Notas iniciais
Olá! Espero que gostem da história, escrevi com carinho para vocês.

Harry agitou a varinha em direção ao colarinho para conseguir um nó bem feito na sua gravata. Se arrumar para funerais, enterros ou memoriais estava se tornando uma parte assustadoramente comum da rotina de Harry nas últimas semanas. Ele já estava se acostumando com as vestes escuras e meticulosamente inspecionadas por Molly Weasley, já estava até mesmo se sentindo confortável nelas. De uma maneira horripilante, Harry Potter estava acostumado a frequentar funerais.

Passou o paletó pelos braços e colocou o velho relógio arranhado que um dia pertencera a Fabian Prewett no pulso. Encarou a imagem refletida no espelho, de um adolescente desengonçado estranhamento formal, como se tivesse sido forçado a entrar naquele terno pela mãe, os cabelos tão bagunçados como se ele tivesse acabado de acordar, os óculos redondos escorregando pela ponta do nariz, o pescoço estranhamente longo em relação ao corpo magro e as feições do rosto curiosamente afundadas e assim com os olhos, vazios. Eles vão perceber que algo está errado, ele estremeceu.

Guardou a varinha em algum lugar no meio das suas vestes e abotoou distraidamente o paletó escuro que o acompanhou pelos últimos três funerais: o primeiro deles de Fred Weasley, seguido por um intervalo de algumas horas pelo de Lavander Brown que contou com a presença de todos da Armada de Dumbledore. Dois dias atrás, esteve no de Colin Creevey, que contou com a menor lápide e o menor número de pessoas. Seu irmão, Dennis Creevey, não deu as caras durante toda a cerimônia. Ginny mencionara que Dean Thomas havia enviado uma carta para ele recentemente, sem resposta. O pai dos irmãos também não sabia do paradeiro do filho, que havia se mudado para morar com a avó após a Batalha de Hogwarts. No fundo, Harry tinha fortes dúvidas se Dennis continuaria a frequentar a escola depois de tudo.

Lembrou-se de Hermione então, em sua jornada para a Austrália em busca de seus pais. Ela havia enviado uma carta avisando que retornaria a Londres o mais rápido possível, agora que tinham oficialmente localizado os Granger na cidade de Darwin. Ele agradeceu por ela não estar presente no Largo nos últimos dias.

Os últimos dias poderiam estar entre os piores na vida de Harry Potter. Desde o memorial, ele nunca esteve pior. Agradeceu a sorte de estar morando sozinho agora, para assim não precisar se incomodar com outras presenças, fora a de Monstro, durante alguns de seus pesadelos noite adentro. Ginny e Ron, que visitavam regularmente o amigo, ainda não tinham percebido nada de incomum. Molly, que o convidava para jantar todos os dias agora, também parecia alheia com os sinais de que Harry não estava bem. Isso talvez estivesse relacionado com o fato de Jorge estar visivelmente pior do que ele, conseguindo assim a preocupação de todos os Weasley. Ginny dizia que o irmão não estava comendo ou aparecendo na loja desde o enterro de Fred. Ela, Rony e Angelina estavam aguentando as coisas na loja com uma falsa normalidade. Todos da família tentaram conversar com ele, até mesmo Angelina, Lino Jordan e Olivio Wood que eram os amigos mais próximos não tiveram sucesso. Talvez ninguém nunca tivesse.

É engraçado como as coisas acontecem. Depois da Guerra, Jorge estava indo bem demais com a Loja, com a família, com Angelina... E em um piscar de olhos, tudo desabou. Será que Harry estava indo para o mesmo caminho?

Ele estava tendo sensações estranhas todas as noites agora. Era um desconforto que o incomodava mais do que quando a cicatriz doía. Ele tinha insônia, porque sabia que se dormisse sonharia com ele, remexendo em seus pensamentos como o bom legilimente que foi, trazendo as lembranças de volta, uma de cada vez, lenta e dolorosamente. Apenas uma lembrança por noite, daquelas que conseguiriam arrancar-lhe calafrios por horas, como em seus piores pesadelos. Na última noite, viu novamente Sirius e isso o fez sorrir, até ver novamente o véu.

No fundo, ele não queria que Hermione retornasse da Austrália tão cedo, não até Harry conseguir lidar com isso de algum jeito. Ele sabia que a amiga, diferente de Ginny e Rony que atribuiriam isso com algum tipo de ressentimento passageiro, se preocuparia demais com ele e o faria contar o que estava acontecendo a Kingsley ou a Minerva e buscar algum conselho profissional. Talvez o forçassem a tomar alguma poção antes de dormir, ou o internassem no St. Mungus na mesma ala que Gilderoy Lockhart e o senhor e a senhora Longbottom; Como poderia perceber, se estivesse ficando louco? Como poderia diagnosticar a insanidade em sua própria mente? Afinal, quais seriam os efeitos colaterais de ter sobrevivido a maldição da morte duas vezes? Ninguém poderia, de fato, saber.

— Ele está brincando comigo – Harry reclamou em voz alta conforme chegou até a sala, decidido a parar de pensar no assunto – Mesmo depois de morto.

Viu a chave de portal, uma velha escova de dente, repousada em cima da mesa da sala começar a palpitar quando olhou no relógio e constatou que estava na hora. Agarrou o cabo da escova e sentiu um puxão no umbigo. Agora é tarde para mudar de ideia, senhor Potter.

