— Vem, Ana, sua vez. — Chamou-me a cabelereira.

Prontamente, levantei-me do sofá onde aguardava. Ela iniciou o trabalho nas minhas madeixas, e eu continuei remoendo lembranças que atormentavam minha cabeça há dias.

Domingo, 9 de junho de 1996

Paulo e eu adentramos minha casa para comer. Estávamos exaustos devido termos brincado muito. Ele era meu primo, vizinho e melhor amigo. Sempre fomos unidos, brincávamos juntos todos os dias, e sempre que ele ia embora, às cinco da tarde, era como se me dessem milhares de facadas. Porém, no dia seguinte, ele estava ali, para reanimar-me novamente.

— Quando crescer, quero me casar com o Paulo! — Comentei com minha mãe, na maior das inocências.

Mamãe encarou-me incrédula por alguns segundos até pegar em meu braço e me fazer bater na própria boca.

— Deus não gosta, ele é seu primo, vocês não podem casar!

***

Paulo era meu primo de quarto grau, então, pela lei, poderíamos nos casar. É claro, eu não sabia disso na época, então guardei aquelas palavras para sempre. A partir daquele dia, éramos só amigos, mesmo que meu coração quisesse o contrário.

— Prontinho, agora ela é sua, Sandra. — Disse a cabeleireira à uma maquiadora.

A jovem se aproximou para embelezar-me, só que eu estava longe demais para prestar atenção.

Domingo, 4 de janeiro de 2015

Guilherme se ajoelhou, tirou uma caixinha do bolso, que revelou um belo anel em seu interior.

— Ana Julia Palhares, aceita se casar comigo?

Sorri surpresa, comecei a chorar na hora. Eu estava muito iludida, cega pela falsa esperança de amar outra pessoa que não fosse meu primo, então, acabei tomando uma decisão completamente errada, que traria consequências desastrosas à minha vida:

— Eu aceito.

***

Sandra acabou minha maquiagem.

— Maravilhosa! — Elogiou minha mãe.

— Imagina com o vestido, vai virar uma verdadeira princesa. — Comentou minha madrinha.

— Que isso hein, bateu até uma inveja branca aqui. — Falou Amanda, minha irmã mais nova.

— Obrigada. — Foi a única coisa que consegui dizer.

Eu tentava, com todas as forças, parecer feliz. Mas era tão difícil... faziam algumas semanas desde que aquele sentimento voltou à tona. Foi num momento que já não havia mais volta: o casamento estava marcado, as pessoas quase todas convidadas, fotógrafo contratado, buffet agendado, as provas de vestido estavam se iniciando. Naquela altura do campeonato, a desistência não era uma opção.

Quinta-feira, 9 de julho de 2015

— Ju, eu tentei ignorar durante todos esses meses, mas hoje, quando minha mãe começou a falar sobre seu casamento, eu não resisti. Ana, você é e sempre será o amor da minha vida. — Declarou-se Paulo, olhando nos meus olhos, com as mãos entrelaçadas nas minhas.

— Eu... eu não posso desistir agora, Paulo. E nós jamais seríamos aceitos, tanto pela família quanto pela sociedade.

— É isso que te impede, Ana, o pensamento de que vai decepcionar as pessoas ao seu redor, e isso está errado, dê prioridade à sua felicidade, não à satisfação dos outros. — Paulo diz isso enquanto acaricia meu rosto.

Meu primo não resiste à tentação, ele puxa delicadamente meu rosto para perto do seu. As bocas se aproximavam cada vez mais, eu não queria trair meu noivo, e ao mesmo tempo, não podia negar um beijo ao amor da minha vida.

Acabei cedendo, nossos lábios se encontraram suavemente num beijo calmo, era tão errado, mas parecia tão certo naquele momento. Acabamos avançando um pouco, a sua língua na minha boca e vice-versa. Mesmo sendo um amor de anos, era o primeiro beijo de verdade entre nós dois. Eu me entreguei totalmente, esquecendo por um segundo da realidade. Imaginei-nos juntos, felizes.

Mas uma hora devia acabar, e quando aconteceu, eu ansiava por mais. Desejava seu toque, seu corpo. Eu o queria inteiramente para mim, na mesma cama que eu. Por toda a eternidade.

***

Entrei no carro que me levaria até o abatedouro, até a minha condenação eterna. Em poucas horas, eu estaria presa para sempre à Guilherme.

Minha família era muito religiosa, então para eles casamento é eterno; não existe separação. Eu até dava razão, pois casamento é parceria, fidelidade. Quando você diz “sim” na frente do padre, naquele altar, olhando para seu cônjuge, assume uma responsabilidade gigante, cria um elo com essa pessoa que durará sua vida toda.

Não que eu não quisesse me casar, pelo contrário, era um sonho. Só que eu queria realiza-lo junto de alguém que eu amasse de verdade: a primeira e última pessoa que eu veria todos os dias e não enjoasse nunca. Essa pessoa só podia ser Paulo, mas naquele altar não seria ele quem me esperaria.

Sexta-feira, 10 de julho de 2015

Ao acordar, a primeira visão que tive era de Paulo. Nus, na mesma cama, algumas garrafas de vinho pelo chão, já deu para sacar o que aconteceu.

