As damas da neve e o anão
3 Capítulo 3
Notas iniciais
— Chega! Não aguento mais esse tipo de tormento! Ano após ano, geração após geração, somos obrigados a fornecer nossas pobres crianças para uma bruxa maldita! Isso tem que acabar. — Um camponês qualquer gritou do meio da multidão que ainda se aglomerava na praça principal, em silêncio diante de uma jaula de madeira vazia e incapaz de dizer alguma coisa.
— Mas o que podemos fazer? Ela é muito mais poderosa que qualquer um de nós. Os guerreiros mais valentes do rei pereceram nas mãos dela. — A filha do padeiro se intrometeu.
— Se ao menos existisse alguém capaz de nos ajudar! Alguém que se dispuzesse a enfrenta-lá! Mas quem? — Um homem baixo e gorducho retrucou.
—Ele. — O homem misterioso de capuz apontou para mim. Assustei-me com seu comentário. No começo achei que ele estivesse fazendo algum tipo de piada com a minha cara, mas sua voz era tão calma e serena que percebi que o absurdo que ele dissera era sério para ele.
— Eu? Você por acaso está ficando louco? Quem diabos é você afinal? — Gritei com raiva enquanto a população me olhava incrédula.
— Meu nome é Dartan. Eu sou um mago que vive nas terras do sudeste. Infelizmente não tenho poder suficiente para derrotar Encantriz, mas de acordo com a profecia que recebi dos deuses, ela me apontou você. — Ele finalmente abaixou o seu capuz diante de todos, e percebi que ele era um homem alto, que não deveria passar dos 40 anos. Mas seu jeito de falar misteriosos e a forma com a qual ele se expressava também poderia sugerir que ele pudesse ter séculos de idade, apesar de uma aparência jovem. Era a primeira vez que eu via um mago em minha vida, achava que eles só existiam em outros mundos ou outras realidades. Ele tinha cabelos compridos e prateados e olhos acinzentados que faziam com que ele parecesse um cego. Não possuia barba ou bigode, algo incomum para os homens da nossa época, com excessão dos meninos.
— Há, não me diga que esse gnomo de fogo é algum tipo de escolhido ou sabe-se lá o que! Porque se for ele que irá nos defender da feiticeira com esse graveto que é muito maior do que ele, assim sim estaremos condenados! — Uma mulher de aparência detonada caçoou. E pela primeira vez, depois de minutos de terror, Red Apple inteira ainda encontrou forças para rir de mim. Fiquei vermelho de raiva como um tomate.
— Ora sua ....
— Zubart, me acompanhe. — O homem misterioso me interrompeu. Vou explicar tudo para você. Não se preocupe, não irei lhe fazer mal e sei muito bem como você é habil com a sua espada. — O homem disse baixo e sereno, sem se abalar com o que acontecia ao seu redor. Enquanto a população ainda soltava piadas e ria de mim. Me chamando de coisas que não me atrevo a repetir. Segui aquele homem com as mãos no bolso e xingando em dialeto antigo em voz baixa.
Nos afastamos de Red Apple e após subirmos a colina, adentramos a floresta e aquele homem seguiu o mesmo caminho que eu utilizava para ir para minha casa. O sol estava se pondo, e provavelmente estaríamos em minha casa ao anoitecer. Isto é, se eu permitisse, porque eu não poderia deixar um homem entrar em minha casa sem saber ao menos quem ele é.
— Então ... Mago. Ou o diabo que você for. O que o faz achar que eu sou algum tipo de escolhido? — Resmunguei, desconfiado, ao mesmo tempo em que puxei um galho carregado de cerejas para comer conforme andávamos.
—Eu não acho. Eu tenho certeza. Os deuses me deram a confirmação cinco vezes, então não há porque ter dúvida. E a propósito, eu venho observando você desde o dia em que nasceu. Infelizmente não pude revelar a minha identidade porque não era o momento apropriado, de acordo com as instruções do meu mestre. Mas agora é a hora, Zubart.
— Hein? Sempre esteve comigo? Eu e meu pai sempre vivemos sozinhos! Depois que a minha mãe morreu depois do meu parto o meu pai me criou sozinho naquela cabana no meio do nada! Ele teria falado de você, meu pai não escondia nada de mim. — Retruquei, com arrogância no meu tom de voz. Esse cara só podia ser louco.
— Sinto desapontar você, mas o seu pai escondeu a verdade sobre mim sim. Explicarei tudo quando chegarmos em casa. — Ele tocou a mão no meu ombro levemente, mas esse cabeludo ja estava passando dos limites para mim, então puxei a minha espada e apontei para ele.
— Há, uma ova que você vai entrar na minha casa! Estou começando a achar que você é uma fraude,sim senhor. Agora me dê uma boa razão para não matá-lo aqui e agora.
Ele olhou pra mim por alguns segundos e depois sorriu. Arregaçou a manga do braço esquerdo e sua mão assumiu uma forma da pata de um urso. Deixei minha espada cair de pavor, ao notar uma mancha rosada no meio da pata. Exatamente a mesma mancha de nascença que a minha ursa possui. No mesmo lugar, do mesmo tamanho, na mesma cor, no mesmo formato. Não.... Não pode ser ....
— Não acredito. Isso só-só-só poder ser uma ilusão maldita .... Gaguejei, mal conseguindo raciocinar.
—Zubart, eu fui a sua ursa a quem batizou de Ingra por todos esses anos. — Ele explicou serenamente, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. -Agora vamos, já anoiteceu e já consigo ver a nossa cabana. E lá lhe contarei sobre a profecia. E sobre as damas da neve...
Não consegui terminar de ouvir o que ele disse, porque comecei a me sentir tonto, tudo ao meu redor começou a rodopiar e assim desabei na relva, mergulhando numa escuridão profunda.
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