As cores de um Domingo de manhã
Era um dia, como qualquer outro, acreditava Sophie. Acordou cedo, como sempre. Escovou os cabelos loiros e fitou os olhos cor de mel que refletiam no espelho. Apenas um dia.

Tinha muita coisa em sua mente, como a prova da escola na semana que vinha. O trabalho que tinha que ser entregue no dia seguinte. Passar no cemitério no final da tarde.

Contudo, nada disso importava naquele momento, pois era hora de ir visitar eles, ou melhor, ele.
A escola para deficiente visuais não fica muito longe de sua casa. Era um lugar simples, com poucas salas. Tinha uma quantidade mínima de professores e alunos de diversas idades.

Desde o acidente, a escola foi o único lugar que a garota dos cabelos loiros e olhos cor de mel encontrou tranquilidade. Lá, era uma voluntária que lia para todos que quisessem ouvir, histórias das mais diferentes naturezas.

Nos dias que se sentia mais alegre, contava sobre os garotos que nunca crescem e que vivem na terra do nunca. Mas nos dias que seus lábios rosados, mesmo com o maior dos esforços, não conseguia esboçar sorriso algum, por mais falso que fosse, contava sobre como o pequeno príncipe que ficava sozinho em seu planeta, apenas com uma rosa como companhia.

Naquele manhã de Domingo, não havia nada em especial reservado. Estava até mesmo pensando em inventar algum conto. Sua mente estava tão ocupada com outras coisas, que não tinha capacidade de desvendar seus próprios sentimentos.

Ao entrar na sala que costumava ficar, conseguia-se perceber que havia muito menos alunos do que o esperado. Não sabia o motivo e não estava muito preocupada, pois toda vez que via aquele olhos azuis, o seu mundo parava. Era como se somente eles existissem e nada ao seu redor importava.

— Tia Sophia! Você está atrasada!- reclamou o pequeno Lucas, que a esperava sentado em um dos bancos.

— Me perdoe Lucas, acordei atrasada esta manhã- explicou-se Sophie.

— Qual história irá nos contar hoje?- questionou outro pequeno.

Ao olhar naqueles olhos azuis, que mesmo não podendo ver nada, a fitava com tal intensidade, que a fazia desviar o olhar, sentindo-se envergonhada. Mas num momento de curiosidade, voltou a observa-los, e sabia de imediato qual história iria contar.

— Hoje irei contar a História das Cores.

— Como assim a história das cores, Sophie?- perguntou uma aluna, com provavelmente onze anos.

— Qual é o objetivo se não podemos ver nenhuma?- questionou Nicolas.

— O objetivo, Nicolas, é mostrar que não é necessário enxergar para ver as cores- explicou Sophie.- Vou contar o segredo de cada uma delas.

Então, a garota dos olhos cor de mel e cabelos loiros começou a sua história:

"Há sete cores no arco-íris. Cada uma delas possui um significado e pode ser distinguida por qualquer um. A forma com que se faz isso é através das sensações.

Mau havia começado e apenas conseguia fitar aqueles oceanos azuis. Se arrependeu no mesmo momento que fez, mas agradeceu por ele ser cego. Assim, não perceberia seu rubor.

"Vamos começar de trás pra frente, para tornar as coisas mais divertidas.

"O violeta é como o universo. Ele é o infinito. É a promessa que há algo a mais, algo melhor. Como mergulhar no mar, por mais que você nade, é impossível encontrar um fim.

Era como acreditar que algum dia, ela conseguiria contar a verdade a ele: o mundo da garota dos olhos cor de mel era o garoto olhos azuis.

"O anil é como um diário. É a sinceridade e individualidade. Algo somente seu e que por mais que outra pessoa leia, jamais entenderá com seus olhos, pois os olhos são a janela da alma. É através dele que podemos entender qualquer um.

— Mas Sophie, nossos olhos não funcionam, então como as pessoas vão entender a gente?

— Acho que não me expressei direito. Qualquer olhar é compreensível. Nem é necessário ver para entender o outro. Você sabe apenas pelo toque.

"O azul é a música que preenche nossos ouvidos. Apenas uma nota é como uma única flor solitária num campo verde. Mas diversas notas, formam uma melodia, que pode tocar o coração de qualquer. Como um campo florido nos primeiros dias da primavera.

Era a cor dos olhos dele. Nada mais importava. Para Sophie, era o que dava algum sentido a sua vida, pois todos que amava, a deixaram neste mundo cruel. Exceto ele.