***

A casa dos Tonks era um lugar bastante agradável. Era rodeado por um jardim repleto de árvores, flores e arbustos com direito até mesmo a uma casa na árvore e um balanço que pertenceram em algum momento á Nymphadora. A vizinhança era silenciosa, as casas todas feitas de madeira com tetos altos e igualmente rodeadas com árvores e portões altos de ferro que limitavam cada propriedade. Na rua principal, as folhas secas enfeitavam toda a extensão da calçada e da rua conforme uma brisa gentil soprava e mais folhas se juntavam ao tapete.

O portão de ferro da casa dos Tonks estava aberto, assim como a porta da frente. Havia uma movimentação incomum na casa naquele dia, pessoas chegavam a cada cinco minutos por uma chave de portal aos fundos do jardim onde Mundungo Fletcher supervisionava com um bloquinho de anotações. Na sala, Molly Weasley e Ginny conversavam com uma vizinha trouxa que trouxera fatias de bolo. Teddy estava repousado em um berço de armar na sala, agora completamente adormecido. Luna Lovegood chegou, sem a presença de seu pai. Carlinhos foi um dos primeiros a chegar e desde então, não saiu de perto do berço de Teddy.

Harry chegou ao jardim dos fundos com a chave de portal no mesmo instante que Augusta e Neville Longbottom fizeram o mesmo. Mundungo correu anotar o nome no bloquinho. Augusta cumprimentou Harry animadoramente antes de sair correndo em direção a sala para procurar Andrômeda. Neville e Harry a seguiram com os pés arrastados.

Hagrid estava na cozinha com a Professora Minerva trocando uma conversa animada com Dedalus Diggle. Quando Harry chegou à sala, Andrômeda e Augusta estavam conversando conforme Augusta analisava o bebê com olhos clínicos.

— Eu sinto muitíssimo, Andrômeda – Ela dizia – Eu sei exatamente como você se sente... Eu tive que passar por isso quando aconteceu, entende. Eu quero que você saiba que sempre terá o apoio da família Longbottom com o que precisar.

A verdade era que Augusta Longbottom, tanto quanto Molly Weasley e a simpática senhora Bradley já estavam se dispondo a ajudar Andrômeda com tudo o que precisasse. Elas frequentavam a casa várias vezes por semana e prestavam seu apoio emocional, que Andrômeda claramente apreciava. A senhora Tonks era uma mulher forte, sempre séria e com aquele semblante da família Black que Harry reconheceria de longe. Ela dificilmente deixaria alguma coisa passar, era uma mulher rígida e firme com decisões. Era forte quando necessário e mesmo em um dia como esse, Harry duvidava que fosse vê-la chorando.

Ele se sentou no sofá ao lado de Carlinhos e Rony, enquanto acenava para os demais presentes que o encaravam curiosamente. Tinham muitos trouxas ali, tanto quanto muitos bruxos também. Uma das últimas chaves de portal a chegar foi a do Ministro da Magia, Kingsley. Nessa altura, algum tempo já tinha se passado de modo que Augusta tinha convencido Andrômeda de que ela precisava de alguém para cuidar de seu jardim, coincidentemente quando Neville estava passando. Segundo Augusta, Neville além de ser um futuro auror, era excelente com plantas. No fim, Neville acabou sendo arrastado para o quintal pela avó e pela senhora Tonks para prestar sua ajuda com as ervas daninhas e com o detalhe especifico de não poder usar magia porque o jardim da senhora Tonks sempre foi cuidado á mão pelo falecido senhor Tonks.

Essas pessoas todas vieram aqui por eles... Harry pensava bem no fundo de sua mente conforme se levantava, junto dos outros, quando o relógio na sala soou quatro horas. Os presentes visitantes formaram uma multidão organizada quando passaram pelo portão de ferro da propriedade. Harry precisou ajudar Neville a sair do meio do jardim de flores, onde havia terminado de mostrar seus serviços herbológicos.

Todos seguiram juntos para o Cemitério caminhando tranquilamente, um desuniforme grupo de pessoas excepcionais. Sem dúvida, Petúnia Dursley ficaria incomodada com tantas pessoas singulares caminhando juntas de pessoas normais na rua, em direção ao Cemitério. Vários vizinhos se juntaram a eles, alguns conhecidos de Andrômeda ao longo dos anos que viveram ali, vizinhos e parentes trouxas do senhor Ted Lupin.

Neville espanava distraidamente a terra que sujara boa parte de seu terno, enquanto Luna insistia que seria mais atraente deixar a terra lá. O senhor e a senhora Bradley caminhavam logo á frente de Harry, carregando o pequeno Teddy nos braços já que Andrômeda parecia ocupada o bastante conversando com Molly Weasley. Os Bradley eram os vizinhos dos Tonks por longos anos, um típico casal sem filhos que morava logo no portão do lado. Eles adoravam Ninfadora desde quando era bem pequena e sempre frequentaram a casa dos Tonks como amigos próximos. Teddy, porém, parecia incomodado nos braços da senhora Bradley. Ele tinha os olhos escuros como os da avó bem abertos e apreensivos. Bem no fundo deles, Harry pode identificar tristeza.

Ele caminhou atrás de todas essas pessoas em silêncio, as unhas enfiadas em suas palmas. Desta vez, seriam dois túmulos. Estariam velando por duas pessoas que nunca veriam o filho crescer, que nunca veriam um mundo sem guerra e sem trevas. O céu estava mais claro, os dias mais ensolarados, agora que a Guerra e Voldemort se foram. E eles nunca poderiam ver como um verdadeiro céu azul se pareceria. Não poderiam comemorar uma vitória de anos, sentir o peso dos ombros desaparecer e um novo caminho se abrir. Todos se lembrariam deles por sua bravura na Guerra, por seus esforços para conseguir um mundo melhor para seu único filho. Eles não poderiam voltar para a casa e retomar a normalidade, não poderiam ser tão corajosos a esse ponto. Não poderiam criar o filho, porque a última coisa que presenciaram antes de morrer foram os horrores de uma Guerra que os assombraria pela eternidade.

