As lembranças do anjo de vestido carmesim
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Notas iniciais
Todos estavam reunidos na sala de espera do hospital. Shee não se aguentava em nervosismo, ela ficava andando de um lado para o outro como se algo a impedisse de sentar. Benjamim estava sentado com a cabeça entre as pernas se culpado por tudo que acontecera naquela noite, ele tentava não chorar, mas lágrimas aos poucos saíram de seus olhos. Azura estava sentada mexendo no cabelo, era isso o que sempre fazia quando estava nervosa, ela não pensava em nada, mas sua atenção não estava presente na sala. Kate estava de pé encostada à parede enquanto olhava para o teto tentando entender. Agora que as coisas estavam dando certo, tudo estava voltando a ser como era antes e de repente tudo desmoronou diante de seus olhos. Por mais que os melhores momentos tivessem voltado com a Rey, o pior dia da sua vida também retornara. De repente Claire entrou na sala ganhando atenção de todos, ela segurava um saco na mão, ela o jogou sobre a mesa de centro e sentou-se no sofá explorando o que havia dentro.
– Resolvi tentar acalmar vocês – disse pegando uma das muitas balas dentro do local – Lembram disso?
– Balas mastigáveis – disse Benjamim olhando para o doce – Eram as preferidas do Himchan.
O grupo estava reunido na casa abandonada, fazia dois dias que o local era o novo ponto de encontro das crianças. Todos estavam em volta da antiga mesa que Kate trouxera de sua casa.
– Gente, olha o tesouro que encontrei em casa! – disse Claire derramando o saco de balas na mesa.
– Que perfeito! Doces! Doces! Doces! Adoro doces – disse Hincham com os olhos brilhantes – Vamos dividir?
– Claro! Somos um grupo unido! – disse Clarie com o rosto decidido.
– Vamos comer tudo! – disse Azura dando o ponto de partida para comerem as balas.
Nove anos depois a cena se repetia na mesma casa, na mesma mesa, com as mesmas pessoas.
– Essa é a última – disse Benjamim pegando a bala.
– Não, ela é minha. É a nossa tradição, a última bala é sempre minha – disse Himchan querendo pegar da mão amigo, ele se jogou o em cima do menor tentando pegá-la.
– Himchan deixa de ser egoísta e deixa ele ficar com a última bala – disse Rey olhando preocupada.
– Deixa eles se matarem – disse Kate rindo da situação.
– Vou dar uma surra nos dois se não pararem de palhaçada – disse Azura levantando-se, então Benjamim terminou a briga colocando a bala na boca.
– Ela é minha e acabou – disse Benjamim radiante com o doce na boca. Foi quando Hincham inesperadamente o beijou no chão mesmo e com a língua roubou a bala da boca do colega.
– Ela é minha e acabou — disse Himchan sentando em cima do garoto triunfante enquanto saboreava a bala.
– Você é um chato – disse Benjamim de cara emburrada.
– Vocês são namorados, mas não precisam ficar se pegando na nossa frente – disse Claire ajeitando o arco de cabelo.
– Vocês dois são uma coisa de louco – disse Rey rindo da situação. A sua risada puxou a de todos.
– Há muito tempo que não comemos uma dessas – disse Kate pegando uma bala.
– Sabe o que eu acho? – perguntou Azura finalmente se mexendo no sofá – Que a Jill voltou como a Rey. Aposto que elas são a mesma pessoa. Ela conseguiu nos reunir como a Rey sempre fazia quando brigávamos. Ela conseguia nos fazer rir mesmo em momentos tensos. Eu sinto que a Jill está entre nós novamente.
– A Rey não é a Jill – disse Shee olhando para os garotos – Mas tenho certeza que ela está aqui por causa dela. Eu acompanhei o crescimento de vocês, conheci Jill tão bem quanto vocês. Acho que ela não poderia descansar em paz com vocês separados desse jeito.
– E estamos passando por tudo isso de novo por minha causa – disse Benjamim mexendo no cabelo negro – Eu era o único que ainda estava receoso em juntar todos de novo. Eu não quero mais sofrer, mas não quero mais ficar longe de vocês.
– Admito que no começo também tinha receio de juntar todo mundo – disse Azura fechando os olhos – Você sempre soube que eu gostei de você Ben. Queria ser sua namorada no lugar do Hincham e tinha medo que voltassem. Mas com a presença da Rey aqui, me fez repensar tudo isso e quero que vocês dois sejam felizes juntos. Eu vou superar tudo isso. E desculpe por toda a inveja que tive nesses anos.
– Também estava com medo de voltar a gostar de você Azura – Kate ganhou a atenção de todos – Estava me recusando a falar com vocês porque sempre te quis, mesmo sabendo que nunca teria. Mas agora estou tranquila, percebi que a amizade de vocês é a melhor coisa que existe.
– Eu sempre achei que as lembranças eram o suficiente, ainda que nunca voltássemos a ser os mesmos, eu lembro de tudo que fizemos. Isso já me confortava e me deixava feliz, mas sempre doía. As saudades sempre me machucaram e não ter mais uma amiga em quem confiar me corroendo por dentro – Claire colocou a mão no coração apertando a camisa com força deixando as lágrimas saírem dos seus olhos – Rey conseguiu minha confiança com tanta facilidade. É tão bom ter alguém que eu posso contar meus segredos e dividir experiências. Isso é muito bom.
