Notas iniciais
Acho que a capinha não funcionou, mas tudo bem.

12 e 13 de novembro

Charlotte tomava chá todas as tardes sentado em sua varanda no pequeno e escondido apartamento que tinha encontrado de apenas dois cômodos e um banheiro. Comia suas famosas torradas com ovo, as mesmas que um dia Vicenzzo amara. Gostava de fechar os olhos e sentir o sol esquentando sua pele, enquanto as mãos seguravam a xícara em concha, de vez em quando lágrimas escorriam-lhe pela face, não por culpa ou remorso, mas pela dor de uma alma da qual amou tanto ter partido deste mundo de forma tão violenta e auto proporcionada, ela nunca entendeu suicídios, até o dia que pensou em um e chorou amargamente por isso. Abriu os olhos e resolveu pintar. Deixou a xícara pela metade e faltavam ainda duas torradas para serem degustadas, mas logo foram esquecidas quando ela pegou o cavalete e o arrastou até a varanda.
Olhou o sol ainda um pouco alto, às 15h37min da tarde e observou os passantes que caminhavam uns com pressa uns aproveitando o dia, mas foi uma garota que lhe chamou atenção, usava um chapéu de palha para se proteger do sol, vestido branco de algodão de alcinhas finas e chinelos, andava com o rosto para cima, como se quisesse sentir o calor na pele dourada. Os cabelos louros pareciam ouro numa longa cascata ondulada até o quadril, ela olhou para cima e viu Charlotte, seus olhos eram cor de avelã e transbordavam uma felicidade e bondade que era rara nos dias de hoje. Então ela sorriu para Charlotte, que sentiu as mãos formigarem para pegar no pincel e retratá-la. A moça observou quando Charlotte deslizou o pincel pela tela branca e voltou o rosto para o céu, o belo sorriso ainda estampado na face.
20 minutos depois, Charlotte desceu as escadas rapidamente convidou a moça para entrar, chamava-se Edwina (Charlotte nomeou-se como Marie) e passava as férias ali, naquela cidade por tê-la achado adorável, tinha apenas mais uma semana, para sua tristeza (foi o que afirmou com veemência). Subiram de elevador e foram conversando sobre como o tempo ali era gostoso, nem muito quente e nem muito frio, o sol aquecia na medida certa, Edwina queria morar ali para sempre, (foi o que disse com veemência), Charlotte muito educada ofereceu-lhe suco, mas esta preferiu água e pediu para usar o banheiro. Ela aguardou até que Edwina saísse e ofereceu-lhe bolinhos gelados, que havia preparado esta manhã.
— Minha nossa, são deliciosos! — exclamou Edwina e fechou os olhos e fez uma cara de prazer. — Em meu tempo aqui jamais encontrei algo tão maravilhoso, o que são?
— Apenas bolinhos gelados.
— Apenas bolinhos gelados? — riu-se Edwina, tinha uma risada gostosa, que fazia Charlotte querer rir, mas se conteve. — Tens um apartamento agradável aos olhos e aconchegante para seus visitantes.
— Obrigada, decorei-o há quatro anos.
— Tens muito bom gosto! É pequeno, mas muito elegante.
E começou a andar pelos cantos observando os quadros já pintados desde que Charlotte era apenas uma menininha, mas que vivia suja de tinta e com um sorriso bobo de satisfação nos lábios. Charlotte analisou os ombros de Edwina, o modo que andava a curva da boca e as linhas do nariz, queria tocá-la, mas não sabia se seria adequado. Ela parecia extremamente curiosa com os quadros que retratavam pessoas, Charlotte permaneceu calada, eram ao todo 68 e Edwina seria a 69 em algumas horas ou poucos dias. Homens e mulheres, de todas as formas e jeitos que passaram por ali, por um dia, uma tarde, uma noite ou madrugada que Charlotte guardava na memória. Todos tentaram voltar, mas ela jamais permitiu, era uma regra auto imposta e nunca ia além dos limites de seu desejo, ela sabia controlá-lo.
— Quem são estes? — perguntou Edwina, curiosa.
— Pessoas que conheci. — respondeu Charlotte, calma. — Tem mais algumas no quarto.
— Adoraria vê-las.
