As desvantagens de ser um cupido
8 Capítulo 7
Notas iniciais
– Tudo bem, não entra em desespero!
– Desespero? Isso se chama medo!
– Medo? De ficar trancado em uma biblioteca comigo? — perguntou Alice olhando confusa para o moreno.
– Alice, você não entende, ok?! — disse impulsivamente Guilherme. E percebendo a expressão confusa no rosto da menina, imediatamente procurou reformular a frase — Quer dizer, ninguém entende até acontecer, certo?
Alice estranhou a repentina mudança de fala do garoto, mas preferiu deixar de lado.
– Vamos fazer assim?! Respire fundo. Acalme- se. Esqueça que estamos trancados — instruiu cuidadosamente ao moreno a fim de tranquilizá- lo — Deixa eu te ajudar.
A morena caminhou até Guilherme a fim de ajudá- lo a sair daquele meio de livros. O garoto estendeu a mão direita à procura de um auxílio para levantar- se, o que não foi sua melhor ideia já que quando a menina o puxou, Guilherme cambaleou para trás caindo novamente naquele acúmulo de livros, isso apenas ajudou para que a morena soltasse uma alta gargalhada diante da hilária cena. Involuntariamente, o moreno seguiu a menina com uma risada, fascinado com a espontaneidade, calma e alegria de Alice diante da situação desesperadora. Mesmo presa numa biblioteca com alguém de mal sabia o nome, mesmo sabendo que será castigada pelo dano causada no local e mesmo não conseguindo concluir o trabalho, a garota ainda achava graça, ainda sorria. E isso era admirável.
– Desculpa, mas é impossível não rir disto — pediu a morena ainda tentando conter a risada.
– Acho que eu também não agiria de forma diferente — respondeu Guilherme tentando confortá-la, embora, no lugar de Alice, o moreno entrasse em desespero.
– Ok, vem cá! – estendeu a mão ao garoto e o puxou.
Depois de perceberem que recolher os livros seria em vão, os dois voltaram para a mesa e resolveram se concentrar em seus trabalhos, que por sinal era para ser entregue até quarta-feira, como era segunda-feira, eles não tinham muito tempo, e ainda existia a situação da estante que só atrapalhava.
– Eu não consigo terminar isso sabendo que vou sair daqui três horas depois do previsto! – desabafou Guilherme deixando o cartaz de lado, levantando da cadeira e caminhando para a porta.
– Ok, vamos ganhar tempo – começou Alice fechando o caderno e se ajeitando na cadeira – Eu não sei nada sobre você, e deduzo que também não saiba nada sobre mim.
Depois de ouvi- la, a primeira coisa que o moreno esperava pensar era “É bom que você pense assim”, porém, ele percebeu que sabia muito menos do que achava que sabia. Era admirador e possivelmente apaixonado por uma garota que se quer sabia uma das informações mais supérfluas, como sua cor favorita.
– É, você tem razão – concordou o moreno olhando pensativo para a garota.
– Ok, vamos começar pelos nomes. Eu não sei nem seu nome completo – riu a garota pensando na estúpida forma que tento engatar a conversa — Alice Alcântara Rodrigues.
– Guilherme Martins Souza – apresentou- se o garoto rindo internamente da maneira como Alice deu início a conversa – Bom, tem uma coisa que eu sei sobre você.
– Diga.
– Você toca violão extraordinariamente bem – elogiou Guilherme se lembrando da noite no restaurante.
– Ah, aquela noite no restaurante. Eu te vi entrar.
– Sério? – perguntou admirado por ter notado sua presença.
– Claro. Afinal, você estuda comigo tem muito tempo. Lembro que estava com a Lucy, a sua amiga/ irmã – o moreno riu do modo como a Alcântara classificou a loira, o que não deixava de estar certo.
– É verdade.
– Bom, e você, toca algum instrumento?
– Guitarra – respondeu quase que automaticamente. Estava feliz com o rumo da conversa, finalmente algo em comum com a morena.
– Que incrível! Um dos instrumentos que queria aprender antigamente era violino. E piano, mas não deu muito certo – comentou a garota lembrando-se de suas aulas quando mais nova.
– Por isso que tentou violão?
– Na verdade, aprendi por consequência, meu pai saiu de casa e deu um tempo no casamento, então minha mãe ficou preocupada e decidiu que eu precisava de uma distração. Assim, meu avô me deu um violão, comecei a fazer aulas e... Agora, dizem, que toco muito bem.
– Você toca muito bem – afirmou o garoto tirando um sorriso agradecido de Alice. Era impressionante como o clima estava mais agradável, o menino, ao decorrer da conversa, perdera o desespero e, principalmente, o medo. Percebeu que era apenas uma questão de se aproximar e deixar de lado sua insegurança.
Algo começou a tocar insistentemente, como um alarme. A Alcântara foi em direção a sua mochila e retirou de lá seu aparelho celular, desligando- o imediatamente.
– Nossa, eu podia jurar que não tinha trazido ele – comentou a morena olhando interrogativa para o celular. No mesmo instante, o moreno correu até a garota e pegou o celular – Ei!
– Vou tirar a gente daqui. Alô, Lucy?
– Quem é?
– Nossa! Até com alguém que, teoricamente você não conhece, é grossa – disse o menino impressionado com a atitude da amiga.
– Por que você está me ligando do celular de outra pessoa?
– Então, é esse o assunto. Preciso da sua ajuda.
