Notas iniciais
Olá, voltei. Espero esclarecer algumas, pequenas, coisas com esse capítulo. Ou talvez, colocar mais duvidas. Nova personagem será apresentada. *--* Música tema do capítulo – “Barton Hollow”, The Civil Wars. Nos vemos lá em baixo.

–Começou assim: De uma hora para outra, coisa de uma fração de milésimos, milhões de pessoas desapareceram simultaneamente da face da Terra. Sem fumaça, sem feitos especiais. Sem magia nenhuma. Simples e estranhamente sumiram do mapa. Alguns deles estavam dirigindo aviões, caminhões, carretas, ônibus. Alguns estavam dando aulas. Outros na faculdade. Escalando montanhas, atravessando riachos em botes, em mesquitas, igrejas e templos. Foi um frenesi total. E, bem, as pessoas começaram a enlouquecer, provocar arrastões, estuprar, incendiar patrimônios públicos. Alguns interpretaram como um teste de armamento químico de algum país como China ou Rússia. Tem quilômetros e quilômetros de engavetamento no mundo todo. Tem mais gente morta do que se pode contar. Devido aos milhares de acidentes, os hospitais estavam superlotados. Há também uma carência significativa de médicos e enfermeiros. A polícia foi expulsa daqui a trinta minutos. Eu estava prestes a entrar num helicóptero para sair da cidade, quando decidiram de última hora que eu não era rica o suficiente. Diane Sawyer foi no meu lugar.

Se não fosse a recente tragédia pairando pelo ar, Michael teria ficado paralisado, talvez excitado, com a fala eloquente e suave de Jennifer Gibson. A modelo, ex Angel da Victoria´s Secret, estava usava (por que diabos?) botas brancas de salto alto, os jeans mais colados do mundo e uma camiseta azul frente única, que escondia apenas poucos centímetros do busto siliconado. Seus olhos azuis estavam manchados, ao redor, de delineador preto, e o cabelo castanho, encardido o suficiente para descaracterizar sua imagem sempre muito bem alinhada. Jennifer estava sentada bem em frente à Starbucks, em posição de índio, fumando um cigarro de maconha. A fachada do Starbucks de dois andares, da Columbus Ave, nesse momento apresentava um cenário de desolação. Ele havia sido depredado, saqueado, e, em alguns pontos, incendiado. Pessoas entravam e saíam de lá livremente agora, já que a vidraça jazia despedaçada. Ao lado de Jennifer, havia um copo de café tampado e um saco de papel com bolinhos.

–Esse café está adoçado? – Perguntou Reagan.

–Não. É puro. Você pode ficar com ele se quiser. – A moça de 23 anos falava quase mecanicamente. Ela olhava para o fim da rua, onde uma pilha de móveis despedaçados queimavam. De repente, desviou seus olhos lânguidos para os dois estranhos à sua frente. A moça que tomava seu café usava uma bandana e tinha olhos castanhos sem vida. Era estupidamente magra e pálida, e suas roupas resumiam-se a uma regata preta que deixava evidente a ausência de um sutiã, calças jeans de barra larga e tênis da Adidas, de aspecto caríssimo. Pela cor de seus cílios escassos, podia-se afirmar que seu cabelo fora ruivo. Coisa triste ficar doente.

O homem era bonito, de um certo ponto de vista. Tinha os cabelos escuros, rentes, uma barba começando a se manifestar, e usava os mesmos óculos dos garotos nerds da escola. Seus olhos eram tão escuros quanto os cabelos, o que evidenciava de uma maneira boa sua pele clara. Ele era bem alto, e tinha corpo de atleta. Não era exatamente o estereótipo de homem bonito que assumia o controle da situação e salvava a todos, mas era definitivamente companhia melhor do que a esquisita de bandana. Você acha que não notei o revólver na sua calça? Jennifer olhava de soslaio para Reagan, aparentemente absorta demais no café para perceber. Michael permanecia com os braços cruzados sobre o peito, respirando devagar.

–Deixa eu ver se entendi. – Jennifer ergueu os olhos teatralmente para encará-lo. – Você disse que a polícia foi expulsa?

Jennifer sorriu.

–Imagine a polícia tentando dispersar uma multidão de traficantes, doidos e gente armada, preocupados em voltar para suas próprias casas. Tentando controlar uma crise. — Ela suspirou. — Estava no heliporto do Hotel The Penninsula, esperando o resgate chegar. Quando me deram o fora, e isso faz umas três horas, fiquei desesperada, pois não tinha nem para quem ligar. As pessoas que você considera seus amigos, no Show Business, geralmente estão preocupadas demais consigo mesmas para estender a mão á alguém. Eu tinha uma mala, mas roubaram ela. Tentei voltar para o meu apartamento, mas ele estava saqueado e incendiado. Andei até aqui porque minha cabeça doía demais e eu queria um café mais do que eu queria permanecer viva. Uma moça com um bebê catarrento no colo me ofereceu seu café pelo meu iPhone. Não ia servir pra nada mesmo.

