As descobertas de Amanda
1 Capítulo único
Notas iniciais
Era 21 de julho de 2008, manhã ensolarada de inverno, primeiro dia de Amanda no pré-vestibular. Havia algum tempo que concluíra os estudos regulares, mas ambicionava tanto crescer profissionalmente, adquirir a casa própria e conhecer as belezas da Itália que programou aquele semestre para se dedicar aos estudos e encarar o temido vestibular. Abandonou o emprego de balconista de uma lojinha no centro da cidade, organizou as despesas e resolveu voltar para a sala de aula. Uma decisão corajosa.
Os três primeiros tempos foram marcados pelo reencontro de Amanda com os cálculos, impressionando a jovem garota que não simpatizava com álgebra, geometria e trigonometria, porém tinha em mente que precisaria delas para ingressar no ensino superior onde cursaria Letras com habilitação em Italiano, bem distante de senos, cossenos e raízes quadradas.
O quarto horário se iniciou com a chegada daquele rapazinho com jeito de poeta que passou pelo corredor daquela sala imensa e dirigiu-se até o tablado. Estatura média, rostinho redondo e simpático, óculos de hastes finas, livros e mais livros nos braços. Se não fosse pelo jaleco azul com o emblema do cursinho costurado no bolso direito, passaria muito bem por um aluno atrasado, até se apresentar como docente de Língua Portuguesa e começar uma aula que parecia, a princípio, não ser nada empolgante. Amanda sempre preferiu Língua Portuguesa à matemática, entretanto admitia a si própria ter várias dificuldades com a gramática, sobretudo a análise sintática. Ela ainda não sabia, mas sua concepção sobre a linguagem nunca mais seria a mesma.
O Prof. Felipe, além das piadas novas e do frescor dos seus vinte e seis anos, trazia consigo o desejo de ajudar seus alunos a contextualizarem o conteúdo das apostilas e compreenderem tudo o que lhes podia soar impossível, doloroso e obscuro. Não havia muito tempo para digressões ou encher o quadro de regras que os jovens certamente se esqueceriam, visto que precisavam decorar fórmulas de química, física e matemática e retomar todo o conteúdo de uma vida estudantil no prazo de quatro meses.
— O que é a linguagem para vocês? — quis saber o professor cujo microfone grudado no bolso do jaleco ressoava pelas caixas de som em torno daquela sala onde cerca de cento e cinquenta estudantes o observavam.
Um silêncio sepulcral fez-se naquele instante. A mais tímida das bolinhas de chiclete faria um eco ruidoso naquelas paredes geladas e caladas. Ninguém tinha a menor pretensão de se manifestar. Felipe sabia que aquele era um forte indicativo de dúvidas, por isso respirou fundo e prosseguiu:
— Ninguém vai me dizer o que é a linguagem?
Ninguém sequer respirou mais profundamente.
— Ninguém se arrisca?
Amanda timidamente folheava a apostila, buscando se concentrar no texto introdutório da disciplina, no entanto absteve-se de emitir um palpite que fosse.
— Me contem como é que vocês escrevem quando mandam um torpedinho no celular ou estão no MSN? Como vocês fazem uma redação? Como vocês falam em casa? E com os amigos?
Amanda ainda não conseguia entender a linha de raciocínio daquele professor.
— Parem pra pensar numa coisa: você não vai à praia usando terno e gravata — discorreu o professor. — Com a linguagem é a mesma coisa. Não há uma única língua certa para todos os momentos, o que ocorre é conhecer de que maneira usar a norma padrão e quando a informalidade é permitida. Você utiliza uma determinada linguagem pra cada contexto. Por exemplo, quando você manda uma mensagem de celular pra sua amiga, abrevia algumas palavras pra poupar espaço e tempo e mesmo assim vocês se entendem. Quando você está escrevendo uma dissertação, usa a norma culta, não escreve palavras abreviadas...
