As incríveis aventuras de Vicki V
3 Um grande dia - Parte 2
Notas iniciais
Você já teve uma sensação?
Uma sensação de ter alguma coisa faltando. Sentir que falta uma peça no seu quebra-cabeça. Algo que deveria, tem que, e precisa acontecer. E quando você fecha os olhos, parece ter uma ideia mais concisa do que tal coisa possa ser. E, se por algum acaso for só uma impressão, se aquele sentimento de busca não resultar em nada na sua vida... Não há porque estar aqui, novamente, em outro dia, dissertando sobre nada.
Em teoria, não faltava nada para Vicki. Ela tinha pais, amigos (se contar sua família e um moleque descoordenado) e comida na mesa (segundo mamãe). Então, o que estava faltando? Era um tipo de insegurança crescente típica da adolescência. Colocar muitas expectativas e se decepcionar.
O fato é que ela estava para fazer 15 anos, e nada tinha mudado em sua vida, desde o finalzinho da infância. Sempre fora uma menina de muitos sonhos; queria ser escritora ou artista (contemporânea, ainda por cima – ia acabar ilustrando caixas de sapatos, isso sim!), mas sua paixão eram os quadrinhos: Will Eisner, Fábio Moon, um ou dois artistas de mangá, quase o time inteiro de ilustradores da Marvel... Enfim, ela não pensava muito nisso, já que era nova e tinha muito pela frente. Mas quando ela colocava na mesa o que poderia ter e o que tinha no momento...
Tudo bem. Ela estava pensando nessas coisas porque estava sozinha, esperando a vida ficar menos chata e passaria sua festa de quinze anos em casa, assistindo “The X Factor”.
Ainda bem que existe o sino do colégio para acabar com o momento filosofia.
Victória esfregou o rosto na manga do casaco comprido e olhou para o relógio. O professor de história rapidamente havia se transformado no de inglês, e agora no de física. AAAWWWWWNNGHH (Bem, é o último tempo). O professor William era mais sociável.
−Bem, antes de a aula começar, eu gostaria de fazer a chamada. Andrea Sanchez?−cada nome era seguido de um “presente”− Charlie Stevens? Deodora Fairfaith?...Victória DeLano...
−Er...Só Morgan, professor. Victória Morgan. E presente.
−Ah. Bem que eu estranhei. −disse, sorrindo −Um sobrenome igual ao da Mélanie DeLano, da pedagogia...
−Pois é, né... –disse Vicki, atrás dos dentes de seu sorriso amarelo.
Jeanine, que conversava com Nicolas, deu uma risadinha. Ela sabia de algumas coisas.
A aula foi interrompida por uma secretária, que cochichou ao ouvido do professor, e em seguida olhou para a menina.
−Entendo. Por favor, Vicki! –disse o professor− Justo quando falávamos... estão te chamando na coordenação.
Ela se levantou e foi até a secretária.
−Leve isso e explique para a sua tia−Vicki fez uma careta ao ouvir a expressão “tia”.
−Porque vocês da secretaria não fazem isso sozinhas? – A mulher olhou feio para ela. –Pare de ser respondona e leve isso logo.
Vicki saiu, pisando duro. Realmente não gostava que lembrassem que sua tia era a pedagoga master 100%, amada por todo mundo da escola. Era um contraste doloroso, e aparentemente, muito bom para piadinhas de corredor. “Senhorita DeLano”, era como a chamavam, por isso usava seu bom e velho “Morgan”.
−Então você é o quê, um caso perdido? – gostavam de dizer.
−Jura que são da mesma família? Não tem nem a mesma aparência. –não tinha escolhido nascer com cara de criatura das trevas...
−Só falta ter sido adotada! − a caminhada se transformou em corrida.
Correndo, atravessou as portas de correr do tamanho da parede, que davam acesso à parte gramada da escola.
A sala da coordenação era uma espécie de escritório anexada a longa extensão do pátio. Ficava na área mais ensolarada, de frente para os corredores externos, com janelas de vidro que transpareciam tudo o que acontecia ali dentro. Vicki veio pela grama recém-lavada e abriu a porta com um estrondo.