Eu me senti muito mal pelo Guilherme, apesar de eu amar Paulo, tinha um certo carinho pelo meu noivo. Mas também, me senti feliz por ter estado com quem eu amo por uma noite. É lógico, eu queria muito mais que isso, mas sabia que aquela seria a primeira e última vez que eu teria seu corpo junto ao meu, seria a última vez que sentiria o prazer de amar e ser amada.

Depois de algum tempo acordada fitando Paulo, comecei a pensar mais em Guilherme, comecei a compará-los. O que eu via no meu primo que não via em meu noivo?

Guilherme era bem de situação financeira, era bonito, carinhoso, atencioso, me amava. Era um príncipe que eu tinha nas mãos. Eu podia gostar dele perfeitamente, seria fácil conviver com um galã como o Gui, dava para fingir amá-lo.

Porém, fingir amar não é a mesma coisa que amar de verdade.

***

Desci do carro juntamente com as daminhas de honra.

Algumas pessoas ainda chegavam, já tinha gente dentro da igreja. O lugar estava todo enfeitado com variadas flores, o tapete por qual eu passaria era vermelho. Pude ver a animação das pessoas, conversando sobre qualquer coisa. Guilherme ria enquanto trocava algumas palavras com seu pai e alguns amigos.

Eu invejei as pessoas daquele lugar. Eu queria, de verdade, ter pelo menos um por cento da alegria que eles tinham.

— Filha, tem algo de errado? — Estava tão no mundo da lua que nem percebi minha mãe se aproximando.

— Não, mãe, eu tô legal. — Respondi.

Ela me lança um olhar de quem não acredita muito e se afasta para falar com um casal que havia acabado de chegar, e eles trouxeram o filho e sua namorada.

Tive de me apoiar na parede da igreja para não cair. Naquele momento, minha pressão deve ter caído. Respirei longa e profundamente a fim de me recuperar do choque. Foi ali que eu entendi o que Paulo sentia ao me ver noiva, inalcançável. Eu pude compreender um pouco mais sua tentativa desesperada de me fazer desistir de Guilherme semanas antes do casamento. Estava doendo para ele me ver com outro homem, e ele teve que suportar isso por muito tempo.

— Ana, você tá mal? Quer ir ao médico? — Perguntou Paulo. A minha vontade era de beijá-lo e fugir com ele dali, porém só respondi:

— Não, obrigada.

— Hã... tudo bem. Hm... essa é a Brenda. — Ele parecia realmente querer manter a conversa viva.

— O Paulinho me falou muito de você, prima.

Prima, essa palavra fez eco em minha mente. A garota parecia simpática, mas minha vontade era matá-la ali mesmo.

— Prazer Brenda, eu sou a Ana Julia, ou só Ju mesmo.

Minha mãe veio para nosso lado.

— Vamos entrando, tá na hora.

Em instantes, todos estavam dentro da igreja. Restavam apenas eu, meu pai e as daminhas.

Uma música toca e a daminha das flores entra, jogando pétalas.

Sábado, 6 de abril de 1996

Amanda jogava as pétalas de flores na toalha de mesa que havíamos posto na grama. Eu andei por elas como se fosse uma noiva. Na ponta, esperava-me Paulo. Amanda fez, além de daminha, o papel de padre.

— Ju, você aceita casar com o Paulo?

— Aceito.

— Paulo, você aceita se casar com a Ju?

— Claro que sim.

— Então estão casados, podem se beijar.

Meu primo e eu damos um curto selinho. Estávamos imitando um filme que acabara de passar.

Aquilo foi apenas uma brincadeira inocente. Não sabíamos o que viria no futuro. Não sabíamos das consequências dos nossos atos.

***

De braços dados, ao som da clássica marcha nupcial, eu e meu pai entramos.

Os convidados me admiravam vestida de branco, exibindo um falso sorriso, com os olhos marejados. Todos achavam que aquelas lágrimas que estavam para cair eram de alegria, mas não, não eram.

Cada passo era como uma facada, a marcha era como o rugido de um monstro amedrontador.

Então, como se eu fosse morrer, minha vida passou diante de meus olhos. Minhas pernas estavam bambas, as mãos tremiam, podendo derrubar o buquê a qualquer instante. O tempo passava devagar, o que prolongava minha angústia. Eu me sentia um pobre animal indo para o abatedouro.

O que eu estava fazendo?

Minha felicidade estava ficando de lado em prol da satisfação de outras pessoas. Isso era errado, totalmente errado. Foi apenas ali, entrando na igreja, que eu percebi isso.

Não podia deixar de ser feliz por medo de ser julgada. Não podia me condenar dessa forma. Se eu me casasse, seria uma infelicidade eterna, terminaria, na certa, em divórcio anos depois. E se eu tivesse filhos? Eles sofreriam por terem pais que não se amam, sofreriam pela separação.

Chegamos no altar.

Meu coração deu um pulo, eu estava agora olhando para meu noivo, que chorava emocionado.

O padre iniciava a cerimônia. Se fosse de desistir, essa era a hora.

E agora? Correr atrás da felicidade, jogando tudo para o ar?

Ou dar continuidade àquela mentira?

Ser ou não ser feliz?

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