Quando as lápides do cemitério começaram a pincelar o gramado, Ginny apareceu ao lado de Harry. Suas mãos se entrelaçaram tranquilamente e, surpreendentemente, a mão de Ginny estava tão fria quanto a dele. Ele abraçou gentilmente seus ombros para confortá-la desta vez, o que não tivera coragem de fazer em nenhum dos outros funerais até agora. Ela sorriu fracamente para ele antes de retribuir o abraço e os dois seguirem, juntos, para dentro do cemitério.

E lá estavam as duas lápides brancas. As pessoas se organizaram em semicírculo ao redor delas, Harry e Ginny parando logo ao lado da senhora Bradley que tentava a todo custo manter Teddy repousado em seus braços. Mas o bebê não parecia querer ficar quieto, ele começou a se remexer nos braços da senhora com mais energia do que Harry pensou ser possível para um bebê. Será que ele sabe o que está acontecendo? Ele pode sentir que algo está terrivelmente errado? Que ele está diante das lápides dos próprios pais?

Carlinhos foi o primeiro a ir falar lá na frente, sob uma grande insistência da senhora Tonks. Ele e Ninfadora estudaram juntos em Hogwarts e foram amigos durante a infância. Enquanto todos se distraiam com as palavras divertidas de Carlinhos, que trazia de volta o espírito da Tonks que todos conheciam, Harry se permitiu olhar para os túmulos idênticos, lado a lado.

O primeiro era o de Remo. Contava com flores roxas de mata-cão bem repousadas em buquês enfeitando seu túmulo. Harry não pensou que Remo fosse se importar com o trocadilho, que ele pensou ter sido uma brincadeira de Kingsley. Pensou até mesmo que Remo, onde quer que estivesse, estaria olhando para aquilo e rindo, achando tudo uma coincidência agradável sobre sua condição especial.

Remus John Lupin

10 de março de 1960 – 2 de maio de 1998

A lápide de Tonks estava entre a de Remus e a de seu pai, Ted Tonks. A de Ted já estava mais velha ali no cemitério, mas havia sido recompensada com flores novas hoje. Ninfadora tinha flores coloridas, de vários tamanhos e formas, enfeitando seu túmulo. Considerou ser um trocadilho á sua condição como metamorfomaga também e sorriu por aquilo. Ele imaginou se Tonks gostaria das flores... Ela com certeza estaria ocupada fazendo observações sobre o túmulo de Remus agora para se importar.

Nymphadora Tonks Lupin

21 de agosto de 1973 – 2 de maio de 1998

Olhe como isso terminou, Remus. Harry pensava quando percebeu o som de Teddy chorando ao seu lado. Era assim que você queria que terminasse? Com seu filho chorando em sua lápide? Teddy não parava de chorar, apesar de todos os esforços da senhora Bradley para fazê-lo parar. Ninguém poderia culpá-lo. Ninguém nunca o culparia. Harry mesmo sentia que poderia chorar agora, mas achava que de pouco isso ia adiantar.

Sua culpa. Era tudo sua culpa Andrômeda ter perdido a filha. Sua tão grande culpa tê-la feito perder o marido e deixado seu neto órfão. No que estava pensando, Remus? Como pôde deixar seu filho para trás dessa maneira? Seu grande irresponsável, ele está chorando por sua culpa. Você deveria ter ficado em casa... Mas então, estaríamos enterrando outros corpos aqui hoje. Não se brinca com a morte, Harry precisou se lembrar. Poderiam estar enterrando os corpos da senhora Weasley, de Neville, do Kingsley e, Harry estremeceu quando pensou nisso... Poderia ser a Ginny, Rony ou Hermione. Poderiam estar enterrando ele mesmo, o que não seria tão ruim quanto as opções anteriores. Talvez não fosse tão ruim quanto enterrar Remus e Nymphadora Lupin. Isso, ele nunca saberia.

Se Harry fechasse os olhos agora, ele teria as imagens que assombraram seu sonho a noite anterior a de Sirius. Veria com clareza Remus e Tonks deitados lado a lado no salão principal, deitados para nunca mais se levantar ao lado de uma pilha de corpos. Lembrar-se-ia, se esforçasse um pouco a memória, das alianças brilhando na mão dos dois, como uma missão cumprida.

Harry agitou a cabeça, tentando afastar os pensamentos. Ele sabia que se ficasse ali, as coisas iriam piorar gradativamente até o ponto que chegariam a sufocá-lo. Sufocá-lo. Ele pensou na palavra por um momento, tendo uma ideia para conseguir acalmar Teddy e a si mesmo. Talvez todas essas pessoas estejam apenas o sufocando...

Ele murmurou para Ginny e avisou-a de que iria dar uma volta. Caminhou até a senhora Bradley que segurava Teddy aos prantos. Explicando para a senhora que pretendia dar uma volta com Teddy para tentar acalmá-lo, Harry pegou Teddy nos seus braços com um cuidado e atenção dobrados. Ele não estava acostumado a segurar bebês e a senhora Bradley percebeu isso torcendo levemente o nariz e o observando pelos cantos dos olhos se afastar com Teddy, questionando-se mentalmente do por que Ninfadora tinha escolhido um padrinho tão jovem.

