[Narrador]

Amy se arruma. Perfume. Máscara. Maquiagem. Batom. Depois de muito tempo, viu que não era ela (ela não gosta muito de maquiagem) e foi para a casa de Leonard sendo ela mesma: Com uma blusa branca, short jeans azul, e um All Star azul. Essa é a Amy. Ela chega na frente do portão, respira, prepara para apertar o “ding dong”, e falha. Respira, respira, respira... E... Aperta. Vem uma voz de velha falando:

– Quem fala?

– É... A Amy.

*silêncio*

– Que Amy??

–Eu sou amiga do seu filho, Leonard.

– Ele não tem amiga.

– Eu só vim para estudar com ele. (mentira do bem)

– Olha aqui, meu bem... – chega à voz do Leonard no interfone

– Sai, mãe, ela é uma convidada especial!

– Desculpa, Amy, minha mãe é uma idiota. Pode entrar.

[Personagem]

Coração batendo, mãos suando, rosto vermelho e...

Eu entro. Vejo quadros antigos e entediantes, a mãe dele com uma verruga no final do queixo me encarando, o pai toma café e lê uma revista, a empregada sorri. Sinto-me uma estranha.

– Desculpa, ta? Minha mãe tem ciúmes de mim.

– Você nunca teve um amigo?

– Já tive vários, mas ela os expulsa.

– Ah...

– Pode entrar, aqui é o meu quarto. – Vi paredes pintadas, pôsteres de bandas e rebeldia. Mas ele continua sendo fofo.

– Sua mãe não vai brigar me vendo dentro do seu quarto, com a porta trancada?? – eu disse.

– Não. Se for pelo estudo, ela deixa ficar até em cima do piano. – eu ri.

Passaram-se as horas, e fomos nos empolgando. Ele com o violão, nós dois cantando (obs.: para ele poder tocar e cantar o quanto quiser, sem que os pais briguem, ele colocou uns abafadores de som por toda a extensão do seu quarto). Eu em cima da cama de solteiro, e ele no chão, tocando Legião Urbana. Estávamos acabando a música “Será”:

“Será só imaginação?

Será que nada vai acontecer?

Será que é tudo isso em vão?

Será que vamos conseguir vencer?

Ô ô ô ô ô ô ô ô ô

Brigar pra quê

Se é sem querer

Quem é que vai nos proteger?

Será que vamos ter

Que responder

Pelos erros a mais

Eu e você?”

Nesse momento, não sei o que deu nele, mas a cena era a seguinte: Eu, de cabeça para baixo, na cama, e ele na minha frente, no chão. Ele simplesmente ergueu minha cabeça, falando:

– Você canta tão bem. – E me beijou.