−Tia Mel! – Gritou, fazendo o Sr. Hemingway pular de sua poltrona com uma caixa de donuts no colo.
Mélanie se virou. Como sempre, exibia aquela manta hippie que se acentuava ainda mais com sua altura. Seus longos cabelos castanhos eram obedientes e caíam pelas costas, enfeitados com uma faixa vermelha. Apesar dos trinta e poucos anos, ela possuía um sorriso jovial que acertaria sua conta com qualquer marmanjo do ensino médio.
−Estão chamando você lá na sala onze−Vicki se curvou, ofegante− É alguma coisa com “hiperatividade adolescente” e pasta de amendoim nos cadeados do armário... –ela entregou o envelope da secretária.
−Ah, são os veteranos de novo? Tudo bem... – e se virou para Hemingway− avise a Viorea que vou fechar o turno mais cedo hoje. Tenho uma sessão de terapia experimental com delinquentes de novo...
Apesar da expressão natural das duas, o homem ainda as encarava atônito, o bigode manchado de café expresso.
Mélanie deu uma risadinha.
−Ah, Victória é minha sobrinha e afilhada, vice-diretor. Presumo que tenham lhe dado tal informação antes.
−Ah, sim sim, é claro− Ele ajeitou sua gravata – É só que... se me permite dizer, senhorita-
−DeLano? – Mélanie sorriu afetuosamente.
−Isso, DeLano. De qualquer forma. Vocês duas não tem absolutamente nada em comum. Em termos de aparência, digo.
−De fato.
Ainda na soleira da porta, Vicki não sorriu nem reforçou nada.
Por mais que a menina tivesse crédito extra para uma “conversinha terapêutica” (e ela já havia tentado, uma vez), sua tia sempre reforçou que o caminho para o jovem se sentir bem consigo mesmo era a autenticidade, sendo livremente quem ele deseja ser. Se autenticidade significasse ter idiotas chutando sua carteira na aula de Matemática, então Vicki era uma espécie de sábio da montanha.
O sr. Hemingway deu um sorriso amarelo para Vicki, que não respondeu.
−Bom, senhorita DiLaurentis...
−DeLano?
−Tanto faz, eu estou à caminho da sala do diretor. Se não se importa, passarei o recado para Viorea assim que puder.
−Obrigado, vice diretor.
A menina saiu da frente para que o homem pudesse passar seu ser roliço pela porta, deixando as duas a sós.
−Sabe, a gentileza é o primeiro passo para uma relação saudável.
−Tia, por favor, você não suporta aquele cara. Ele trabalha com você a três anos e nunca acerta seu sobrenome.
−É, você me pegou− Mélanie suspirou, suave− Detesto aquele saco de torresmo.
As duas se encararam e começaram a rir. A menina saiu da entrada da sala e caminhou até a mesa onde se via “Srta. DeLano” em belas letras peroladas.
−Mas sério, Victória, um sorriso pode mudar tudo. Seja receptiva, estique essas costas, mostre a menina linda e simpática que está aí dentro!
−Tia Mel, você é um poço de beleza. Já falei pra sair desse buraco e fazer propaganda de bronzeador, não falei? Além do mais, eu estou bem.
Mel afagou os cabelos da sobrinha, os lábios contraídos de pura diversão. “Ah, garota, você me mata!”
Agora sim, Vicki sorria.
−E além do mais, não fique gritando “Tia Mel” perto da gerência. Vão achar que você faz terapia da tarde de graça− ela piscou− esse é o nosso segredinho.
−Pode deixar Ti-
−Hã-Hã!
−Senhorita DiLaurentis− e estufou a barriga inexistente –E me traga mais rosquinhas com açúcar!
−Tá bom. Agora deixa eu ir lá para a sala onze. Vai ser uma festa de creme de amendoim. Não passe por lá muito tarde, ou vão querer que você ajude na limpeza!
−Pode deixar, srta DeLuca! Coloque um pouco do que sobrar na minha rosquinha!
