As crônicas do infinito

1 Um caminho solitário


Em minhas mãos senti terra seca, o cheiro era podre e o silêncio perturbador parecia me enlouquecer a cada segundo que passava… Enfim uma luz, lá no fundo. Parece tão… longe. Lembranças não desse lugar, mas de um lugar que há poucos segundos eu estava ou parecia estar. Uma voz rouca, um brilho, e aqui estou.

Levanto, mas não tonto, na verdade nunca tive tanto equilíbrio e firmeza na vida. Caminho em direção a uma luz fraca, vislumbro devagar uma passagem e ao atravessar consigo ver a paisagem: seca e desértica. Para cada canto que eu olhasse via apenas areia vermelha e árvores cinzas, tão secas quanto o vento que eu sentia em meu rosto.

Não havia vida ali, apenas o cheiro pútrido de morte . Caminho devagar sem rumo, minhas lembranças estão embaralhadas e borradas, meu nome foge de mim quando eu o procuro, não sinto fome nem sede mesmo em um deserto com dois sóis sob minha cabeça. Esse lugar não me parece real, lembro-me das histórias que lia sobre monstros míticos e lugares fantásticos impossíveis de serem descritos com palavras, cujo os autores deixavam a cargo da nossa imaginação, talvez só fosse um sonho triste e vazio.

Caminho sem saber exatamente para onde vou, apenas sigo por uns minutos, talvez horas, o tempo é diferente aqui. Vejo algo se mexendo e pela primeira vez escuto um som que não fosse vento soprando: "Ei você!" Grito, achando que era uma pessoa que podia me dizer o que estava acontecendo, mas não era. A coisa levantou-se de costas, parecia uma pessoa, mas ao me aproximar vi uma pele, ou falta dela, cinza escuro que me lembrava imagens de pessoas queimadas, completamente enrugadas e deformadas.

A criatura virou-se para mim e pude ver seus olhos fundos e sem vida, em suas mãos havia a carcaça podre do que um dia foi um animal, ele olhou fixamente para mim por um tempo, como se não acreditasse. Então largou a carniça e correu de forma estranha e curvada em minha direção. Fiquei sem reação, o medo me paralisou e só despertei ao sentir as unhas dele cravando em meus ombros e me derrubando.

Gritei de dor e coloquei as mãos no peito dele para impedir que mordesse meu rosto. A raiva tomou o lugar do medo e então, por puro instinto, eu consegui jogar ele pra longe com uma força descomunal, mas a criatura era persistente e logo estava de pé novamente. Usei as armas que tinha, meus punhos e minhas pernas, soquei com precisão e desferir chutes certeiros em pontos específicos que o faziam fraquejar. Eu não tinha ideia de como sabia fazer aquilo, mas não tive vontade de parar, lutei e acabei com a criatura.

Seus grunhidos não estavam mais tão assustadores, sequer davam medo, ela estava caída sob meus pés. Eu o encarei com raiva e ele retribuiu com um olhar de medo, pareceu se encolher e foi então que tentou dizer com uma voz rouca e falha: "Mes... tre... vol..." mas antes de terminar, uma espada veio voando e foi cravada na lateral da sua cabeça e ele ficou inerte, sem vida. Eu, assustado, caí de bunda no chão, olhando para todos os lados. Então eu o vi.

Um homem mais velho, com o cabelo estranhamente branco, um olho amarelo e outro tapado, usava um sobretudo marrom escuro e um cinto cheio de objetos, inclusive um martelo grosso de batalha. Ele veio até mim, devagar e com o olhar severo. -Venha garoto, esse lugar é perigoso. -Disse, retirando a espada da cabeça da criatura, limpando-a e a colocando na bainha. — O quê está esperando? Prefere esperar por mais ghouls para brincar com você? -Falou, rumando para o horizonte.