Muitos não compreenderam que com aquela ilustração bastante pertinente, o Prof. Felipe os incentivava a pensar na língua sob outro prisma, com mais consistência e profundidade e ao mesmo tempo respeitando o cronograma previsto. Utilizando exemplos mais próximos da vivência daqueles pré-vestibulandos no lugar de fartá-los com uma apresentação maçante e pouco produtiva, uma expressão justa para definir a aula da Profª Elvira, de redação, por acaso os dois próximos tempos.
Elvira enquadrava-se no perfil daquela típica professora autoritária que sentia um prazer incontrolável em ridicularizar as redações dos vestibulandos, apontar erros e se apossar da verdade como se a pertencesse. A didática deixava bastante a desejar por não ser atrativa. Sua opinião devia ser incontestável e seu gosto haveria de permanecer. Não à toa tornou-se a professora mais odiada pelos alunos.
Naquele primeiro encontro com a turma do semiextensivo, todos praticaram os conhecimentos da apostila, redigindo o resumo de um texto polêmico. Quem terminava a redação chamava a ajudante e estava liberado, podendo passar na secretaria na semana seguinte para receber o texto corrigido e com críticas dos corretores.
Na semana seguinte, Amanda chorou quando viu sua primeira nota de redação. E chorou porque não teve uma boa noção de matemática básica no ensino fundamental. Chorou porque o ritmo do cursinho era mais pesado do que ela primariamente supunha. Sentiu pela primeira vez que poderia não conseguir, que talvez tivesse sido um grande equívoco sair do trabalho para arriscar-se num projeto tão ousado como aquele. Porque era uma possibilidade real demais para ser ignorada.
As aulas de que Amanda mais gostava eram Língua Portuguesa e Literatura. Naquelas semanas que se sucederam e o desânimo a mantinha questionadora, as palavras do Prof. Felipe serviam-lhe de incentivo para manter o foco. A gramática não era um bicho temível de sete cabeças, elas só não haviam sido devidamente apresentadas. E o amor dela pelas palavras aumentava. Dificuldades todos os seus colegas possuíam. O vestibular era igual para todos. O futuro não era certo para ninguém naquela turma.
No final do mês de agosto, Amanda inscreveu-se no processo seletivo que seria aplicado em meados de novembro daquele ano. Olhar para o boleto pago pregado no mural de fotografias era uma injeção de energia. Ela estava concentrada em alcançar o objetivo de ser universitária. Não era nada fácil lutar contra as lágrimas, o sono, a fome, as limitações pessoais, a mania de comparação que todos temos — e não era diferente com Amanda — e deixar o conteúdo das apostilas se acumular.
Outros colegas de turma da Amanda matavam aulas fosse jogando no celular, ouvindo música ou mesmo passeando no shopping, sustentavam a teoria inconsistente de que “português era fácil por não ter números”. Não eram poucos aqueles que desprezavam as palavras do Prof. Felipe e matavam as aulas geminadas dele todas as quartas-feiras após o intervalo. Mal sabiam eles o erro que cometiam.
Amanda vinha redescobrindo a Língua Portuguesa, compreendendo muito melhor as coisas ao seu redor, assistindo aos noticiários para saber como estava o mundo, prestando atenção nas palavras de um jeito que não lhe parecia possível, porque havia algo brilhante nisso tudo, a riqueza da língua, a ampla possibilidade de adaptação e entendimento. Ela não escrevia no MSN do mesmo jeito que falava com a família, como não podia abreviar palavras nas redações corrigidas e criticadas pela Profª Elvira. Aos poucos, aquela jovem vestibulanda perdia aquele medo antigo que tanto lhe afligia: o de não saber de tudo.
Felipe preparava as aulas com tanto esmero que Amanda não deixava de admirar aquela dedicação toda. Vídeos, canções, charges, poemas, crônicas, anúncios publicitários. Tudo, absolutamente tudo, era fonte de conhecimento.