Mélanie saiu às gargalhadas.
***
De volta à aula de Física, Victória tentava desesperadamente não dormir.
Aquela provavelmente era a matéria em que estava mais ferrada de todo o semestre. Simplesmente não dava pra entender aquilo. Aquele homem falava de movimento, e pressão, e volume... O que ela queria mesmo era se movimentar para fora dali. Se imaginou fugindo da sala, rápido como um raio, e deixando os CDF´s da turma boquiabertos, calculando quantos metros por segundo de aceleração ela devia ter feito.
Não era um dos poderes da Vicki V? Aceleração?
Sentiu vontade de pegar o caderno. Ela não podia, mas agora estava morrendo de curiosidade. O Caderno era onde ela tinha feito suas anotações durante anos. Tinha um pouco de tudo, mas a maior parte das páginas era sobre a heroína e o seu mundo. Deslizou na carteira e esticou a mão em direção a mochila, meio querendo meio não querendo, tensa e tentando ser rápida, e finalmente o apanhou,
Sentiu a capa, toda feita de recortes de jornais, sobre um fundo roxo. Abriu-o em um ponto mais para o meio: ali estava um desenho da heroína.
Seu uniforme era todo em tons de roxo e cinza. Tinha um traje colante até o pulso, luvas e botas. Havia um grande “V” na frente da parte de cima, que era roxa e tinha mangas com detalhes em cinza e cinza escuro. O cinto multiuso, que era roxo, tinha dois V’S moldados na fivela. A parte de baixo era igual a das mangas, e tinha duas botas roxas com amortecedor pequeno e joelhos com uma proteção de metal. Ah, já falei que ela tinha uma katana? Sim, ela tinha uma katana. Que mudava de tamanho e ficava dentro do cinto. Uma capa preta completava o visual, e a máscara, era uma simples faixa roxa com dois buracos para os olhos.
Os olhos de V, por sinal, eram algo que fascinava Vicki. Tinham um brilho cor de âmbar (ela detestava seus próprios olhos, grandes e verdes como um gramado de golfe) e podiam mudar de cor de acordo com seus sentimentos. Quem nunca desejou ter olhos cor de sangue quando se está com raiva, ou que brilham laranja, quando se toma um susto? Era fantástico.
Ali estava tudo sobre seu alter-ego, aonde morava, o que fazia. E os poderes: super força, baixa gravidade (isso garantia bons saltos), drenagem de energia, um pouco de telecinese e... super velocidade. Ótimo.
Vicki folheou mais um pouco, onde estavam registradas as fichas dos vilões.
Doutor Siff, o cientista. A Fera. Suckerpunch. Os irmãos Quente e Frio. No topo desses e mais alguns outros, estava Juliette Rosea. Talvez, a arqui-inimiga.
Apesar de sua historinha muito bem criada, ela sentia falta de algumas coisas, como por exemplo, um parceiro. Sei lá, geralmente os heróis tem ajuda de vez em quando! Olhem os Vingadores. A liga da Justiça. A edição 16 da Super Powers, que tinha o Super-Homem e a Mulher Maravilha estampando a capa juntos num mega beijo no espaço. Então, quem poderia ser seu parceiro?
Se lembrou então do sonho que teve, o robô-gigante dizendo alguma coisa sobre união e liderança. Os roteiros não eram planejados, apenas vinham na mente de Victória. Juliette estava liderando todo mundo. Mas, para quê? Meu deus, ela era a única heroína, mesmo. Não era assim tão difícil.
Será que não é tão forte quanto todos pensam?
Era só uma história, afinal. Uma história, nada mais. Não deveria perder seu tempo com isso. Porque os vilões e vilãs da vida perderiam tempo atacando a nós? Nós, que mal temos alguma coisa? Que mal sabemos por onde começar?
Talvez porque temos alguma coisa, só não saibamos como usá-la.
O sinal do colégio apitou.
Vicki recostou a cabeça na carteira e sorriu. “Ah, mais uma aula perdida”.
Daqui a algumas horas, seria a grande noite.
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