê e os legumes. Todos nos servimos.

Logo a Vó se serviu, em seguida Vô, Finn e eu. Entre umas garfadas e outras ela começou:

– Amiga do Finn, o que você quer ser quando crescer? — a Vó perguntou toda empolgada, ansiosa pela resposta.

Ah eu ainda não pensei nisso...

– Ah, o Finn quer ser um cantor... — ela disse me cortando.

– Vó! — Finn disse a cortando.

– O que foi? Você vive cantando no chuveiro, Amiga do Finn você devia ver, ele canta muito bem.

– Imagino... — eu ri. Eu ri pelo falo de que eu já o ouvi cantar tantas vezes na minha vida que ele nem imagina.

O jantar seguiu com a Vó contando sobre sua adolescência, que ela conheceu o Vô no colégio, que foi amor a primeira vista, ai ele foi pra guerra, e ela chorou enquanto contava que ficou com medo de perdê-lo, ai quando ele voltou sã e salvo, ele a pediu em casamento e estão aí até hoje. Foi tão intrigante, eu não sabia que casais assim ainda existiam, eu não sabia que um homem se apaixonava, quer dizer, eu ainda não creio muito nessa hipótese, sabe, pra mim homem se apaixonar é só na televisão ou em livros.

Terminamos o jantar as 22:43, eu ajudei a tirar a mesa e a lavar a louça, fiquei conversando com a Vó e percebi que o Finn saiu lá fora para fumar.

– Feliz Natal Amiga do Finn! — a Vó veio toda feliz me abraçando.Tipo, eram 23:00 horas ainda, eu não entendi direito mas retribuí.

O Vô e a Vó se abraçaram e deram um beijinho. Finn apareceu na sala, ela apressou os passos, o abraçou e deu um beijo em seu rosto, o Vô foi logo em seguida o abraçando com força. Finn amava os avós, isso estava visível, era algo até bonito de se ver.

– Boa noite Amiga do Finn, foi um prazer te conhecer.

– Boa noite Sr e Sra Hudson! — retribuí com um sorriso no rosto, sabe eu ainda estou nesse lance de tentar ser simpática.

Eles foram caminhando lentamente, e subiram as escadas. Finn foi sentar no sofá, ligou a TV bem baixinho, estava passando "Um Papai Noel Muito Louco", no natal sempre passava esses filmes horríveis na TV.
Sentei no Sofá menor e ele se esparramou no sofá maior. Ficamos em silêncio.

– Finn, aquela coisa que sua avó falou, de você querer ser cantor é verdade?

– Talvez, todo mundo quer ser alguma coisa, por que eu não posso sonhar em ser algo maior que um atendente do McDonalds?

– Você tem razão, mas talvez não seja um sonho tão impossível.

A sala estava as escuras mas com o pouco brilho da televisão consegui notar aquele sorriso lateral no canto da sua boca, ele abriu a boca para falar algo mas a fechou logo em seguida, ficou em silêncio, parecia estar pensando em algo para falar, ele voltou a assistir televisão depois de uns 5 minutos em silêncio, esboçou algumas palavras da sua boca.

– Feliz Natal Rachel Ber — ele disse ainda olhando para a televisão.

– Feliz Natal Finn — retribuí.

Ficamos ali sentados vendo aquela porcaria de filme, mas pra minha sorte ou azar, comecei assisti-lo a partir do meio, então foi rápido. Os créditos começaram a passar quando Finn desligou a TV.

– Vamos lá fora, eu não posso falar alto dentro de casa a essas horas.

Ele me puxou do sofá e me levou até a varanda, onde sentamos nas duas cadeiras de balanço, ficamos observando a rua.

– O Natal aqui em casa é sempre assim, meio adiantado, o limite para meus avós é 23:00 horas, então eu já estou acostumado.

– É, eu estranhei, nunca tinha desejado "Feliz Natal" as 23:00 horas da noite — ele riu.

– Sabe... eu não posso fazer barulho em casa essa hora, nos feriados minha mãe sempre quer dormir o máximo que ela pode, e qualquer barulho que eu faça ela acaba acordando, e digamos que acordar ela não é algo muito agradável.

– Sei como é que é, lá em casa é o contrário, é meu pai quem é o problema.

– Dentro de casa é como uma prisão, por isso que eu prefiro a rua, a rua é livre, minha vida nas ruas é como uma linha, e eu é que vou a entortando, ninguém a entorta por mim.

– Nossa isso parece uma metáfora.

– E é, acho que eu vi na TV ou algo assim — rimos.

– Finn, você não me explicou qual é o lance da Rachel Berry que agora passou a ser Rachel Ber.

– Tudo bem, eu vou te explicar. Quando eu conheço uma pessoa, eu a chamo do nome inteiro por que eu não tenho intimidade com ela, então, quanto mais eu conheço essa pessoa, menor o nome dela vai ficando.

