Notas iniciais
Boa leitura, estranho.

A porta de um carro se abriu e eu vi uma menina de cabelos castanhos medianos descer, ela tinha olhos cor de mel e parecia que tinha uns doze anos pela sua altura.

Estava com os olhos vermelhos e um pouco inchados, tinha chorado, estava com um olhar depressivo, e como gosto de interpretar as pessoas fui logo deduzindo que era uma briga familiar, ela andava de um jeito inseguro, meio tímido e olhando para baixo, um tanto depressivo.

Ela se sentou na escada em frente a um restaurante sem perceber que eu estava a observando, resolvi chegar mais perto e falar com a garota.

-Oi, tudo bem?

-Na verdade não, acho que a senhora já percebeu por querer falar comigo.

-Sim... Percebi, só perguntei por educação. Você quer conversar?

-Mas eu nem te conheço...

-E qual o problema? Você nunca mais me verá na vida mesmo, para quem eu poderia contar algo?

-Tudo bem... Na verdade eu não falo muito sobre isso, é que... é meio complicado pra mim.

-O.K. Prometo não te julgar.

A garota deu um suspiro e seus olhos encheram de lágrima novamente.

— A minha mãe, ela fala algumas coisas estranhas para mim, ela fica repetindo que eu nasci por acaso e que não deveria nem existir porque eu só trago dor de cabeça, e mesmo sabendo que ela é dramática e exagerada eu assumo a culpa, é difícil você escutar aquilo tudo e não tomar para si, eu só estou cansada de ser chamada de vagabunda, as vezes eu fico pensando que ela tem um pouco de razão nisso tudo.

-E por que você acha isso?

-Porque eu sou mesmo uma vagabunda, eu tento fazer tudo certo, mas eu nem ajudo em casa, vivo comendo, por isso que sou gorda desse jeito, e eu sei que por mais que esse é o peso certo pra minha altura e idade, é verdade, até meus amigos dizem isso para mim.

-Se eles falam isso para você então pare de chamar eles de amigos porque isso só pode ser inveja desse corpo lindo que você tem.

-Obrigada.

-Olha, pelo que você me contou, provavelmente a sua mãe é depressiva, sabe... as pessoas tem problemas e as vezes o jeito mais fácil de elas se livrarem desses problemas ou se sentirem menos culpada é colocando a culpa em quem está mais perto.

-Mas ela só coloca a culpa em mim porque eu sou mesmo culpada, não faço nada em casa para ajudar, não cuido dos meus irmãos menores, deixo todos tristes e falo que a minha mãe e meus amigos que estão errados por falarem essas coisas para mim, mas eu não passo de uma garota ingênua e tola que não sabe nada da vida e é feita de porcelana, que por qualquer coisa já quebra.

-Algumas pessoas não conseguem conviver com os problemas do dia a dia e a única saída que encontram é essa, você tem que ter paciência com ela e saber que ela só faz isso porque é depressiva e não por que você é realmente culpada, eu não tive paciência com a minha mãe e agora ela está morta e eu não posso voltar no tempo para pedir desculpa, mesmo ela estando errada.

-Mas eu...

-Para de ter cabeça dura menina, você é linda e vejo em seus olhos que é muito inteligente e madura, mas as pessoas falam para você que você não é, e você aceita, existe um ditado que diz que os olhos são a janela da alma, e quando eu olho para você eu vejo uma estrela muito forte e bela, mas que está se apagando.

A menina me abraçou forte e deitou em meu colo, e como uma verdadeira criança começou a chorar.

-Não chore garota, as estrelas não choram, elas brilham.

Um carro preto parou na nossa frente e vi uma mulher alta e bonita descer, era discreta mas chamava atenção, era uma mulher deslumbrante mas vazia.

-Anda garota. –Falou a mulher olhando para a menina em meu colo. – você parece um bicho de outro planeta, fica ai parada e chorando, não socializa com ninguém.

A menina se levantou calada e entrou no banco de trás do carro, eu fiquei observando.

Então me levantei e segui em direção a cafetaria comprar o de sempre.

“Quem me dera eu ainda tivesse uma mãe para me xingar” – Pensou a mulher.

“Quem me dera não ter uma mãe me xingando o tempo todo” – Pensou a menina.

Notas finais
Espero que tenha gostado.
Comente, todo comentário é válido.
Obrigada pela leitura, estranho.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!