Caminhou cuidadosamente com o pequeno Teddy remexendo-se impaciente em seus braços. Eles se afastaram várias fileiras de lápides de distância de todos os outros, passando por algumas árvores que ficavam espalhadas pelo cemitério. Teddy parecia levemente incomodado com a mudança de ambiente, por um instante ele parou de chorar e encarou Harry com os olhos cintilando. Pensou que talvez Teddy estivesse se sentindo melhor longe de todas aquelas pessoas, até que o cabelo de Teddy passou para o tom mais escuro idêntico ao de Harry e depois do reconhecimento, voltou a chorar com todas as suas forças.

— Ei, está tudo bem, Teddy. Está tudo bem agora... – Harry dizia com uma voz tranquila e suave enquanto balançava gentilmente Teddy nos braços. O choro chegava a ser um pouco estridente e assustado, mas Harry não se deixou intimidar e continuou tentando — As pessoas ficaram para trás. Você pode parar de chorar agora, ninguém vai perceber – Ele confidenciou ao afilhado.

Nenhuma resposta. Ao invés disso, Teddy apenas fechou as duas mãos em punhos cerrados e começou a ficar vermelho conforme mais lágrimas escorriam pelo seu rosto.

— Você fica muito nervoso quando chora, olhe só... Fica todo vermelho! – Harry acariciou as bochechas vermelhas e molhadas do afilhado com as costas da mão, limpando a maioria das lágrimas no processo – E também fica com as mãos fechadas assim... Apertando os punhos! Está com raiva de alguém, Teddy? Tem alguém te fazendo mal?

Harry perguntou e esperou ansiosamente. Teddy pareceu perceber que Harry estava falando com ele. Seu choro foi reduzido aos poucos por soluços altos e os olhos escuros de Andrômeda o encaravam brilhando como estrelas.

— Eu aposto que não – Harry continuou dizendo, ainda balançando o afilhado nos braços — Seus pais garantiram que isso nunca acontecesse com você. Você não deveria ficar tão nervoso... Seu pai era muito calmo, sabia? Deve ter herdado isso da Tonks... – Ele tocou gentilmente o nariz de Teddy com um dedo e o bebê prestou atenção, encerrando completamente o choro, mas ainda respirando pesadamente. Harry observou o exato momento em que Teddy encarou seus olhos e como mágica, passou o mesmo tom de verde para os dele — Ah sim, eu posso ver agora.

Harry se permitiu sorrir quando disse — Estamos só você e eu, amigo. Eu estou aqui para você, então você não precisa chorar tanto, está bem?

Observou quando Teddy bocejou e seus olhos começaram a ficar pesados. Ele começou a balançá-lo mais gentilmente, pensando que Teddy estava no enterro dos próprios pais sem ter a mínima ideia disso. Harry se assustou com o próprio pensamento, mas não pode afastá-lo. Para Teddy, aquele estava sendo apenas um dia mais agitado do que o normal. Ele não tinha ideia do que acontecia ao redor. Talvez Harry desejasse, lá no fundo, poder ser como Teddy e simplesmente não entender o que estava acontecendo. Lá no fundo, ele sabia que já foi exatamente como Teddy, quando seus próprios pais foram mortos e ele não tinha a mínima ideia do que tinha acontecido.

— Isso não é justo para você. Não é certo – Harry concluiu com a voz rouca.

— Oi! – Gritou uma voz em suas costas. Rony em seu terno cor de vinho e Ginny estavam se aproximando dele. Os irmãos pareciam levemente preocupados quando caminharam até ele, mas assim que Rony e Ginny viram Teddy, confortável nos braços do padrinho, eles sorriram.

— Você conseguiu acalmar o Teddy! – Ginny disse vitoriosamente.

— Eu apenas conversei com ele, contei um pouco sobre o Remo e a Tonks... Ele gostou. – Harry deu de ombros. Ginny analisava Teddy e Harry com um olhar clínico enquanto Rony profetizava ao seu lado.

— Mamãe sempre diz que crianças gostam que conversem com elas. Deve ser um troque para distraí-las e assim, elas param de chorar – Ele deu de ombros também e sorriu torto para Harry.

— Mesmo que não façam ideia do que você esteja falando – Harry completou.

— Exatamente – Ron confirmou com o polegar enquanto olhava por cima dos ombros de Ginny para o bebê.

— Ele está meio sonolento agora, não acha? – Ela concluiu finalmente, encarando Rony em seguida — É melhor eu levá-lo de volta para a senhora Bradley...

— Carlinhos terminou o discurso agora, um colega de trabalho do senhor Tonks está dizendo algumas palavras também – Rony informou Harry depois que Teddy tinha sido transferido para os braços mais gentis de Ginny. Ela estava se afastando com ele de volta para a multidão.

Seus olhos se afastaram de Teddy quando Ginny o estava levando de volta, assim ele pode observar um pouco o redor. Ali estavam as lápides mais antigas da cidade, as árvores altas fazendo sombra entre os túmulos. Uma brisa gentil agitava o cabelo tanto de Harry quanto de Rony, mas também havia alguém ali.

— O que é aquilo? – Harry perguntou de repente, fazendo Ginny voltar alguns passos para trás com Teddy.

Era uma silhueta esquia entre as árvores, não muito longe dali. Estava parada na sombra de uma árvore, vestida completamente de preto e voltada para a direção de onde estava acontecendo a cerimônia. Ela vestia claramente um vestido comprido e escuro, luvas também... Em seu rosto, podiam ver uma espécie de véu escuro e também um chapéu. Era claramente uma mulher muito formal, vestida em completo luto.

Tanto Harry quanto Rony e Ginny a observaram e Harry se perguntou quanto tempo ela estava ali... Como ele não a tinha notado antes? Semicerrou os olhos e viu, com um espanto ainda maior, um tufo de cabelo loiro pálido solto de dentro do chapéu. Ele não tinha certeza de como sabia, mas algo na sua mente estalou quando ele anunciou:

— Narcisa Malfoy – Harry balbuciou.