– Nossa, então o jeito que você chama a pessoa revela seu nível de intimidade com ela?

– Praticamente isso.

Agora tudo faz sentido, e se esse for o raciocínio dele, significa que eu fiquei um pouco mais íntima, ótimo, estou progredindo.

– Agora que eu te falei isso, por acaso pode me explicar o por que de você morar sozinha?

– Olha, por acaso eu posso sim, mas prepare seus ouvidos.

Ele deu um leve sorriso no canto da boca e assentiu com a cabeça. Como ele conseguia ser tão sexy? Tipo, ele era sexy naturalmente.

– Eu sou emancipada.

– Como assim "emancipada"?

– Eu já sou responsável por mim mesma, meus pais resolveram me emancipar quando eu me mudei pra cá, eles não podiam ficar aqui, e agora eu moro sozinha e sem móveis por que tomei a decisão mais idiota da minha vida de dizer a eles que o meu quarto já era o suficiente.

– Bem que pelo menos eles podiam por uma geladeira no seu quarto — rimos.

Finn não riu por muito tempo, logo sua expressão mudou, era como se ele estivesse aliviado, encarou a rua novamente, fechou os olhos, encostou a cabeça na parede, respirou fundo, sorriu discretamente.

– Sabe eu nunca tinha passado o Natal assim.

– Assim como?

– Tranquilo.

Fiquei pensando no que ele queria dizer com aquilo, será que o Natal dele era sempre uma bagunça ou sempre havia brigas, eu não sabia o que dizer. Eu que pensava saber tudo sobre meu ídolo, acabei descobrindo que não sabia nada.

– Tá — falei baixinho, mas que ele aparentemente ouviu.

– Tá — retribuiu olhando pra mim.

Logo em seguida pegou minha mão, voltou a encarar a rua e ficou a segurando por um tempo. Ele bocejou, eu bocejei.

– Vem.

Me puxou com uma certa força, nada que fosse me machucar ou algo assim, em seguida fomos atrás de sua casa, onde avistei um balanço.

– Eu costumava me balançar aqui nas noites de natal.

– É um belo balanço.

– Eu costumava chama-lo de "O Balanço do Finn".

– Quanta criatividade — eu ri.

– Obrigado, eu mesmo o nomeei — ele riu.

Sentamos lado a lado naquelas cadeirinhas duras de madeira, a minha era amarela e a dele vermelha.

– Vamos ver quem balança mais alto?

Aceitei o desafio na hora, adoro desafios, e pelo visto ele também.

Claro que eu ia perder, olha o tamanho das minhas pernas comparadas a dele, eu mal conseguia encostar no chão, enquanto ele uma empurrada só e quase dava a volta, apesar dos pesares, aquilo era divertido, eu ria sem parar, ele também.

– Rachel Ber, ria mais baixo — ele riu, por que rir baixo é meio impossível.

Olhei no relógio, já era 01:30 da manhã, eu já estava com sono. Parei o balanço, minhas botas se encheram de neve misturada com lama.

– Finn, acho que vou ir.

– Mas você não pode ir embora sozinha a essa hora.

Sai do balanço, fui até a casa e peguei meu sobretudo, quando me voltei para a rua, ele já estava a minha espera.

Minha casa não era muito longe, era cerca de 7 minutos a pé, então sem enrolação começamos a caminhar.

– Obrigada pelo jantar.

– Eu que agradeço, a sua Coca me salvou.

– Por que?

– Antes só tinha Guaraná até você chegar com a salvação. Odeio Guaraná.

Não pude evitar a risada, o jeito que ele falou "odeio Guaraná" foi tão engraçado, ele começou a rir também.

– Finn por que você está rindo? — eu perguntei em meio as gargalhadas.

– A sua risada, ele é contagiante, eu tô rindo dela.

Ótimo, dois idiotas rindo no meio da rua as 01:30 da manhã, poderíamos ser assaltados a qualquer momento, mas ao invés de estarmos com receio, estávamos as gargalhadas.

– Desculpa Finn.

– Pelo o que?

– Por não ter trazido um presente.

– Você foi meu presente...

Ficamos em silêncio.

– Quero dizer a Coca, a Coca foi meu presente, mas você pode ser meu presente também — ele disse todo envergonhado tentando concertar o pequeno deslize que deixou escapar.

– Ah sim, a Coca, é claro.

Chegamos em casa, ele me deu um beijo no rosto de despedida, deu as costas e saiu já acendendo o cigarro.

Aquele Natal não foi nada do que eu costumava passar, mas talvez tenha sido o melhor Natal que eu ja passei, por que quando estamos ao lado de quem amamos tudo fica ainda melhor.



Notas finais
"O fantástico da vida é estar com alguém que sabe fazer de um pequeno instante um grande momento…" -Autor desconhecido. Reviews?