As crônicas de Meetos
3 Joe - The village in fire
Dois caminhantes numa estrada escura e fria
Um longo caminho pela frente o esperam
Uma vila em frente coberta por fogo
Um herói a caminho
Fazia-se três dias e três noites que Joe e William caminhavam em direção ao norte. Era o lugar mais seguro para dois criminosos perante o rei. No norte, inimigos do rei são aliados. Constantemente cortavam caminho, e viajando pelas piores estradas, onde o terreno é repleto de erosões, com muitos obstáculos como árvores na frente. Com isso, a dupla tem como objetivo se afastar o máximo possível das tropas que se dirigem ao sul. Mesmo não sendo inimigos do grupo protestantista, os mesmos o convidariam para marchar ao sul a fim de acabar com o reinado de Gothos, mais conhecido no norte como Senhor de terra alguma. E isso era de fato o contrário do que Joe e William querem.
–Joe, estamos indo pelo caminho errado, minhas terras ficam mais ao sul. -Com o cansaço pesando em suas costas, William se esforça para manter o ritmo de Joe.
–Chega William, eu sei que você sabe. Não podemos voltar para Rivails, ela não é mais sua. Gothos a invadiu, e você sabe o que acontece a seguir. -Responder Joe, com a voz séria, num tom de quem não queria mais ouvir falar sobre aquilo.
–Você está errado! O meu povo espera por mim, pela minha ajuda! Eu não posso simplesmente virar as costas, e assumir que meu povo foi dizimado!
–Você pode negar se você quiser, isso não vai mudar nada. Ter esperanças é uma coisa boa, mas não adianta negar o incontestável. Antes de você ser levado, metade da sua vila já havia sido morta. Eu acabei de te salvar, raios! Não permitirei que vá em direção a morte desse jeito!
–Minha vila é minha família, minha vida! Se ela morrer, eu morro junto com ela! -Lágrimas umedeciam o rosto de William, enquanto lutava com seus pensamentos.
–Eu também sou sua família! Todo este reino é sua família! E mais do que nunca, ela precisará de você! O povo não aguenta mais viver com o peso da morte do Rei Julio em seus pensamentos, eles anseiam por vingança. E quem melhor para guiá-los se não o irmão de Julio!? O silêncio dominou a estrada, os olhos profundos sobrepostos pela raiva e dor se encontravam com os de William, coberto de sentimentos embaralhados.
Após um momento de puro domínio do mais inquietante silêncio, ambos prosseguiram o caminho. Mais a frente, uma luz forte se destacava dentre a escuridão que pairava a estrada. Chamas altas e violentas brigavam entre si, enquanto a vila no interior delas era destruída e incinerada. Sem pensar duas vezes, a dupla corre em direção a vila. Corpos em chamas tentavam sair do mar de fogo, alguns conseguiam, mas caíam logo ao sair. Gritos de desesperos atiçavam William e Joe, que responderam correndo em direção às chamas. O grito vinha de uma voz suave e fina, provavelmente seu emissor não tinha mais que treze anos. O calor sugava suas forças, enquanto a voz diminuía e se perdia diante o estalar das chamas.
A fina voz vinha de uma casa que havia sido consumida pelas chamas, sua entrada, com uma porta de madeira, estava bloqueada pelo fogo. Com um chute em direção a parede de fogo, abriram caminho pela entrada. E antes que ao menos pensassem analisar o local, já estavam a procura da voz. A voz vinha do segundo andar. Chorando no canto de um quarto, havia um garoto sentado, abraçando suas pernas enquanto apoiava sua cabeça nos joelhos. Um grito vindo de William atraiu a atenção do garoto. E uma ordem “Venha!” atraiu-o em direção a saída do quarto. O garoto vinha lentamente e com a mão no braço, cobrindo um possível ferimento. Um Pilar de madeira em chamas se soltou da estrutura da casa, caindo em direção ao garoto. Antes que William pudesse se levantar, Joe segurou o pilar, com seu braço forrado em roupas. O garoto passou correndo. William e o garoto foram os primeiros a saírem da casa em chamas, acompanhados de Joe, que tivera dificuldade em tirar o pilar de cima dele, e também de tirar os trapos, antes que queimassem seu braço.