— Por favor.
Charlotte conduziu Edwina para o quarto e esta parou momentaneamente e apreciou a vista, permaneceu calada, não havia palavras para descrever o que via, era lindo e extremamente pitoresco e agradável aos olhos. Depois olhou as pinturas do quarto, todas as paisagens e uma personificação mais escura de Noite Estrelada de Vicent Van Gogh, tinha tons de preto, verde e dourado e parecia estar viva. Charlotte chamava de planta carnívora, a pintura atraía as presas e Charlotte como a autora da representação as devorava. Edwina suspirou e Charlotte vibrou com isso. Ela se aproximou de Edwina sutilmente.
— Posso tocá-la? — perguntou gentil.
— Sim. — sussurrou Edwina.
Charlotte primeiro a puxou para cama e a sentou, pois Edwina era uns bons 18 centímetros maior que ela. Charlotte a tocou com cuidado, como se tocasse porcelana, memorizou os traços, mesmo depois de dias conseguia sentir a pele daqueles que tocou nas digitais e precisava fazer com que sumissem quando pintava e era o que acontecia. Quando chegou aos lábios, Edwina a olhou nos olhos como se desse permissão e sugou o dedo de Charlotte, ela vibrou novamente. Charlotte abriu-lhe as pernas com as dela mesma e a deitou na cama. Ela não foi gentil como uma amante que desejava agradar, ela foi carnal, foi desejo primitivo que a rasgava sempre que fazia isso, sempre que ela dizia: É melhor pararmos. E a outra respondia: Eu não me importo. Charlotte odiava essa palavra, com tudo que havia dentro dela, Edwina tentou fugir quando estava prestes a atingir o ápice, mas Charlotte firmou os dedos com força em suas nádegas e só soltou quando esta gritou de prazer avassalador. Charlotte não era gentil, ela era carne e eles sempre voltavam esfomeados. Edwina sorriu para ela depois que terminaram, era bondosa e amável e isto fez a pele de Charlotte adormecer, ela não sabia lidar com pessoas assim, então se levantou e disse que precisava ir ao banheiro. Passou 7 minutos inteiros lá e quando saiu Edwina já estava vestida e a esperando, ainda com o mesmo sorriso, os olhos brilhantes.
— Preciso ir, mas volto amanhã para ver como está ficando meu retrato!
Beijou Charlotte com afinco e foi-se embora antes que a pintora pudesse responder algo. Durante uma semana inteira, sempre no mesmo horário, Edwina voltou. Porém Charlotte nunca estava às portas e janelas sempre fechadas, perguntou até o porteiro, que já sabia do jeito de Charlotte e mentiu para a moça com tranquilidade. Ela era assim, dava um dia, uma tarde, uma noite ou uma madrugada, mas nada mais que isso. Queria pintar gente, não eternizar-se com elas. Gostava das sensações que lhe causavam nos dedos, àquilo era seu real prazer. Depois que mais dois dias se passaram em que ela teve certeza que Edwina tinha-se ido embora, foi comprar seus croissants de chocolate e no mercadinho chá mate, seu favorito. Esta noite decidiu que iria dançar, desde a morte de Vicenzzo não fazia isso, pois era algo que ele amava e ela preferiu evitar.
Ela ainda acordava no meio da noite aos gritos por causa de pesadelos, queimou o vestido com respingos de sangue e miolos no mesmo dia da morte dele, amava aquele vestido, mas jamais poderia olhá-la, sequer vesti-lo, seria doentio. Fez chá, colocou as meias favoritas (aquelas azuis escuras com estrelas brilhantes prateadas, que tinha todo o cuidado na hora de lavar) depois do banho quente e vestiu a blusa branca gigante suja de tinta de todas as cores, colocou os croissant num prato branco com flores vermelhas e os levou até a mesinha antiga da varanda e sentou-se com os joelhos erguidos e apreciou o fim da tarde. Passara a semana pintando Edwina, dando toques e retoques, acrescentando cores que lhe eternizariam para sempre em quem quer as visse. Queria que todos sentissem todas as emoções que colocava na tela e sabia que conseguia e ela amava este fato. Quando anoiteceu, ela vestiu um de seus vestidos favoritos, o preto ano 20 e saltos não muito altos e foi-se embora, disse boa noite a Joaquín, o porteiro que fez uma breve mesura, fazendo-a rir um pouco. Caminhou suavemente pela calçada, sentindo ar fresco da noite beijar-lhe a pele.