— O que? – Rony perguntou espantado, forçando os olhos para enxergar o que quer que Harry tenha visto.

— Não pode ser – Ginny concluiu, assentindo negativamente com a cabeça.

— O que ela está fazendo aqui? – Rony quis saber defensivamente se colocando na frente de Ginny com Teddy.

A mulher de preto se mexeu então, como se Narcisa tivesse percebido que tinha sido vista, se virou de costas e sumiu por entre as árvores do cemitério, deixando um rastro de silêncio para trás.

— Andrômeda é a irmã dela – Ginny sussurrou, quase como se isso fosse um crime.

— Não justifica... Andrômeda foi queimada da tapeçaria Black e não tem contato com a família desde então – Harry explicou — Eles a deserdaram e nunca mais a procuraram.

— Então o que ela está fazendo aqui? – Rony quis saber com desgosto.

— Ninfadora é sobrinha dela, talvez... – Ginny tentou dizer, mas Rony a cortou com irritação.

— A sobrinha que ela talvez nunca tenha visto na vida, ou nunca tenham se falado... – Disse retirando a varinha de dentro do paletó e a colocando na frente do corpo.

— Mesmo assim – Harry cortou Rony de repente – São família, por mais estranho que isso possa parecer. Narcisa é tia da Ninfadora.

Rony estava prestes a rebater com algo genuinamente estúpido, onde certamente tentaria convencer Harry a seguir com ele atrás de Narcisa e tirar as devidas satisfações, quando ouviram o som de alguém aparatando mais adiante. Um homem com uma capa de chuva saiu andando apressadamente de trás de algumas árvores, do lado oposto a onde Narcisa estava.

Ele era um homem alto e bastante magro. A capa de chuva o deixava com uma aparência cansada. Ele tinha vindo de muito longe pelo visto, suas botas estavam sujas de lama e ele olhava impacientemente para o relógio.

— Quem é aquele? – Rony perguntou ainda claramente irritado — Ele acabou de aparatar!

— Não estão sepultando mais ninguém aqui hoje, estão? – Ginny perguntou conforme acompanhava a movimentação do homem com o olhar.

— Não, são só os dois – Rony confirmou.

— É um bruxo. Ele me parece familiar... – Ginny concluiu quando o homem se aproximou cada vez mais deles, seguindo hesitantemente para o funeral.

— Você acha que... – Harry começou a dizer conforme seus olhos avaliavam o homem. Ele tinha cabelos já completamente brancos e um bigode fino abaixo do nariz. Percebeu a varinha bem empunhada na mão e notou com espanto que estas tremiam freneticamente. Ele parecia nervoso e apesar de tudo, seu rosto era estranhamente familiar... Os traços, o formato, até mesmo os olhos verde claro que mostravam a exaustão evidente.

— Pelas barbas de Merlin, não pode ser! – Harry balbuciou quando percebeu de onde conhecia os olhos exaustos. Tentou imaginar como o rosto conhecido ficaria quando mais velho e, consequentemente, sem as fortes linhas de estresse e ferimentos resultantes de uma vida inteira amaldiçoada.

— O que foi, Harry? – Rony quis saber novamente, mas já era tarde demais.

Harry correu em direção ao homem. O senhor parou bem longe de onde estava acontecendo a cerimônia e observava tudo afastado e tremendo sob a capa de chuva. Harry se aproximou dele, mas o homem se assustou quando percebeu que tinha sido notado, dando alguns passos para trás, afastando-se novamente.

— Olá, o senhor está aqui pelo sepultamento do senhor e da senhora Lupin? – Harry perguntou gentilmente, observando o homem com ansiedade.

— E-Eu... – Sua voz cansada falhou um pouco. Harry notou o homem se encolher ainda mais antes de encará-lo, subitamente despertando-se de curiosidade — Pelas barbas de Merlin, você é mesmo Harry Potter!

— Sim senhor – Harry confirmou.

— Senhor Potter, por favor... – O homem de cabelos grisalhos continuou, a voz ainda rouca e cansada, mas agora seu rosto refletia um pouco de tristeza quando ele prosseguiu educadamente — Eu estou aqui pelo meu filho.

*

O aglomerado de pessoas ao redor das duas novas lápides do cemitério local começou a diminuir gradativamente conforme as primeiras horas da noite chegaram. No fim, apenas Harry Potter, Kingsley Shacklebolt e o convidado misterioso haviam permanecido para as últimas palavras que acabaram tomando espaço, minutos mais tarde, na casa da família Tonks.

— Obrigado, senhora Tonks – Agradeceu o bom senhor Lupin conforme aceitava com delicadeza a xícara com o chá fumegante — É muita gentileza da sua parte.

Andrômeda sorriu para ele, os olhos escuros da família Black percorrendo com curiosidade as pequenas semelhanças com seu genro, Remus Lupin.

— É muito bom finalmente conhecê-lo, senhor Lupin – Ela concluiu quando recolheu a bandeja para oferecer a última xícara para Harry Potter. O garoto parecia cansado, os olhos adquirindo um tom de verde escurecido e as pequenas rugas de preocupação aparecendo na testa e no rosto irritadiço. Andrômeda parou por um instante, observando Harry estender a mão para apanhar a última xícara... Não tinha percebido, tampouco achava que Molly poderia ter notado, o quanto Harry estava crescendo nos últimos meses. O rosto de menino que Andrômeda se lembrava de ter encontrado na primeira vez que se conheceram tinha desaparecido pelos longos meses que Harry esteve fugindo e se escondendo no último ano... Ele havia mudado, estava diferente, tanto pelas expressões como pelo modo de falar, pelos gestos e pequenos sinais de irritação que Andrômeda sempre julgara comum em adultos. Ela pensou, conforme afastava a bandeja para longe dele, que Harry como estava naquela tarde poderia claramente representar um reflexo de como ele se pareceria quando tivesse trinta, quarenta anos... O tempo poderia ser uma brincadeira. Talvez Harry, na penumbra da sala dos Tonks, tivesse realmente trinta anos.