—Ei! Quem é você? O que são ghouls? E que porra de lugar é esse? -Perguntei, confuso. Eu não estava no meu melhor momento e queria respostas urgentemente. -Cuidado com suas palavras, garoto, eu não gosto de palavrões. Meu nome é Diem, ghouls são aquelas criaturas nojentas lá atrás. — Ele continuou caminhando, enquanto eu o acompanhava. -Que lugar é esse? Você sabe quem sou eu? -Decidi perguntar novamente, já que não obtive respostas.

—Você perdeu a memória -ele parou e me olhou, sempre com um olhar severo. -Interessante, é a primeira vez que conheço um reencarnado com perda de memória. -Aparentemente eu perdi -disse, me segurando para não socar a cara dele até conseguir respostas.

—Você está no deserto do sangue, território do senhor da guerra no mundo infinito -respondeu, me encarando — e quanto a você, não tenho a mínima ideia de quem seja, apenas sei que é um reencarnado. É bem específico, como se eu tivesse entendido tudo o que ele disse.

Ele me avaliou por mais alguns segundos e percebeu a minha confusão. -Respondo suas perguntas quando sairmos deste lugar, até lá preciso que se mantenha em silêncio. -Está bem -suspirei ainda irritado, mas essa foi a minha resposta.

Ainda precisava descobrir o que estava acontecendo. Voltamos a caminhar por horas que pareciam intermináveis, e mesmo não estando cansado o tédio havia se tornado insuportável. -Aperte o passo, está anoitecendo, e é quando os ghouls se escondem que os verdadeiros monstros caçam -disse Diem, e logo em seguida senti um alívio ao avistar uma montanha imensa e desenhada no horizonte, indicando que já estávamos chegando.

Durante o trajeto vimos alguns ghouls vagando por aí, mas que covardemente corriam ao ver Diem. Para ele, essa criaturas horrendas não eram nada, e eu não tinha vontade alguma de conhecer o que ele considerava monstros. Poucas horas depois já havia escurecido e as duas luas começaram a iluminar o céu, uma cheia e a outra crescente. A fronteira do deserto estava a poucos metros, porém um grande e imponente muro de galhos cinzas barrava o nosso caminho, devia ter uns dez metros.

—Pule! -Diem ordenou, e em seguida correu e saiu pulando pegando impulso nos galhos mais fortes do muro. -Como vou fazer isso!? -Gritei, apreensivo. -Concentre suas forças nas pernas e procure lugares firmes, siga seu instinto -respondeu, já no topo do muro.

Dei de ombros e a primeira coisa que pude pensar era no que aquele idiota estava falando, porém não pude expor meus pensamentos pois ele já havia virado e pulado para o outro lado. Tentei duas vezes e falhei miseravelmente, estava prestes a desistir quando pude escutar um rosnado alto e estridente. Olhei para trás e vi algo, mesmo sob a luz das luas não pude enxergar o que era, apenas parecia um enorme vulto preto, isso me deixou nervoso. Tentei escalar o muro e me vi diretamente no chão, meu coração estava disparado e o nervosismo tomou conta da minha mente, fechei os olhos e lembrei de quando empurrei o ghoul usando uma força incomum.

“Concentre sua força nas pernas”. a raiva me inundou, esvaziei e deixei o a raiva me preencher e deixei o meu corpo fazer o resto, minhas pernas enrijeceram e eu pulei. Antes que eu notasse já estava na metade do muro, pegando impulso sob os galhos que pareciam mais firmes e apesar do último galho ter se quebrado eu consegui chegar ao outro lado. Cai sob uma grama macia, não foi exatamente um pouso suave, o impacto fez meu corpo parecer que ia quebrar.

Ao me levantar com uma certa dificuldade me deparei com Diem sentado em uma grande pedra com o martelo na mão, passando os dedos pelos entalhes dele. -Devo admitir que foi mais rápido do que eu pensei que seria -disse de forma indiferente, colocando o martelo no cinto. -Hora das respostas garoto, estamos seguros aqui por enquanto, honrarei minha palavra.