A danceteria já estava cheia a música tocava alta e num ritmo envolvente, ela não conhecia a música, mas esta pareceu atravessar seus ossos e fazê-la imediatamente dançar. Balançou-se pela pista com suavidade, tivera muitas aulas de balé e dança até a adolescência, amava música assim como a arte de pintar. Foi ao bar e pediu um martíni, o barman lhe sorriu e tentou flertar, mas ela estava ali para dançar e não retratar mais alguém. Para Charlotte, as pessoas eram pinturas ambulantes. Ela tinha quadros de desconhecidos guardados, esboços rápidos feito no caderno enquanto estava no metrô ou esperando um ônibus, tinha vendido o carro para poder usar os coletivos nos pontos dos dias em que dava para observar e retratar sem ser engolida pela multidão, ela odiava multidões, menos quando era para dançar.
Depois de três mojitos ela sentiu os olhos dele em si, ele não sorria apenas a olhava, sem expressão, na verdade estava sério. Charlotte sentiu um arrepio na pele, mas não de medo. Ela não pintava pessoas seguidas da outra, dava uns dois ou três meses de descanso para a mente, vai que a pessoa retornava, assim como foi com os de número: 23, 39, 47, 50 e 61. Ela ficou horrorizada com tal ideia, mas lá no fundo adorava a ideia de não ser esquecida. O homem era lindo, usava um terno provavelmente caro, os cabelos negros feito ébano penteados para trás e os olhos o mais puro nanquim a que pareciam devorá-la, o maxilar quadricular, as maçãs do rosto um pouco altas, um nariz bonito e lábios rosados. Tinha covinhas dos dois lados, mesmo não sorrindo. Um charuto entre os dedos a fumaça que espiralava ao seu redor fazia dele uma obra completa. Duas músicas e meia se passaram sem que desviassem o olhar e quando uma moça de cabelos castanhos se aproximou dele, Charlotte desviou os olhos e afastou-se para o meio da pista, tornou a dançar com vivacidade e sorriu quando vinham dançar com ela, afastava aqueles que tentavam beijá-la, queria dançar até o sol nascer, era por isso que estava ali.
E dançou, até os pés doerem, até a casa ir se esvaziando e uma enorme mão segurar seu braço, ela franziu a testa e encarou o homem enorme que a tocou sem autorização, estava meio bêbada ainda, mas não o suficiente para puxar o braço com força para trás.
— Tire as mãos de mim. — ralhou Charlotte, furiosa.
— Aqui está você, amor! — exclamou o homem de olhos nanquim e enlaçou sua cintura, fazendo a pele adormecer no lugar. — Acatei seu pedido de vir sozinha e dançar em paz a noite toda, mas não me peça para deixá-la voltar para casa só.
— Oh, claro, meu bem. — Charlotte sorriu um de seus raros sorrisos e beijou o canto da boca do desconhecido. — Vamos?
Ele sorriu de volta, céus, que sorriso adorável. A voz então era uma delícia de se ouvir, um sotaque que os céus tivessem misericórdia dela! Os dois pararam de sorrir assim que saíram da danceteria, porém ele permaneceu com a mão na cintura dela. Caminharam em silêncio, ele sugeriu um táxi, mas ela lhe respondeu que a casa não era muito longe. Os pés doíam, mas não tinha trazido dinheiro além daquele para as bebidas que pagou e não queria que o estranho pagasse nada, muito menos uma curta corrida até a casa dela. Depois de exatos 25 minutos, eles chegaram a frente aos apartamentos.
— Obrigada, é aqui. — disse Charlotte, ele a olhou.
— Fiz o que pensei ser necessário, tenha um bom dia.
E foi-se embora, sem dizer o nome nem nada, Charlotte mordeu o interior da bochecha, iria retratá-lo, apenas pelo toque quente e firme de sua mão na cintura dela. Precisava tomar um banho e dormir e resolveu que ligaria para Carmén, mas só depois de dormir por algumas horas.