— Me desculpe por isso – A voz falha e miserável do senhor Lupin cortou o silêncio. Andrômeda se assustou com a manifestação repentina e pulou para sentar-se ao lado de Kingsley no outro sofá onde conseguiria observar Teddy colocar os dedos da mão na boca preguiçosamente — Eu moro bem longe daqui, entende... Me mudei para longe depois que minha esposa faleceu. Remo deve ter mencionado.

Ele começou a falar sobre Remo... Andrômeda percebeu tardiamente quando um calafrio percorreu sua espinha. Ela se endireitou no sofá conforme Kingsley assentiu convicto para que o senhor continuasse.

— E-Eu aconselhei para que ele ficasse longe dessa vez. Não foi como se Remo tivesse saído intacto da primeira... – A voz falhou novamente em um soluço baixo, quase imperceptível... Ele parecia ser um senhor frágil pela idade, as mãos ainda tremiam conforme os dedos percorriam a borda da xícara de chá e os olhos não estavam voltados para ninguém na sala em especial, eram vazios e distantes como se o senhor Lupin estivesse falando sozinho — Como vocês chamam, Primeira Guerra? – Ele recuperou a palavra em um pigarreio alto que fez Harry se aprumar no sofá e finalmente prestar atenção com a menção da Primeira Guerra Bruxa — Ele era um garoto nessa época, ainda com aquela energia que temos aos dezessete anos, sempre procurando uma briga ou querendo dominar o mundo! – Ele riu consigo mesmo quando levou a xícara á boca, ainda gargalhando baixo. Andrômeda assentiu conforme todos esperaram os longos goles do chá se finalizar e ele prosseguiu — É assim que os garotos de dezessete anos tendem a ser, não é? Quando ele aceitou entrar para a Ordem, é claro que era isso que estava sentindo... Ele tinha todos os amigos com ele, estavam juntos lutando contra o mal, eram os invencíveis!

“Mas os anos vieram e a Guerra ficou sombria. Não houve um único dos amigos dele que não tenha sido assassinado, se tornado um assassinado ou um prisioneiro. Isso acabou com Remy, acabou mesmo.”

“Desculpem-me” Harry ouviu o senhor Lupin se lamentar conforme bebericava novamente seu chá. A garganta de Harry poderia estar completamente seca agora, mas ele não conseguiria desviar a atenção das palavras do homem. Seu chá esfriaria logo e Andrômeda gentilmente ofereceria mais.

— Eu disse que ele deveria voltar para a casa, ficar longe disso desta vez... – As palavras ficaram baixas, como lamentos há muitos reprimidos — Porque desta vez ele não tinha mais dezessete e nem pensava como um garoto com um bando de amigos, ele era um homem e tinha que pensar no que seria melhor para ele agora.

— “Vamos para a casa, Remy. Vamos viver um pouco mais antes que o Lord das Trevas perceba que você ainda está vivo.” Foi isso que eu disse a ele – Ele imitou uma versão mais jovem e animada de sua própria voz antes de ficar em silêncio. Andrômeda e Kingsley estavam imóveis em seus lugares, os olhos da senhora Tonks tão escurecidos como nunca estiveram durante todo o dia. No berço, Teddy ainda brincava com os dedos da mão e agora seu avô o observava completamente intrigado, como se tivesse percebido agora que o bebê estava presente.

— Ele me mandou uma carta, você sabe. – Continuou depois de intermináveis minutos. Harry não sabia se ele estava escolhendo as palavras ou apenas procurando o que dizer — Ele mandou algumas cartas para me contar que ainda estava vivo. Durante o último ano foram apenas duas, a segunda me contou sobre o casamento e eu respondi o congratulando, mas não vou mentir que fiquei chateado por não ter sido convidado. Remo sabia que eu não voltaria para Inglaterra com tudo acontecendo por aqui... Não mesmo! – A voz voltou a um tom normal nas últimas frases, como sendo o velho reclamão e agora exausto que o senhor Lupin parecia, de fato, ser. — Mas ele nunca mencionou... O pequenino ali. – Apontou com o comprido e torto dedo indicador para o berço de montar na sala. Teddy se remexeu um pouco e o senhor Lupin congelou onde estava, os olhos desfocados conforme observava o neto repousado no berço.

— É muito bom saber que está bem, senhor Lupin. O Ministério tratou de contatá-lo sobre o falecimento de Remo assim que tivemos a oportunidade. Desculpe se nos demoramos com a notícia... – A voz de Kingsley soava firme pela sala, um coro político e grave se estendeu como um manto sobre a voz falha do senhor. Kingsley contava formalmente o que havia ocasionado a morte de Remo e sobre a amizade dos dois pelos anos que serviram á Ordem, mas a verdade era que o senhor Lupin tampouco parecia estar interessado. Seus olhos velhos, verde opaco, estavam voltados exclusivamente para o neto, nos quais Harry reconheceu, bem no fundo deles, medo.

— Me desculpem – Ele balbuciou finalmente em uma voz estranhamente alta que cortou Kingsley imediatamente. O velho se levantou em um salto, agilidade que Harry estranhou para sua idade, e seguiu em seus passos tortos até o guarda-casaco onde apanhou sua capa de chuva habilmente.