– Não to a fim. Tchau – dito isso a loira desligou o celular sem esperar por uma resposta do amigo.
– Ah, era só o que me faltava. Lucy com raiva – resmungou o moreno.
– Aquela sua amiga? – perguntou Alice sem querer ser intrometida.
– Essa mesmo. Aconteceu alguma coisa e ela está irritada, a prima dela deve ter alguma coisa a ver com isso.
– Então, ela briga com outra pessoa e desconta em uma que não tem nenhuma relação com a situação?
– Nossa, você falou igual a Lucy – disse Guilherme impressionado com o ocorrido, que talvez, fosse um indício de que as duas não eram tão diferentes – Deixa. É, ela é meio complicada. E eu não disse que brigou com a prima.
– Ok, mas supondo que ela tenha brigado, ela sempre faz isso? Isso é meio injusto
– Ah, você não a conhece, injusta é um adjetivo que não combina com ela. Talvez, ela seja apenas muito explosiva.
– Ok — rendeu Alice segurando um riso.
– Vou ligar de novo – o moreno digitou o número da amiga temeroso – Não desliga!
– Saco! Se vira, Guilherme, seja lá qual for o problema!
– É sério. Eu estou preso na biblioteca com a Alice, a estante caiu e tem milhares de livros barrando a saída.
– Oras, não é você que gosta tanto da Alice, pensando pela lógica, essa seria uma situação maravilhosa — respondeu a loira debochando do amigo. Ela estava chateada, não queria ser incomodada e pôde perceber que o moreno reparara na sua irritação.
– Para de ser cínica e vem me ajudar. Você sabe onde estou, venha! Você tem dez minutos — em seguida desligou o telefone não querendo saber a opinião da amiga.
– Nossa! Com o gênio que ela tem, acho que não vai gostar muito do modo como a tratou — comentou Alice pegando o celular e pondo de volta no lugar.
– Ela goste ou não, eu preciso dela, e eu tenho certeza que ela não viria se eu fosse educado.
...
– O que foi?
– Eu tinha dito dez. Você demorou vinte minutos.
– Quer que eu vá embora? — perguntou inocentemente caminhando em direção a saída.
– Tudo bem. Esqueça o que eu disse — suspirou o moreno se aproximando da pequena janela na porta dupla onde a amiga estava.
– Oi, tudo bem? Meu nome é Alice — cumprimentou a garota próxima a janela sorrindo simpaticamente.
– É. Eu sei — respondeu Lucy dando pouca atenção a morena e recebendo um olhar repreendedor por parte do amigo.
– Hã... Certo. Você precisa dá um jeito de tirar a gente daqui sem sermos culpados pela queda da estante.
– Ah, inocentar vocês dois é fácil. O que eu não entendo é por que vocês, simplesmente, não jogaram os livros para um canto e abriram a porta? — perguntou a loira como se estivesse inspecionando a bagunça.
– Então, a porta está trancada.
– Oi? E você me avisa agora?
– O que deu em você para estar tão irritada?
– Guilherme, não enche. Vai querer minha ajuda ou não?
– Me explique e depois discutimos meu problema. O que a Julia fez?
– Por que minha prima teria alguma coisa relacionada a isso? Eu vou embora — avisou a loira se afastando da biblioteca.
– Tudo bem, espera. Mas quando eu sair daqui eu vou querer saber o motivo de sua irritação, Lúcia Marquês – disse o moreno austero. Considerava Lucy sua amiga, membro de sua família e odiava saber que estava irritada por, provavelmente, um motivo idiota.
A amiga suspirou de irritação. Era difícil aceitar que seus problemas eram apenas dela? Em momento algum pediu a ele que expusesse sua vida para ela, como sempre fazia e faz. As vezes isso a irritava, não sabia bem a razão, mas achava muita ignorância da parte dele não conseguir “cuidar da própria vida”.
– Vocês dois vão juntar todos esses livros. Eu vou ver como abrir essa porta — ordenou Lucy saindo de perto da biblioteca.
– Personalidade forte a dela, né? — comentou Alice chamando a atenção do moreno.
– É. Em uma situação dessas, isso é ótimo. Então, me ajuda aqui — pediu Guilherme se abaixando para pegar os livros.
...
– Almir!
– Oi, Lucy! — cumprimentou o inspetor trancando a porta de sua sala.
– Eu preciso de um favor seu.
– Você não vai me fazer quase perder meu emprego de novo, né?
– Relaxa, esse é menos... Impactante?
– É realmente importante?
– Bom, se você considera importante ajudar um amigo que ficou preso na biblioteca e acidentalmente derrubou uma estante que estava coberta de livros que agora estão impedindo de porta de ser aberta, sim.
– Como você sempre consegue se envolver em situações como essas? – perguntou o inspetor após dar um longo suspiro e olhando- a de forma pasma. A loira riu. Nem ela mesma sabia de onde tudo isso surgia, eram quase inevitáveis.
...
– Arrumaram? — perguntou a Marquês chegando à porta da biblioteca junto de Almir.
– Espera — pediu a morena terminando de pôr uma pilha de livros na mesa – Pronto.
– Ótimo. Como você pretende abrir a porta? – perguntou a Marquês voltando sua atenção para o inspetor.
– Arrombando? – respondeu com outra pergunta como se fosse a coisa mais óbvia.
– Você está brincando, né?
– Não.
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