Agora num lugar seguro, longe de chamas, voltaram suas atenções para o garoto. Joe se ajoelhou em sua frente, colocou suas mãos em seus ombros e o encarou, com um olhar que transmitia de alguma forma, segurança para o garoto.
–Você está bem? -Questionou Joe. A resposta foi um aceno de sim com a cabeça, e então, veio a segunda pergunta.- O que aconteceu lá?
O garoto fixou seu olhar para o chão. Suas únicas palavras foram mamãe e papai. Logo, desatou a chorar.
Dois homens e uma criança, todos saindo as pressas de perto do mar de fogo que inundava a pequena vila. Já distante, a vila em chamas agora não simulava um por do sol, e ao som baixo e distantes do fogo ardendo, cuidaram do garoto coberto de fuligem. Alguns minutos se passaram até ele acordar, começou-se a se debater e gritar, tentando se livrar dos dois homens que o pressionavam contra o chão.
–Acalme-se, diabos! -Praguejou William. -Você está seguro, não vamos lhe fazer nem um mal!
O menino então se acalmou aos poucos, seu olhar revesava entre William e Joe, não demorou para novamente desatar a chorar. Agora livre dos homens, se ajoelhou e apoiou sua cabeça em seus joelhos, cobrindo-a com seus braços. Em seguida, Joe sentou-se ao seu lado, e consolando-o com um meio abraço, começou:
–Qual o seu nome? O meu é Joe, meu amigo se chama William. Não há o que temer, está a salvo agora.
Ainda intimidado, e com o medo fluindo em suas veias, o garoto esforçou-se a continuar a conversa:
–Meu nome é Jonas.
–Prazer, Jonas. Pode dizer para gente o que aconteceu lá?
–Eu não sei direito, meus pais me acordaram, pediram para mim me esconder e não sair por nada, foi a última vez que eu os vi. Então, quando a gritaria parou, decidi sair e ver o que estava acontecendo, foi quando eu vi… -As lágrimas que haviam cessado novamente jorrava sobre o rosto de Jonas, seu esforço evidente para manter a calma enfim se rendeu ao desespero.
–Você chegou a ver quem os atacou, Jonas? -Joe estava determinado a conseguir respostas.
–Não, mas eles gritavam toda hora algo como “Ao único rei legítimo”.
Joe e William entreolharam-se, e uma feição séria e pálida denunciavam sua preocupação.
–Então eles já chegaram até aqui. -Disse William com o olhar vazio, fixado em algum lugar distante. -Não vai demorar para que cheguem ao Norte.
–Isso se já não chegaram. Bastardos! Não basta tomar nossas terras, ainda matam nosso povo! -Toda a raiva acumulada dentro de Joe acompanhava suas palavras.
–Ainda acha que desaparecer vai mudar alguma coisa, Joe? Eles não pararão até te encontrar. Ou você faz alguma coisa, ou eles queimarão tudo e todos até não sobrar um único lugar em que você possa se esconder. -O garoto tentava entender sobre o que os homens estavam falando, mas a imagem de sua vila em chamas pesavam sua consciência.
O silêncio enfim dominou o local. Por alguns minutos, os únicos sons ouvintes eram os das chamas ardendo e das casas se rendendo ao chão. Então se levantando, Joe pôs-se a falar novamente:
–William, seguindo ao leste, encontrará uma cabana abandonada. Dentro, há uma passagem subterrânea, sua entrada está coberta por uma mesa carbonizada. Esta passagem te levará ao litoral, monte no barco e vá em direção a ilha mais próxima, chegando lá, identifique-se como meu tio, e estará a salvo. -Sua voz determinada, acompanhada por um olhar hipnotizante e estático, cortou o silêncio da noite.
–Por que está me dizendo isso,Joe? O que pensa em fazer?
–Preciso encontrar seu irmão.
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