– Aposto que Jill está muito feliz agora – disse Shee com um sorriso olhando para os jovens – Não gosto de balas, mas vou comer uma em homenagem à Jill.
Rey acordou no quarto do hospital. As luzes machucaram seus olhos que até então estavam descansando. Seu corpo todo doía, então ela se lembrou de tudo que acontecera. Mas ela não estava preocupada, o acidente não era seu pensamento naquele momento. Seu coração estava leve, ela estava feliz. Ela queria sair dali pulando e rindo para se encontrar com os amigos, mas seu corpo machucado não permitia.
– Porque estou assim? Porque estou tão feliz?
– Porque eu estou feliz – ela ouviu uma voz de algum lugar, isso a assustou. O quarto estava vazio, ela estava sozinha – Feche os olhos, estou no seu coração.
Rey obedeceu a voz e fechou os olhos. Ela não estava mais no quarto, estava num lugar completamente branco. Ela então encontrou uma garota muito parecido com ela. Seu cabelo estava preso com um laço e vestia um lindo vestido vermelho. Ela estava sorrindo envergonhada.
– Você é a Jill não é? Prazer em conhece-la.
– Rey, eu preciso agradecer por ter visto meus sinais, por ter me ouvido, por ter realizado meu maior desejo – disse Jill correndo em seguida para abraçar Rey. Ela estava chorando – Obrigada por juntar meus amigos. Era tudo que eu queria – ela se afastou envergonhada – Sabe, não queria que sofressem quando fui embora. Queria que fossem felizes nem que tivessem que me esquecer. Então tive que arrumar um jeito para vir na cidade, não só pela sua aparência igual à minha. Você é persistente e paciente, era perfeita para o que queria.
– Ninguém esqueceria de você. Jill, você é a pessoa mais incrível que já conheci. É realmente um anjo, você se preocupou com eles mesmo depois de morta e me arrastou de outro lugar até aqui e me fez viver os melhores momentos da minha vida. Eu que devo agradecer.
– Sabe, agora todos estão na sala de espera, nervosos por você estar numa cama, mas sinto que a amizade foi reestabelecida. Os laços estão mais fortes do que quando eu estava viva. Era isso que eu mais queria. Estou muito feliz e agora posso ir em paz.
– Não quer falar com eles? – perguntou Rey observando a beleza da a garota que enxugava os olhos.
– Já falei tudo o que queria falar por você. Eles já sabem que os amo e te amo também Rey. Obrigada por tudo.
– De nada – disse também chorando – Também te amo Jill. Mesmo sem te conhecer, eu te amo muito. Como eu disse antes. Você é realmente um anjo.
– Adeus, espero que fiquem bem. Podem ter certeza que enquanto o grupo estiver unido eu também estarei – Jill começou a flutuar enquanto borboletas douradas rodeavam seu corpo enquanto ele desaparecia aos poucos – Adeus.
Na sala de espera, um médico surgiu ganhando a atenção de todos os presentes. Ele segurava duas pranchetas nas mãos com as fichas dos pacientes.
– Então doutor? Como está minha sobrinha? – perguntou Shee.
– Como a Rey está? – perguntou Azura, os jovens rodearam o homem de branco.
– Ela teve muitos ferimentos, quebrou alguns ossos e perdeu muito sangue, mas está instável. É bem possível que se recupere sem nenhuma cirurgia – Um sorriso surgiu no rosto de todos eles e o clima de tensão passou todos ficaram aliviados.
– Ainda bem – disse Claire colocando a mão no peito novamente.
– Enquanto ao Hin? Como ele está? – disse Benjamim preocupado. Todos ficaram sérios novamente. O doutor trocou de ficha.
– Hincham vem melhorado com o passar dos meses, seu coração está aguentando bem – novamente os dois ficariam bem, o grupo sairia do hospital com a amizade mais forte do que antes, porém… — Mas o ataque que ele teve hoje foi grave. Atingiu várias partes do coração, o estado dele é bem crítico e não sabemos se podemos reverter esse quadro sem um transplante.
– Não é possível. Não pode ser – Benjamim se desesperou e invadiu o local onde as visitas não eram permitidas. Ele corria pelos corredores enquanto sua vida passava pelos seus olhos. Hincham sempre esteve ao seu lado, como companheiro, como amigo, como namorado, como o amor da sua vida. Ele começou a chorar segundos antes de invadir o quarto onde Hincham descansava tranquilamente – Hin! Por favor não vá, não morra, fique comigo, fique ao meu lado como sempre ficou. Por favor.
– Bem, tudo isso é inevitável, mas não chore, por favor… – Ben o interrompeu com um beijo apaixonado, quente, carinhoso. O beijo que Hincham sempre sentia falta, o beijo que sempre esperava, que sempre queria de volta.
– Fica comigo, por favor. Não morre.
– Eu te amo muito sabia? – Hincham puxou a cabeça de Benjamim e beijou seus olhos – Não chora, vou morrer feliz por você ser a última imagem que verei. Mas não quero te ver chorando. Por favor, sorria pra mim. Quero ver seu sorriso lindo que sempre me encantou. Deixa eu vê-lo por favor – Benjamim chorou mais ainda, porém atendeu o pedido sorrindo para o amigo – Obrigado. Agora posso ir em paz. Vou encontrar com a Jill e estou feliz em morrer ao seu lado. Obrigado por me amar – de repente os olhos de Himchan fecharam e as máquinas começaram a apitar avisando que o coração parou.
– HINCHAM! – gritou Benjamim desesperado.
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