"O verde é como seu melhor amigo. É como confiar em alguém, até mesmo com olhos fechados. Acreditar em cada palavra e pensar o melhor de cada atitude.

"O amarelo é como uma risada. É a sensação da alegria e de se sentir vivo. Não há preocupação, não há nada mais, além daquele som maravilhoso de felicidade.

A garota dos olhos cor de mel havia se esquecido dessa sensação anos atrás. Nem se lembrava do som da própria risada.

"O laranja é como o beijo. É a sensação que você sabe o que outro está pensando e que ele sabe no que você pensa. É uma conexão que não existe, mas está lá.

Ela queria saber o que ele pensava. "Será que sente o mesmo?", se perguntava. "Ou sou uma tola com um amor platônico?"

"O vermelho é o amor. A coisa mais preciosa que qualquer um pode ter. Você nunca sabe quando está chegando, ele apenas desperta seu olhar. Sem nem perceber, está tão consumido à ele, que nem consegue se lembrar de nada. É como se tudo parasse. Um segundo que dura para sempre."

No final, nem mais conseguia controlar suas próprias palavras. Era como seu coração machucado, do jeito que era, falasse por ela. Era uma pura declaração. "Será que ele entende o que eu estou dizendo? Será que perceberá que meu coração é dele e de mais ninguém?"

Demorou alguns segundo para recuperar do baque emocional. Uma vez que voltou ao estado normal, terminou sua história com uma pequena lição.

— São essas as cores- terminou Sophie.- Agora espero que tenham entendido, que não é necessário olhos para enxerga-las, apenas um coração. Isso, qualquer um tem. Basta querer.

Os alunos não fizeram nenhuma pergunta e um por um, se retiraram da sala, com ajuda dos funcionários da escola. Para eles, era como qualquer outra história. Mas ele, Thomás, sabia que não.

O garoto dos olhos azuis tinha uma pergunta que o perturbava durante toda a história.

Sophie arrumava as coisas e nem havia percebido que outra figura ainda estava na sala.

— E o preto e o branco? O que significam?

A garota dos olhos cor de mel se assustou, mas depois fitou o seu oceano azul. Seu coração bateu mais forte e ela sabia que estava demorando para responder, entretanto não conseguia evitar.

— O preto é ausência de luz, enquanto o branco é o excesso de luz.

— Não foi isso que eu pensei como resposta.

— Desculpa, realmente não tenho algo melhor para responder agora- não quando aqueles olhos a fitavam com tamanha intensidade.

— Pois bem, eu tenho uma resposta:

"O branco é tudo. São todas as cores juntas, não é? Pois bem, o branco é o que eu não tenho. É o poder de saber as coisas pequenas e aprecia-las, como o nascer do sol, um campo florido ou seus olhos. Olhos que tenho certeza que são os mais bonitos que alguém já viu, pois são seus e de mais ninguém.

O coração de Sophie não conseguiu evitar um salto.

"Enquanto o preto é o que eu estou preso para sempre. A incerteza do que está a minha volta. Uma vida sem qualquer graça ou felicidade. É o meu mundo sem você nele."

Quando terminou, Thomás sentiu uma respiração próxima a sua. Sophie estava a centímetro dele. Ficaram um tempo assim, cada um sabendo da presencia do outro, olhos sem se mover. Era como o laranja.

— Você está errado- Sophie declarou por fim, quebrando o silêncio.- Não aprendeu nada com a minha história. O segredo não está nas cores, mas nas sensações.

— E qual a sensação que você sente agora?

Sophie colocou sua mãos no rosto de Thomás e as manteve ali. O contato causou um choque na pele dela.

— Eu sinto o vermelho tremendo de paixão nos meus lábios. O laranja nos conectando. A alegria amarela no meu sorriso. O verde das minhas mãos confiantes em seu rosto. O azul dos seus olhos, os mais lindo que qualquer um já viu. A certeza anil que meu coração é só seu. E no violeta esperançoso do nosso amanhã.

Uma lágrima, sem permissão, caiu dos olhos cor de mel.

Ainda segurando o rosto de Thomás, Sophie encurtou a distância entre os dois e colou os seus lábios. O que veio em seguida, foi uma descoberta, maior do que qualquer um já feita.

Foi a prova que o impossível não é impossível. Pelo mesmo, não num Domingo de manhã. Apenas muito improvável.

Notas finais
Espero que tenham gostado. Procurem por mais das minhas fic no meu perfil. Não esqueçam de comentar, por favor.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!