— Na época em que Napoleão escreveu sua gramática, metade da população era analfabeta... — discorreu o professor. — Como essa parcela que mal tinha acesso a educação poderia conhecer a língua portuguesa? Sabem quando o direito a educação passou a constar na Constituição? Em 1988! 1988! E ainda tenho várias reflexões sobre a educação no nosso país, mas no momento ela não faz parte da nossa aula...
Amanda se encantava com a diversidade de Brasis dentro de um mesmo Brasil. Tantos dialetos, sotaques e segredos. Uma mesma palavra podia ser falada de tantos jeitos diferentes e nenhum deles estava errado. Havia, sim, um contexto a ser considerado. Os metidos a sabichões queriam falar bonito, ignorando a questão de que era lamentável usar palavras difíceis e nem sequer refletir o significado, tinha muito mais relação com o respeito de entender que é uma verdadeira tolice acreditar que há uma língua superior às outras. Não era nada sensato segregar um idioma tão rico quanto o brasileiro.
— Conhecimento se constrói — repetia sempre o Prof. Felipe, obstinado em incutir o conhecimento naqueles jovens não apenas para ser válido no vestibular e sim para o resto da vida. — Vocês ainda têm tempo de estudar. Comecem com meia hora por dia e aos poucos aumentem cinco, dez minutos. Encontrem o seu jeito de aprender, todo mundo possui o seu. A informação produz a memória, permitindo que o cérebro receba novas informações e compare, contextualize, transforme aquilo em saber.
Com essas palavras tão verdadeiras e inspiradoras, Amanda passou a entender suas dúvidas como trampolins para saná-las, percorrendo caminhos que a levavam para mais e mais perguntas, inflando as possibilidades.
Com as proximidades da prova, os colegas de Amanda que estavam levando o propósito na brincadeira, passaram a dar mais atenção aos estudos e praticamente não saíam mais daquele cursinho. Ela, que já estava acostumada a almoçar pão de queijo e café com leite para depois passar a tarde inteirinha na sala de estudo retomando o conteúdo visto em classe, não via a hora que as aulas acabassem; tudo porque o pré-vestibular abalava os ânimos e demandava uma dedicação sobremaneira que geralmente desestruturava aqueles nada acostumados a fazer concessões.
O dia 16 de novembro chegou. Morno, abafado, insone. Amanda passou o dia anterior num centro de convenções para acompanhar o aulão de véspera, riu muito com as performances divertidas daqueles professores com quem conviveu por mais de quatro meses, ficou atenta para as últimas recomendações, os palpites de quem entendia do assunto, mas chorou bastante antes de adormecer, saindo cedo de casa para não perder a hora. Chegando ao local de prova vislumbrou uma horda de candidatos igualmente cansados, estressados, cheios de expectativas e sonhos, jovens como ela, que dedicaram um ano àquele projeto e passariam por uma grande prova de fogo quando os ponteiros marcassem duas da tarde no horário de verão e todos tivessem autorização para abrir e resolver o caderno de provas.
Amanda utilizou todo o tempo que julgou necessário. O nível da prova foi bastante alto. As perguntas de Língua Portuguesa requeriam do aluno além do conhecimento básico de concordância verbal, uma boa noção de interpretação de texto. Aqueles que não estudaram em casa ou não prestaram atenção nas aulas do Prof. Felipe sentiam o baque naquele instante. Ali ninguém podia mentir para si mesmo. Ou se sabia ou não se sabia.
Muito distante de ter gabaritado a prova, Amanda foi aprovada no vestibular e, como não poderia deixar de ser, fez questão de procurar o Prof. Felipe no cursinho para agradecê-lo. Ele, modesto, emocionou-se com a conquista.