— O que foi, senhor Lupin? – Kingsley perguntou confuso, já se levantando do sofá. O rosto de Andrômeda, ao seu lado, empalideceu.

— Me desculpem, todos vocês. – Ele apontou o dedo curvo de Harry para Kingsley, depois Andrômeda e por último para o berço de Teddy. Seu rosto tinha traços antigos de exaustão, de cansaço, linhas fortes de expressão nas maçãs do rosto e os olhos verdes como os de Remo estavam opacos. Na penumbra da sala dos Tonks, ele parecia ter mais de cem anos — E-Eu não posso... Eu não posso fazer isso. Não é justo, simplesmente não é justo!

Ele jogou a capa de chuva por cima dos ombros. Tanto suas mãos quanto seus lábios tremiam fortemente e suas pernas pareciam pesar quando ele caminhou desajeitadamente pela porta da frente.

— Senhor Lupin! – Harry se levantou e tanto ele quanto Kingsley correram atrás do sujeito sob a capa de chuva. Kingsley gritou quando ele e Harry chegaram até a porta da frente, mas ele não olhou para trás antes de aparatar quando chegou ao outro lado da rua.

— O que foi isso? – Kingsley exigiu saber, a voz adquirindo um tom irritadiço quando agarrou a própria capa púrpura do guarda-casaco e a jogou pelas costas — Devo pedir para o Ministério o rastrear, Andrômeda?

Kingsley estava retirando a varinha, pronto para mandar um patrono para o Ministério imediatamente exigindo o rastreamento do senhor Lyall Lupin.

— Ah Kingsley, não há necessidade – Andrômeda respondeu simplesmente, ainda sentada no sofá com uma postura irredutível — O bom senhor vai voltar, se julgar necessário.

— Mas e Teddy? – Kingsley gesticulou para o berço de armar no centro da sala. O olhar do Ministro estava confuso quando ele continuou — Ele é avô dele, talvez devesse ficar e...

— Ele sabe onde nos encontrar, Quim – Andrômeda continuou dizendo, a voz no mesmo tom inalterável e calmo — Ele sabe onde encontrar nós dois se precisar, não é mesmo Teddy? – Ela sorriu para o bebê que se remexia no berço ao seu lado e escurecia os cabelos gradativamente conforme caia no sono.

— Eu ainda acho que... – Insistiu o Ministro, gesticulando para a porta.

— Não devemos insistir – A senhora Tonks respondeu ríspida e continuou severa — Eu vi o olhar dele, Kingsley. Ele está com medo. O mesmo medo que eu vi no olhar de Remo várias vezes...

— Está falando sobre Teddy ser um lobisomem? – Harry perguntou simplesmente, conforme as peças em sua cabeça começaram a se encaixar.

— Isso também – Andrômeda assentiu tristemente — O senhor Lupin criou um filho lobisomem desde bem pequeno e isso deixa marcas nas pessoas, de algum modo. Talvez para ele, não seja justo de verdade. Talvez ele esteja com medo de fazer tudo novamente. Talvez seja injusto para os pais viverem mais do que os filhos.

Kingsley abaixou a própria varinha com relutância. Um silêncio ergueu-se novamente na sala dos Tonks, com Harry e Quim parados ao lado da porta. Por um bom tempo, o único som foi o da respiração de ambos e as reclamações indecifráveis de Teddy no berço. Ninguém saberia o que dizer agora. Andrômeda apenas ergueu a xícara de chá com estranha formalidade e antes que borda do utensílio tocasse seus lábios Harry observou através da luz fraca uma lágrima cintilante deslizando com equivalente formalidade por seu rosto. Até na maneira de chorar, Harry refletiu, os Black se diferenciavam dos demais.

— É melhor irmos, Harry – Kingsley murmurou desconfortável – Tenho algo para você.

De imediato, Harry sacou a varinha com a agilidade de um futuro auror. Kingsley sorriu para ele e abriu novamente a porta da frente.

— Só não o deixe preso em algum Departamento com pilhas de papéis, Quim – Os lábios de Andrômeda se repuxaram em um sorriso fraco. Ela acenou para eles conforme Harry e Kingsley caminharam pelo jardim, até aparatarem antes de chegar aos portões de ferro.

Seguindo o som da aparatação, Andrômeda se remexeu inquieta no mesmo instante que Teddy começou a chorar, percebendo que agora estava novamente sozinho.

— Eles sabem onde nos encontrar, Teddy. – Consolou a avó conforme Teddy derramava cada vez mais lágrimas em seu berço — Não se preocupe querido, nós não vamos a lugar nenhum.

*

Harry aparatou ao lado de Kingsley nas margens de um rio. A primeira coisa que notou foi a umidade característica das margens imundas, onde a névoa fria derivava sobre um rio sujo que serpenteava além das margens cobertas de lixo e cheias de mato.

Mais além das margens do rio e além do nevoeiro frio, Harry observou as casas idênticas de tijolos com terraços altos e em algum lugar mais ao fundo, observou uma chaminé fumegante lançando uma mancha escura no céu da tarde.

Ao seu lado, Kingsley tossiu enquanto começava a sair de perto das margens para subir pela calçada até uma rua da estranha cidade. Ele acenou para que Harry o seguisse

— Seja bem vindo á simpática cidade de Cokeworth – Anunciou Kingsley conforme continuava a subir pela rua principal que contava com um movimento comum de automóveis.

— Por que estamos aqui? – Harry perguntou conforme seguia Kingsley apressadamente.