Eu não sabia exatamente o que perguntar primeiro, então comecei pelo mais recente. -Como eu consigo fazer isso e por que eu não morri? -Você é um reencarnado e possui habilidades que não possuía antes em seu mundo -ele respondeu de forma calma e eu o olhei confuso -reencarnados são pessoas que são cascas dos deuses.

—Preciso que seja mais específico. -Preste bastante atenção pois eu não costumo repetir o que digo -ele respirou fundo, como se estivesse se preparando para uma longa conversa. -Primeiramente, o que exatamente você lembra sobre o planeta Terra? -Terra? Hum… eu consigo me lembrar desse lugar, lembro o que é televisão, vídeo game e história, parando para pensar, eu lembro do que é uma vida lá, mas não me lembro da minha -respondi pensativo, e realmente a única coisa que eu não conseguia me lembrar era de mim mesmo.

—O universo onde você está agora se chama mundo infinito, ele possui vários nomes, entretanto todos possuem esse mesmo significado. Em seu mundo existem lendas, mitos e mitologias em todos os cantos do globo, porém o que vocês humanos não sabiam é que todas elas são reais e todas descendem desse mundo. O mundo infinito é o mundo dos monstros, das fadas, dos deuses e até mesmo do bicho papão, tudo que você ouviu falar até hoje desde cantigas de ninar até ruínas dos templos dos grandes deuses do passado são reais. -Esse cara só podia ser louco, nada do que ele dizia fazia sentido, talvez eu realmente estivesse sonhando.

—Então o que tudo isso tem a ver comigo? Ele parecia analisar cada palavra ou expressão que eu fazia, me deixando ainda mais apreensivo. -Você é a casca escolhida para suceder um deus -disse me encarando. -Deus? Casca? Eu… eu… não entendo, só está conseguindo me deixar mais confuso. -A casca de um deus é onde uma divindade deposita todos os seus poderes antes de morrer, na maioria das vezes são humanos escolhidos aleatoriamente pela entidade suprema, o Caos é quem escolhe os deuses e quem decide o destino da Terra -ele me disse em voz firme, olhando em meus olhos.

Eu estava em um deserto vermelho com aberrações que poderiam ser chamadas de monstros e consegui pular um muro de dez metros com apenas dois pulos, então estranhamente estava acreditando em suas palavras, mas havia muita coisa a se debater. -Que relação o Caos tem com os humanos para os escolher como sucessores divindades? -Perguntei intrigado.

—Há coisas que nem mesmo eu posso lhe responder, vivi por muitos anos e embora tenha acumulado grande sabedoria, o Caos continua sendo uma grande incógnita para mim. -E quem é você? Ele pensou por alguns segundos e respondeu. -Sou um deus como você.

—Eu sou um deus? Você me disse que deuses morrem e passam seus poderes adiante, como um deus morre? Se eles teoricamente são imortais, e o que de fato é um deus? -Ele continuou imparcial e com o ar severo.

—Seres humanos interpretam errado o que de fato é um deus, somos imortais, mas apenas para o tempo. Não sentimos fome, sede ou necessidades mundanas com exceção do desejo carnal, não ficamos doentes e nem envelhecemos, contudo não somos imunes a uma espada no peito ou um tiro na cabeça.

Era muito para absorver, e tudo o que ele dizia fazia um estranho sentido como o fato de que eu não havia sentido fome ou sede mesmo passando um dia inteiro caminhando pelo deserto. -Que deus eu herdei? -Eu me lembrava de algumas religiões como grega ou inca, nada tão aprofundado. -Eu não sei ao certo, reencarnados aparecem geralmente onde o antigo portador do espírito morreu. Você poderia ser o espírito do senhor da guerra ou qualquer outro que foi morto nesse território.

—E por que você está me ajudando? -Decidi perguntar mesmo sem entender a resposta anterior. -Como em qualquer outro mundo, nesse também existe o bem e o mal, então eu decidi acolher todos os deuses que reencarnaram para se aliarem a mim -disse, levantando-se e guardando o martelo. -Chega de conversa, precisamos ir, temos um longo caminho pela frente.

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