Episódios dessa natureza sempre o faziam acreditar que seu sacrifício era válido. Era comum acordar às cinco da manhã e voltar para casa à meia-noite. Nem sempre podia passar os fins de semana com a amada esposa e curtir o filho de poucos meses, todavia por eles driblava as dores nas costas, os incômodos com a garganta, a pressão natural de quem possuía duas responsabilidades: a de provedor do lar e transmissor do saber.
— Professor, eu preciso te agradecer! — começou Amanda, com a voz embargada. — Se não fosse por você...
— Você me disse que tinha parado de estudar e então voltou... Só o fato de você ter voltado a estudar já é uma vitória e tanto, Amanda... E não fui eu que te fiz passar, foi o seu sacrifício, a sua fé...
— Não tenho palavras pra te agradecer, professor.
— Você acreditou em si mesma!
Amanda abraçou o professor. Os olhos úmidos ainda tentavam digerir aquela emoção tão pura, a de uma conquista tão batalhada — e também merecida — que significava, a partir de março do outro ano, um novo ciclo na vida da jovem universitária, de sua aluna, de uma estudante que com certeza teria um futuro brilhante pela frente se mantivesse viva na essência a garra de fazer as coisas acontecerem.
Amanda voltou a trabalhar nas férias de verão, quando efetuou a matrícula na universidade e aguardou ansiosamente o início do período letivo, após o carnaval. Oriunda de uma família modesta, não poderia se dar ao luxo de apenas dedicar-se aos estudos, pois sua contribuição ajudava no orçamento do lar.
O primeiro semestre foi bastante desafiador. Alguns colegas de Amanda desistiram ao decorrer das semanas, ela própria sofreu um pouco para se acostumar com a intensa carga de estudos. As dificuldades vinham da compreensão daqueles textos debatidos em classe. Ela gostava de ler e mesmo assim custou até encontrar o seu ritmo de estudo. Sempre que se sentia cansada e desanimada, olhava para aquele cartão-postal do Coliseu trazido pela madrinha numa das muitas visitas à sua casa, pensava nas palavras daquele professor tão especial que se transformou num grande amigo com o passar do tempo, rememorava todas as suas pequenas vitórias e as lágrimas cediam espaço à coragem.
Quatro anos mais tarde, Amanda foi recompensada pelo sacrifício, quando recebeu seu diploma enrolado num canudo naquela solenidade tão especial para ela, a primeira integrante da sua família a se formar na universidade, para aqueles pais que trabalharam incansavelmente para que nunca houvesse carência do básico, que choravam um pranto de felicidade, de missão cumprida, cientes de que aquela eterna menina era um pássaro pronto para desbravar o mundo.
Pouco antes de fazer as bagagens para passar um ano com a madrinha na Itália, Amanda olhou pela última vez para aquele cartão-postal em seu mural, apanhou-o e ao encontrar a mãe, colocou-o nas mãos dela e pronunciou com os olhos molhados:
— A senhora se lembra de quando todo mundo dizia que era impossível uma garota pobre como eu entrar numa federal e me formar? Eu fiz o impossível acontecer!
— Você merece essa felicidade toda, minha filha! Você fez por merecer!
— Fica com ele, mãe — pediu Amanda, emocionada. — Sempre que eu queria desistir de tudo, olhava pra ele e sabia que não tinha pra onde correr, precisava ser mais forte que as limitações. Fica com ele pra sempre se lembrar de mim!
O sonho de menina estava prestes a se tornar realidade.
Retornando ao Brasil após um ano especial em solos italianos, Amanda passou a se dedicar a sua tese de mestrado em Comunicação e Linguagem, esperando que seus conhecimentos servissem para que muitas pessoas tivessem a oportunidade de se descobrirem capazes de aprender gramática como ela descobriu ser, ainda que sem suspeitar disso, lá na primeira aula do cursinho, quando a semente do saber despertou em sua consciência e a levou para muito além do que jamais pensou em ir.
Amanda, ao conhecer melhor a riqueza da língua portuguesa, descobriu também a si mesma.
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