Reagan colocou o copo vazio no chão e encarou a moça.

–E como você ficou sabendo do que está acontecendo no mundo?

–Ainda tem internet. Ligaram-me um pouco depois das três da manhã dizendo que estava tudo um caos, algumas pessoas haviam sumido e estavam fazendo arrastões. Minha colega Babsi disse que um brasileiro postou um vídeo onde vários caras saqueavam um prédio público e espancavam guardas. Vídeos assim se propagaram pela rede. Rússia, México, Irlanda, Mônaco, Namíbia, China, Austrália. As pessoas simplesmente enlouqueceram. Parece que a tragédia fodeu com a sanidade do mundo. – Por um momento, os estranhos ficaram em silêncio, apreciando o caos. Pensando, talvez se lamentando. Sentindo o gosto da desgraça.

Reagan olhou para Michael, quebrando a bizarra magia do momento.

–Michael, se aceitarmos a validez de sua teoria... O que vem a seguir?

Jennifer pareceu interessada.

–Tem alguma teoria?

Michael descruzou os braços do peito. Seu dedo agora estava enrolado por um pedaço de sua camisa rasgada, e, sim, ele usava apenas calças.

–Não vá rir. – Ele lançou um olhar enviesado à Reagan. – Acho que... É o apocalipse. Sabe... O da Bíblia?

Jennifer se levantou, tirando a poeira do traseiro.

–Minha mãe me falou sobre isso. Há muto tempo atrás... Antes de morrer.

Michael a encarou, alguns centímetros abaixo.

–Você se refere... Ao fim?

–Michael, eu te fiz uma pergunta.

–Quer saber o que vem a seguir? De acordo... Com minha teoria?

Ela assentiu.

–Não me lembro muito bem... Não fui exatamente o cara religioso.

Reagan olhou em seus olhos.

–E quanto à Charlotte?

Michael a olhou de volta.

–O que... O que Charlie tem a ver com isso?

Jennifer permanecia calada, observando os dois.

–Michael, foi você que levantou essa questão. Charlotte era... Sei lá... Religiosa?

Michael suspirou.

–Não diria religiosa. Charlie frequentava uma igrejinha batista do bairro, mas não era o tipo de mulher que vivia lá, falando dos outros. Ela era boa. Gostava de levar sopa para os moradores de rua, era voluntária no Hospital do Câncer, fazia bolo para os vizinhos novos. Ela... Sempre me convidou para acompanhá-la. Ela dizia que Deus não queria meus dízimos. Que a essência de ´´ser cristão`` consistia em amar o próximo.

–Isso é lindo, Michael. Mas, me diga, acha que o fato de você ter ignorado os convites da Charlotte de acompanhá-la pode ter feito você ficar e ela, sei lá... Sumir?

–Sim, Reagan. – Ele tornou a cruzar os braços. – Acho que sim.

–Charlotte era sua esposa? – Perguntou Jennifer.

Michael assentiu.

–Se não me engano, depois do arrebatamento se iniciarão sete anos de Tribulação.

–O que isso quer dizer? – Perguntou Reagan.

–Alguém vai dar um jeito nisso. – Disse Jennifer. – Mas não de um jeito bom. Aparentemente, as boas pessoas foram arrebatadas por Deus, Buda, Alá, ou o que quer que seja. Quem ficou na Terra não é digno de ir também; mas há uma outra chance. Marcas serão distribuídas entre as pessoas, de modo que não haverá negociação sem isso. A marca caracteriza quem pertence ao Inferno. A coisa será muito simples: Ou aceita a Marca, e é condenado, ou se é perseguido e torturado para ser salvo. Eu... estou em dúvida.

–Em dúvida, Jennifer? – Um sorriso doentio atravessou os lábios de Reagan. – A atriz pornô vai se converter depois que a coisa ficou feia?

–O que quer dizer, Reagan? – Michael a encarou.

–Jennifer foi dispensada da promissora carreira de Angel porque aceitou um milhão e meio para participar do filme Doutor Spok e As Enfermeiras Safadinhas do Espaço. Ficou pobre.

Jennifer a encarava com o queixo erguido.

–Você viu o filme?

–Sim. – Disse Reagan. – Gostei mais da enfermeira negra.

Jennifer pôs as mãos nos quadris.

–Eu não gosto de você.

Reagan passou a língua nos lábios.

–Veja minha cara de preocupação, puta. – Ela deu dois passos para trás. – E que comecem os jogos.

Reagan ia sacando seu revólver, quando aconteceu...

Notas finais
Lembrando que um escritor, ainda que seja amador, só se sustenta a base de críticas. Agradeço aos educados. *--*