— Esta é a cidade onde Severo Snape viveu – Explicou Kingsley quando continuaram caminhando. Harry engoliu em seco e continuou a andar silenciosamente, se perguntando o que isso poderia significar.

O portão de ferro envelhecido estava aberto para visitantes. Era um cemitério bem menor do que os que esteve recentemente, mas que possuía semelhante miséria. Os mortos são silenciosos.

Seguiu Kingsley até a parte com as lápides mais recentes onde Harry reconheceu o coque apertado da professora Minerva McGonagall acompanhada de um bruxo oficial do Ministério da Magia. Harry suspeitava quem poderia ser.

— Diretora McGonagall – Kingsley a saudou. Ela sorriu para Harry e para o Ministro conforme os três se enfileiraram lado a lado diante da lápide escura. Para este, não houve louvor, nem palavras carinhosas de lembranças gentis. Um mármore mais escuro marcava o nome de Severo Snape com as datas de nascimento e morte.

— Nunca esqueça... – Minerva sussurrou para o túmulo escuro, sem flores, sem palavras afetuosas, sem despedidas.

Estava lá para lembrar Harry Potter o que ele devia a Severo Snape: ele devia a própria vida.

**

Andrômeda Tonks dificilmente apanhava o velho álbum de fotografias, mas desta vez achou que devia isso á Teddy. O pequeno não parou de chorar desde que Harry e Quim foram embora e devido a isso, Andrômeda sentou-se na antiga poltrona que antes foi ocupada por Ted Tonks e recostou o neto com o mesmo nome em seu colo.

— Aqui está Teddy – Ela anunciou conforme abriu o álbum de fotografias – Vamos ver algumas fotos velhas da vovó e da mamãe?

As primeiras fotos eram todas de Ninfadora. A maioria, de uma pequena garotinha dando os primeiros passos cambaleantes no quintal de folhas caídas de outono, ou enrolada nos cobertores com o primeiro resfriado mais sério. Havia até mesmo uma foto dela com sua primeira vassoura e uma foto de Carlinhos Weasley e Dora sujos de lama no jardim da frente. Ninfadora no balanço de madeira, que Ted improvisara quando ela tinha quatro anos e o sorriso de Dora quando ela passava a tarde toda com a senhora Bradley.

O álbum de fotografia de Ninfadora era diferente de qualquer outro que Andrômeda já tinha visto. Era diferente do próprio álbum de fotografia. Nele, cada foto tinha uma energia diferente, cores diferentes e uma emoção diferente, talvez um resultado compreensível das habilidades de Dora como metamorfomago. O álbum de Ted Tonks, o pai de Dora, tinha todas as fotos com o mesmo tom de marrom claro, enquanto o de Andrômeda tinha um ar majestoso e nobre que variava com as cores da Sonserina para o preto da família. Todas as fotos saiam escurecidas nos quadros, retratos ou álbuns, era assim com todos os Black, foi assim com as fotos da infância de Sirius também, mas nunca foi assim com Narcisa.

Era assustador como Ninfadora sempre lembrou tanto Narcisa... Andrômeda talvez estivesse ficando melancólica devido a tudo o que esteve acontecendo, ou talvez estivesse preocupada e ao mesmo tempo chateada. Se lembrava do que KIngsley tinha dito sobre Narcisa mais cedo e seus olhos se entristecem. Sempre gostou muito da irmã mais nova, apesar de tudo... E quando Kingsley mencionou o que aconteceu com Lúcio e o que Draco e ela poderiam ter sofrido e o que estariam destinados a passar a partir de agora, Andrômeda ficou estranhamente séria e preocupada. Um aperto estranho a tocou no coração como garras de ferro. Narcisa teve tão poucas escolhas quanto Draco, no fundo ela não era uma pessoa ruim, era apenas a filha mais nova que queria orgulhar os pais e a família imitando a irmã mais velha, Bellatrix. Andrômeda duvidava que, se não fosse por Ted, teria saído da casa Black por motivos próprios ou se teria vivido uma mentira forçada para alegrar os pais como Narcisa tinha feito. Nunca aprovaria os costumes da família, nunca aprovou, tanto quanto Sirius, mas a diferença era que Sirius foi forte o bastante para conseguir sair dali por conta própria enquanto Andrômeda precisou que Ted a convencesse. Ela não era uma pessoa forte, precisou ser expulsa á sair e fugiu para a casa de Ted aos dezesseis anos. Desde então, ela e irmã mais nova trocaram alguns olhares acusadores e palavras curtas e frias durante o funeral da mãe anos depois onde Andrômeda apareceu miseravelmente com Dora de dois anos nos braços para se despedir de uma ‘Sempre puro’ que amava com o carinho de uma filha, apesar de tudo. Nunca esqueceria o olhar de desprezo que recebeu de seu pai, ou o olhar mortífero de uma Bellatrix recém casada com Rodolfo se segurando para não lançar uma maldição imperdoável em Ted e Dora ali e agora. Sendo praticamente expulsos por Régulo Black, que pediu gentilmente para que Andrômeda se retirasse antes que o restante da família chegasse para o funeral, a família Tonks se retirou sem nenhum ressentimento. Na época, Dora não entendeu porque suas tias a desprezavam tanto.

Outras lágrimas escorreram por seu rosto, tão acusadoras e pesadas quanto chumbo. Não entenderia o que estava acontecendo recentemente, o que teria levado Narcisa Malfoy a aparecer no enterro de sua filha e nem porque estava pensando tanto nisso desde Harry a contara mais cedo. No seu colo, Teddy Lupin parou de resmungar e quando Andrômeda se deu conta, ele estava dormindo.

Notas finais
Então, opiniões? Eu realmente espero que tenham gostado... Espero vocês nos comentários!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!