As linhas do destino.
2 Um pouco de rotina.
Notas iniciais
Lira estava dormindo contra uns escombros dentro da área do exército americano, já que seu turno de vigilância já havia terminado. Nos quartéis, eles dizem que sono é uma coisa importante na guerra. Não deixa você enlouquecer.
"Não deixa você enlouquecer, minha bunda!" — Pensou Lira, revoltada.
Ela ainda não conseguia entender algumas partes do treinamento militar. Eles ensinavam que uma cama bem arrumada era melhor do que ter algo para comer. De que um sapato bem engraxado era sinal de uma boa conduta, que mostrariam disciplina e bom manejamento das mãos. Ás vezes fazia sentido, outras vezes não. Como diabos os inimigos iam cessar fogo só para ver se seu sapato estava bem engraxado?. E se eles vissem, o que iam dizer? --"Nossa, olha como o sapato dela é bem engraxado. Vamos temê-la porque ela é foda! Vamos voltar para nossas bases e implorar a Deus que ela não nos encontre" -- Lira se contorcia de tanto rir por dentro.
Lira não conseguia dormir mais do que meia hora. Meia hora era o limite. Sem contar as acordadas extras por causa dos pesadelos ou por causa de qualquer barulho. "Qualquer barulho" era motivo de muita adrenalina. "Qualquer barulho" poderia ser uma granada que foi atirada pelo exército inimigo. "Qualquer barulho" poderia ser um soldado, com alguns de seus órgãos para fora, ou com seu pescoço estraçalhado por uma navalha, seu sangue fazendo uma poça de sangue por onde se arrastava, com seus sinais vitais enfraquecendo tentando nos avisar de ataque inimigo surpresa. A vida ali não era fácil.
Ela levantou do canto onde estava, e tirou o capacete. Nos ensinaram também a nunca abrir mão de um capacete, de uma faca, e de uma pistola e de uma bússula, caso estivesse em território desconhecido. Seus cabelos ruivos curtos, acima do ombro se soltaram, dançando junto ao vento. E da areia também. Lira uma vez quase engoliu uma montanha de areia sozinha. Estava correndo no meio de um bombardeio surpresa, quando seu pé trancou num buraco e ela caiu com a boca aberta diretamente num morro de areia. -- "Nem todo mundo é perfeito"-- Pensou Lira, rindo da cena que acabara de se lembrar.
Seus olhos eram verdes. Uma mistura de verde tranquilizante com um preto sombriu. Criaram várias lendas sobre Lira. Diziam que, em uma batalha corpo a corpo com um Iraquiano, ela o matou apenas com um cabo de vassoura. E também, que seus olhos trocavam de cor dependendo da situação. Preto era perigo extremo, ou raiva extrema. Verde escuro era ataque de artilharia leve. Verde claro é que estava tudo bem. Diziam também, que ela afundou um submarino sozinha, no meio do oceano, e voltou nadando no meio de uma tempestade, e depois passou por tubarões ferozes, e que até eles sentiam a aura monstruosa de Lira.
Lira estava presente na guerra do Iraque já fazia 3 anos. Os 2 primeiros anos, achavam que Lira era um homem. A tratavam como um, falavam sobre assuntos que somente homens eram capazes de poder escutar. Lira não sentia nenhum problema com isso, ela só se importava se eles sentiam confiança nela. Nunca desconfiavam, porque Lira mantinha o cabelo dentro do capacete, e seus ombros eram largos, seus braços fortes, suas pernas musculosas. Tudo era parecido com um físico de homem. Descobriram que ela era uma mulher quando um dos soldados foi se lavar em um chuveiro improvisado que tinha dentro de uma tenda, muito bem montada. Lira sempre preferiu tomar banho logo pela manhã, para que ninguém se chocasse com ela tomando banho, e muito mais por "ela ser mulher". E nesse dia, Lira decidiu tomar banho pela noite. E quando estava se trocando, o soldado entrou ao mesmo tempo em que ela colocava a faixa em volta dos seios. A imagem que as pessoas tem de soldados, são que eles são homens fortes, corajosos. Mas, naquele momento, essa imagem se quebrou. O homem soltou um grito tão fino, mas tão fino, que se tivesse janelas de vidro, os vidros iriam estourar na mesma hora. Lira apenas riu, pasma diante a situação, enquanto o pobre soldado, saiu correndo, tentando colocar as calças de volta, gritando que havia uma mulher dentro do banheiro.
O pelotão inteiro ria. Um ou outro suspeitava que Lira era uma mulher, mas nenhum perguntava, por ter respeito, ou medo. Vai ver que ele era um homem, e acabasse quase matando a pessoa que perguntasse?. Todos morriam de medo de Lira, por conta das lendas, e por causa dos fatos verídicos. As lendas não eram totalmente mentiras. Sobre a luta corpo a corpo, eles estavam certos. Mas ela não o matou com um cabo de vassoura. Ela apenas foi pra cima dele, tentando uma luta corpo a corpo, mas Lira não contou com um cabo de vassoura cortado ao meio por culpa de uma explosão, causando uma ponta fina e letal no cabo. Ela o pegou pelo braço, o girando por cima de seu corpo, e derrubando ele contra o chão. Acabou numa luta mais fácil que o esperado. A alteração da cor de seus olhos era normal. Dependia mais da iluminação e da temperatura. Os ataques eram apenas coincidencia. Mas Lira pensava no assunto e fazia sentido, já que dentro de todos nós, existe um ''sexto sentido''. Já a história do submarino e dos tubarões.... Ela não esperava por essa. Sim, ela tinha ido numa missão de explodir um navio. Mas seu amigo, James, estava junto. E ela não foi nadando de volta. Um helicóptero acabou os resgatando do mar.
Lira estava indo lavar o rosto em uma das tendas, quando escutou um estalo. O estalo era um tiro de uma AK-47. Arma muito utilizada por soldados inferiores. Alguns soldados inferiores, eram normalmente cidadãos que aprenderam a atirar nos últimos 10 minutos. Mas a ordem dos tiros era diferente. Como eles aprendiam somente o basico da arma, gastavam apenas o necessário de munição. Mas os tiros, dessa vez, era constante. Será que os boatos das crianças estarem se juntando ao exército inimigo era verdade?.
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